Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças!
Terça-feira, 30 de Outubro de 2007
O rapto (parte VII e última)
Voltou a observar a criança.
- Coitadinho! Com sete anos já passou por uma situação bem complicada.
O puto continuava a comer mas deixara de chorar. Parecia estar mais calmo. De repente parou e disse:
- Eram um homem e uma mulher e levaram-me num Volkswagen Polo preto.
O detective esboçou um sorriso que ninguém viu e elucubrou:
- Sempre é uma mulher! Resta saber se é a Sónia.
Logo de seguida recebeu uma sms do Paulo em que este escrevera:
“Não vai GNR saber dono do carro? Devem dar informação depressa”.
- Como é que ainda não tinha pensado nisso! – censurou-se.
E respondeu: “Boa malha!”.
Esse seria o próximo passo, mas por agora estava ali a velar pela família Campelo. Sentia que eles precisavam de alguém que estivesse pronto para os apoiar a qualquer momento. Aliás, fora isso que fizera desde o fatídico dia do rapto.
Já passava da uma da tarde e ousou perguntar:
- Vocês não almoçam?
E virando-se para a Eulália:
- Tem preparada a refeição, não tem?
- Está preparada, sim, senhor Morais. – respondeu a serviçal.
E o vizinho falou agora em tom mais incisivo:
- Jaime! Zulmira! Vão comer que eu farei o mesmo. Depois de almoço conversamos mais.
- Está bem! Mas gostava que nos fizesse companhia – respondeu o dono da casa.
- A Fátima deve ter o almoço pronto. Mas terei muito gosto em ficar aqui convosco.
E ligou para a sua empregada:
- Olá, Fátima! Tem o almoço preparado?
- Tenho sim, senhor Morais. Mas o menino Rui telefonou a dizer que não vinha comer e a D. Bela também – esclareceu a empregada.
- Então coma você porque eu estou aqui na casa do lado e cá vou almoçar – disse o António.
- Eu vi-o entrar! Como está o menino?
- Fisicamente parece um pouco debilitado mas já comeu e não deve haver problema. Psicologicamente é que será mais difícil a recuperação. Vamos ver!
- E já apanharam os bandidos?
- Ainda não, Fátima! Mas logo eu conto tudo. Agora vou desligar. Boa tarde!
Depois ligou para o salão da mulher e deu-lhe a boa nova.
O almoço em casa do Campelo foi de poucas palavras. A Zulmira só comeu a sopa porque o Tiago queria dormir e a mãe foi com ele.
Até que o convidado falou:
- Acho que o seu filho vai precisar de acompanhamento psicológico. É muito novo e a situação porque passou foi muito traumática.
- Para já precisa é do amor dos pais. Se não recuperar rapidamente pensarei nisso – replicou o coxo.
O “detective” achou que devia mudar de assunto e assim fez.
- Já temos algumas certezas quanto aos patifes: são dois operacionais, um homem e uma mulher, actuaram num Polo preto e eu tomei nota da matrícula 80-28-XJ.
- Sim? Isso da matrícula é importante se o carro não for roubado.
- Pois é! Logo vou ver se a GNR me dá os dados do proprietário.
- Então se o Tiago estiver melhor eu vou consigo. Como fui eu quem apresentou a queixa...
- Muito bem! – concordou o Morais.
- Você não deve saber Morais, mas o Tiago já me disse que esteve numa cabana velha durante estes dias, sempre amarrado – informou o Campelo.
- Ora a isso se chama informação relevante... – retorquiu o outro.
Mal acabaram a refeição, dirigiram-se ao posto da Guarda Nacional Republicana.
O Jaime mandou chamar o chefe com quem tinha falado da outra vez e contou-lhe tudo o ocorrido, com algumas ajudas do antigo bancário, nomeadamente a indicação da matrícula do carro. O homem entendeu mandar tomar nota deste depoimento para o juntar ao processo e entregar na Judiciária.
Finalmente, o Campelo pediu:
- Não podem ver já quem é o proprietário da viatura?
- Se tivermos ligação via computador é rápido. Um momento.
Pouco depois apareceu com um papel e começou a ler o que nele tinha escrito:
- A proprietária é uma senhora de nome Lígia Correia da Silva Monteiro...
E prosseguiu até ser interrompido por um quasi grito do espoliado.
- É a filha do Homero Monteiro! Ai o sacana! É ele quem está por trás de tudo isto. Eu tinha um palpite!... E agora vão prendê-la?
- Ainda não! Mas vamos fazer vigilância. Como a criança já está sã e salva, na segunda-feira vou contactar pessoalmente com a PJ e depois agiremos em concordância.
- E também era bom que recuperassem o meu dinheiro. Não é tão pouco que dê para esquecer...
- Claro que serão feitos todos os esforços nesse sentido... – prometeu o chefe Carneiro.
- E quem será o homem que comandou as operações? – perguntou o Morais, um tanto decepcionado por ter falhado a sua previsão – Será esse Homero? É seu conhecido?
- Foi meu sócio num negócio que correu mal e meteu-se-lhe na cabeça que eu o tinha aldrabado. Ficou bastante endividado e jurou vingança. Mas embora a voz do homem mascarado não me fosse estranha, tenho quasi a certeza de que não era a dele.
- Mas se esta senhora, ou menina, porque parece que só tem vinte anos, for interrogada é garantido que diz quem foi o cúmplice e se o tal Homero é o mandante. Sabe que há métodos que ajudam a soltar a língua.
- Espero bem que sim.
O negociante ligou para casa, soube que o filho ainda estava a dormir e contou à mulher.
Depois de tudo tratado no posto, os amigos foram para a agência onde contaram as últimas aventuras, pois bem se pode usar esta palavra.
 
Correu o resto de sexta-feira, o fim-de-semana, a segunda até que, da parte de tarde de terça, o Jaime recebeu um telefonema do corpulento e calvo chefe Carneiro a pedir-lhe para ir ao posto.
Uma vez lá chegado na companhia do inefável António Morais, o homem da GNR disse:
- Já interrogamos a tal Lígia que rapidamente confessou e denunciou que o mandante fora o pai e o cúmplice foi o namorado. Este foi aliciado por gostar muito dela, por ter um fascínio por aventuras e, sobretudo, porque receberia uma boa parcela do dinheiro do resgate. Ela também indicou onde está a pasta com o dinheiro. E sabe que a pistola que ele lhe apontou era um brinquedo? Mas já o vamos buscar. É curioso que mora na sua rua...
- Na minha rua? – admirou-se o Campelo.
- Sim! Chama-se Rui Manuel Leitão Peres e também é muito novo...
- Mas...é o meu enteado! – disse, quasi sufocado, o “detective”.  


publicado por António às 14:29
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31 comentários:
De sophiamar a 30 de Outubro de 2007 às 16:22
Uma história interessantíssima! Gostei muito e elogio a tua capacidade para imaginar e colocar por episódios uma história tão longa. Continua António. Tens leitores certos. Garanto-te ! E essa imaginação não é brincadeira nenhuma! AHAHAHAH
Força!
Quero mais!

Beijinhossssss


De António a 30 de Outubro de 2007 às 21:27
Olá, Isabel!
Obrigado pelo teu comentário.
Como não podia deixar de ser, o final foi inesperado.
Agora seria interessante ler tudo do início ao fim e verificar as referências que fiz ao Homero e ao Rui (poucas: talvez umas cinco ou seis).
Mas elas lá estão e colocadas de forma intencionalmente desafiadora da perspicácia dos leitores.
Mas reconheço que lendo isto aos "bochechos" a maior parte dos leitores nem se lembrava que essas personagens existiam.

Beijinhos


De sophiamar a 30 de Outubro de 2007 às 23:06
Meu safado! Despistaste-me de todo! És o culpado do acidente. As personagens terríveis foram disfarçadas. Tem jeitinho , o menino! Olha vai lá engendrando mais e vais ver se tens leitores ou não.
claro que quem se apaixona pela tua escrita não vê com bons olhos que nos abandones.
leva lá beijinhos, meu safado maigret Castilho!
dorme bem!


De António a 31 de Outubro de 2007 às 12:27
Eu não disse que abandonava a escrita.
Disse só que abandonava a escrita no blog da forma continuada que utilizo habitualmente.

Beijinhos


De sophiamar a 3 de Novembro de 2007 às 22:26
Sabes que já me apetecia ler um daqueles pequenos contos em que nos apresentavas sempre um final inesperado? Neste policial, o criminoso, sequestrador. era mesmo difícil de descobrir mas também tens uma especial aptidão para os pequenos textos. Nalguns, lembro-me, acabava a rir às gargalhadas.
Queria mais, querido amigo! Então não é que,agora, também o Cusco ameaça partir. Estou a ficar desfeita. A esta hora deves estar em Vermoim e espero que tenhas lido um poema. À maneira.


Beijinhosssss


De António a 4 de Novembro de 2007 às 00:29
Olá, Isabel!
Não tenho nenhuma história escrita e não faço ideia de quando escreverei uma nova.
Sabes que estou a ficar farto disto...
Cada vez mais se instala a mediocridade.
Já não leio poemas em Vermoim. Leio textos meus. Se não fizer eu a propaganda quem a fará? Ninguém!

Beijinhos


De Paula Raposo a 30 de Outubro de 2007 às 20:11
Ena pá!!! O mundo é mesmo pequeno!! Adorei! Uma aventura policial 'à maneira'!! Beijos.


De António a 30 de Outubro de 2007 às 21:30
Olá, Paulinha!
Gostei que tivesses apreciado o meu trabalho.
Repito o que disse acima à Isabel:
Como não podia deixar de ser, o final foi inesperado.
Agora seria interessante ler tudo do início ao fim e verificar as referências que fiz ao Homero e ao Rui (poucas: talvez umas cinco ou seis).
Mas elas lá estão e colocadas de forma intencionalmente desafiadora da perspicácia dos leitores.
Mas reconheço que lendo isto aos "bochechos" a maior parte dos leitores nem se lembrava que essas personagens existiam.

Beijinhos


De Brito Ribeiro a 30 de Outubro de 2007 às 22:56
Muito bem construida, gostei de ver o detective a ser surpreendido.
Abraço


De António a 31 de Outubro de 2007 às 12:31
Olá, primo!
Obrigado pela visita e pelo comentário.

Um abraço


De Cusco a 31 de Outubro de 2007 às 09:56
Bem chegou ao fim. Isto foi um autêntico policial….Confesso que fiquei como o Morais…Decepcionado por ter falhado a minha previsão. (Bom, mas afinal o outro é que nunca se enganava e raramente tinha dúvidas) Tinha imprimido o texto e aguardava só pelo final, mas confesso que o desfecho foi mesmo diferente do que poderia imaginar. Pelas pistas que nos foram sendo fornecidas não dava para descobrir o(s) criminoso(s). Mas os policiais são mesmo assim para nos surpreenderem no final.
Muito bem escrito e elaborado não detectei uma única falha nos pormenores…
Parabéns!
Um abraço!
Só um aparte: A certa altura é referido que a polícia tem métodos que ajudam a soltar a língua….Concordo perfeitamente, sei que têm técnicas de inquérito que baralham qualquer um, horas e horas de interrogação, desgaste físico e psicológico, etç. Etç,!
Então, como é possível que todas essas técnicas não tenham surtido efeito (não é o caso Maddie que esses são pessoas inteligentes) no caso Joana em que lidavam com pessoas com um grau de inteligência bastante reduzido e não lhes conseguiram sacar nada…rigorosamente nada!!!


De António a 31 de Outubro de 2007 às 12:22
Olá!
Obrigado pelo teu comentário elogioso.
Procurei criar uma trama sem falhas de lógica e parece que o consegui.
Fico satisfeito.
É muito fácil errar!

Quanto à Joana, penso que os assassinos confessaram o crime mas depois negaram tudo em tribunal.
Saiu agora um livro de um tipo ex-PJ e que foi acusado pela mãe da mocita de a ter espancado.
Mas não estou suficientemente informado sobre o assunto.

Um abraço


De Maria Papoila a 31 de Outubro de 2007 às 12:17
António:
Este policial foi uma das tuas melhores histórias, muito bem estruturada e com um final surpreendente.
Parabéns! Temos escritor policial.
Beijos


De António a 31 de Outubro de 2007 às 12:36
Minha querida Papoila!
Gostei muito de ler o teu comentário pois prezo muito a tua opinião, como sabes, e isto sem desmerecer da dos outros leitores que me comentam regularmente.

Um beijo grande


De apps a 31 de Outubro de 2007 às 16:32
ai caramba, não estava nada motivada para esse final, mas está bem,... hum, mais ou menos, NÃO, está mesmo bem, bastante bem!
Tenho uma sugestão para te fazer...para o próximo "policial", queres que escreva ou falamos depois!?

Beijos *ap


De António a 31 de Outubro de 2007 às 17:40
Olá, prima!
Obrigado pelo comentário.
Para o próximo...falamos depois.

Beijinhos


De apps a 31 de Outubro de 2007 às 21:47
beijinhos e até breve


De amigona a 31 de Outubro de 2007 às 21:49
Que dizer-te? És um espanto!


De António a 1 de Novembro de 2007 às 07:58
Olá, Rosário!
Não digas isso que eu sou humano e fico vaidoso!
ah ah ah
Obrigado pela visita e pelo elogioso comentário.

Beijinhos


De sonamaia a 1 de Novembro de 2007 às 16:29
Devo dizer-te que li tudo de um só fôlego!! Adoro policiais!! Quanto à forma e conteúdo, perfeito! O final espectacular!!O "suspense" foi mantido e os leitores "armados em detectives" depararam com um final inesperado mas não menos interessante! Parabéns!!
Ainda bem que continuas a postar! Beijinho


De António a 1 de Novembro de 2007 às 17:39
Olá!
Obrigado pela presença e pelo comentário.
Já não tinha o prazer de te ver por aqui há bastante tempo.
Volta sempre!

Beijinhos


De Marta a 1 de Novembro de 2007 às 19:17
Ehpah! Do Homero e de um Tavares ainda suspeitava porque o referiste na IV parte como tendo um ódio ao pai do miudo mas claro que também era demasiado óbvio mas pelo menos tinham um móbil para o crime que era a vingança. Agora o Rui, apenas teve uma referência minuscula como filho do primeiro casamento da anabela e que naquele momento estava ausente. Nada me faria suspeitar dele. Portanto foi uma surpresa sim. E é aqui que "gozamos" com o Morais. O afamado detective procurou as pistas quando estavam debaixo do seu tecto. Genial. Ou isso ou percebi tudo mal. Se for o caso esclarece-me porque ler tudo outra vez nem penses!

Gostei desta saga poilicial. Parabéns!

Besitos


De António a 1 de Novembro de 2007 às 22:38
Olá, Marta querida!
Eu sabia que o final seria surpreendente pois nunca dei muito relevo ao Homero ou ao Rui Manuel e nunca tinha falado da Lígia.
Mas falei no Homero, como referes, que poderia ser uma segunda linha de investigação; contudo, o "detective" Morais conduziu os leitores para uma outra. Por imposição do autor, obviamente. Mas foi decisivo ao descobrir a matrícula do Polo negro...
Também falei no Rui várias vezes e caracterizei-o como aventureiro, "bon-vivant", preguiçoso...
Afinal, quem poderia ter posto a carta com o pedido de resgate por baixo da porta do Campelo com facilidade? O Rui!
Enfim!
O que há uns dias te queria dizer: não sendo conhecedor de como funcionam as coisas dentro das Polícias ou da GNR, tive que usar uma personagem exterior a elas para ser o investigador - o Morais.
Penso que é foi também um deficiente conhecimento do funcionamento das Polícias que fez com que os investigadores nas obras de Agatha Christie fossem o Poirot e a Miss Marple e nas do Sir Arthur Conan Doyle o Sherlock Holmes e o seu amigo Watson.
Nunca tinha pensado nisso mas ocorreu-me quando tive de fazer crescer a personagem António Morais em detrimento de qualquer investigador da Judiciária.

Gostaste!
Isso para mim é o mais importante!

Beijinhos


De criancices a 2 de Novembro de 2007 às 15:36
Olá António já andava a desconfiar desse Rui e confirmou-se.....mas que história! Parabéns, mais uma vez!
Bjs e Bom fim-de-semana!


De António a 2 de Novembro de 2007 às 18:52
Olá, Rosa!
Obrigado pelo teu comentário.
Desconfiaste do Rui?
Eu camuflei-o bem. Foste perspicaz!
O teu blog está em "stand-by"...
Volta sempre!

Beijinhos


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