Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças!
Quarta-feira, 24 de Outubro de 2007
O rapto (parte V)
A quarta-feira decorreu sem novos acontecimentos significativos relacionados com o caso.
As pessoas estavam tensas e muito apreensivas, nomeadamente os pais, a Eulália e o Eurico. Os avós e o resto da família nem tinham sabido do rapto pois o Jaime não quis criar preocupações pois estava convencido de que o problema se resolveria rapidamente e a seu contento.
Ao fim do dia já o Campelo tinha todo o dinheiro reunido numa mala. A numeração das notas tinha sido registada.
À noite, o Paulo deu mais algumas indicações ao Morais que este apontou e os sequestradores foram fazer nova visita ao rapaz que continuava na cabana.
 
A quinta-feira amanheceu cinzenta mas sem chuva, como os dias anteriores. Umas gotas que aqui e ali íam caindo não eram muito incomodativas. O último dia de acentuada pluviosidade fora o do rapto, a segunda-feira.
A ansiedade estava latente no rosto das pessoas.
Sempre que um telefone ou um telemóvel tocava na empresa, todos os que lá estavam como que sentiam o coração parar de bater e, após constatarem que não era a chamada esperada, respiravam fundo e tinham um momento de descompressão. Mas logo voltava a inquietação. Para combater esta espera desesperante alguns fumavam mais que de costume e, embora sem vontade de o fazer, procuravam falar uns com os outros sobre tudo e nada, menos acerca do caso. Mas só estavam presentes o Campelo, a Sandra, a Catarina e o Paulo; a mulher do Jaime estava em casa acompanhada pelo cunhado pois a mensagem do raptor não dizia para onde seria feito o telefonema.
Eis que se abriu a porta e entrou o Morais.
- Bom dia! – saudou.
Desta vez, só o Paulo tivera disposição para responder.
Mais um toque dum telefone. Foi o da Catarina como de costume, pois ela é que atendia as chamadas para o fixo que provinham do exterior, mas quem estava a fazê-lo nessa manhã era o Jaime Campelo.
- Estou!
- Ora aqui estou eu, conforme prometido – falou uma voz de homem, visivelmente disfarçada, do outro lado.
E continuou:
- Já tem o dinheiro?
- Tenho! Tenho tudo! – respondeu, num tom vigoroso, o pai do garoto.
- Então amanhã, às onze horas, esteja junto da mata que há ao lado da ponte velha de pedra, em Ceifas. Conhece?
- Sim! – respondeu o Jaime.
- Mas não fica na estrada, naturalmente. Mete pelo atalho e só pára quando vir um obstáculo. Desliga o carro e sai com as mãos no ar. Nada de polícia nem de armas. Alguém entra com o seu filho para a viatura, abre a mala que deve estar na parte de trás, verifica se contém o dinheiro e depois sai, deixando lá o garoto. Finalmente, você dá meia volta ao carro e sai do atalho por onde entrou. Falei devagar. Entendeu tudo?
- Sim! Às onze horas no atalho da mata de Ceifas, não é? – pretendeu confirmar o homem.
- Exactamente! E nada de truques, para bem de todos.
E desligou.
O homem ouviu a ligação ser cortada, ficou com o auscultador na mão, deu um forte suspiro e finalmente pousou-o.
- Já está! É amanhã às onze!
Depois de ter ido buscar uma garrafa de brandy e de ter tomado dois ou três goles, sempre sem dizer mais nenhuma palavra, sentou-se, ligou para casa e contou a conversa com o sequestrador de forma que todos ouvissem.
O Morais aproximou-se do Paulo e perguntou-lhe baixinho:
- Porque será que o raptor ligou para aqui e não para casa?
- Sei lá?
- Porque sabia que o Campelo estava aqui!
- Humm...bem visto! – comentou o jovem enquanto abanava afirmativamente a cabeça.
Pouco depois o Morais chegou-se para junto do vizinho e sussurrou-lhe:
- Quero falar consigo a sós! Vamos até lá fora?
- Pois sim! Vamos ali ao café – anuiu o coxo.
Uma vez sentados numa mesa, disse o “detective”:
- Eu quero dizer-lhe que vou para lá pelas sete e meia da manhã, quando começar a clarear. A essa hora eles...eu digo eles porque tenho a certeza que são dois, pelo menos...a essa hora eles ainda lá não estão. Vou deixar o carro bem longe e escondido e depois vou a pé pela estrada e meto pelo atalho. Os raptores vão de carro, até porque tem de levar o Tiago, e eu vou tentar aprender o mais que puder acerca deles. Faça de conta que eu não estou lá, mas vou estar.
- Por mim acho uma boa ideia, mas não será perigosa?
- Não se preocupe comigo. E digo-lhe outra coisa: hoje de tarde já vou reconhecer o terreno. Quer vir comigo?
- Ó Morais! Você parece o Sherlock! Sim senhor. Vamos lá.
E combinaram a hora.
- Outra coisa. Sugiro que leve o Fiesta da sua mulher para se poder movimentar melhor na mata.
- Boa! Você é que devia ser o chefe da PJ – comentou, com um sorriso, o Campelo.
Pouco depois voltaram para o escritório.
Quando lá chegaram a Sandra disse de imediato:
- Telefonou a D. Zulmira a dizer que tinham ligado da GNR a perguntar se o Tiago já tinha aparecido. Ela disse que não e eles disseram que íam agora comunicar à Judiciária aquilo que o senhor tinha dito quando lá foi.
- Trabalham bem, estes tipos! Mas depois de eu ter o nosso filho connosco eles vão mesmo ter de apanhar o patife – desabafou o marido.
- Os patifes – corrigiu o Morais.
 
Eram sete da manhã de sexta-feira quando o Morais saiu de casa. Levou o carro, um Mercedes negro, e conduziu-o ainda de noite até uns três quilómetros da velha ponte de pedra, que uns diziam que era romana e outros que não. Depois foi a pé pela estrada, protegido por um crepúsculo ainda incipiente, e meteu pelo atalho até um ponto onde este terminava numa cerca de arame que delimitava um campo. Os carros não poderiam passar daí. Seria esse, provavelmente, o ponto onde o Jaime seria forçado a parar. Para voltar teria de fazer a inversão de marcha o que não era fácil e como certamente ainda ficaria a falar e acarinhar o filho os meliantes teriam tempo para se escapulir.
Depois regressou pelo mesmo caminho e postou-se num local de vigia improvisado, junto da ponte sob a qual agora passava um ribeiro com um caudal maior que o habitual graças à água que caíra. Mas como não chovia quasi nada desde segunda-feira, a lama que se formara já estava quasi seca.
Olhou o relógio e leu oito e quarenta. A espera seria longa. Olhou para o céu e pensou:
- Oxalá não chova hoje, senão apanho um resfriado ou até uma pneumonia.
E tirou um livro da algibeira da gabardina, instalou-se o melhor que pôde e começou a ler.


publicado por António às 14:00
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43 comentários:
De Brito Ribeiro a 24 de Outubro de 2007 às 20:45
Isto está a aquecer! fico à espera dos próximos.
Abraço


De António a 25 de Outubro de 2007 às 18:35
E não vais esperar muito.
Isto tinha mais piada se fosse tudo lido de tacada.
Mas se mesmo assim as pessoas não lêem, se tivesse sete vezes este tamanho isto ficava a zeros.

Abraço


De sophiamar a 25 de Outubro de 2007 às 06:04
Isto está cá uma confusão na minha cabeça! Aqueles dois que têm o pólo preto não devem ser porque era por demais evidente. A mim cheira-me que anda aqui a mão e a cabeça do irmão do Campelo. O dinheiro dá a volta à cabeça de muito boa gente e às vezes nem olham a meios para atingir os fins. Os valores vão-se perdendo quando outro valor mais alto ( dinheiro fácil) se levanta. Credo! Nem quero pensar no que o monstro homem pode fazer.
Mas lá que estou a gostar da história não tenhas quaisquer dúvidas. Vai arquitectando mais, amigo!
Beijinhossss


De António a 25 de Outubro de 2007 às 18:39
Pois, Isabel, te digo o que disse agorinha mesmo em cima.
Isto devia ser lido de tacada. Mas se as pessoas assim não lêem, se o pst tivesse um tamanho sete vezes maior do que este então ficava mesmo a zeros.
Mas não vais ler muitas mais coisas no "Eu sou louco!".
A decisão está tomada!

Beijinhos


De Marta a 25 de Outubro de 2007 às 19:08
Eu ainda voltei ao conto anterior para situar alguns nomes, e agora apetece-me partir te a cabeça por me deixares com este suspense a toda a hora. Às vezes só me apetece vir aqui passados dois ou tres episódios para poder ler tudo seguido. E este Morais continua a intrigar-me imenso, nem vou tentar adivinhar o desfecho porque já sei que surpeendes. E ainda não esqueci que prometeste explicar a participação do Morais nisto tudo..

Beijinhos


De António a 25 de Outubro de 2007 às 21:58
Olá, Martinha querida!
Digo-te o que escrevi há pouco ali em cima.
Isto devia ser lido de tacada. Mas se as pessoas assim não lêem, se o post tivesse um tamanho sete vezes maior do que este então ficava mesmo a zeros.
Também não me esqueci da tal explicação.
E...the last but not the least...obrigado pela visita.

Beijinhos


De Marta a 25 de Outubro de 2007 às 22:44
Tu e as tuas suposições.. eu lia bem 7 posts seguidos quem sabe se nao haverá mais a pensar o mesmo? ha pessoas que nao se conseguem lembrar do enredo.. dasse homem, tu na me fales outra vez em fechar que te parto mesmo a cabeça!


De António a 26 de Outubro de 2007 às 09:06
Olá, minha querida!
Pois...lias tu mas não liam os outros...
Eu sei que textos longos afastam logo os leitores de encetar a leitura.
Se começassem a ler...talvez.

Como curiosidade, aqui vai o nº de visitantes nos últimos dias (mais ou menos das 8 às 8)
dia 20 - 77
dia 21 - 107
dia 22 - 103
dia 23 - 77
dia 24 - 53
dia 25 - 119
Média diária - 102
Média diária desde que este blog II foi aberto - 116
Parece que visitantes não faltam...faltam comentadores.
Vou contratar o Marcelo Rebelo de Sousa.
(mas quantos desses visitantes lêem os textos?)

Beijinhos


De goretidias a 25 de Outubro de 2007 às 20:44
O conto vai "de vento em popa"! Estou ansiosa para saber se os romances policiais sempre ajudam de verdade!
Um abraço


De António a 25 de Outubro de 2007 às 22:02
Querida Goreti!
Obrigadinho pela tua visita.
Confesso que não percebi o que queres dizer quando escreves: "Estou ansiosa para saber se os romances policiais sempre ajudam de verdade!".
Volta sempre!

Beijinhos


De Paula Raposo a 25 de Outubro de 2007 às 21:56
Não faço a mínima ideia quem sejam os sequestradores! Sempre fui um atraso de vida em qualquer policial, quando penso que seja um, acaba sempre por ser outro! Lolol Agora que gosto do que escreves, gosto. Mas isso já tudo sabes há muito! Beijos


De António a 25 de Outubro de 2007 às 22:05
Paulinha!
Em menos de uma semana saberás tudo!
(só faltam mais duas partes)
Isto tinha piada se fosse lido duma vez.
Mas, se mesmo assim a audiência é fraca, se fizesse um post sete vezes maior ninguém o lia.

Beijinhos


De apps a 25 de Outubro de 2007 às 22:11
tens razão, lido de tacada é mais intenso...
gostava, however, de saber mais sobre o espaço cabana e sobre o tiago...beijo *ap


De António a 25 de Outubro de 2007 às 22:16
Olá, prima!
Não sejas muito exigente...ah ah ah.
Saberás o que tens a saber na altura própria.
Master dixit...ah ah ah.

Beijinhos


De apps a 25 de Outubro de 2007 às 23:55
exigente, moi!?... magister dixit, está dito!


De António a 26 de Outubro de 2007 às 08:55
Tens razão!
Magister dixit...
Vês como estou desmemoriado!

Beijinhos do primo gagá


De António a 26 de Outubro de 2007 às 08:56
Devia ser:
Vês como estou desmemoriado?
Isto vai de mal a pior.
ihihihih

Jokas


De apps a 26 de Outubro de 2007 às 12:04
nao sejas tu tão exigente contigo...
terei oportunidade de confirmar esse estado (gagá)aquando do nosso fim-de-semana na aldeia...

- ai que frio, fecha tudo que me constipo!
- nao me apetece dar uma volta pela aldeia, estou cansado...
- vai tu comprar a boroa, estou aborrecido...
- isto vai de mal a pior!

tone, nem te atrevas!
beijos tão apertados que mal dá para respirar *ap

"magister dixit"


De António a 26 de Outubro de 2007 às 13:04
Minha querida!
Só sendo exigentes connosco mesmos é que conseguimos entrar na senda do triunfo e da glória.
Novos ou velhos...ihihih

António dixit

Beijos


De apps a 26 de Outubro de 2007 às 14:42
concordo, mas por vezes pareces (me) muito desanimado...
rebeijo-te primo


De António a 26 de Outubro de 2007 às 18:16
Quando um texto está aqui há 52 horas e foi comentado por 8 pessoas fico desanimado!

Beijos


De apps a 26 de Outubro de 2007 às 18:27
acredito, talvez tenhas que repensar os "canais de distribuição"... devo estar a dizer uma grande tolice!
beijo *ap


De António a 26 de Outubro de 2007 às 21:42
Já escrevi muito sobre isto (nesta secção de comentários) nos últimos meses.
Há 2 anos, em 2 ou 3 dias tinha 40 ou 50 comentários.
Agora, em 4 ou 5 dias tenho 10 ou pouco mais.
A descida tem sido gradual.
Mas não nas visitas. Não sei quantas tinha nesse período mas continuo com uma média de 100 diárias como há um ano.
Se fores mais acima vês o número exacto de visitas que tive nos últimos dias. Hoje, neste momento, já tenho 96.
Claro que nem todas as visitas são leitores, mas penso que cerca de 50% o será.
Mas porque não comentam?
Algumas, que eu conheço, não sabem o que dizer e optam por nada escrever.
Mas porque quasi ninguém escreve?
Será preguiça ou o nível dos leitores baixou em relação ao que era há 2 anos?
Seja como for, não gosto de ter tão pouca gente a comentar.
Chateia-me!
Pronto!
Já disse!

Beijos


De apps a 26 de Outubro de 2007 às 22:55
é engraçado, pensava que os blogs eram espaços de amigos, espaços de conversa e de interesses comuns... um círculo (les chaises en circle) mais ou menos fechado, estou errada!? Se nao é isso que pretendes e/ ou se queres ser mais comentado, terás que escolher outros temas, talvez mais controversos, mais quentes,... que implicitamente te tragam novos públicos, novos amigos e parece-me evidente que com o número de blogs a aumentar estupidamente, todos (criadores) se devem deparar com esse tipo de problema ou problemática, claro, com excepção do blog da Margarida Rebelo Pinto "com muito prazer"
57 posts / 1062 comentários /113975 visitas...enfim, escalas diferentes, eh, eh...


De António a 27 de Outubro de 2007 às 15:06
Minha querida!
Um blog é aquilo que o seu dono quiser que ele seja.
Eu quero que o meu seja um espaço de divulgação de originais em prosa da minha lavra.
E não vou optar pela via simples de escrever umas larachas sobre futebol, política, actualidade, a procurar debates, ou colocar umas piadas mais ou menos conhecidas ou umas fotos de mulheres boas e nuas.
Este é o meu caminho porque acho que é o caminho da qualidade.
Lixo vejo por aí demais...mas não durará para além de um efémero voo de borboleta.
Quando achar que devo suspender o blog, fá-lo-ei!
Mas espero que funcione a selecção natural, nem que para isso tenha de passar por momentos de desânimo.

Beijinhos


De apps a 27 de Outubro de 2007 às 17:18
efémero voo de borboleta...gostei!
beijo *ap

ah, é hoje que entra a parte VI, afinal já cá cantam + de 40 comentários... ó gagá!


De António a 27 de Outubro de 2007 às 18:17
É de salientar que a borboleta não sou eu!!!!ihihihihh

O que eu conto é o nº de comentadores e não os comentários resultantes de conversas como esta.
E esses são só 12.
(o que até é melhor que os 10 habituais)

Beijinhos


De amigona a 26 de Outubro de 2007 às 00:19
E a saga continua...Deixei-te um anel de amizade no meu canto...beijo...


De António a 26 de Outubro de 2007 às 09:09
Olá!
A saga continua mas está a acabar.
Obrigado pela visita.

Beijinhos


De amigona a 26 de Outubro de 2007 às 09:45
Não António. Basta clicares em cima da foto e guardar a imagem como... depois ir ao formato e anexar a mesma (como já fizeste para o que lá tens)...beijo...


De António a 26 de Outubro de 2007 às 13:00
Obrigado, Rosário!
Mas não percebi bem.
O meu blog é do Sapo e não do Blogger e o único "boneco" que tenho (o "Thinking Blogger Award") foi colocando usando um código html.
Depois, apesar de me terem oferecido muitos outros, entendi não colocar mais nenhum pois me parece que se tornou altamente inflacionada a proliferação destas imagens.
Portanto, mais uma vez te agradeço mas não vou colocar mais nenhuma imagem (salvo alguma coisa muito especial).

Beijinhos


De Peter15 a 26 de Outubro de 2007 às 12:39
Gostei. É um texto onde imprimiste acção e suspense qb.


De António a 26 de Outubro de 2007 às 13:57
Olá, Peter!
Gostaste mesmo?
Óptimo!
Quando tiveres críticas a fazer não te inibas.

Abraço


De wind a 26 de Outubro de 2007 às 23:23
Esta parte foi a pré acção:)
Gostei, mas o suspense continua e acho piada ao "detective":)
Aguardo breve continuação:)
Beijos


De António a 27 de Outubro de 2007 às 14:05
Já falta pouco, querida Isabel!
Ainda achas que o bandidola é o Bruno?
Não será o Eurico?
Ora pensa bem!
ah ah ah
Obrigado por estares sempre comigo.

Beijinhos


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