Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças!
Segunda-feira, 8 de Outubro de 2007
O rapto (parte I)
Numa rua rasgada há cinco ou seis anos na zona periférica e ainda muito rural duma cidade do interior, apenas umas moradias novas, nem todas habitadas, contrastavam com os campos, baldios, silvedos e lotes de terreno que predominavam.
Tinham sido plantadas umas árvores que ainda não eram suficientemente crescidas para darem uma sombra capaz e muito menos nesta época invernosa em que deixavam ver somente os troncos e os galhos desfolhados.
Um carro preto de gama baixa estava estacionado junto ao passeio.
Chovia, mas podiam-se ver dois vultos lá dentro. Ambos no banco traseiro.
Da escola primária do plano centenário que ficava situada numa antiga artéria donde nascia a rua das moradias saíram muitas crianças. Umas entraram em viaturas que as esperavam, outras quedaram-se na porta, outras avançaram a pé para o seu destino. Só um rapazito da segunda classe, bem protegido contra a intempérie, andou uns cem metros e depois virou à direita pela rua nova. Bastava-lhe andar mais uns duzentos metros e estaria em casa onde o esperava a empregada Eulália.
Pouco passava das cinco e meia da tarde e a noite começava a cair.
Viu o carro preto que, ao aproximar-se, identificou como um Volkswagen Polo. Quando estava a passar por ele, subitamente abriram-se ambas as portas traseiras. Dois indivíduos vestindo longas gabardinas com capuz precipitaram-se sobre a criança, num ápice adormeceram-na com éter e meteram-na no banco de trás. Uma das estranhas personagens entrou para lá, o outro torneou o automóvel e, sentando-se ao volante arrancou devagar, fez inversão de marcha pois a rua nova ainda só tinha uma entrada, e guiou calmamente pela estrada empedrada e estreita da escola seguindo depois por outras vias com o mesmo enquadramento rural mas afastando-se sempre da zona citadina.
Percorreu poucos quilómetros por estradas em paralelo até parar numa zona descampada:
- Vou tirar os panos que estão a tapar as matrículas – disse o condutor.
Assim fez e lançou os trapos para um ribeiro que a chuva tornara mais caudaloso.
Depois abriu a porta traseira do seu lado, entrou, e os dois amarraram o jovem ainda adormecido, taparam-lhe a boca com adesivo industrial, certificaram-se de que respirava bem pelo nariz, vendaram-lhe os olhos e o condutor retirou da cabeça um pedaço de meia de senhora com o qual se mascarara. O cúmplice fez o mesmo. Guardaram-nos num bolso dos capotes.
- Agora vamos para o local – falou de novo o chefe.
Passados alguns quilómetros saíram das estradas empedradas, andaram uns quinhentos metros por uma de terra batida e lamacenta que mais parecia uma picada e, numa zona arborizada, pararam junto de um casebre. Os faróis já estavam acesos e a vítima desperta.
Saíram os três, entraram na cabana e depois de acenderem um candeeiro a petróleo deitaram a criança num colchão, bem amarrada, mas de modo que poderia alimentar-se pelas suas próprias mãos, pois só os pulsos estavam presos. Os pés estavam atados entre si e a uma forte estaca vertical.
Colocaram de novo as meias na cabeça e retiraram a venda do rapazito.
Destaparam-lhe a boca para ele comer mas a vítima começou aos berros.
Levou uma valente bofetada e ouviu:
- Ó miúdo! Tu come e está calado! Só estarás aqui o tempo necessário para que o teu pai nos dê o dinheiro que lhe vamos pedir. Mas porta-te bem, porque senão nós podemos ser muito maus para ti, ouviste? – ameaçou uma voz de homem um pouco distorcida pela meia.
O mocito, feio que era, tinha os olhos muito arregalados e pareceu perceber pois comeu e bebeu sem dizer mais nada.
No final, puseram-lhe as mãos atrás das costas, amarraram-no deitado com a cabeça um pouco elevada e amordaçaram-no, desta vez com um pano, mas deixando os olhos descobertos.
- Agora só vimos cá amanhã à noite. Se o teu pai se portar bem ficas aqui pouco tempo. Entretanto, se tiveres sede, tens estes copos de plástico junto ao colchão e podes beber pelas palhinhas – falou o líder.
E continuou:
- Dorme e até amanhã!
Apagaram o candeeiro, saíram, tiraram novamente as máscaras improvisadas, removeram as luvas que tinham mantido sempre calçadas e, devagar, foram embora.
 
Já eram seis menos dez quando a Eulália, cinquenta anos envelhecidos, baixa, gorda, feia e abandonada pelo homem, estando preocupada com o atraso do petiz resolveu ir à escola ver se o Tiago lá estava.
Voltou ainda mais aflita e decidiu telefonar para a agência de viagens de que eram proprietários os pais do miúdo, Jaime e Zulmira Campelo.
Atendeu uma jovem empregada, a Catarina.
- Menina! Sou a empregada dos senhores. Queria falar urgentemente com o senhor Campelo – falou num tom que deixou a jovem apreensiva.
Esta fez um sinal para o patrão de que ía transferir a chamada enquanto dizia que era a empregada lá de casa.
- Está? Há algum problema, Eulália?
- Há, senhor Campelo! O menino Tiago ainda não apareceu.
E contou o que se passara.
- Vamos para aí de seguida. Até já!
Desligou e quasi berrou para a mulher:
- Ó Zulmira! O Tiago ainda não chegou a casa. Vamos ver o que se passa.
E virando-se para o Eurico Pereira, seu empregado e meio-irmão, ordenou:
- Tu ficas a tomar conta da firma como de costume.
Quasi de seguida saiu com a mulher deixando para trás um:
- Até amanhã!
Além do proprietário, da sua mulher e do meio-irmão, trabalhavam na empresa e assistiram a toda a cena, a Sandra Maciel, vinte e sete anos, estatura média, não propriamente bonita mas elegante e com um sorriso largo que permitia ver uns dentes esplendorosos e os muito jovens Paulo Nogueira, de origem modesta e apaixonado pela colega Catarina Sousa, de família com boas posses, alta, loira e bonita. Tinha um namorado do mesmo estrato social. O Paulo nem namorada tinha, sempre na esperança de que acabaria por encantar a jovem colega de trabalho.
O enigmático desaparecimento do Tiago foi o tema da conversa até todos saírem e o Eurico fechar o estabelecimento.


publicado por António às 14:15
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42 comentários:
De Paula Raposo a 8 de Outubro de 2007 às 19:28
Um policial do qual fico à espera da continuação. Beijos.


De António a 8 de Outubro de 2007 às 19:57
Obrigado pelo comentário, Paulinha!
A história tem sete partes...é só para teres uma noção da fase em que está.

Beijinhos


De Maria Papoila a 9 de Outubro de 2007 às 16:35
António:
Fiquei presa à história desde o início. Venho ler a sua continuação. Gostei do mistério e suspense que lhe deste.
Beijos


De António a 9 de Outubro de 2007 às 17:50
Querida Papoila!
Obrigado pelo teu comentário.
Vamos ver se esta história pretensamente policial será do teu agrado, no final.
Pessoalmente, não a acho grande coisa...

Beijinhos


De Peter15 a 9 de Outubro de 2007 às 22:50
Vamos ver o que aconteceu ao Tiago, mas mais "desaparecimento de crianças" não.
Há "casos" que me fazem muita confusão.


De António a 9 de Outubro de 2007 às 22:59
Olá!
Mas olha que o meu caso é diferente!

Obrigado pelo comentário


De sophiamar a 10 de Outubro de 2007 às 15:07
Uma história que ainda agora começou e já me impressionou bastante. Qualquer tipo de sofrimento é suficiente para me deixar emocionada e preocupada. Sei que tudo isto não passa de uma história mas pode muito bem ser real. Haverá alguém capaz de infligir um sofrimento destes numa criança? Claro que há pelo que temos ouvido nos últimos tempos.
Continuarei a ler-te com o entusiasmo de sempre. Assim continues tu a escrever. Já sabes que este é um dos meus cantos preferidos. Força, António Poirot!
Beijinhos querido amigo.


De António a 10 de Outubro de 2007 às 18:46
Olá, Isabel!
Obrigado pelo teu comentário.

Vou aproveitar para desabafar um pouco:
Mais de 48 horas depois de ter postado esta primeira parte, verifico que só 4 pessoas fizeram comentários.
Isto vem reforçar a ideia que em mim tem germinado de que as pessoas começam a estar cansadas do que eu escrevo.
Vão longe os tempos em que em quatro dias eu tinha 40 ou 50 comentários.
Não postarei a parte II enquanto não tiver pelo menos 15 comentários, mas daqueles que demonstrem que as pessoas leram o texto.
E começo a pensar sériamente em deixar de escrever; pelo menos no blog.
Deixo-o aqui a marinar e quando me der na real veneta escrevo umas larachas.
Aprendi, ao longo dos anos, de que há um tempo para tudo.
Parece que o meu tempo como bloguista está a chegar ao fim.
Não terei dificuldades em arranjar outros desafios para as capacidades que ainda vou mantendo.
Desculpa o arrazoado mas começo a ficar mesmo farto disto.
O esforço que faço já não é recompensado materialmente; agora nem espiritualmente.

Beijinhos


De sophiamar a 10 de Outubro de 2007 às 19:04
Não desistas António, por favor! Há dias assim ! Se passares pelo meu blog aperceber-te-ás do meu estado de espírito. No entanto, como vês, passei pelo teu blog e comentei. Há amigos indispensáveis e tu és um deles.
Talvez o Outono esteja relacionado com a ausência das pessoas. É um período propício a um certo comportamento depressivo. Depois, há outros entretenimentos na net que tomam o tempo de quem por aqui anda.
Dentro de algum tempo, tudo melhorará.
Beijinhos e um abraço apertado.


De António a 10 de Outubro de 2007 às 19:48
Querida Isabel!
As tuas palavras são bem intencionadas mas eu há muito que venho notando esta tendência que não tenho dúvidas ser de saturação de quem lê.
Muita gente que se dizia meu leitor para além da morte, desapareceu.
Vou aguardar para ver no que isto dá!
Depois decidirei!
E quem sabe, em vez de escrever para o blog comece a adaptar coisas escritas e produzir outras para publicação em livro.
Não será este o caminho mais lógico e não o de andar aqui a postar coisas que dão um trabalhão e não tem o retorno que eu pretendo (com as devidas desculpas para quem lê)?

Beijinhos


De Betty a 10 de Outubro de 2007 às 18:44
Querido António

Gostei muito deste "Rapto" com ingredientes policiais e a envolvente das personagens por ti [re]criadas de um rigor que desde sempre nos habituaste

Beijo com carinho


De António a 10 de Outubro de 2007 às 19:04
Olá, querida Betty!
Que bom que tenhas regressado!
Obrigado pelo teu comentário a esta parte I e também pelas palavras que deixaste no Livro de Visitas da minha Homepage.

Beijinhos


De sophiamar a 10 de Outubro de 2007 às 19:07
Já pensaste em reanimar o teu anterior blogue? é mais fácil comentar!
Aceita a sugestão e vai postando os poemas que lês nos serões de Vermoim. Eu gostava!!!!

Mais beijinhos


De António a 10 de Outubro de 2007 às 19:58
O blogue anterior morreu!
Nem pensar em andar a escrever aos saltinhos.
Tudo isto tem uma sequência cronológica que não vou alterar.
Estou muito bem no Sapo.
Comentar aqui não tem nada de complicado para quem não tem blog do Sapo. Se tiver, até é muito mais fácil.
O problema não é esse!
Já pensei muito no assunto.
Este não é um blog de poesia nem de cópias.
É de prosas originais.
Não vou entrar em cedências de facilitismo.
Era fácil escrever sobre futebol, ou política, ou sobre a Maddie ou a Carolina Salgado e ter mais comentários. Ou colocar fotos de mulheres nuas.
Mas não é esse o meu caminho!

Beijinhos


De wind a 10 de Outubro de 2007 às 19:48
Começa bem a descrição do típico rapto de crianças. Aguardo continuação:)
Beijos


De António a 10 de Outubro de 2007 às 21:37
Querida Isabel!
Aguardas a continuação e ela chegará.
Obrigado pelo comentário.
Beijinhos


De poesiamgd a 11 de Outubro de 2007 às 15:46
Isto é o tipo de coisa que me arrepia! Oxalá o conto termine bem! Contigo nunca se sabe...
Um abraço


De António a 11 de Outubro de 2007 às 19:09
Olá, Goreti!
Arrepia-te mas não não és alérgica, pois não...eh eh.
Para saberes o fim ainda vais ter de esperar.
Estou a ver muito poucos comentários e se agora são poucos na 7ª parte não é nenhum.
Já tenho experiência de postar destas histórias mais ou menos longas.
Obrigado pela visita.

Beijinhos


De leonoreta a 11 de Outubro de 2007 às 20:43
desculpa, antonio, chegar tarde e a más horas.
excelente descrição num português aprimorado. excelente salto para outra acção paralela.
continua. força.
eu penso que se estamos a ser poucos no teu blog ainda continuamos a ser os mais fieis e, tenho a ousadia de falar em nome de todos, não o fazemos por obrigação mas porque gostamos de vir aqui.
beijinhos


De António a 11 de Outubro de 2007 às 21:18
Querida Leonor!
Não tens nada que pedir desculpa.
Eu sei que nunca falhas.
Ao fim de mais de 40 horas que este post está on-line e tu és o oitavo comentador.
Leste o que escrevi em resposta à Isabel de S. Brás de Alportel, não leste.
Pois cada vez estou mais determinado a deixar os blogs.
O meu tempo de bloguista está a chegar ao fim.
Provavelmente continuarei a escrever mas não para colocar na Net.
Vou pensar no assunto.
Por muita consideração que tu e os outros comentadores me mereçam, isto para mim é um vexame e um sinal que diz:
"Vai-te embora!"
E eu vou!
(mas vou mesmo; não é bluff)

Beijinhos


De leonoreta a 11 de Outubro de 2007 às 21:41
li agora o comentario por ti sugerido.
desculpa a frontalidade mas penso que exageras.
atribuo o teu desalento à entrada, embora solarenga, no outono. tomara eu ter a tua criatividade. nem as conversas que ouço nos barcos, nem os gestos dos namorados que eu observo, ora na paragem da camioneta, ora sentados na pastelaria me inspiram. a minha imaginação despediu-se nao sei por quanto tempo.
escrever para a escuridao de uma gaveta definha a alma. o blog é como uma montra. de vez em quando alguem para para ler. nao sei mais o que te dizer. sei que sou fraca em incentivos.
beijinhos


De António a 11 de Outubro de 2007 às 22:04
Minha grande e querida amiga Leonor!
Ao fim de dois anos e nove meses parece que chegou a altura de me meter na tal camisa de forças e ir tratar da minha vida para outras bandas.
Aqui, parece-me que já nada tenho a fazer.
Tudo tem um princípio, um meio e um fim.
Acho que o António bloguista vai acabar depois de postar esta história que já está toda escrita.

Beijinhos


De apps a 12 de Outubro de 2007 às 00:07
olá e adeus...estou com imenso trabalho e ainda nao tive oportunidade de ler a parte I da tua novela policial... prometo um comentário (à lupa) no fim-de-semana, ok? beijo beijo e beijo *prima ap


De António a 12 de Outubro de 2007 às 00:21
Oi prima!
Cá te espero.

Beijinhos


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