Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças!
Domingo, 21 de Outubro de 2007
O rapto (parte IV)
Enquanto todos saíam, o Morais fez um sinal ao Paulo.
Este ficou para trás e o mais velho disse-lhe:
- Vou precisar da sua ajuda por causa do rapto do Tiago. Alinha?
O jovem pensou um pouco e disse:
- Em princípio, sim! Mas queria saber que tipo de ajuda.
- Então diga-me o número do seu telemóvel, por favor. Logo à tarde vamos combinar um encontro para falar sobre o assunto.
O moço ditou e o António escreveu.
- Então bom apetite, Paulo! – despediu-se o “detective” – E não fale nisto a ninguém.
- Esteja descansado! Eu percebo que é uma situação que tem de ser tratada de forma muito discreta. Até logo! – respondeu o jovem, já excitado com a hipótese de ter uma aventura diferente do normal.
Eram umas quatro horas da tarde e o sol espreitava de vez em quando por entre as nuvens que ameaçavam chuva.
O Paulo Nogueira recebeu uma mensagem:
“Posso passar por sua casa logo às 21 para o apanhar?”
E escreveu:
“Sim. E vamos aonde?”
A resposta foi:
“Minha casa. Depois levo-o de volta. Diga-me seu endereço”
E o empregado da agência de viagens rematou:
“Combinado! Rua D. Manuel I, 110 1º Dtº”
 
Pouco passava das nove da noite e o Morais estacionou junto do prédio onde vivia o rapaz. Saiu e tocou à campainha.
Pelo intercomunicador ouviu:
- Quem é?
- António Morais para o Paulo.
- Um momento, por favor.
Logo de seguida outra voz disse:
- Já vou descer.
E em menos de quinze minutos estavam junto da casa do ex-bancário que enriquecera à custa da herança dos pais e de um tio rico e solteirão que tinham falecido.
- Quieto, Valente! – disse o anfitrião ao mesmo tempo que segurava um belo exemplar de boxer.
Dentro da moradia, o Morais apresentou o jovem à esposa:
- Este é o Paulo Nogueira que é também um fanático da literatura policial – mentiu o António.
- Pobre de si! Vai apanhar uma seca do meu marido – disse, sorrindo, a Anabela Leitão.
E concluiu:
- Prazer em conhecê-lo.
- Obrigado e igualmente – correspondeu o moço.
E a mulher informou virando-se para o companheiro, pois viviam maritalmente embora fossem ambos divorciados:
- Vou deixar-vos à vontade! Hoje houve muito trabalho no salão e depois de fazer umas arrumações vou-me deitar.
- Está bem, Bela! Eu depois vou levar o Paulo a casa. O Rui está cá? – quis saber o homem.
- Não! Já saiu! Boa noite!
- Boa noite! – respondeu o convidado.
- Até logo! – retorquiu o anfitrião.
Dirigiram-se para um escritório e o dono da casa falou:
- A Anabela é proprietária de um salão de cabeleireira. Podia não trabalhar e limitar-se a dar ordens. Mas gosta de o fazer. O Rui Manuel é filho do primeiro casamento da minha mulher. Eu também sou divorciado mas não tenho filhos.
E continuou:
- Mas isto foi só um intróito para conhecer a minha família. Vamos agora ao assunto.
- Estou pronto! – disse o rapaz.
- Eu gosto muito de investigação policial e leio não só romances mas tudo o que diz respeito a casos reais que me vem parar às mãos e ainda livros sobre teorias da investigação. Acontece que, depois do rapto do Tiago, achei que tinha uma boa oportunidade para tentar descobrir quem são os autores do crime. Não há grandes pistas mas, alguma coisa que não lhe digo por agora me fez seguir uma linha de investigação relacionada com os conhecimentos do seu colega Eurico Pereira. Por isso lhe perguntei se ele tinha alguma mulher. Pelos vistos é amante da Sandra, às escondidas. Também verifiquei, como pôde ouvir, que ela tem um irmão que trabalha numa imobiliária. Mas preciso de saber mais sobre a família da Sandra e do irmão. Onde vivem, onde trabalham, viaturas que tem, namoradas, etc. O mais possível!
- Está bem! Assim de repente não lhe posso dizer muito. Sei que a Sandra tem vinte e sete anos, vive com os pais e tem um só irmão, o Bruno.
Começou a trabalhar na agência cerca de um ano após a abertura, tinha só dezoito, salvo erro. Mas posso confirmar. Antes dela, só os patrões e o Eurico. Sobre o Bruno sei que tem vinte e nove anos, trabalha numa imobiliária, tem um Volkswagen Polo preto e namora com uma tal Sónia que é empregada de balcão numa loja de pronto-a-vestir. Penso que nenhum deles é rico. Vivem até com algumas dificuldades – dissertou o Paulo.
O Morais tomou apontamentos e depois disse:
- Muito bem! De qualquer modo, quando souber mais alguma coisa comunique comigo, está bem?
- Com certeza, senhor Morais! Até já me sinto o Dr. Watson – e deu uma pequena gargalhada.
- Ah! Se souber de alguém que possa ser inimigo do Sr. Campelo diga-me, também.
- Já ouvi uns nomes: lembro-me de Homero e de Tavares. Penso que há mais, mas o Homero tem-lhe um ódio de morte. O próprio Eurico já falou nisso.
A conversa prolongou-se durante mais algum tempo e depois o mais velho foi levar o rapaz a casa.
 
A essa mesma hora já os dois raptores tinham entrado na cabana onde haviam sequestrado o petiz e, usando de todos os cuidados da véspera, o que demonstrava que tinham pensado com detalhe a operação, preparavam-se para sair.
- Vamos lá embora! Parece que está tudo feito por esta noite. Só falta apagar o candeeiro – disse o que, desde o começo, fora o único a falar.
- Já estou a ir! – respondeu uma voz feminina.
Os criminosos nem deram pela falha, mas o rapazito notou e, quando ficou sozinho, disse para consigo:
- São dois! Um homem e uma mulher e tem um Polo preto.


publicado por António às 12:03
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28 comentários:
De Maria Papoila a 21 de Outubro de 2007 às 16:32
Querido António:
Este Morais vai mesmo desvendar o caso... e este remate final do pobre garoto já nos começa a desvendar o caso,,, Um homem e uma mulher num polo preto.
Gosto desta tua faceta de escritor policial...
Beijos


De António a 21 de Outubro de 2007 às 18:56
Querida Papoila!
Isto teria muito mais piada se fosse lido de seguida.
Mas não posso colocar 7 posts de tacada pois ninguém teria pachorra para ler.
Penso eu de que...
Obrigado pela visita.

Beijinhos


De goreti a 21 de Outubro de 2007 às 19:20
Ao que me parece, vale a pena ler alguns bons policiais... o homem parece no bom caminho... mas contigo a gente nunca sabe!
Um beijo


De António a 21 de Outubro de 2007 às 22:29
Querida Goreti!
Vou agradecer a tua visita e não digo mais nada senão posso dar pistas involuntariamente.
E o suspense esvai-se....

Beijinhos


De leonoreta a 21 de Outubro de 2007 às 19:52
já a meio do campeonato há pouco a comentar a não ser que estamos no auge do suspense e que imaginação prodigiosa. parabéns.

vou só meter-me contigo (não e para levares a mal)
aquelas mensagens no telemóvel estão o maximo. eu só consigo escrever sos. que inveja.

beijinhos


De António a 21 de Outubro de 2007 às 22:34
Querida Leonor!
Obrigado pelo teu comentário.
Mas deixa-me dizer-te que quasi toda a gente (mais velhota) escreve assim. Os mais novos é com abreviaturas e fica uma chinesada do caraças.
Mas o Paulo não quis ser chato para o "detective" e escreveu direitinho...e sabia fazê-lo...ah ah ah.

Beijinhos


De criancices a 21 de Outubro de 2007 às 20:31
Oh António, isto promete, o Morais parece que vais descobrir os raptores, será?


De António a 21 de Outubro de 2007 às 22:36
Querida Rosa!
Será?
Não será?
Atenção aos próximos episódios...ah ah ah.

Beijinhos


De perplexo a 21 de Outubro de 2007 às 20:50
Não li os posts anteriores, não falo da história, mas gostei muito da forma solta, coloquial como esta parte está escrita. Lê-se muito bem.
Abraço


De António a 21 de Outubro de 2007 às 22:37
Obrigado!
Recomendo a leitura das 3 partes anteriores.
É rapidinho!

Abraço


De Marta a 22 de Outubro de 2007 às 00:10
Um polo preto como o Bruno mas isso seria fácil demais. Estás a enganar a gente e vais surpreender. Ai de ti se não o fazes..

Besitos
(tempo de pausa que ando cansada)


De António a 22 de Outubro de 2007 às 00:16
Olá, Marta!
Agora és tu que queres ser "detectiva"?
ah ah ah
Olha que eu não sou Agatha nem o Sherlock...

Beijinhos (e descansa)


De Peter15 a 22 de Outubro de 2007 às 12:56
Li o texto do princípio ao fim. Nos comentários que faço costumo dizer o que penso e, por isso, é que são comentários.
Acho o comportamento do casal, demasiado quotidiano, não o que seria normal nuns pais a quem raptam o filho.
Tal comportamento faz-me lembrar algo.


De António a 22 de Outubro de 2007 às 13:19
Olá, Peter!
O que seria normal?
Não é normal que, perante a dificuldade das autoridades de uma cidade do interior em arrancar como processo, o pai procure reaver o filho pagando o resgate?
Tudo o resto é, para ele, secundário.
E a mulher secunda-o.
Eu poderia descrever muito mais choradinho...mas que história fastidiosa ficaria...
Entretanto o vizinho vai fazendo, e com muito gosto, o papel que caberia à polícia.
Percebeste a minha ideia?

Abraço


De António a 22 de Outubro de 2007 às 14:03
Só mais uns pormenores.
Caracterizei o Jaime Campelo como um tipo de acção, prático, nada lamechas, pouco sensível e podendo ser bem sacana quando lhe interessasse.
O comportamento dele parece-me coerente com o perfil psicológico.
À mãe e à empregada já as pus a chorar o suficiente.
O rapazinho está sequestrado mas não desaparecido como a Joana, a Maddie ou o Rui Pedro, tão falados na comunicação social nos últimos tempos.

Abraço


De Peter15 a 22 de Outubro de 2007 às 19:44
António, a história é tua e escreve-la como entenderes. A mim, como leitor, assiste-me o direito de me pronunciar sobre a mesma, ou queres que diga apenas:

"Gostei muito. Abraço" ?

O "normal" seria mostrarem-se aflitos com o desaparecimeto do filho. Nós não somos ingleses, felizmente.


De António a 22 de Outubro de 2007 às 21:57
Peter:
Tens todo o direito em te pronunciares sobre a história e eu gosto que o faças e tenho pena que muitas mais pessoas não o façam.
Pela minha parte, poderia ler o teu comentário e não dizer nada.
Como não concordo com a crítica tentei ripostar.
E vou fazê-lo mais uma vez porque se leres atentamente a primeira parte, penso que lá está bem patente a aflição dos pais.
Mas eu pretendo escrever uma história policial e de suspense e não teria cabimento exceder-me em descrever manisfestações de aflição esquecendo o objectivo principal do meu trabalho.

Mas reconheço uma coisa: eu não tenho o talento do Eça ou do Amado ou do Tolstoi.
Por isso posso não ter sido suficientemente convincente ao caracterizar estados de espírito e conciliá-los com comportamentos.
Escrever ficção é bem mais complicado do que pode parecer.

Abraços
(e manda sempre)


De Peter15 a 23 de Outubro de 2007 às 09:52
António, por favor não me leves a mal. Eu entendo que, para além do mais, os blogs também servem para as pessoas falarem umas com as outras e esse é um dos méritos do teu blog.
Acho que não nos estás a transmitir a sensação de "policial e de suspense " mas esse meu sentir deve resultar de eu ter começado a ler os policiais da "Vampiro" desde o nº 1 e durante a minha juventude. Depois enveredei por outos caminhos na leitura, até porque a juventude já vai longe.

Abraço

P.S. - Vou voltar a ler o 1º episódio


De António a 23 de Outubro de 2007 às 10:47
Meu caro!
Não só não levo a mal como gosto que faças críticas deste tipo porque podem servir para eu melhorar alguma coisa.
Não muito porque não tenho tanto talento como às vezes dizem.
Tenho um jeitinho.
É possível que não esteja a transmitir a sensação "de policial e de suspense".
Faço o que posso e sei neste momento.
Talvez no futuro consiga fazer melhor.
Ou não!
Depois se verá.
Eu também li imenso policiais...e sempre gostei do género.
Mas não sei como funcionam as coisas com a polícia, por isso uso um cidadão comum como investigador.
Acho que foi isso mesmo que fizeram a Agatha Christie e o Conan Doyle.
Enfim!
Só no final é que poderás dar-me a tua opinião global.
Espero por ela.

Abraço


De wind a 22 de Outubro de 2007 às 12:56
A Aação continua boa e o que pensei está-se a confirmar a não ser que dês a volta ao conto:)
Beijos


De António a 22 de Outubro de 2007 às 14:12
Querida Isabel!
Obrigado pela tua visita.
Dar a volta?
Achas que eu era homem para fazer uma coisa dessas?
ah ah ah

Beijinhos


De sophiamar a 22 de Outubro de 2007 às 22:19
Ó meu querido António, a tua amiguinha perdeu-se na história e queria já dizer-te quem tinham, sido os raptores mas tem de reler tudo numa tacada só.Um homem, uma mulher, um Polo preto... parece-me que sei mas volto amanhã. Isto só com um comentário não vai. Tu já sabes quew é assim. Sou cá uma badaladeira.
Quanto aos comentários, acho que isto está a melhorar e tu estás um Sherlock Castrilho de truz.

Leva beijinhos e até amanhã. dorme bem!


De sophiamar a 22 de Outubro de 2007 às 22:21
Olha que não te quis chamar nomes!!!! Eheheheheh

Castilho, para que não haja dúvidas.


Beijinhosssss


De António a 22 de Outubro de 2007 às 23:11
Olá, Isabel!
Então cá te espero mais o teu palpite.

Beijinhos


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