Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças!
Segunda-feira, 12 de Março de 2007
Histórias curtas XIII - O velório
Jaime Pereira da Cruz era engenheiro-técnico numa empresa de construção civil.
Quadro intermédio, trabalhador, com um bom nível intelectual, percorreu vários departamentos da empresa ao longo dos inúmeros anos em que lá trabalhou. Estava agora no de Orçamentação.
Tinha sessenta e dois anos.
Já sonhava com a reforma e na forma como a iria usufruir e agora estava ali estendido, frio e branco como mármore, dentro de um bonita caixa de madeira ornamentada com tecidos brancos, finos ou almofadados, lisos ou rendados, e rodeado por ramos de flores.
Nesse dia de manhã, no escritório, sentira uma dor intensa no ventre, depois no peito, uma estranha impressão no braço e caíra de borco sobre a secretária.
Nem um ai.
Os seus colaboradores que estavam mais perto ainda acorreram. O Pina, que sabia de primeiros socorros pois era bombeiro voluntário, verificou que não tinha pulso mas, mesmo assim, tentou reanimá-lo enquanto a Adelina chamava o 112.
Mas não havia mais nada a fazer. Já era finado quando a ambulância chegou.
A autópsia revelou morte por enfarte do miocárdio.
A intervenção de pessoas influentes propiciou que o cadáver fosse levado para uma capela mortuária anexa à igreja que ficava perto da que fora a sua morada durante os últimos anos.
Nela vivera com a Doroteia, sua mulher, e com o mais novo dos três filhos, o Miguel.
Os outros dois já estavam arrumados: o Hernâni, casado com a Ana, já tinha uma menina de cinco anos; o Orlando, que vivia com a Sofia, ainda não lhe dera nenhum neto.
Eram dez da noite e o velório estava muito concorrido.
Além dos familiares mais próximos já apresentados acima, estava lá a sua mãe Juliana, viúva e octogenária, que via assim desaparecer o primeiro dos seus dois descendentes. O outro era a Fernanda. Ela e o José Manuel, seu marido, também já lá estavam, assim como a Olga, a filha de ambos, ainda solteira.
E várias outras pessoas.
Mas mais foram chegando.
Com ramos de flores, uma parte delas, entraram com o rosto fechado e um ar compenetrado e sério, triste e choroso nalgumas mulheres. Dirigiram-se para a urna, poisaram os arranjos florais, aquelas que os traziam, e ficaram quietos, em meditação ou oração durante uns instantes.
Depois foram apresentar as condolências à viúva, inconsolável com os olhos vermelhos escondidos por uns óculos de lentes muito escuras, à velha Juliana, meio apática pela acção dos sedativos e da idade, em suma: aos mais próximos do Jaime, ou Sr. engenheiro, ou Pereira da Cruz.
Eram parentes mais afastados, colegas da empresa, amigos de infância, das escolas que frequentara enquanto jovem e do Instituto Superior onde tirara o curso. Vizinhos, conhecidos de outras firmas, também.
Depois afastaram-se para deixar que outros dessem mostras do seu desgosto, estupefacção e solidariedade aos mais directamente atingidos pela terrível fatalidade.
- É assim a vida! Acabaremos todos numa caixa daquelas – disse um que, cumpridas as formalidades sociais, tinha ido para o exterior fumar um cigarro.
- Era um tipo porreiro! – elogiou outro – Não é justo que um gajo desapareça assim, de repente.
- Pois era! Mas para ele terá sido melhor assim do que estar meses e meses a morrer lentamente, a sofrer e a dar uma trabalheira a quem tivesse que cuidar dele – opinou um outro.
- Mas estas mortes repentinas causam um impacto muito forte. Quando a doença é prolongada já se está preparado e custa menos – falou um vizinho.
- Os colegas que o viram tombar também devem ter apanhado um choque muito violento – alvitrou um parente.
- Eu estava lá! Ainda tentei reanimá-lo mas já não havia nada a fazer. É de facto um impacto tremendo – confirmou o Pina.
Aproximou-se o filho mais velho, o Hernâni.
- Agora é que se vê como ele era estimado. – disse – Nunca pensei que viesse tanta gente.
E continuou:
- Agradeço a todos a vossa presença. Para nós, familiares, é um lenitivo e também uma forma de nos distrair o pensamento. Estas conversas são boas para nos fazer sentir menos angustiados.
- Não é o caso do Sr. engenheiro, mas já estive em velórios, sobretudo de pessoas idosas ou outras cuja morte era esperada, em que até anedotas se contavam – opinou um dos seus colaboradores mais próximos.
- É verdade! Mas isso também serve de escape, embora não seja socialmente muito bonito – ouviu-se.
- Oh Hernâni! O funeral é amanhã às três da tarde, não é? – perguntou um primo afastado.
- É! O caixão sai daqui uns minutos antes e às três começa a missa de corpo presente na igreja. A seguir vai para o cemitério que fica atrás do templo – esclareceu o primogénito.
E conversas como estas foram-se desenvolvendo em vários grupos.
Alguns dos presentes encontraram amigos e conhecidos que não viam há muito. Sem se darem conta disso, cumprimentavam-se efusivamente.
- Há que tempo não estava contigo! Tens um óptimo aspecto! Ainda estás a trabalhar no mesmo sítio? – disse um tal Bernardo.
- Estou! Esta aqui é a minha nova mulher. Divorciei-me e casei de novo – respondeu um Frederico.
- Muito prazer! Bernardo Ferreira.
- Igualmente! Leonor Martins.
E algumas conversas foram-se tornando mais leves.
- Oh pá! Já viste como é boa a nova mulher do Frederico?
- Nem me fales! Se o morto a visse ainda ressuscitava.
- Olha com quem! O Jaime parecia que não quebrava um prato mas partia a louça toda.
- Palpita-me que o tipo não tem pedalada para uma coisa daquelas.
E riram-se baixinho.
Algumas pessoas foram-se despedindo e retirando.
Umas disseram que iriam ao funeral; outras que tinham muita pena mas lhes era totalmente impossível comparecer.
O espaço foi-se esvaziando.
De vez em quando chegava um retardatário.
Um deles foi uma mulher de uns quarenta e poucos anos que, mesmo sem querer, dava nas vistas pelo seu ar capitoso. Vestia de preto e cinzento e vinha acompanhada por um jovem com uns doze anos.
Deixaram um ramo de rosas vermelhas junto do caixão mas não cumprimentaram ninguém da família.
Afastaram-se para junto de uma parede onde ficaram a observar.
Em certo momento disse ela para o rapazito:
- Meu filho! Espero que o teu pai tenha feito o testamento e tu estejas lá incluído, como ele prometeu. Senão metemos um advogado no assunto. És tão filho dele como os outros três. Estás perfilhado e, portanto, não será complicado receberes a tua parte da herança – disse a mulher.
Pouco depois retirou-se.
Um velho colega de trabalho do falecido aproximou-se de outro, também já perto da reforma e disse:
- Viste quem saiu agora mesmo?
- Claro!
- E como é que ela soube?
- Há sempre alguém para dar notícias, boas ou más. E vais ver que daqui a pouco tempo vai haver escândalo na família.
- Humm...parece-me que sabes mais do que eu!


publicado por António às 23:23
link do post | comentar | favorito
|

39 comentários:
De Maria Papoila a 13 de Março de 2007 às 00:00
António:
Pois gostei de mais esta história que gira à volta de um morto.
E há sempre alguém para dar notícias... boas ou más...
Beijo


De Peter15 a 13 de Março de 2007 às 00:01
Não gostei. O tema é a verdade desagradável e ainda há pouco estive aqui em casa a falar sobre um velório onde eu me curvei perante a falecida e toda a gente falava uns com os outros, sem lhe ligar pevide.

Sentimentos? Uma trampa. O dinheiro é que conta, como se viu no final.

Desculpa, não estou nos meus dias.


De wind a 13 de Março de 2007 às 01:20
Uma história típica dos velórias, mas mais uma vez acho que acabaste de repente a prosa. Fica muito rápido o fim para quem lê.
beijos


De Paula Raposo a 13 de Março de 2007 às 01:30
Sem dúvida conversas de velórios. A maior parte das pessoas, muitas vezes, nem tem nada a ver com o morto/a, aparece simplesmente para se mostrar e, até mesmo, para 'cuscar' quem foi e não foi. Típico desta sociedade. Penso muitas vezes, que se o morto/a pudesse assistir ao seu próprio velório morreria com certeza de novo!! Beijos.


De poesiamgd.blogspot.com a 13 de Março de 2007 às 07:31
Sob vários aspectos se poderia tecer um comentário ao texto... ou vários. De facto, nos teus contos captas de forma excelente a realidade nua e crua. Quem já perdeu familiares sabe o quanto se sofre nesses malfadados velórios. As pessoas vão muito por obrigação e pouco por afeição sincera ao defunto ou à família. Sempre me chocou o descaso com que se fala de tudo e de nada nesses locais. As risadas, as anedotas, a galhofa que mais ofendem a família do que a ausência faria!
Depois... bem... depois a surpresa final! Como só tu... Alguém aparentemente digno de toda a confiança, trabalhador, enfim... com outra família construída em paralelo! É, parece que nem sempre somos o que parecemos!
Muito bom!
Um abraço


De Peter15 a 13 de Março de 2007 às 10:46
António

Volto aqui para agradecer a demorada visita que fizeste ao meu blog. Normalmente as pessoas só lêm, na melhor das hipóteses, o primeiro artigo e já é muito, pois por vezes ficam-se pelo último parágrafo.
Falta de jeito do autor, que não sabe cativar os leitores, o que não é o teu caso, pois lemos-te sofregamente até atingir o final, tantas vezes inesperado.

Abraço


De blueshell a 13 de Março de 2007 às 12:51
Olá...Vim ver-te e ler-te no teu novo sítio.
E agora até te "vejo" na foto....

Virei mais vezes quando vierem as férias para deixar a leitura em dia.

Beijos BShell


De nena a 13 de Março de 2007 às 14:53
eu, a dar os pêsames á dona doroteia...snif, snif,..não chore tanto mnha sra, trago-lhe aqui uns calmantes, tome já 3 ..vai precisar querida..( aliás; deixo-lhe aqui mais meia duzia de caixas; vai ver que vai precisar..) snif.snif..


De António a 13 de Março de 2007 às 18:13
Olá, nena!
(ou Nena?)
Obrigado pelo teu jocoso comentário.

Beijinhos


De nena a 13 de Março de 2007 às 20:27
tanto faz António, é assim que os amigos me tratam.
( e o meu pai também se chamava António)
não só por isso mas também;
gosto de ti,
que escreves como ninguém.

(bjinho repenicado, smak!)


De António a 13 de Março de 2007 às 21:24
...e assim me deixas todo babado!

Beijinhos


De Outsider a 13 de Março de 2007 às 15:18
Excelente e muito próxima da realidade descrição de um velório. A ler o conto parecia que estava a ver-me num dos velórios a que já fui, quer de família, quer de conhecidos.
O final com o choque para a família dá o toque habitual de mestria no final do conto.
Um Abraço.


De tb a 13 de Março de 2007 às 16:08
Mais um primor da escrita a que já nos habituaste. Pois é tanta coisa se poderia dizer. Apenas te digo que captaste a realidade da sociedade hipócrita em que vivemos e convivemos....
Parabéns!
Beijinhos


De poesiamgd.blogspot.com a 13 de Março de 2007 às 16:45
Colmatada a falha, aqui estou para tentar comentar-te do jeito que pediste... mas não pareça que possa fazê-lo... o meu blog não é do sapo! De qualquer forma, cá vai a tentativa.


Comentar post

Mais sobre mim
Maio 2013
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10
11

12
13
14
15
16
17
18

19
20
21
22
23
24
25

26
27
28
29
30
31


Posts recentes

Este parte, aquele parte....

As fotos de 21 de Maio de...

O 21 de Maio de 2011

O meu terceiro livro (IV)

O meu terceiro livro (III...

O meu terceiro livro (II)

O meu terceiro livro (I)

É dos carecas que elas go...

Três meses depois...

As fotos de 15 de Maio de...

Arquivos

Maio 2013

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Outubro 2010

Agosto 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Outros blogs
Pesquisar neste blog
 
Visitantes
Hit Counter
Free Counter