Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças!
Quinta-feira, 5 de Novembro de 2009
O meu segundo livro (I)

Já está em marcha a publicação daquele que será o meu segundo livro.

Trata-se de uma compilação de vinte e cinco (25) histórias de ficção (ainda poderão ser incluídas ou suprimidas uma ou outra, mas isso só será decidido com carácter definitivo em Dezembro).
Terá cerca de cento e cinquenta (150) páginas, mais dez a quinze que o meu primeiro livro, mas o preço será o mesmo.
O título será:
 
O RAPTO DO MENINO FEIO e outros contos
 
A sessão pública de lançamento terá lugar, em princípio, no salão nobre do novo edifício da Junta de Freguesia de Vermoim, na Maia, onde resido, no dia 20 de Março de 2010, um sábado, pelas 21:30 horas.
A edição será da Lugar da Palavra Editores e dirigida pelo Dr. João Carlos Brito que já foi o meu principal apoio aquando da publicação de “Pelos Trilhos do Betão e outros contos”.
Sempre que tal se justifique, colocarei aqui novas informações relativas a este assunto.
 
Até breve!


publicado por António às 13:05
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Segunda-feira, 5 de Outubro de 2009
Elegância e saúde

Quem me conhece pessoalmente há algum tempo sabe que sou de estatura baixa (1,66 m) e sempre tive um peso em harmonia com a altura.

Até aos quarenta e muitos anos pesava menos de 70 kg.
Todavia, a partir dessa idade comecei a aumentar lentamente a massa corporal, sobretudo na zona do ventre e cintura.
Por iniciativa própria alterei alguns hábitos alimentares e, porque os médicos me diziam sempre para caminhar pelo menos trinta minutos por dia para prevenir acidentes cardiovasculares, comecei a fazê-lo.
Mas isso não impediu que o peso fosse aumentando de forma gradual, sobretudo depois de ter deixado a vida activa, mesmo no final do ano de 2005.
Por duas vezes tive de levar um monte de calças a um alfaiate para as alargar na cinta. 
Quando me sentava na sala para ter o meu momento de televisão diário, após a meia-noite, deliciava-me com bolachas e chocolates em excesso. Percebi que era esse o pecadilho máximo que me fez subir para os 74 kg mas não conseguia deixar de o cometer.
Até que, no início do verão deste ano de 2009, num ápice atingi os 78 kg. 
Como tinha agendada uma consulta de rotina para a minha médica de família, a Dr.ª Lizete Oliva Teles, dei-lhe conta da situação. Ela decidiu então marcar-me uma visita à nutricionista do Centro de Saúde da Maia, a Dr.ª Gisela Morais.  
E no dia 10 de Julho lá fui eu…
A senhora mediu-me a altura, a cinta e a zona do rabiote, pesou-me e começou a fazer perguntas enquanto ia projectando uma dieta para eu perder 6 kg e assim vir para os 72.
Basicamente, passei a comer seis ou sete vezes ao dia, reduzindo muito as gorduras e açúcares e aumentando os vegetais crus ou cozinhados, sobretudo em sopa.
No final mandou-me ir lá seis semanas depois, mas ao fim de um mês já eu tinha atingido o objectivo, sem tomar drogas nem passar fome.
A 25 de Agosto fui novamente à especialista em nutrição que gostou da forma como eu me apresentava e sugeriu que baixasse agora até ao peso ideal para mim: 68 kg.
- Se não se importa já ficaria satisfeito se ficasse nos 70. Pode ser? – repliquei.
- Claro que sim! É um bom peso.
Fez-me ligeiras correcções à dieta e mandou-me lá ir a 13 de Outubro.
- As caminhadas e outros exercícios físicos não exagerados devem ser praticados com muita frequência – disse-me.
No momento em que escrevo ainda não chegou essa data mas há muito que estou estabilizado nos 69 / 70 kg.
Sinto-me muito bem, já gosto de me olhar no espelho quando estou nu ou quasi e o farto stock de roupa, nomeadamente calças e casacos, que não me servia está novamente apto a ser utilizado. A minha auto-estima aumentou.
- Verá que muitos parâmetros daqueles que são avaliados nas análises ao sangue vão ficar ainda melhores – avisou-me a doutora.
Quando fizer o meu check-up anual irei confirmar esta previsão.
Agora aprendi a comer e se o peso ameaçar uma subida já sei como a contrariar.
 
E, quando morrer, nem duvido que serei o morto mais elegante e saudável do cemitério.
 
(no meio de tudo isto, fazer umas asneiras de vez em quando é perfeitamente aceitável)


publicado por António às 14:30
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Quarta-feira, 9 de Setembro de 2009
Um aluno exemplar

Fiz todo o curso geral dos liceus no Alexandre Herculano, do Porto.

Já uma vez referi que o professor que mais admirei foi o Eurico Telmo Campos, de Matemática. Mas houve outros de quem gostei muito, como o Carvalho Homem de Físico-químicas, o arquitecto Ávila de Desenho ou o Rui Esteves e o Alfredo dos Santos Balacó de Ciências Naturais.
É sobre este último e uma peripécia que se passou nas suas aulas que vou escrever.
Concretamente, nos anos lectivos de 1962/63 e 1963/64, frequentei o 4º e o 5º anos, respectivamente, de cujos curricula fazia parte a disciplina de Ciências Naturais (acho que este era o nome correcto) que integrava Mineralogia e Geologia, Zoologia e Botânica.
O professor era um sujeito de forte envergadura física, na meia-idade, cabelo grisalho penteado com risca ao lado, vozeirão potente, mãos tentaculares, óculos de grandes lentes e armação grossa assente na ponta do enorme e largo nariz e que dizia repetidamente:
- Co’a breca!
A sua autoridade era imanente da sua personalidade. O silêncio nas suas aulas era total, ou quasi.
(quando andava no último ano, entrou para o Alexandre Herculano uma jovem professora que era filha dele)
Eu era um bom aluno, sobretudo desde o 3º ano, que no final de cada período tinha média de 14 ou superior e comportamento qualificado como Bom. Consequentemente ficava no chamado Quadro de Honra e, a continuar assim, dispensaria do exame final do 5º ano, de âmbito nacional. Significava isso menos stress e a eliminação de um qualquer azar numa ou mais das provas terminais, além de mais um mês e tal de férias grandes.
 
Numa aula do Balacó, ainda no 4º ano, ele resolveu chamar-me para uma avaliação oral. Já tinha dado provas de que gostava de mim e não foi sem surpresa que me viu espalhar-me ao comprido.
Pegou no Caderno Diário e nele escreveu junto do sumário da lição desse dia qualquer coisa como:
“O aluno não estudou a matéria ensinada nas últimas aulas”
E assinou.
Devolveu-me o caderno e avisou sobre aquilo que eu já sabia pois era o normal:
- Na próxima aula traga-me isto assinado pelo encarregado de educação.
Cabisbaixo, voltei para o lugar, não tanto por não saber a matéria, pois tinha a certeza que depois de a estudar ficaria apto, nem tão pouco por ter desiludido o professor, mas sobretudo porque tinha de mostrar aquela nódoa negra ao meu pai.
Era pouco provável que este me punisse com severidade, mas poderia perder a total confiança que sempre tivera em mim e isso eu não queria.
Portanto, comecei a magicar na melhor forma de nada dizer em casa. E que ideia mais macambúzia se instalou na minha cabeça?
- O professor não se vai lembrar mais disto e portanto vou rasgar a folha onde estão as palavras que ele escreveu a vermelho – cogitei – e depois tudo segue normalmente.
E assim fiz, disfarçando a marosca da forma mais perfeita que pude.
Mas o Balacó tinha boa memória e na aula seguinte pediu-me para lhe mostrar o Caderno Diário.
Fiquei branco como a cal.
Fiz de conta que não tinha ouvido mas ele insistiu até que, com a boca seca e quasi a tremer caminhei até junto da secretária e lhe dei o caderno para as mãos. Ele desfolhou-o e disse:
- Mas aqui não está o que eu escrevi na última aula. Que aconteceu, co’a breca?
Encabulado, confessei a minha acção, alegando que se o meu pai visse aquilo me batia e ainda que achava ficar mal no meu Caderno Diário uma apreciação daquelas.
O Balacó ficou surpreso, marcou-me uma falta (penso que de material) e escreveu de novo a vermelho algo semelhante ao que eu fizera desaparecer, com o aviso solene de que se não cumprisse o que ele mandava me puniria de forma muito mais severa.
E na vez seguinte eu lá mostrei ao professor o caderno assinado pelo meu pai que, aliás, somente me deu uma suave reprimenda.
Mas o pior foi que no final do período o meu comportamento foi classificado de Regular e não de Bom, pelo que não fui considerado no Quadro de Honra.
- O que eu fui fazer! – lamuriei-me – Agora já não dispenso de exame.
E disso me mentalizei.
Cerca de um ano depois, e após a entrega de uma prova (exercício escrito de apuramento), o Balacó, que também era o director do 2º ciclo (os três anos intermédios do total de sete), disse-me:
- Com a média que tem certamente será dispensado do exame final.
- Acho que não, senhor doutor. – repliquei – Como no ano passado tive comportamento Regular num período, acho que não posso dispensar.
- Mas quem lhe disse tal coisa, co’a breca? Não é isso que o vai impedir de passar de ano sem fazer a prova final.
- A sério? – perguntei com o coração aos pulos de alegria.
- Então acha que eu não sei estas coisas, co’a breca?
E, de facto, ele tinha razão.
 
Em jeito de conclusão poderia dizer com alguma gabarolice que “no bom pano cai a nódoa” ou então, mais modestamente, que o ano que passei imaginando que não iria dispensar já foi um bom castigo para o meu crime.


publicado por António às 22:13
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Quarta-feira, 26 de Agosto de 2009
Verões no Minho, junto ao mar (parte III e última)

As noites de verão eram muito interessantes e foram evoluindo ao longo dos tempos.

Como inicialmente quasi ninguém tinha carta de condução e muito menos carro, eram passadas na conversa, sentados algures, ou a andar de um lado para o outro. Contar anedotas era um passatempo muito comum. Quando havia algum novo veraneante era quasi certo ir à “caça dos gambuzinos” para as dunas. Jogar bilhar livre, ping-pong ou às cartas na Assembleia Ancorense era também habitual. E as sessões de cinema no Cine-Teatro dos Bombeiros Voluntários eram frequentes.
Duas vezes por semana, quartas e sábados, havia baile na Assembleia. Era preciso ser sócio ou pagar a entrada. O salão de dança tinha a forma de um T e encostadas às paredes havia inúmeras cadeiras ocupadas pelas meninas e pelas mamãs, todas elas muito bem vestidas. Também os rapazes se engalanavam com fato e gravata. Na zona mais afastada estava um conjunto a tocar as músicas mais modernas que sabiam, mas também muito tango e muita valsa. Um desses agrupamentos musicais, o Conjunto Alegria, era liderado pelo Quim Barreiros que já primava por ser vocalista e tocar acordeão com gabarito.
Eu lá convidava umas pequenas para dançar. Uma das minhas favoritas era a Laidinha, moça gira e pequenina que se deixava conduzir muito bem. Este estilo durou até meados dos anos 60. Depois, e sobretudo graças à música dos Beatles, os reportórios mudaram. Começou a dançar-se separado e as indumentárias passaram a ser muito simples. Estávamos numa época de viragem na sociedade portuguesa, e não só.
Também as famílias mais finas começaram a deixar de ir aos bailes e estes tornaram-se menos e pior frequentados para tristeza do Barata, o velho guardador de tão estimado espaço.
O facto de estarmos mais velhos e de os automóveis proliferarem, fizeram com que as noites em grupos se convertessem muitas vezes em noites de passeata até onde houvesse festas ou boîtes, como se chamavam as actuais discotecas: Caminha, Viana, Afife eram destinos habituais. A própria Assembleia criou uma pequeníssima boîte no local onde estava uma mesa de ping-pong, numa tentativa pouco sucedida de se adaptar aos novos tempos. Logo a sul de Vila Praia nasceu um interessante espaço com alojamento, restaurante, bar e esplanada, zonas de desporto e muito verde, que funcionava essencialmente de dia: a Sereia da Gelfa.
Cada vez mais a praia de Moledo se foi tornando a mais requintada de toda a zona.
Na área de vivendas havia o seleccionado Ínsua Clube que também fazia os seus bailes de gente fina.
Uma vez fomos vários até lá, já tarde, por isso nos deixaram entrar de borla e, não sei dizer porque carga de água, a rapaziada começou a roubar tudo o que eram troféus, cinzeiros, palamenta, copos, enfim… E viemos todos com esse precioso espólio para Âncora onde o material foi exposto nos bancos do Largo. Eis que surgiu o sempre sensato Décio que não tinha ido a Moledo. Ao ver aquilo e ao inteirar-se da sua proveniência, fez um tal discurso que desde logo ficou assente que tudo iria ser devolvido no dia seguinte. Foi designado um desgraçado para ir de baraço ao pescoço, qual Egas Moniz, levar de volta o produto do roubo. E assim se cumpriu.
Na Assembleia Ancorense havia um grupo que jogava póquer com frequência e com jogadas bem altas: o Samarra, o Marques Mendes (pai do conhecido político do PSD), o Carlos Júlio e um tal Brito eram alguns dos viciados.
 
Obviamente que não podiam faltar os famosos amores de praia (nem sempre enterrados na areia).
Devo dizer que, dentre todas as pessoas que referi, as relações eram muito mais de amizade, companheirismo e brincadeira do que de arroubos mais ou menos amorosos. Que me lembre, só o Tó Enes viria a casar com a Fátima Guerreiro. O Zé Amoedo casou com a Judite, minha prima afastada, mas penso que eram ambos de Monção.
Eu nunca fui muito dado a namoricos à moda antiga. Isso de andar de mão dada, dar uns beijinhos e depois não poder fazer as coisas que me apetecia nunca foi a minha especialidade.
Mas quero recordar aqui a Maria Clotilde, de Lisboa, filha de um empreiteiro natural de Seixas (localidade a norte de Caminha), com quem namorisquei: eu tinha dezassete anos e ela, mais três. Era bonita e com um bom corpo mas, nitidamente, queria apanhar um tipo para casar o que me fez jogar à defesa. No ano seguinte apareceu lá casada e grávida de gémeos. Do que eu me safei, hein?
Dois ou três anos depois conheci as irmãs Fátima e Lurdes. Eram de Oliveira de Azeméis e estavam alojadas em Seixas (outra vez Seixas) na casa da avó.
A primeira era uma morena lindíssima e tinha um corpo muito bem torneado. Pois lá namoriscamos. Fui várias vezes de comboio a casa dela, mas também este amor ficou enterrado na areia.
Era muito novo e ainda não estava minimamente interessado em ter uma relação duradoura. Achava, e continuo a pensar ter razão, que primeiro devia acabar o curso, fazer a tropa e gozar bem a vida. Depois pensaria em arranjar uma mulher para o resto da vida. E assim aconteceu…
 
Durante vários anos realizou-se um torneio de futebol de salão.
A equipa vencedora era sempre a do Iogurte Veneza, patrocinada pelo Luis Rodrigues, mas lembro-me das dos Barocas, do Américo Henrique e sobretudo da Casa das Malhas, patrocinada pelo Cerqueira de Braga, que só participou uma vez, mas de cujo plantel eu fazia parte com o Álvaro Baixinho Filho, o Flautas, o Quim Barreiros e mais alguns, tendo o Álvaro Meira como treinador. No primeiro jogo ganhamos 3-2 e eu marquei dois golos. No segundo apanhamos 5-0 ou coisa parecida. Entretanto, e dado que o piso era pouco regular, de terra batida e propício a ferimentos, o meu pai proibiu-me de jogar temendo que me magoasse. E assim terminou uma carreira que talvez me levasse ao Real Madrid.
 
Esta fase dos meus verões em Vila Praia de Âncora terminou em 1972.
No ano seguinte, já na Armada, fui lá passar uns dias em Setembro.
Em 1974 e 1975 estava em África.
Voltei no ano imediato.
Já tinha vinte e sete anos e a maioria da malta do período sobre o qual já muito escrevi atrás tinha desaparecido ou fazia uma incursão de um ou dois dias, alguns já casados e com filhos.
Meti-me em novo grupo com a Emília (Mila), a irmã Alda e mais moças de Valença, Monção e Melgaço, da simpática galega de nome Eva (a Evita) e dos seus irmãos. Uma delas, cujo nome não recordo, tinha um amor sem limites pelo Mário Pedra de que já falei.
Nessa altura pontificava um outro grupo em que se destacavam o Tó Ferreira e o Luizinho Gomes, filho do comerciante com o mesmo nome, e que era visivelmente homossexual. Na época, a homofilia não era encarada da forma permissiva como o é hoje.
Foi também em 1976 que lá apareceu o Jorge Machado. Foi-me apresentado pela minha irmã e estava lá por causa dela, notoriamente.
Eles e uma prima de Valença, a Cila, passaram também a ser companhias assíduas. Casaram dois anos depois, geraram um casal e hoje estão divorciados.
 
Em 1978 conheci duas pessoas do sexo feminino, a Maria Fernanda (da minha idade, divorciada e com um filho que ficara em Leça do Balio com os avós) e a prima Dalila, do Porto, com dezoito anos, que estavam lá pela primeira vez. Com elas costumava andar um rapaz chamado Vítor mas, pouco depois, eu juntei-me ao grupo e, além do convívio na praia, muitas noites íamos no meu Fiat 127 branco (o primeiro carro novo que comprei) a algum local fora de Âncora, não sem antes nos reunirmos no Kitari, um cafezito pequeno mas simpático que entretanto abrira no Largo.
No ano seguinte não fui para a praia pois a 29 de Agosto casei com a Maria Fernanda.
Dessa vez o amor não ficou enterrado na areia.
Depois, em 1980, 1981 e 1982, fui com a minha mulher e o meu enteado, o Mário Rui.
Em 1983 e 1984 já levamos o novo membro da família: o meu filho Fernando Miguel.
No primeiro desses cinco anos estivemos alojados no Hotel Meira e nos restantes dormíamos no andar da Tia Bela da rua do Sol Posto e comíamos no restaurante da Tilde, o Atlântico, na rua Cândido dos Reis.
 
E nunca mais passei nenhum verão em Vila Praia de Âncora…             


publicado por António às 14:26
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Terça-feira, 18 de Agosto de 2009
Verões no Minho, junto ao mar (parte II)

Quando tinha doze anos aconteceu o imprevisto: após quinze dias de doença galopante finou-se o meu tio Mão, com cinquenta e poucos anos. O seu primogénito, meu primo Jorge, passou a ser o responsável pelo negócio juntamente com a mãe (que demorou bastante tempo a recuperar do choque da morte do marido). O pai fizera obras, acrescentando um andar ao edifício e o filho, mais tarde, lograria a promoção a Hotel. Fez também melhoramentos por duas ou três vezes.

A Estrada Nacional 13 passava pela central Praça da República. Para norte tomava o nome de rua 5 de Outubro, para sul, o de rua 31 de Janeiro.
A Pensão ficava na primeira zona que referi. Também lá vivia, um pouco acima, uma outra irmã de minha mãe, a tia Zé, que era minha madrinha. A unidade hoteleira fazia esquina com a rua do Sol Posto onde, mais tarde, os Meira construíram um prédio com quatro habitações: uma para a mãe e as outras três para cada um dos filhos. Nesse troço da 13 havia a casa Portela, a dos irmãos Ramos e a do Luis Gomes, que vendiam roupas e fazendas, o café do Tirinho (o nome provinha de uma tentativa de suicídio por amor, disparando uma bala na boca, mas o resultado foi só ter ficado com a boca torta para sempre) e o do Luis, o talho da Anésia, a mercearia e a salsicharia do Cindo, a Pensão Miramar (muito fraquinha), a mercearia da Bina da Biandota, os Correios, a casa da Sarinha (de onde se podiam fazer ligações interurbanas e que muito desanuviava os CTT na época balnear), as alfaiatarias do Zourinha (Espincha) e do Zezinho, a garagem do Rocha, os bombeiros e o seu Cine-Teatro. Havia ainda a casa do juiz desembargador Morais Cabral e da mulher Maria Ângela (tinham um filho rapaz, o João Adelino e uma rapariga, a Tininha, que foi locutora da Rádio Portugal Livre, na Argélia, e já faleceu). Isto para não ser exaustivo…
Na rua do outro lado havia o barbeiro António “Poupa”, o posto da GNR, a casa de pasto Flora, o posto da Shell com o Ernesto gasolineiro, a casa do Dr. João, a do Dr. Mesquita e a do Luis Gomes e mais o que agora não recordo.
Nessa Praça principal, também chamada Largo, nascia a rua Cândido dos Reis que levava à “meia-laranja”, como já escrevi. Era lá, bem no coração da terra, que se realizava a feira semanal, às quintas, e se situavam a capela de Nossa Senhora da Bonança, padroeira da vila, o Café Central com a sua esplanada, a Farmácia do Brito e a Moderna, um talho, uma padaria (onde muitas vezes, lá pelas duas ou três da manhã, íamos ao pão quente), uma oficina de bicicletas do pai daquele que é hoje o bem conhecido Quim Barreiros, a Assembleia Ancorense, a Sociedade Ancorense (já na entrada da rua Miguel Bombarda que conduzia ao Calvário), a barbearia do Miro, a loja do Correia, a Capitania (que mais tarde deixou de haver em Âncora), a casa do Dr. Alfredo Pinto e nem sei que mais…
Após o falecimento do meu tio deixamos de ir para a Pensão e o meu pai passou a alugar uma casa durante o mês de Agosto. Todavia, enquanto andava no liceu e nos anos em que não havia exame final, eu ia para lá durante cerca de três meses, alojando-me na Pensão enquanto a casa de veraneio ainda não estava arrendada. Ficava muito moreno e gozava com os banhistas que chegavam, ainda com a tez muito clara.
 
Foi quatro anos depois do passamento do meu tio que se deu a grande viragem no estilo das minhas férias em Vila Praia.
Depois de ter concluído o antigo 5º ano dos liceus (dispensando de exame, diga-se, para saberem como era um aluno aplicado), no 6º fiquei na mesma turma de dois irmãos que conhecia de vista, quer do Alexandre Herculano, quer de Âncora: O Décio e o Zé Baganha que, no mês de Agosto, assentavam arraiais em Afife, terra da mãe e que ficava muito poucos quilómetros a sul da minha praia. Tornámo-nos amigos, começamos a estudar juntos no café Estádio e depois no Scala, na praça de Velasquez, no Porto (e aí me introduziram no vício do tabaco) e passamos a ser compinchas na praia da foz do Âncora. Como eles conheciam muitos veraneantes, eu rapidamente fui integrado num grupo.
Lá estavam o Zé Manel Capela (o loiro Zé Piroco) de Braga, o Zé Pardal da mesma cidade, o Luis Sampaio do Porto, o Hernâni (Licas) dos Arcos de Valdevez, o Zé Luis Rodrigues de Lisboa mas com origem monçanense, os seus primos Zé Antero e Vitorino (Vito) da mesma vila de Deu-la-deu Martins, o Carlos Jorge (filho do meu antigo professor de Matemática, Pedro Pinheiro Gonçalves que, infelizmente, estava limitado por uma trombose de que fora acometido) do Porto, o Carlos (Carlinhos maluco, ou Carlos Oliveira Duarte) de Lisboa, se bem me lembro, o Carlos Júlio de Ponte de Lima e meu colega de curso, os filhos e sobrinhos do “Samarra”, monçanense que viria a ser o Comendador Gonçalves Gomes (o Manel Campos, casado com uma filha do chefe do clã, o irmão Sebastião, e os herdeiros mais novos – Tó, Perfeita e Aida), os filhos do reitor do liceu de Guimarães (Isilda, Regina, Américo, António e Fatinha), o Manel Augusto, o Tó Enes, o João e a irmã, filhos de um médico em Esposende, o Manel Luis de Lisboa, que tinha uma gargalhada soluçante que contagiava toda gente especialmente nas sessões de cinema, o Zé Manel Puga de Monção, o Diomar e o Adélio de Ermesinde (este pouco andava com o grupo), o Camilo que jogava voleibol no Francisco de Holanda de Guimarães, etc.
Uma tarde, estava eu na marginal com o Zé Piroco quando ele disse:
- Ó pá! Já viste aquela loira ali nas dunas?
- Parece ser um borracho! – retorqui.
- Vamos lá!
E fomos. Quando estávamos mais perto o Piroco exclamou:
- Porra! É a minha irmã!
E era, de facto, a mana de onze anos do meu parceiro.
Retomando o fio à meada.
Fui conhecendo muita mais gente. Aliás, embora houvesse alguns grupos, todos falavam com todos.
Aqueles a quem chamávamos “copinhos de leite”: o Isaías e a irmã Luisa Finkelstein, o Zé António Salvado, o Guilherme Leal, a Julinha e os irmãos Luis, Mané e Laura, o Carlos Areias e a irmã Leonor, todos do Porto, a Guida e o mano Luis, irmãos do Zé Luis que já referi e filhos do sportinguista Luis Rodrigues que chegou a tentar levar alguns jovens para os lados de Alvalade (eu incluído, vejam bem!), as filhas do Zé Luis de Guimarães, homem da têxtil que faleceu prematuramente, e outros.
Havia o grupo do Américo Henrique, meu colega no liceu, que incluía o Henrique Nunes e o irmão, o Zé Fiúza e várias moças do Minho; o grupo dos anafados filhos dum empresário têxtil de Pevidém chamado Campos (um filho morreu com problemas cardíacos com pouco mais de vinte anos); o dos Cunha de Riba d’Ave (Lena, Bela, Lua, Pim, Nené, Paula…); as sobrinhas do Cerqueira, também de Braga e hóspede habitual do Meira, sendo que uma delas foi minha colega de curso, a Zé Cardoso. De referir um tipo um tanto solitário, o Mário Pedra de Valença, que viria a ser Presidente da Câmara daquela vila, tendo falecido precocemente aos quarenta e poucos anos de idade.
E muita gente de Âncora. O Nuno Mesquita, o João e o Rui Taxa e também o Carlos Pinto (um tipo porreiro que se tornaria esquizofrénico). Estes tinham a particularidade de ser filhos dos três médicos que viviam na terra: o Mesquita da Silva, o João Araújo e o Alfredo Pinto. O último viria a ser o Governador-Civil de Viana do Castelo à data do 25 de Abril. Também as filhas da Anésia, o Chico Presa, filho do dono da já referida fábrica da manteiga que bastantes anos depois viria a falir, o João Cunha, o Zé Carlos que foi jogador do Vitória de Guimarães, o Álvaro Meira, enorme talento de artista plástico nunca aproveitado, o Zé Pedro Neves (Flautas), o meu primo Fernando Meira que namorava a Teresa, uma rapariga de Viana com quem ainda hoje é casado, etc.
 
Não posso esquecer duas figuras típicas: o Engenheiro e o Professor de Letras. O primeiro era um sujeito sem idade bem definida pois levara uma vida complicada. Fumador, beberrão e contrabandista de baixa estirpe, apresentava o rosto e as mãos muito envelhecidas, mas o cabelo ainda era bastante e penteado para trás com brilhantina ou qualquer outro produto oleoso. Vestido sempre com muita roupa, suja e mal arranjada, escondia assim a sua magreza. Tinha um ar desprezível mas, vá-se lá saber porquê, caiu na graça de muita da rapaziada. Talvez porque contava histórias interessantes, talvez porque tinha algum sentido de humor. Era vê-lo sentado na esplanada do café Central a pedir um chá preto ao empregado (alguém se encarregaria de o pagar). E pouco depois estava na mesa um pires, uma colher, um pacote de açúcar e uma chávena cheia de um líquido negro que não era senão vinho tinto. Ele pegava na asa com todo o requinte, segurando-a entre o indicador e o polegar e com os outros dedos afastados, levava a bebida aos lábios e dizia:
- Está muito quente! – e ia soprando suavemente para dentro do recipiente fingindo arrefecê-lo.
O meu pai, quando eu falava nele, costumava dizer:
- Andas com muito boas companhias!
Uma noite, numa altura em que já havia mais malta com carro, guiou-nos a uma festa num pequeno lugarejo da serra, São João d’Arga, que era basicamente uma pequena praça quadrada com habitações típicas em três dos lados, todas elas mais ou menos iguais, com um piso, e no centro havia uma minúscula capela. Em torno dela andavam de joelhos ou rastejando os penitentes, sobretudo mulheres. Tudo isso me fez lembrar os tempos medievais. Mas havia muita mais gente do que eu poderia imaginar (sobretudo imigrantes). Parece que os aldeões das redondezas depois dormiam ao relento e nove meses mais tarde a natalidade tinha um pico.
O segundo (o Professor de Letras) era um rapaz só um pouco mais velho do que nós.
Era alto e magro, muito moreno, com o cabelo assaz encaracolado e andava sempre muito bem vestido e a tentar engatar toda a mulher, mais nova ou mais velha, solteira, casada, viúva ou divorciada que lhe avistasse. Não trabalhava e parece que vivia à custa da mãe que se orgulhava de que o seu filho fosse tão popular. E era-o, sem dúvida!
O nome devia-o ao facto de ter conquistado uma moça das redondezas havendo-lhe dito que trabalhava como professor de letras. O pior foi que alguém avisou o pai da rapariga de quem ele era, realmente, e numa das suas idas a casa da namorada quem apareceu foi o potencial sogro que lhe deu uma valente sova.
Ficou para sempre conhecido como o Professor de Letras, embora se chamasse Jorge.
Quando, mais tarde, tinha um carro, aliás cedido por uma fulana que o compensava assim de momentos de prazer, à noite circulava com ele lentamente pela Avenida com as luzes interiores acesas para se fazer notado.
Um castiço!               


publicado por António às 21:59
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Quarta-feira, 12 de Agosto de 2009
Verões no Minho, junto ao mar (parte I)

Cerca de dezasseis quilómetros a norte da foz do Lima desagua no Atlântico um pequeno rio que nasce na serra d’Arga: o Âncora.

Na margem direita desenvolveram-se uma zona piscatória e outra balnear que fizeram com que surgisse Vila Praia de Âncora.  
É a terra onde nasceu, cresceu e viveu (e vive) uma parte da família de minha mãe e que está indissoluvelmente ligada à minha vida.
Em 1949, só com meio ano de idade, comecei a ir para lá passar o verão, ou uma fracção dele, e a fruir o sol, a água, o iodo e tudo o mais dessa estupenda praia cujo areal era muito ocupado por veraneantes na zona norte rio, do lado onde cresceu a vila, mas que tinha um grande extensão de areia para sul da foz, desocupada, que terminava nas rochas que antecediam as ruínas do forte do Cão. Mais pelo interior, e paralelamente ao mar, estendia-se nessa margem sul uma faixa dunar travada a nascente pelo pinhal da Gelfa. No final, num espaço em que já existia vegetação rasteira mas o terreno era ainda arenoso, fora construído um Sanatório, primeiro para doentes de tísica, mais tarde para quem padecia de males do foro psiquiátrico.
A areia era fina e branca.
O mar, na baixa-mar permitia que as pessoas nele avançassem mais de cem metros, sempre com pé, e deixava descoberta uma área de areia molhada que, naturalmente endurecida e alisada, era um chamariz para jogar futebol. Lá competiram amigavelmente, além dos normais veraneantes, jogadores de clubes importantes como Edmur, Caiçara e Ernesto do Vitória de Guimarães, António Simões do Benfica e Cesário do Sporting de Braga, entre outros, e que eram os ídolos daquele futebol estival.
Como todas as praias da costa ocidental, salvo aquelas viradas a sul como as da linha de Cascais ou as da zona de Setúbal (bem protegidas pelas serras de Sintra e da Arrábida, respectivamente), quando o vento norte começava a soprar tornava-as desagradáveis. Isso iniciava-se por volta da hora de almoço e terminava ao fim da tarde. Felizmente não acontecia todos os dias mas, quando se levantava a nortada, o melhor a fazer na praia era estar bem abrigado nas barracas.
Estas eram paralelepipédicas, quasi cúbicas, feitas de um pano de algodão amarelo suportado por uma estrutura ligeira em madeira. Eram alugadas às banheiras. Mas havia também outras mandadas construir particularmente. Essas destacavam-se por serem maiores e encimadas por uma pirâmide quadrangular, em tecidos também de algodão mas mais resistentes e com cores e padrões mais variados. Fosse qual fosse o modelo, a parte da frente dos toldos tinha uma pala que podia estar fechada, aberta ou em posições intermédias. As barracas dispunham-se paralelamente à avenida marginal (que descreverei mais adiante), voltadas para a água. No outro lado do rio havia também algumas, nos meus tempos de menino em quantidade diminuta mas, com o decorrer dos anos, o seu número foi aumentando. Durante muitos estios os meus pais alugaram as barracas até que, num qualquer verão, resolveram mandar fabricar uma grande.
Um outro senão: as temperaturas, habitualmente baixas, da água do mar.
Mas os banhistas, caras quasi sempre repetidas ao longo dos tempos, já estavam habituados e não era isso que os inibia de mergulhar e nadar na água salgada.
Havia o rio, pois então, com muito pouca profundidade e água bem mais quentinha mas, como ao tempo não havia saneamento básico digno desse nome e muito menos tratamento de esgotos, era o meio receptor dos ditos. Apesar dos apelos dos papás para que não fossem para o rio, a criançada não queria outra coisa. Valia que, quando a maré crescia, a água do Âncora junto à praia ficava salgada e limpa de imundícies. Também numa zona a montante da de descarga dos efluentes, num local do lado interior das dunas e para cima de uma grande curva do rio, se juntava muita gente para tomar banho em água limpa e com uma profundidade mais adequada para nadar. Chamávamos a essa zona, as Dunas ou os Caldeirões.
 
A marginar o areal estendia-se a Avenida (assim chamávamos à avenida Dr. Ramos Pereira) que nascia junto do “portinho”, pequeno porto piscatório, a norte, não muito longe do forte da Lagarteira em frente ao qual, por vezes, assentavam circos ambulantes (alguns tão pobres que causava dó ver a quasi miséria em que os seus artistas viviam). Uma ou duas centenas de metros para norte do forte entrava-se numa zona rochosa onde havia viveiros de marisco pertencentes a uma tal Flávia. O seu filho Fernando, da geração dos meus primos mais velhos, jogava bem futebol. Já faleceu. Uma filha chegou a ser segunda classificada num concurso de Miss Portugal nos anos 50.
Retomando a descrição: para sul, a Avenida ia até uma zona arborizada, mas mal arranjada. Perto desse extremo era instalada, só durante o estio, uma débil ponte de madeira para permitir a travessia do rio sem ser a vau. Vários anos mais tarde construíram uma de pedra e betão, também pedonal, que numa noite tempestuosa de inverno foi derrubada pela força do mar. Fizeram uma outra que ainda perdura.
A Avenida tinha uma razoável largura, bem como os passeios. Do lado da praia era limitada por um extenso e contínuo banco de pedra que permitia que as pessoas se sentassem com algum conforto, apesar de não haver qualquer apoio para lá do granito bem polido e ligeiramente convexo. De tantos em tantos metros havia, alternadamente, um candeeiro com três lâmpadas e uma floreira com cactos instalados numa espécie de podium granítico. Do outro lado estava casario. Casas térreas ou, no máximo, com dois andares, como em toda a vila, aliás, e ao longo dos anos foram aparecendo alguns cafés, esplanadas e até restaurantes. Refiro o Verdes Lírios e o Oceano.
O passeio ladeado pelo tal banco prolongava-se para além da Avenida e marginava a zona arborizada a que já me referi. Esta viria a chamar-se, depois de aprimorada, Parque Dr. Ramos Pereira.
A meio do passeio com o referido banco de pedra, e em frente à principal via de ligação da praça central da vila à marginal – a rua Cândido dos Reis – aquele transformava-se num semi-círculo a que chamávamos a “meia-laranja”. Registe-se que, durante muitos anos, a principal rua era a Estrada Nacional 13 que passava pelo centro da terra.
Quer de dia, quer de noite, era esse passeio marginal o favorito das pessoas para andarem de um lado para o outro e também para as criancinhas pedalarem nos seus triciclos ou pequenas bicicletas. As maiores circulavam, ou deviam circular, no empedrado da faixa para viaturas. Quando as pernas começavam a ficar cansadas lá estava o longo assento para repousar.
Entre a Estrada Nacional e a Avenida, e paralela a estas, estendia-se a linha férrea do Minho, via única e larga, havendo junto da rua Cândido dos Reis um apeadeiro e uma passagem de nível com guarda (o Sr. Santos, durante muitos anos). A estação do comboio era um pouco mais a norte, junto de uma serração. Mais para o interior da vila, já na zona da encosta da Serra d’Arga, havia uma fábrica de manteiga, queijo e, mais tarde, iogurtes. Eram as duas principais indústrias de Âncora.
Nesse espaço mais afastado da praia havia o monte do Calvário com a sua enorme escadaria, a capela com um púlpito exterior em pedra onde, por brincadeira, eu disse alguns sermões, a “gruta” fechada por um portão, mesas e bancos em granito, um cafezito, um frondoso arvoredo e um miradouro. Também acessível de carro, dele se podia ter uma estupenda vista do vale do Âncora e da vila. No alto deste monte havia uma enorme cruz branca, iluminada de noite e bem visível da zona baixa.
Havia também certos locais do rio Âncora mais afastados da foz que, nas tardes ventosas, por vezes constituíam pontos de peregrinação a pé de grupos de rapazes e raparigas para fazerem pic-nics ou tomarem banho em águas límpidas e com uma agradável temperatura. Recordo o Paço, o Pincho e a Torre.
Assim, numa relativamente pequena área, havia mar, rio, praia, dunas, rochedos, pinhal, monte e campos de cultivo. A vila era o centro vital de tudo isso.
Não admira que tanta gente passasse lá as férias.
Eram sobretudo pessoas de terras minhotas: Braga, Guimarães, Valença, Monção, Ponte de Lima, Arcos de Valdevez e outras localidades. Mas também do Porto, de Trás-os-Montes e até do sul, sobretudo de Lisboa. A partir de meados dos anos sessenta começaram a aparecer os emigrantes portugueses na Europa e a praia tornou-se menos mundana e mais popular.
 
E que fazia eu por lá?
Dos primeiros anos não guardo muitas memórias.
Lembro-me que ficávamos alojados na então Pensão Meira, propriedade da minha tia mais velha, a Bela e do seu marido Simão (o tio Mão).
Algumas fotos, que ainda conservo, avivaram-me a memória e posso aqui escrever que no início dos anos 50 nem os homens podiam andar na praia de tronco nu. Era obrigatório usar um corpete. E eu, apesar de muito pequeno, também o vestia pois o cabo-do-mar era implacável na sua missão de impedir tão grave atentado ao pudor.
Cerca de dez anos mais tarde, ainda o cabo-do-mar avisava as incautas e espantadas turistas estrangeiras de que era proibido usar biquini. E assim elas abalavam para outras paragens em que os guardiões dos bons costumes fossem menos zelosos. Para o Algarve, ainda a dar os primeiros passos como região de veraneio internacional, por exemplo.
Entretanto, brincava como todas as crianças daquela idade. Jogar a bola, o ringue, correr, saltar, andar no baloiço e simular natação (todos os esforços para que eu aprendesse a nadar foram infrutíferos: nem mesmo as lições ministradas pelos banheiros, uma espécie de nadadores-salvadores da época, deram qualquer resultado) eram algumas das minhas actividades. Além da minha irmã, os meus parceiros eram os três filhos do Antoninho Oliveira e da Mariinha: o Carlos, a Nelinha e o Tatuna. Amigos da família, viviam no Porto e também estavam alojados na Pensão. Havia um tal Manel Ângelo de que tenho uma vaga lembrança e nunca mais vi e o Renato Nuno que andou comigo na primária. Também a loira Julinha, a paixão de todos os rapazinhos da época. E outros, quer ancorenses, quer forasteiros, mas que não recordo, de todo.
Partilhávamos a barraca com a família Oliveira, com familiares e, por vezes, com o Fernando Caiado, antigo jogador do Benfica, sua mulher Lucrécia e o filho.           


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Quarta-feira, 5 de Agosto de 2009
A Luanda que eu conheci (parte III e última)

E que aconteceu comigo durante este período?

Após o regresso de S. Tomé, o Rovuma continuou a navegar até que parou para novos trabalhos de manutenção.
Nessa altura, o João Távora, que estava a chefiar o Destacamento de Marinha do Cuando na povoação do Rivungo, junto da fronteira com a Zâmbia, lá longe no Cuando-Cubango, pediu o mês de férias a que tinha direito. Como eu não estava a navegar fui enviado no início de Fevereiro para o substituir. Acabei por fazer a desactivação daquela pequena unidade e só regressei a Luanda em princípios de Abril. Mesmo nessa zona recebia o jornal “Expresso” todas as semanas e mantive-me a par dos principais acontecimentos político-militares.
 
Pouco depois de regressar, e numa festa cuja causa já não recordo, travei conhecimento com uma funcionária do Comando Naval. A Zinha era mais velha do que eu sete ou oito anos, cabelos loiros e curtos, óculos graduados, franzina mas muito activa, com um magnífico BMW, separada do marido, com dois filhos no Continente e vivendo só num apartamento de duas assoalhadas duma torre situada perto do aeroporto. Não tardou muito que estivesse a viver com ela. Só lá não ia dormir quando os combates entre as facções angolanas eram mais encarniçados e a tropa portuguesa ficava de prevenção rigorosa (cada militar na sua unidade).
Vem a propósito referir que, uma noite, houve um tiroteio mesmo junto da Base Naval. Acordei com os tiros e fui espreitar, rastejando. E lá estavam os ex-guerrilheiros a lutar uns contra os outros. Acabada a batalha, com receio de ser atingido por balas perdidas de alguma nova refrega, adormeci no chão da camarata que ficava no primeiro andar. Na manhã seguinte apareceu o cadáver de um jovem dos seus dezoito anos mesmo junto do portão de entrada nas instalações navais. Era da FNLA.
Feito este aparte, direi que a Zinha tinha uma jovem empregada negra que ia algumas vezes por semana fazer trabalhos domésticos e levava uma filhinha ainda de meses. Uma menina linda! Notamos que ela tossia bastante e, ao fim de alguns dias, a Joana faltou. Fomos ao musseque saber o se passava (a Zinha conhecia bem a cidade) e verificamos que a menina estava às portas da morte. No dia seguinte faleceu com tosse convulsa ou coqueluche.
 
Entretanto, a debandada dos colonos continuava e cada vez mais intensa. Quando escrevo colonos estou a ser redutor, pois muitos negros e mestiços também abandonaram a cidade. Mais…todo o território.
A Universidade de Luanda viu-se sem muitos professores e, para poder leccionar o 2º semestre, recorreu a militares portadores de licenciaturas que por lá estavam. E assim fui dar aulas teórico-práticas de Física Geral. Como previdente que sou, tinha levado bastantes livros para Angola pelo que não me faltava bibliografia.
Os alunos eram quasi todos brancos. Contudo, recordo-me de uma bela e elegantíssima negra, muito bem vestida que, como fazia habitualmente com os alunos para os manter atentos, chamava ao quadro para resolver novos problemas com a minha ajuda (confesso que gostava de a ver de pé – um espectáculo) mas sabedoria não era o seu forte. Todavia, também me lembro de dois rapazes pretos, de aspecto humilde mas sempre de fato e gravata, embora a roupa estivesse em mau estado e amarfanhada, que eram muito aplicados mas muito lentos na resolução dos problemas. Não foi sem surpresa que, na prova final, tiveram a melhor nota. Penso que o facto de haver mais tempo para resolver os exercícios propostos e a motivação da independência do seu país a curto prazo, em contra-ponto com a desconcentração que grassava entre os alunos brancos, pode justificar o resultado. No decorrer do semestre, uma universitária branca (e eu refiro sempre a cor da pele pois isso é importante para se perceber melhor o que era a Luanda daquela época) muito conhecida, embora não por mim, estava no jardim de sua casa sentada, a estudar, quando foi atingida mortalmente por uma bala perdida. Foi uma ocorrência triste que ainda fez aumentar mais o pânico na população de raça caucasiana. Muitos alunos deixaram África antes de se ter concluído o semestre.
 
Entre o meu regresso do Rivungo e o início da minha relação com a loira, o Rovuma foi mandado regressar ao Continente. Não sei porquê, mas talvez porque ainda estivesse um pouco “apanhado” pelo tempo incrível que passei na savana, troquei com o Zulmiro que estava no NRP Orion e era casado. Também lhe comprei o Fiat 500. Como este navio estava em doca seca (da qual nunca mais saiu até ao meu regresso a Portugal), eu continuava sem navegar e dedicado ao ensino e a uma vida de casado. Uma vez, a Zinha resolveu cozinhar muamba, um prato à base de galinha mas com uma série de condimentos africanos que o poderiam tornar muito picante e lhe davam um paladar desconhecido para mim. Gostei!
 
Por essa época vim passar duas semanas de férias a Portugal tendo prescindido do mês a que tinha direito por razões que não recordo, mas seguramente que o facto de em poucos meses estar definitivamente de regresso pesou na minha decisão. Estive na casa dos meus progenitores, naturalmente, e achei que o meu pai estava com o cabelo muito mais embranquecido e mais envelhecido. O 25 de Abril não tinha sido nada bom para ele. Também fui ver um tio paterno, o Gilberto, que estava em casa, a morrer. Globalmente, e apesar da satisfação de rever a minha família e alguns amigos, não foram duas semanas muito agradáveis, não sei bem porquê.
 
Regressado a Luanda, constatei que o meu Fiat 500, cujas chaves entregara ao Vilela Bouça, estava a fazer barulhos estranhos no motor. E um dia pifou. Soube depois que toda a gente andou a fazer peões com o meu carro durante a minha ausência. Como tinha sido muito barato, preferi não arranjar zangas numa fase complicada como aquela. Comprei um Fiat 850 que saiu um fiasco e por lá o deixei. Também havia sido ao preço da chuva…
A minha companheira, entretanto, vendeu o BMW e comprou um pequeno Mitsubichi.
Com medo de ficar só no seu apartamento afastado da baixa citadina e sobretudo pelas zonas perigosas que tinha de atravessar ao ir para o trabalho ou para o centro, também largou o T1 e alugou um outro apartamento na baixa.
Entretanto, a cidade que eu conhecera tornava-se cada vez mais descaracterizada.
Como estava mais triste e feia…
Restava a vista sempre linda da baía.
Nas montras só se via um tipo de artigo para vender: ventoínhas. E nas ruas cada vez menos pessoas e menos tráfego automóvel. Era uma cidade moribunda, quasi fantasma.
A Zinha continuava a pensar em continuar por lá. Eu, prevendo que haveria muito desemprego em Portugal, fui à Refinaria da Petrangol, no Cacuaco, oferecer os meus préstimos. A minha candidatura foi muito bem vista, mas só se poderia concretizar depois de me desvincular da Marinha.
Estávamos no fim de Setembro e a minha viagem de regresso foi marcada para o dia 1 de Outubro de 1975.
Pouco antes a Zinha disse-me que estava grávida. Decidimos que não era nada oportuno ter um filho naquela altura e assim se cumpriu.
 
Regressei ao continente com a ideia de voltar como civil.
Gozei um mês de férias, deixei a Armada e contactei a Petrangol. Ao fim de pouco tempo disseram-me para fazer uns exames médicos e não sei mais o quê para poder ser admitido a ir trabalhar na refinaria.
Acontece que, por esses dias, li no jornal que Luanda era o objectivo a conquistar por forças armadas: a sul por uma que viera da Namíbia (ou da África do Sul, não sei ao certo) e cuja composição era mal definida e a norte pelas tropas da FNLA que estacaram a poucos quilómetros do Cacuaco antes de desferirem o assalto final.
Cautelosamente, resolvi adiar sine die os exames médicos e acabei por esquecer o trabalho em Luanda.
Entretanto, o MPLA, ajudado por tropas cubanas enviadas por Fidel Castro, rechaçou os ataques que estavam eminentes e ficou definitivamente de posse da capital.
A Zinha também voltou a Portugal e foi viver com a avó e os filhos numa localidade perto de Oliveira de Azeméis. A relação manteve-se durante mais cerca de dois anos. Acabou e nunca mais a vi.
 
Antes disto, no dia 10 de Novembro de 1975, o Almirante Leonel Cardoso, que em Agosto passara de Comandante Naval a Alto-Comissário, deixou Angola sem entregar o poder a ninguém – a independência foi “depositada” nas mãos do Povo angolano, contando a partir do dia 11.
 
Nunca mais voltei a Luanda.


publicado por António às 22:05
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Quinta-feira, 30 de Julho de 2009
A Luanda que eu conheci (parte II)

O clima de Luanda era pouco aprazível.

Havia duas estações: a das chuvas ou verão, com o sol sempre aberto, mais quente e mais húmida, que durava de Setembro a Maio, e a do cacimbo, em que o calor era menos intenso e decorria em Junho, Julho e Agosto.
Como curiosidade direi que mais tarde, quando tinha já aquele que foi o meu primeiro automóvel, um velho Fiat 500 descapotável que, tendo a cobertura rasgada me fazia deixá-la sempre aberta, e porque a estação das chuvas se caracterizava também por repentinos e fortíssimos aguaceiros, quando andava no passeio com o meu bólido e a água começava a cair, torrencial, só tinha uma solução: parar o carro e ir abrigar-me numa loja ou outro sítio coberto. Passada a chuvada que, normalmente, não demorava mais de quatro ou cinco minutos, voltava à carripana. Como logo o sol refulgia intensamente e o chão da viatura tinha um furo para escoar a água, em menos de três minutos podia sentar-me ao volante e continuar o meu caminho.
 
Fui-me apercebendo, também, que não havia racismo digno desse nome. A segregação era essencialmente económica.
Um caso curioso e que atesta bem a forma de sentir e pensar dos nativos foi-me contado da seguinte forma: um operário negro (que eu cheguei a conhecer), especializado, já de meia-idade e que trabalhava na reparação dos navios, vivia num musseque. Como ganhava razoavelmente, foi convencido pela gente da Armada e alugar um apartamento na zona de betão. Ele assim fez mas, ao fim de poucos meses saiu e regressou ao sítio onde estavam as suas origens e se sentia bem: o musseque.
Também me membro perfeitamente de ter visto pretos e branco a laborar juntos em obras de construção civil e outros trabalhos, e até a serem os mais escuros a darem ordens aos claros.
 
Mas, na manhã do dia 25 de Abril de 1974, estava eu em Luanda há cerca de dois meses e meio, soube-se que o Estado Novo, na versão Marcello Caetano, tinha sido derrubado. Tudo começou a mudar: ao princípio lentamente mas em 1975 os acontecimentos iriam precipitar-se de forma dramática.
Entretanto o navio começou a navegar e fizemos os monótonos cruzeiros (assim chamávamos às missões no oceano) ao norte, até Cabinda ou ao Zaire, nos quais o mar de vaga morta propiciava um certo mal-estar físico, embora eu nunca tivesse enjoado, e os interessantíssimos cruzeiros ao sul, com paragem habitual em Porto Amboim, Lobito, Moçâmedes e Porto Alexandre.
No início de Julho fomos para S. Tomé e quando regressamos, em meados de Setembro, já o comandante do navio não era o Silva Dias que voltara ao continente com a sua mulher francesa, a bela Jacqueline, terminada que fora a sua comissão de serviço, mas sim o 1º tenente Nunes Ferreira, tipo bastante mais simples e modesto que o seu antecessor.
Diga-se que sempre tive boas relações com ambos e também com o imediato Ribeiro e Castro.
De novo em Luanda, cada vez tentávamos acompanhar melhor o desenrolar dos acontecimentos na Metrópole, nomeadamente pela leitura dos jornais “A Província de Angola” e “O Diário de Luanda”, mais o primeiro, e do semanário “Expresso” que ia do continente.
Mas a situação nas colónias, nomeadamente em Angola, também era alvo das nossas atenções.
As autoridades de Lisboa, ocupadas com os imensos problemas gerados pela revolução que se desenrolava no Portugal europeu, iam menosprezando o que se passava nas colónias, mau grado os avisos do então major Pezarat Correia, o coordenador do Movimento das Forças Armadas (MFA) em Angola. O Eng.º Santos e Castro e o Secretário-Geral do Governo de Angola, o militar Soares Carneiro, que viria a ser candidato a presidente da República portuguesa em 1980, saíram em Maio, sendo a posição de topo ocupada por Franco Pinheiro, também militar do Exército. Em Junho foi nomeado para o posto máximo na colónia o general Silvino Silvério Marques que mal aqueceu o lugar pois estava em notória oposição com o MFA. Em Julho foi colocado no topo da pirâmide o Almirante Rosa Coutinho que ficou até Janeiro de 1975, altura dos acordos do Alvor que, supostamente, teriam gerado um clima de entendimento entre os três movimentos de libertação.
O Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), enfraquecido pela guerra e pelas divisões causadas por Daniel Chipenda (revolta de Leste) e Mário Pinto de Andrade (revolta activa, facção intelectual, não armada), continuava a ser liderado pelo Dr. Agostinho Neto (médico, casado com uma branca de nome Vitória) e era considerado por muitos como sendo o que tinha melhores quadros, apesar da sua ideologia pro-comunista. Rosa Coutinho encarregou-se de dar uma preciosa ajuda para a sua reabilitação. Curiosamente, o dia 4 de Fevereiro de 1961 (exactamente treze anos antes de eu ter voado para Luanda) era, e é, considerada a data oficial do início da luta de guerrilha pois assinala a primeira acção armada, levada a cabo precisamente pelo MPLA.
A Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA), descendente da União dos Povos de Angola (UPA) que tinha iniciado uma vaga de massacres no norte da colónia em 1961 a qual motivara o envio massivo de tropas para Angola, era liderada por um indivíduo que mal falava português, Holden Roberto, e parecia não ter uma ideologia bem definida, mas caracterizava-se por ser, acima de tudo, um grupo militar.
A União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA), chefiado por um hábil político chamado Jonas Malheiro Savimbi (dissidente da FNLA), parece ter surgido na luta em 1966 por inspiração das autoridades lusitanas e com o objectivo secreto de combater o MPLA.
Enquanto se iam formando e derrubando governos e iam decorrendo negociações e mais negociações, os homens dos movimentos de libertação, fortemente armados, foram ocupando zonas no território angolano perante a passividade da soldadesca portuguesa para quem o 25 de Abril significava, acima de tudo, o fim da guerra. Este facto foi, na minha opinião, a razão porque a descolonização não poderia ter sido feita de modo muito diferente. Um lado estava armado e o outro, na prática, desarmado.
Em Luanda, a população branca, que manifestava a intenção de não abandonar o território, ia-se alinhando de forma mais ou menos explicita com os movimentos de libertação: os mais ricos com a FNLA, a média burguesia mais direitista com a UNITA, a gente de esquerda com o MPLA.
Sobretudo depois dos acordos do Alvor e de o general da Força Aérea Silva Cardoso ter assumido as funções de alto-comissário, grupos armados dos três grupos que reivindicavam cada um para si os maiores contributos para a independência, cuja declaração já estava aprazada para o dia 11 de Novembro de 1975, infiltraram-se na cidade e foram abrindo delegações, especialmente nos musseques.
E foi aí que, aos poucos mas de forma imparável, começou a guerra civil.
As populações negras, de várias etnias, viram-se forçadas a deixar Luanda pois a situação activou, de forma notória, os ódios tribais. Como a etnia predominante na zona eram os quimbundos, aos quais o MPLA estava umbilicalmente ligado, os apoiantes deste movimento eram os que iam ficando na cidade. Lembro-me de ter ido, numa altura em que os navios já não faziam patrulhas, como navegador de um navio mercante comandado por um oficial da Armada levar centenas de pessoas, das etnias do norte, em fuga para Santo António do Zaire. Até uma criança nasceu a bordo durante a viagem.
As populações brancas, que não foram molestadas, salvo casos pontuais, viram-se envolvidas pelo fogo cruzado dos tiroteios que, muitas vezes, saíam dos bairros negros e vinham para o asfalto. E o pânico apossou-se da maior parte das pessoas que decidiram abandonar Luanda, procurando fugir para Portugal Continental, mas também para o Brasil e para a África do Sul que, ao tempo, ainda vivia em regime de apartheid.
Foi o tempo dos caixotes de madeira contendo os bens que era possível tentar transportar e da gigantesca ponte aérea. E as lutas e o pânico foram-se estendendo a todo o território angolano.                


publicado por António às 22:08
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Sexta-feira, 24 de Julho de 2009
A Luanda que eu conheci (parte I)

Passei o cinzento dia 4 de Fevereiro de 1974 em Lisboa com os meus pais.

Cerca de um ano antes tinha entrado como aluno na Escola Naval onde, durante seis meses, frequentei o 22º Curso de Formação de Oficiais da Reserva Naval (CFORN), classe de marinha, tendo andado também pelos Grupos 1 e 2 de Escolas da Armada. Fiz ainda uma viagem de instrução a bordo de uma fragata, tive férias e fui colocado no patrulha NRP “Maio” (NRP significa Navio da República Portuguesa), estacionado na Base Naval do Alfeite, até receber a guia de marcha para o navio patrulha NRP “Rovuma”, colocado na Base Naval de Luanda.
Os oficiais da Reserva Naval eram os milicianos da Armada, note-se.
Os meus pais fizeram questão de ir à capital despedir-se de mim, o que aconteceu quando embarquei para um avião da TAP, perto da meia-noite, que voou sobre o Atlântico pois os aparelhos de bandeira portuguesa estavam proibidos de sobrevoar terras de África devido à guerra colonial que agora me chamava e ao ostracismo internacional a que, por isso, era votado Portugal.
 
Bem cedo, na manhã seguinte, e depois de ter passado toda a noite sem dormir sequer uns míseros cinco minutos, o avião pousou na pista do aeroporto da capital de Angola.
Quando me aproximei da porta para sair senti uma tremenda baforada de ar quente que me fez ter a certeza que não estava na Europa.
À minha espera estavam dois amigos da Faculdade: o Alberto Sereno, que exercia funções como oficial ajudante de ordens do Comandante Naval de Angola, ao tempo o almirante Henrique Silveira Borges, e a sua mulher, a Isabel. Eram ambos licenciados em Engenharia Química e tinham sido meus colegas de curso. O Sereno estava fardado e todo engalanado pois logo de seguida iria a uma cerimónia acompanhando o seu chefe.
Foi por isso que a Isabel se viu investida das funções de minha motorista e guia.
Como era muito cedo, andamos a percorrer Luanda de carro: embora estivéssemos na estação quente e das chuvas, a manhã estava cinzenta, mas quente e húmida.
Vi várias zonas da cidade do asfalto e do cimento, habitadas essencialmente por brancos e mestiços. Percorri importantes vias como as avenidas dos Combatentes da Grande Guerra, dos Restauradores de Angola e a bonita marginal (avenida Paulo Dias de Novais) que limitava a lindíssima baía de Luanda a leste, percorri toda a estrada da ilha do Cabo, fui ao largo da Mutamba e ao de Diogo Cão, junto da zona portuária no extremo norte da marginal, passei pela igreja da Sagrada Família e pelo estádio dos Coqueiros.
Mas também vi vários musseques, manchas de pobreza no interior ou na periferia da progressiva cidade que era Luanda naquela época, e habitados essencialmente por negros. O da Ilha, o Marçal, o Prenda, o Sambizanga, o Bairro Operário e outros nomes que me fui habituando a ouvir enquanto por lá estive. Os musseques eram um amontoado de pequenas habitações feitas de lata, madeira e barro, tendo tectos de Lusalite (fibrocimento), zinco, latão ou folhas de palmeira, com estreitas ruas de terra batida, sem água canalizada nem saneamento básico.
Confesso que fiquei com uma péssima impressão da cidade, mas não demorou muito tempo que começasse a encantar-me com aquele mundo, tão diferente daquele de onde eu vinha.
Na altura, Luanda tinha 600.000 habitantes e era a segunda cidade de Portugal depois de Lisboa. Em 2008 tinha cerca de 2.500.000.
 
Quando começou a aproximar-se a hora de me apresentar no navio do qual iria ser o 3º oficial, dirigimo-nos para a Messe dos Oficiais que ficava na longa a estreita ilha do Cabo que delimitava a baía de Luanda a sul. Essa magnífica zona de hospedagem ficava anexa à Base Naval de Luanda com os seus navios patrulha, lanchas de fiscalização grandes e lanchas de desembarque grandes e da zona de manutenção e reparação desses vasos de guerra que fiscalizavam a costa e faziam transporte para outros pontos de Angola, inclusivamente para Santo António do Zaire, já nas margens desse enorme e caudaloso rio que servia de fronteira norte da colónia (ou, como então se chamava, província ultramarina). A Messe dos Sargentos também ficava ali pertinho, bem como uma pequena zona desportiva.
Depois de arrumar os meus pertences na única camarata (tudo o mais eram quartos) da Messe, a qual dispunha de quatro beliches duplos e vários armários e onde me mantive até ao fim da comissão de serviço, dirigi-me ao Rovuma. O oficial imediato, Fernando Ribeiro e Castro, um jovem guarda-marinha de carreira que era filho do Governador-Geral da colónia, Eng.º Santos e Castro, tinha ido a Cabinda pelo que fui conduzido à câmara onde estava o comandante, capitão-tenente José Manuel da Silva Dias, por um sargento. Cumpridas as formalidades da praxe e antes de me mandar embora para descansar da viagem e voltar depois de almoço, ouviu-se um burburinho. O Silva Dias levantou-se, foi para bombordo e eu segui-o. Atendendo à indicação de um marinheiro olhamos para a água: a uns dois metros do casco do navio estava a boiar de borco o cadáver nu de um menino negro que, ao que disseram, tinha desaparecido no dia anterior.
- Isto começa mal! – disse para comigo.
Como o “meu” patrulha estava atracado para fazer algumas reparações que duraram umas semanas, fui tendo oportunidade de conhecer os membros da guarnição e, na Messe, muitos dos oficiais que lá estavam instalados ou, simplesmente, lá tomavam as refeições, aliás muito boas. E um comprimido contra o paludismo não faltava.
 
Como não tinha carro, durante esse primeiros tempos, não saí muito. Só quando tinha boleia ou, algumas vezes, usando o machimbombo, que não era senão o nome que davam ao autocarro e que me levava ao largo da Mutamba, no coração da cidade. Poucos eram os brancos que o utilizavam, pelo que, quer pelo calor, quer pela falta de higiene, quer pela natureza do suor dos viajantes negros, o chamado cheiro a catinga era muito intenso. Mas eu até gostava! Assim sentia-me mais em África. Outras vezes ia para a praia: ou para uma que ficava junto da Base, do outro lado da estrada e na parte exterior da baía ou, quando tinha boleia, para a Barracuda, que era a mais frequentada, ficava quasi no extremo da ilha do Cabo e era complementada por um frequentado bar. Também íamos, por vezes, comer um gelado à Versalhes ou à Pólo Norte, na avenida Salvador Correia.
Outro destino era a encantadora ilha do Mussulo que ficava um pouco a sul de Luanda e era local obrigatório para muita gente visitar nos fins-de-semana, tendo eu passado parte da tarde de um domingo com o Silva Dias a percorrer o mar circundante dentro de uma pequena lancha motorizada por mero prazer lúdico.
A zona do Cacuaco onde ficava a refinaria de petróleo, e que limitava a baía a norte, também era visitada, mais raramente.
E a localidade de Viana, mais para o interior, também.
Por vezes ficava a ler, a dormir ou a jogar ténis.
À noite, umas vezes íamos dançar (ou ver dançar) o merengue nos rebita, dança e bailes nas zonas dos bairros negros.
Outras vezes íamos ao cinema: lembro-me de ter visto o Jesus Christ Superstar no Miramar, um cinema ao ar livre mas com uma cobertura por causa das chuvadas tropicais, que ficava numa zona alta e rica. Mas havia também o Colonial, o Tropical, o Aviz, o Restauração e outros.
Em diversas ocasiões íamos beber um copo ou ver um espectáculo a casas nocturnas como a Gruta, ou o Tamar na restinga, mesmo à entrada da ilha, à esquerda. À direita ficava o fino Iate Clube. No interior da cidade havia, por exemplo, o Maxime ou o Copacabana.
A ilha do Cabo era separada da parte continental por uma estreita faixa de água atravessada por uma ponte. Imediatamente antes da ponte e do lado da cidade, à esquerda, erguia-se a antiga Fortaleza de S. Miguel.
Mas, o que se repetia noite após noite eram as cavaqueiras, com um copo de whisky com gelo na mesa e a apanhar um ar mais fresco junto da vasta sala do bar da Messe.
Dentro desta havia um certo distanciamento entre os oficiais do quadro e os milicianos. Era com estes que eu mais convivia e quero destacar o Max (António Rodrigues Maximiano), jurista do Comando Naval, divorciado e que estava lá sozinho, como a maioria, aliás. Um tipo brilhante e de uma vivacidade impressionante era, de certa forma, o líder. Infelizmente faleceu em 2008 somente com 61anos de idade. Mas havia o Alberto Sereno e a Isabel, o Luis Cunha e Melo e a Beatriz, o Barreiros Antunes, o João Távora, o Neves Gomes, o Luis Vieira Ferreira, o Emílio da Mata Pereira (que viria a casar com uma filha do Comandante Olgário Borges, chefe da Base Naval), o Manuel José Lima sempre com a mãe viúva, o Craveiro Duarte e a mulher, o Galhardas Vermelho, o Costa e Silva e a Carolina, o Siragusa Leal, médico, o Rui Ferreira Marques que estava numa fragata, o Nogueira Soares, o Zulmiro Barbosa, o José António Sarsfield Cabral, o Henrique Gomes e a mulher algarvia, o Pescaria Costa, o Vilela Bouça e outros mais. A esmagadora maioria estavam em navios. Obviamente que nem todos estiveram lá ao mesmo tempo. Uns acabavam o seu tempo e regressavam a Portugal indo outros substituí-los. Alguns dos referidos eram os comandantes de lanchas de fiscalização pequenas, em Cabinda ou em Santo António do Zaire, que lá iam para trabalhos de manutenção e reparação das suas unidades navais. Mas também havias os engenheiros da reparação naval e os camaradas da administração, bem como alguns oficiais fuzileiros (como o referido Lima).
Entre todos, lembro-me de um 1º tenente bastante mais velho do que os outros pois, sendo do quadro, não fora aluno da Escola Naval mas começara como grumete. Era dos chamados oficiais do serviço geral. Acho que tinha o nome de Santos. Pois uma vez ele foi dormir três ou quatro noites para a camarata. Mas o homem ressonava de tal modo alto e de forma continuada que eu mal consegui dormir durante essas noites. Vingava-me ao fim da tarde. Que felicidade quando ele voltou para o seu quarto…               


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Quinta-feira, 16 de Julho de 2009
As "sopeiras"

Na geração dos meus pais, e outras anteriores, as pessoas dos vários níveis da burguesia tinham, normalmente, uma empregada interna que fazia grande parte parte dos serviços domésticos, muitas vezes com a colaboração da patroa que, não tendo uma profissão remunerada, orientava os trabalhos da casa e cuidava dos filhos e do marido que era o único a trazer dinheiro para o lar.

As excepções a esta regra só a confirmam.
Oficiosamente, a profissão das “donas-de-casa”, assim se chamavam as patroas, era a de “domésticas”.
Por outro lado, as empregadas, normalmente raparigas novas, solteiras, pouco letradas ou mesmo analfabetas, provinham maioritariamente de famílias rurais pobres.
Eram chamadas de “criadas”. Mais tarde passaram a ser conhecidas como “empregadas domésticas”. Recebiam ao mês, sem recibo nem qualquer tipo de descontos. Algumas passavam a vida inteira a servir os mesmos senhores e até os filhos destes, mas a maioria acabava por casar ou ir viver maritalmente com o seu amor, mas fixando-se nas cidades.
Pois eram as criadas que, na gíria, eram conhecidas como “sopeiras”.
Nos anos 60 começou a impor-se um outro tipo de serviço doméstico: o das “mulheres-a-dias”, que eram empregadas externas que viviam, logicamente, fora da casa dos patrões, casadas e, na maioria dos casos, tinham sido criadas.
A folga das sopeiras era, geralmente, ao domingo de tarde e as mais afoitas saíam sozinhas e iam para parques e jardins (o do Marquês de Pombal, no coração da urbe portuense, era o mais popular) onde apareciam os “magalas”, jovens soldados que estavam estacionados em quartéis da cidade ou sua periferia e muitos eram também de origem rural e pobre. Lá se engatavam e muitos casamentos daí surgiram. Claro que também apareciam os mariolas que seduziam e abandonavam as moçoilas, muitas vezes já no seu estado interessante.
Outra praga que recaía sobre as jovens recém-entradas na vida cosmopolita das cidades eram os filhos dos patrões que muitas vezes perdiam com elas a virgindade. Estas histórias acabavam muitas vezes num obscuro quarto onde uma qualquer “parteira” fazia o desmancho que encobria a incómoda situação para a família burguesa.
 
Nas casas onde habitaram os meus pais, primeiro uma muito pequena na Rua de Oliveira Monteiro (ao Carvalhido) com o número 1015, e a partir dos meus sete anos numa outra situada nas Antas, muito perto do antigo estádio com o mesmo nome, na Rua de Vasques de Mesquita, sendo o número do correio o 232, ambas arrendadas e hoje já demolidas (a primeira situava-se onde hoje se cruzam a Rua de Oliveira Monteiro com a da Constituição) …
 
Faço uma pausa no que ia escrever pois, já que estou com a mão na massa, como sói dizer-se, vou referir alguns pormenores dessas habitações.
A primeira tinha uma porta e uma janela viradas para rua, um corredor longitudinal que terminava na cozinha que tinha ainda fogão a lenha. Depois, à esquerda havia a sala de jantar com uma janela virada para uns vastos campos nas traseiras e à direita um pequeno terraço com acesso à casa de banho e a uma escada de pedra, larga, que descia para um quintal empedrado e com 3 ou 4 níveis de pavimento. Ao fundo havia um portão que dava para a rua mas nunca era utilizado. À direita do fundo das escadas abria-se uma porta que permitia a entrada para uma cave que funcionava como espaço para arrumos e onde, apesar dos ratos, aranhas e outra bicharada, dormia a criada e algumas visitas, coitadas! Nem eu nem a minha irmã lá íamos sozinhos pois o seu aspecto lúgubre atemorizava-nos.
Ao entrar na habitação e logo no início do corredor, à esquerda, ficava o quarto dos meus pais com um espaço interior separado onde eu dormia e o meu pai improvisara um escritório. A mana Fernanda dormia no quarto dos papás que era o que tinha a única janela que estava virada para a rua barulhenta, especialmente quando passava um carro eléctrico da linha 6.
Com estas péssimas condições, e depois de eu fazer a 1ª classe na escola do Carvalhido, mudamos.
E que salto qualitativo!
A casa das Antas ficava numa rua sem saída pelo que não havia nenhum tráfego automóvel ao contrário da casa velha, como passamos a chamar à de Oliveira Monteiro. Tinha dois pisos e um pequeno quintal traseiro.
A entrada era larga e com pavimento de azulejo. Depois havia um hall, uma sala com dois compartimentos, um que era o escritório do pai, ao fundo, com uma janela para a rua, e um outro a que chamávamos a sala do piano pois nele estava colocado um desses instrumentos musicais e tinha um grande postigo aberto para o exterior com um gradeamento do lado de fora. Na zona recuada desse primeiro piso havia uma sala de jantar ligada ao hall por uma larga porta envidraçada e ao jardim por uma outra porta também muito rasgada. Uma dispensa, interior, uma cozinha e uns pequenos lavabos eram os outros compartimentos. Era na cozinha que estava a porta que utilizávamos para ir para o quintal. Este tinha uns canteiros que eram arranjados de tempos a tempos pelo Sr. Moreira, um velhote que vivia perto, um galinheiro, uma ameixieira que só dava frutos a cada dois anos e que os pais acabaram por mandar derrubar para tornar mais soalheiro esse espaço.
No andar superior havia dois quartos virados para a frente: o do casal, que tinha uma varanda e o da Nanda; e dois para as traseiras: o meu e o da empregada. Este funcionava também como local para costurar e passar a roupa a ferro. Os três tinham janelas. Agora, e ao contrário da casa velha, todas elas tinham persiana. No meio ficava o quarto de banho iluminado por uma clarabóia, sendo que era uma segunda abertura dessas que deixava a luz do dia iluminar as escadas. Estas nasciam no hall e terminavam num espaço comum do andar superior.
E penso que agora já se percebe que o tal salto qualitativo resultante da mudança de casa foi enorme.
Em frente à casa havia um enorme espaço cheio de pinheiros e eucaliptos.
Que pureza de ar!
 
Depois desta longa e chata descrição, voltemos ao ponto em que eu escrevia:
 
Nas casas onde habitaram os meus pais, sempre houve uma criada que ajudava a dona-de-casa, a minha mãe. Lembro-me de algumas das muitas que connosco viveram. A Rosa, a Maria Júlia, a Alice, a Tina, a Deolinda, a Arlete, uma outra Júlia, não sei quantas Marias e muitas outras cujo nome não recordo, mas de algumas ainda lembro as feições e as características físicas. Uma delas, depois de nos deixar, tornou-se corista em revistas do Parque Mayer, em Lisboa.
Como eu era tímido mas com uma libidus bastante intensa, algumas delas não deixavam de me excitar, mas os meus pais eram cautelosos e não permitiam que se criassem situações que dessem azo a problemas.
Até que, teria eu os meus dezasseis anos, descobri que por volta das onze da noite, numa casa das traseiras, a criada que lá trabalhava se ia deitar sem ter o cuidado de tapar os vidros da janela. E como se despia toda, eu tinha ali um show de strip-tease nas noites em que podia pôr-me a espreitar.
Muitas vezes, quando o tempo estava convidativo, os meus pais iam dar um passeio a pé, o chamado passeio dos tristes, depois de jantar. Umas vezes demoravam pouco mais de meia hora, outras mais tempo. Às vezes calhava de encontrarem pessoas conhecidas e regressavam mais tarde.
Uma vez, estava eu com a luz apagada e ver a sopeira da vizinha toda descascada, quando me apercebi que os velhotes já estavam a subir as escadas.
Meti-me na cama, ofegante, acendi a luz da mesa-de-cabeceira e peguei em qualquer coisa que estava à mão para simular que estava a mexer nisso.
O meu pai entrou no quarto e perguntou-me se estava tudo bem. Eu respondi a gaguejar, a respirar mal e com o olhar muito fixo. Além do mais, temia que ele fosse junto da janela e visse a acalorada rapariga descobrindo assim o meu segredo erótico.
Quando saiu, ouvi-o dizer à minha mãe:
- Passou-se alguma coisa de estranho!
Mas o que pensaram foi que algo tivesse ocorrido entre mim e a criada, uma moça que tinha uma pancada na cabeça e que gostava muito de mostrar as coxas.
Esta cena foi importante porque marcou uma viragem: não demorou muito tempo que a sopeira fosse embora e, a partir daí, começaram a contratar mulheres-a-dias.
Entretanto, a empregada da vizinha também desapareceu, eu cresci, comecei a sair à noite e as sopeiras passaram a ser uma recordação da infância e de parte da adolescência.
Todavia, não posso terminar sem referir que algumas delas foram marcantes pela dedicação a toda a família e chegaram a ser tratadas quasi como se fizessem parte dela.
Um nome a destacar: Alice.


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