Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças!
Segunda-feira, 5 de Novembro de 2007
Livros e leituras
“Livros e leituras” não é um título original.
É o nome de um programa da Rádio Renascença dos anos 60 em que uma voz falava de livros tendo por fundo musical a bela e famosa Ária de J. S. Bach (mais rigorosamente, o 2º andamento da suite nº 3 para orquestra, em Ré Maior).
Repesquei-o por me parecer adequado para este texto em que vou escrever mais para mim do que para os outros.
É um rememorar dos livros que li desde a minha infância e de que, por alguma razão, mais gostei ou mais me marcaram.
Clássicos da literatura infantil como “Ali Babá e os 40 ladrões”, “Aladino e a lanterna mágica”, “O soldadinho de chumbo”, “A gata borralheira”, “O capuchinho vermelho”, “Branca de neve e os sete anões”, “A Carochinha e o João Ratão”, “O flautista de Hamelin” e outros muito menos conhecidos (“O papá das pernas altas” ou “O macaco Faustino”) foram, mais do que as minhas primeiras leituras, as histórias que me contavam ou liam ainda eu não o sabia fazer sozinho.
Depois surgiu a fase das histórias aos quadradinhos, quasi todas edições brasileiras, e de que não posso esquecer figuras como as criadas por Walt Disney: Rato Mickey, Pateta, Pato Donald, Zé Carioca, Irmãos Metralha, Tio Patinhas e tantas outras.
Quasi simultaneamente meti-me no mundo da banda desenhada conhecida genericamente como dos livros de cow-boys: Xerife Lúcio (Buck Jones no original), Gene Autry, Zorro, Roy Rogers, Davy Crockett, Kit Carson, Buffalo Bill ou outros heróis ou super-heróis: Mandrake, Super-homem, Batman, o Homem de borracha, Flash Gordon.
Nessa altura li uma versão simplificada da Bíblia, mais concretamente do Antigo Testamento, que tivera de comprar para as aulas de Religião e Moral. Essa história dos hebreus, antes de Cristo, deixou-me encantado, exactamente por ser História e não por qualquer razão religiosa.
É ainda dessa época a primeira fase de livros em prosa e com poucas gravuras, como os da condessa de Ségur, de quem li vários.
E de três obras de que muito gostei e que muito me impressionaram.
“Mozart” de Helen Kaufmann foi talvez o livro que mais vezes li e que me empolgava a cada vez que o fazia.
“David Copperfield” de Charles Dickens também foi meu regalo em diversas ocasiões: inesquecível.
“As aventuras de Tom Sawyer” de Mark Twain. Deste vi primeiro uma versão em filme cujo guião diferia bastante do livro. Mas lembro-me perfeitamente que nessa noite, depois de regressar do cinema, não conseguia pregar olho. E fiquei a saber que ler um livro depois de ver o filme nele inspirado não é uma boa ideia.
São ainda desse período da literatura aos quadradinhos vários livros, também pouco ilustrados, sobre o Infante D. Henrique, Nun’Álvares, navegadores e outras figuras da História de Portugal mas também mais universais como Marco Polo.
Seguiu-se, talvez pelos treze ou catorze anos, o abandono dos livros de banda desenhada e a entrega a literatura mais séria: “A lagoa de Donim” de João da Motta Prego, “O colar de Afrodite” e outros livros de Pitigrilli, “O crime do padre Amaro” e “Os Maias” de Eça de Queirós, “A velhice do Padre Eterno” do Guerra Junqueiro que é o meu livro de poemas favorito (o melro, eu conheci-o; era negro, vibrante, luzidio...) por muito que digam que o autor é um poeta menor. Mas também sou fã da lírica camoniana, nomeadamente dos belíssimos sonetos.
E, embora lesse muitas partes da epopeia de Luís de Camões por obrigação, não deixei de me extasiar com “Os Lusíadas”, ou partes da obra.
Uma nota especial para “Piloto de morte” de Antoine de Saint Exupéry. Foi-me oferecido no final do antigo 3º ano dos liceus pela professora de Geografia (Maria Lúcia Santos) por ter sido o seu melhor aluno no conjunto das cinco turmas em que leccionara essa cadeira. Entregou-mo já no último dia de aulas quando estávamos todos à espera para entrar para a sala onde haveria a derradeira lição de uma outra disciplina. Depois da entrega do livro, com uma dedicatória e um beijinho, a rapaziada pegou em mim e atirou-me ao ar várias vezes gritando vivas ao Castilho (que era eu). Gostei!
Também é desse período “A nossa vida sexual” de Fritz Kahn que me foi oferecido pelo meu pai. Valeu a pena lê-lo! Aprendi muitas coisas com a leitura deste livro que era demasiado defensor dos bons costumes e de uma moral cristã. Mas eu descontava isso e atentava mais nos aspectos biológicos, psicológicos e sociológicos.
Os notáveis “Os Miseráveis”, “Noventa e três” e “O homem que ri” do maior de todos os românticos, Victor Hugo, foram três obras de enorme qualidade que me permitiram apreciar o que era escrever romances como devia ser. Ainda hoje recordo algumas passagens marcantes. Inolvidáveis. Obrigado, Victor Hugo.
Depois, já a sair da adolescência, foi a redescoberta da banda desenhada com o “Astérix” e o “Lucky Luke” dos belgas Uderzo e Gosciny.
A descoberta do filósofo e pensador Bertrand Russell com “Porque não sou cristão” e outros.
Das deliciosas quadras de “Este livro que vos deixo...” do António Aleixo.
O sabor agradável da “Crónica dos bons malandros” de Mário Zambujal.
O encontro com Jorge Amado no estupendo “Os velhos marinheiros” e mais títulos.
A leitura do revolucionário “Livro Vermelho” de Mao Tsé Tung.
Quero destacar ainda duas obras que, não sendo de ficção, foram muito agradáveis de ler e nelas recolhi nova informação: “Ensaios de Geografia humana” de Josué de Castro e “O poder da informação” de Jean Louis Servan-Schreiber.
Já depois de ter terminado o curso de Engenharia e a comissão de serviço militar em Angola, quero referir “A República espanhola e a guerra civil” de Gabriel Jackson, em dois volumes, que adorei ler e me empurrou para vários livros ficcionados sobre esse tema dos quais destaco “Por quem os sinos dobram” de Ernest Hemingway.
“O sonho e a História” de Claude Julien que, por altura das comemorações do bicentenário da independência dos Estado Unidos da América contava a história desse grande país de forma desassombrada e proporcionando uma leitura muito agradável e enriquecedora.
Muito interessante foi também “A revolução francesa” de A. Manfred, pois relatava esse momento histórico fundamental para a Europa e para o mundo com uma linguagem marxista. Inédito.
Na fase da adolescência lera alguns livros policiais, mas foi nos anos 80 e 90 que coleccionei os quarenta volumes das obras de Agatha Christie tendo lido muitos deles.
Embora mais conhecido como autor policial, foi um livro de Georges Simenon que acompanhava a loucura progressiva d’ “O homem que via passar os comboios” que me entusiasmou, apesar de não ser de leitura nada fácil.
Naturalmente, li muitas mais coisas, mas deixo aqui registado o que foi mais importante para mim.
E já é longo o rol, apesar de actualmente pouco ou nada ler.
Fases da vida, presumo!


publicado por António às 14:24
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45 comentários:
De Paula Raposo a 5 de Novembro de 2007 às 18:41
Gostei de saber das tuas leituras. Quase nada li do que aqui mencionas...beijos


De António a 5 de Novembro de 2007 às 18:57
Olá, Paulinha!
Aposto que leste as histórias infantis...eh eh

Beijinhos


De Paula Raposo a 6 de Novembro de 2007 às 23:00
As infantis? Bela adormecida, sete anões, gata borralheira??! E toda a parafernália da altura? Leram-mas. Detestei-as. Só li com agrado as aventuras dos cinco e dos sete. Adorei.


De António a 7 de Novembro de 2007 às 10:15
Enid Blyton, não era?
Li pouca coisa dessas interessantes aventuras.

Beijinhos


De Marta a 6 de Novembro de 2007 às 00:48
Excelente retrospectiva! E o Tintin?? Li tudo em francês. Fico encantada que tenhas lido a Condessa de Segur! Foram as minhas primeiras leituras a sério e devorei a obrabtoda,em francês claro, aos 10 anos! E marcaram-me imenso,a pousada do anjo da guarda, a sofia, tanto e tantos.. Obrigada pelas recordações

Besitos


De António a 6 de Novembro de 2007 às 09:44
Olá, Marta!
Obrigado pela visita e pelo comentário.
Tintin, Michel Vaillant...também li algumas coisas mas eram livros dos meus primos e não foram muito marcantes.
Não quis fazer uma lista exaustiva...nem conseguia...ah ah ah.

Beijinhos


De goreti a 6 de Novembro de 2007 às 21:05
Quem assim tanto leu, voltará infalivelmente a fazê-lo! São fases...
Recomendo-te Robin Cook! Tens uns policiais soberbos!
Um abraço


De António a 6 de Novembro de 2007 às 21:46
Olá, Goreti!
Atendendo à minha idade não li muito.
Talvez quando for um pouco mais velhote regresse à leitura.
A ver vamos!

Beijinhos


De goretidias a 10 de Novembro de 2007 às 14:57
Isso não tem que ver com a idade! Aos 28 anos li tanto, tanto, que não me lembro nem da décima parte do que li... são fases...
Quanto às minhas quadras, concerteza que são diferentes... ou não fossem do "livro do não" . Não ando numa de sensualidade no blog, agora. Esses poemas reservo-os para o escritartes, o luso e o Recanto... até me dar na veneta!
Um abraço


De António a 10 de Novembro de 2007 às 19:10
Olá, Goreti!
Pois são fases...
Foi isso mesmo que escrevi no texto.
Quando me refiro à idade é no sentido em que em 58 anos de vida poderia e deveria ter lido muito mais do que o fiz.
Mas, do que li, acho que soube extrair bastante; até porque quando não percebia bem um livro...ele voltava para a prateleira...ah ah ah.
Pois então faz o "livro do sim"...tu tens coisas de que gosto muito.
O Escritartes está um site muitíssimo bom!
Quer tecnicamente quer literariamente.
Tiveste uma bela ideia!

Beijinhos


De goretidias a 10 de Novembro de 2007 às 20:56
Sou mesmo uma idiota... rr...sss...
Livr do sim? Pode ser mesmo o q escrevo lá!
Beijo


De António a 10 de Novembro de 2007 às 21:39
Ora!
Não é idiotice...é rapidez.
Tu pareces a mulher-eléctrica...ah ah ah

Beijos


De apps a 6 de Novembro de 2007 às 22:48
gosto de ti, primo! beijo apertado *ap


De António a 7 de Novembro de 2007 às 10:16
Eu também, prima!

Beijinhos


De Brito Ribeiro a 6 de Novembro de 2007 às 23:39
Fizeste-me reflectir sobre tantos livros e autores que fui lendo desde criança. Só por isso já valeu a pena ler o teu magnífico texto.

Abraço


De António a 7 de Novembro de 2007 às 10:17
Obrigado por teres cá vindo!

Abraço


De KI a 7 de Novembro de 2007 às 02:52
Já é mesmo muito tarde mas quero mesmo fazer isto hoje e respirar no fim. Desejo-te tudo de bom António, és um excelente escritor com muita criatividade, gostei de te encontrar por aqui.

Gostava de um dia ver um livro teu se n tentares nunca saberás e q tens a perder?

Coragem!!

Beijinhos por cá passarei em silêncio mas atenta.

Até sempre :)


De António a 7 de Novembro de 2007 às 10:19
Também vais embora...
Cada vez fico a sentir-me mais só.
Tudo de bom!
Até sempre!

Beijinhos


De Maria Papoila a 7 de Novembro de 2007 às 23:51
Querido António:
São tantos os livros e autores que lemos em comum!
A tua amiração por Vitor Hugo, Jorge Amado... embora o meu favorito seja "Os Capitães da Areia", o David Copperfield, o Tom Sawyer para não falar na banda desenhada e estranho não te ver faler no Mundo de Aventuras e no Condor... Gostei d erever contigo e estou segura que continuas a ler e a reler!
Beijos


De António a 8 de Novembro de 2007 às 19:08
Querida Papoila!
Obrigado pelo teu comentário.
O Mundo de Aventuras e o Condor eram colecções de banda desenhada; não as referi porque destaquei os heróis.
Do Amado gostei particularmente d'"Os velhos marinheiros" pois eu fui oficial de Marinha como o Vasco Moscoso de Aragão: só que eu o fui a sério e ele em imaginação.
Na parte final em que ele manda positivamente amarrar o navio ao cais, o vocabulário marinheiro por usado era todo ele meu conhecido.

Beijinhos


De Cusco a 8 de Novembro de 2007 às 12:35
Olá! Li muitos dos livros que aqui estão descritos. Nunca li banda desenhada de espécie alguma…! Entre os dez e os vinte anos eu li praticamente todos os clássicos…de ponta a ponta. Alguns estou pensando em reler futuramente. Costumo dizer que sou um burro carregado de livros.. e isso não me faz deixar de ser um burro!
Um abraço!


De António a 8 de Novembro de 2007 às 18:53
Olá!
Obrigado pela tua presença e pelo comentário.
Surpreende-me que nunca tenhas lido banda desenhada.
Acabei agora de ler o teu último post e constatar que também te preparas para deixar os blogs.
Este parte...aquele parte...
(acho que actualmente, e salvo as habituais excepções, há blogs a mais e qualidade a menos - isto começa a não ter interesse nenhum!)

Abraço


De leonoreta a 8 de Novembro de 2007 às 18:44
ola antonio
podes nao acreditar mas eu li isso tudo. eu fui sempre louca pelos alfarrabistas e lia emprestado, isto é, escolhia cinco ou seis livritos e dias depois trocava-os. pagava uns tostões.
e os alfarrabistas dessa época eram de janela de res de chao.
esqueceste o fantasma.
apaixonei-me pelo porte do mandrake.
e o meu preferido do asterix é a zaragata.
dos brasileiros nao gostava mas havia o Quino que era muito bom.
um grande post antonio.
beijinhos


De António a 8 de Novembro de 2007 às 19:44
Querida Leonor!
Obrigado por mais uma presença tua.
Uma fiel leitora há cerca de dois anos e meio, não é?
E vice-versa.
Esqueci-me da Mafalda!
Li-a, já tinha passado a adolecência e adorei o humor do Quino.

Beijinhos


De Anonimo a 8 de Novembro de 2007 às 18:55
Concordo plenamente com o comentário feito na sua versão final..
Isto na sua maioria (os blogues) são uma autentica porcaria. São raros aqueles com alguma qualidade...
Abraço!


De António a 8 de Novembro de 2007 às 19:46
Pois...e eu pergunto-me se vale a pena continuar quando a qualidade quasi atingiu o nível 0.


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