Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças!
Quarta-feira, 17 de Outubro de 2007
O rapto (parte III)
A noite foi de insónia para muita gente: para o Tiago que só tarde e no escuro logrou sucumbir ao sono e à fadiga física e psicológica; para a mãe que cedo foi para a cama mas não conseguia pregar olho e de vez em quando se levantava para ir ver se o marido estava bem na sala onde, ora sentado ora deambulando, pensava na forma de ter o dinheiro todo preparado o mais depressa possível; ele mesmo se deitou tarde e teve de tomar uns comprimidos para dormir como o fizera cerca de uma hora antes a sua Zulmira; para o Morais que congeminava sobre a maneira de pôr em prática o que lera nos livros de Arthur Conan Doyle, Agatha Christie, Georges Simenon e outros; para o Eurico que ficara, naturalmente, perturbado; para a Eulália que molhou a travesseira com as lágrimas que verteu pelo seu menino; para os raptores, provavelmente...
Na manhã de terça-feira, enquanto o Jaime tratava de reunir o dinheiro para pagar o resgate, a mulher foi à escola para saber se alguém tinha visto o filhote. Ao fim de algum tempo regressou a casa pesarosa pois alguns alunos tinham-no visto virar para a rua nova...e mais não soube.
No caminho de regresso encontrou o vizinho Morais acocorado junto da berma do passeio.
- Bom dia, senhor Morais!
- Bom dia, D. Zulmira! Há alguma notícia?
- Venho agora da escola e ninguém o viu.
E contou-lhe tudo o que sabia, espicaçada pelo candidato a detective.
- Pois eu ando aqui a ver se encontro alguma coisa no chão que possa ter caído ao Tiago ou ao raptor. Eu diria antes, raptores, pois uma acção destas requer normalmente dois celerados, pelo menos.
- Muito obrigado pela sua colaboração! Agora vou a casa e depois para o escritório.
E despediram-se.
O António Morais continuou a sua pesquisa mas em vão. Andou mesmo a espreitar para o caminho entre o portão da vivenda do Campelo e a porta de entrada. Pensou:
- Se o teimoso do Jaime tivesse um cão ninguém poderia ter colocado a carta sem ser denunciado pelo animal. Mas ele diz que detesta bichos...
Quando reentrou em casa, elucubrou:
- A maldita chuva limpou possíveis pegadas que o portador da carta tivesse deixado. Mas acho estranho que tenham vindo fazer esse serviço tão cedo. Podia ter sido o Eurico a trazê-la. Mas é irmão do Jaime, embora não simpatize muito com ele. Enfim! Todos devem ser considerados suspeitos...
E sentou-se, mas continuou a matutar:
- Ora vejamos! Penso que serão mais do que um, os raptores. E das duas uma: ou é gente conhecida, daqui ou de perto, ou gente de fora eventualmente lesada pelo Jaime e que agora se quer vingar. Se fosse gente de fora provavelmente teriam sido vistos a rondar a casa para estudar locais e movimentações; vou tirar a limpo se alguém viu algo suspeito, mas não me parece que alguém tenha visto movimentos estranhos em dias anteriores. Se for gente de cá...acho que vou seguir a pista do Eurico e ver até onde leva.
Pouco depois andava a falar com os vizinhos e ninguém se tinha apercebido do que quer que fosse de invulgar nos dias anteriores.
Depois foi a casa do Campelo e falou com a Eulália.
Esta também não se dera conta de nada nem ninguém nos dias que precederam o rapto.
- Ó D. Eulália! O Sr. Eurico vive só?
A mulher estranhou a pergunta mas respondeu:
- Vive só! Mas com a idade que tem deve ter alguma amásia.
- E não sabe quem é? – inquiriu o antigo bancário.
- Eu? Estou sempre aqui metida. Se alguém souber alguma coisa é a gente da agência.
- Vou lá! – pensou o homem.
Conversaram mais um bocadinho sobre o tempo que, nessa manhã, estava mais simpático, cinzento mas sem chuva, e pouco depois despediram-se.
O “detective” foi buscar o seu Mercedes negro e dirigiu-se para o centro da cidade.
Passados uns vinte minutos entrou na loja, coisa que ninguém estranhou pois fazia-o pelo menos uma vez por semana.
- Bom dia a todos!
- Bom dia, senhor Morais! – ouviram-se só duas ou três vozes.
Olhou e viu que só faltava o seu amigo Jaime. Apesar do mau feitio deste, o vizinho entendia-se bem com ele pois era um tipo calmo e paciente.
- Estou a ver que o Jaime anda a tratar do assunto – disse.
- Sim! – respondeu a mulher sem levantar os olhos da secretária.
Notava-se que não queriam falar no rapto ou em qualquer tema que lho fizesse recordar.
- Vou à casa de banho e venho já! – avisou o António Morais.
Uma vez lá dentro escreveu num pequeno papel:
“O Eurico anda com alguma mulher?”
Guardou-o e reentrou no open space. Dirigiu-se para a secretária do jovem Paulo e sentou-se, ao mesmo tempo que lhe colocava debaixo dos olhos o papel em que acabara de escrever e perguntou:
- Então sempre vai passar uma férias de inverno aos montes Cantábricos?
- Se tudo correr bem espero fazê-lo. Aproveito os bons preços que a agência me arranja! – respondeu o moço que tinha vinte e dois anos.
E embrenhou-se a escrever qualquer coisa.
Logo a seguir o papel estava de novo em frente do reformado que leu:
“Anda com a Sandra, mas escondido do Sr. Jaime porque este não gosta que os empregados namorem uns com os outros”
Aproveitando o silêncio reinante o visitante falou para a Sandra:
- Então, Sandrinha! Como está a sua família? Os seus pais e a sua irmã?
- Estão todos bem! Mas eu não tenho irmã. Tenho um irmão: o Bruno.
- Ah...como está a minha cabeça! E que faz ele que também não me lembro?
- Trabalha numa agência imobiliária – respondeu descontraídamente a rapariga.
- E já é casado? Ora! Desculpe a minha curiosidade! Não responda para eu aprender a não ser metediço – procurou jogar o Morais.
- Não faz mal! Esteja à vontade! Ainda é solteiro mas vive com a namorada. E se quiser saber tem mais dois anos do que eu: vinte e nove
- Agora a juventude prefere co-habitar a casar. Se calhar é o que fazem de melhor.
Depois voltou-se para a jovem Catarina:
- E com a sua família também está tudo bem? Também vai co-habitar?
- Está sim, senhor Morais! – respondeu a linda jovenzinha.
E concluiu:
- Eu espero casar! Mas ainda só tenho vinte anos.
E a conversa acabou porque o Eurico propôs:
- Vamos almoçar?                   


publicado por António às 14:00
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32 comentários:
De apps a 17 de Outubro de 2007 às 20:13
Boa ideia, jantar talvez!

Já tens a história toda escrita,... V partes??? Ainda está muito no início, hum, e eu que até gosto de dar palpites... hum, venha a IV! Beijossssss *ap


De António a 17 de Outubro de 2007 às 21:24
Olá, prima!
Não são 5 mas 7 partes!
Agora vai começando a aquecer...
Pelo menos foi essa a minha intenção.

Beijinhos


De wind a 17 de Outubro de 2007 às 21:39
Gostei deste "detective" e dos passos que deu e já quase adivinho quem fez o rapto:)
Veremos se tenho razão:)
Beijos


De António a 17 de Outubro de 2007 às 21:51
Querida "detective" Isabel!
Então diz lá qual o teu palpite...

Beijinhos


De wind a 17 de Outubro de 2007 às 22:12
Não, porque posso estar enganada.lololol
Mas mesmo estando enganada se este fosse o penúltomo "episódio" apostava no Bruuno:)
Beijos


De António a 17 de Outubro de 2007 às 23:18
Mas não é o penúltimo: é o 3º de 7.
O que não quer dizer que não tenhas razão...mas, como é normal, só no último é que os criminosos são descobertos...

Beijos


De Marta a 17 de Outubro de 2007 às 22:39
Ah grande morais! Admiro o homem a esforçar-se assim mas não será um bocado fora bda realidade? Geralmente a tarefa é da policia.

Venham os takes seguintes

besitus


De António a 17 de Outubro de 2007 às 23:22
Olá, Marta!
Obrigado pelo comentário.
No final eu explico-te porque o Morais se esforça tanto.
Se me esquecer lembra-me, ok?
Não é por acaso, nem tem a ver com a história.

Beijinhos


De Marta a 18 de Outubro de 2007 às 00:02
Hummm,tinhas de ter algo na manga ;)
Ok, eu aviso.

Besitos


De António a 18 de Outubro de 2007 às 00:11
Escrever um (pretenso) policial sem ter algo na manga é como ir para a praia, com 40º, sem fato de banho.
ihihihih

Beijos


De António a 18 de Outubro de 2007 às 00:14
Mas repito.
Essa questão não tem nada a ver com a história.
Mas acho melhor contá-la no fim.
Suspense!
ah ah ah

Mais beijos


De sophiamar a 17 de Outubro de 2007 às 22:53
E a história vai seguindo o seu rumo com muito interesse. Pormenores, mais pormenores e começa a haver por aqui alguma desconfiança. tu estás um verdadeiro policial. Sete episódios que nos vão dar que pensar até ao fim. já te conheço e sei que nos surpreendes sempre com o fim que dás às tuas histórias. não arrisco quem será o raptor.

beijinhosssssss


De António a 17 de Outubro de 2007 às 23:24
Olá, querida Isabel!
Obrigado pelo comentário.
Podes ir arriscando.
Assim, com os palpites de uns e outros, a coisa fica mais gira.

Beijinhos


De Paula Raposo a 18 de Outubro de 2007 às 09:59
Estou a gostar.


De António a 18 de Outubro de 2007 às 13:13
Olá, Paulinha!
Obrigado pelo comentário.
Ao fim da manhã um carro bateu-me por trás.
Os danos não são graves (é essencialmente chapa) mas dá sempre aquelas chatices que se sabe!

Beijinhos


De Maria Papoila a 18 de Outubro de 2007 às 21:34
Querido António:
O Morais está a fazer um bom trabalho de pesquisa, mas não achas que este +e um caso de polícia?
Estou a gostar deste policial.
Beijos


De António a 18 de Outubro de 2007 às 21:45
Querida Papoila!
Obrigado pelo comentário.
No final eu explico-te porque o Morais se dedica tanto ao assunto.
Se me esquecer...lembra-me, ok?
Não é por acaso, nem tem a ver com a história.

Beijinhos


De Cusco a 19 de Outubro de 2007 às 15:56
Olá! Continuo com o meu palpite inicial….O resgate já foi pedido!
Um abraço e um bom fim-de-semana.


De António a 19 de Outubro de 2007 às 18:01
Olá!
Obrigado pelo comentário.
Gosto que dêem palpites sobre quem está implicado no rapto.
Já há para o Eurico e para o Bruno.
Espero por mais!

Abraço


De leonoreta a 20 de Outubro de 2007 às 13:51
aquilo fou uma invençao de palavras a balda com o intuito de sentares dez minutós a beberes o cafe comigo.
tenho o corpo cheio do virus e eles sao mais poderosos que eu. sao uns iletrados, querem la saber das minhas veias poeticas.
impossivel ler o que escreveste agora. amanha quando muito ja estiverem na vala da morte.tentarei
beijinhos


De António a 20 de Outubro de 2007 às 14:52
As melhoras, Leonor!

Beijinhos


De Peter15 a 20 de Outubro de 2007 às 15:58
O Morais é um bom observador:

«Agora a juventude prefere co-habitar a casar. Se calhar é o que fazem de melhor.»


De António a 20 de Outubro de 2007 às 18:05
De novo, Peter?
Mas que surpresa!
Eu ainda não perdi as esperanças de co-habitar com uma viúva muito rica.
(nem é preciso casar)

Abraço


De António a 20 de Outubro de 2007 às 18:06
Ó Peter!
Afinal ainda não tinhas vindo cá.
Estou caquético de todo...ah ah ah


De Peter15 a 21 de Outubro de 2007 às 00:12
Não percebo o teu comentário:
"De novo, Peter?
Mas que surpresa!"

Parte I, comentada em 09 OUT às 22h50
Parte II, comentada em 16 OUT às 23h47
Parte III, comentada em 20 OUT às 18h05

Porquê o "De novo"?


De António a 21 de Outubro de 2007 às 08:09
Olá!

Foi lapso meu.
Pensava que já tinhas comentado este post mas ao confirmar verifiquei que estava enganado por isso logo fiz outro comentário que aqui transcrevo:

"Ó Peter!
Afinal ainda não tinhas vindo cá.
Estou caquético de todo...ah ah ah"

Percebido?

Abraço



De Peter15 a 21 de Outubro de 2007 às 10:03
Caquetico? Nem penses! Se estás caquetico, então o que farei eu?
Gostei da tua resposta à "bluegift" a quem me liga uma amizade virtual de 7 anos.
Sobre esses assuntos ela é que sabe, pois está no sítio certo e é o seu "métier" de há vários anos.

Bom domingo.


De António a 21 de Outubro de 2007 às 11:18
Bom!
Caquético pode ser um exagero.
Eu diria antes: meio-gagá.
ah ah ah

Abraço


De Caiê a 20 de Outubro de 2007 às 16:40
Esta história é longa... Por enquanto, vamos segundo faro a faro.


De António a 20 de Outubro de 2007 às 18:08
Olá, C.!
É o que eu chamo uma mini-blogonovela policial.
ah ah ah

Beijinhos


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