Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças!
Sexta-feira, 7 de Dezembro de 2007
Histórias curtas XXXIII - A mulher que gostava de vinho
Reconversão do texto “Diálogos de gente XII – A alcoólica” de 13 de Maio de 2006
 
José Alberto Brito era escriturário na Conservatória do Registo Civil.
Com trinta e dois anos, casado com Luciana Carvalho um pouco mais nova, nenhum filho nascera ainda da relação. Esta não tinha profissão ou, como se costuma dizer, era doméstica.
- Boa tarde, Luciana! - disse o homem ao entrar no pequeno apartamento de três assoalhadas onde viviam.
Não obteve resposta.
- Luciana! Cheguei!
- A Luciana está a dormir há várias horas – ouviu duma voz bem conhecida.
- Oh mãe! Estás cá? Não me digas que ela...
- Pois é, meu filho! Mais uma carraspana de caixão à cova – disse, num tom de desalento, a quasi sexagenária senhora.
- Esta mulher é terrível! Dá cabo de mim! E onde foi arranjar o vinho, desta vez? – perguntou o bom do Zé, desanimado, antes de suspirar fundo.
- Deve ter ido lá fora comprar um garrafão de maduro tinto que estava na cozinha com muito menos de metade. Agora não tem nada porque eu o esvaziei – esclareceu a mãe, Isaura.
E continuou:
- Ainda bem que eu tenho a chave e venho cá. Estive a ver a tua roupa e só tens uma camisa lavada. Pus alguma a lavar e depois levo-a para minha casa para tratar dela.
- Se não fosse a mamã esta casa era uma desgraça. E mesmo assim é o que se vê! – desabafou o José, olhando para vários pontos da cozinha e da sala onde o desarrumo era imenso.
- Eu não percebo porque não te divorcias, Zé! – disse a senhora – Já falamos nisso muitas vezes. Eu sei que tens pena dela e, no fundo, continuas a gostar da Luciana. Tens um bom coração. Bom demais. Mas nem um neto me deste. No fundo até acho bem, pois com a mãe alcoólica poderia ser uma criança com graves problemas.
E continuou a falar de pé, com o filho agora sentado num confortável sofá, os cotovelos apoiados nas coxas e as mãos segurando a cabeça inclinada:
- Já esteve internada a fazer recuperação por duas vezes e ao fim de pouco tempo lá voltou o vício. Já a mandaste para casa da mãe mas ao fim de seis ou sete dias foste lá buscá-la roído pelas saudades. As pessoas já a conhecem como a “bêbeda” e a ti como o “nabo”. Qual o teu futuro? Eu sei que já falamos nisto muitas vezes mas o problema continua. E vai continuar até se tomar uma decisão radical que tem de ser tua. Tens de ter coragem para a deixar. Não conheces outra mulher com qualidades? Aquela tua colega da repartição que é solteira, por exemplo.
- Ó mãe! Já lhe disse muitas vezes que tem toda a razão, mas não me consigo decidir. – disse o Zé – Não sei porquê, mas não a consigo abandonar. E quando está lúcida até é muito boa pessoa.
- O pior é que passa metade dos dias enfiada na cama com um grande pifo ou a andar pela casa como um fantasma quando está na ressaca. – ripostou a velhota – Tu és um mole! Se um dia morro, e não vou ficar cá para semente, não sei o que vai ser de ti. E tenho cá um desgosto por não ter um neto teu...e o teu pai também! Ele nem vem cá para não se incomodar. Quasi que nem fala contigo sobre o assunto. Deus me perdoe, mas se a desgraçada morresse eu ficava toda satisfeita!
- Oh mãe! Não diga isso! Acho que temos de arranjar uma clínica onde ela possa estar mais tempo. A solução é essa, na minha opinião – falou o Zé Alberto.
- Eu já não acredito nisso! Já esteve em recuperação duas vezes e foi o que se viu – disse a Isaura.
- É uma merda! É uma merda! – desabafou o José.
Entretanto ouviu-se um barulho vindo do quarto.
- Olha! Parece que se está a levantar! – disse a mãe – Vai lá ampará-la antes que dê um trambolhão. Eu vou continuar a dar uma arrumadela à casa, porque hoje a tua mulher não vai estar em condições. E depois vamos ver!
O José Alberto dirigiu-se ao quarto onde a Luciana estava sentada na cama, pés nus no chão, cabelos desgrenhados, rosto avermelhado, olhos semicerrados.
- Oh mulher! Então andaste outra vez a beber? – censurou o marido.
- Eu? A beber? Só um bocadinho... – respondeu a alcoólica com uma voz lenta, rouca e entaramelada.
- Ó Luciana! Não foi pouco, não senhora! Felizmente a minha mãe veio cá, está a fazer as coisas que tu devias ter feito, e viu um garrafão quasi vazio – corrigiu o Zé.
- A bruxa está cá? A fazer o quê? – desaforou a Luciana com a mesma entoação.
- Cala-te mulher! Cala-te!
- Tenho sede! – disse a mulher.
- Agora vais beber água e dormir mais, pois ainda não estás em condições de te levantar. Espera aí um bocadinho que eu já venho – disse o marido.
Enquanto isso, a alcoólica deixou-se cair para trás, na cama.  
Quando o devotado cônjuge regressou com um copo de água já a Luciana estava de novo a dormitar.
- Porque raio me fui apaixonar por uma mulher com um vício destes? – cogitou ele.
Saiu do quarto e foi sentar-se num banco da cozinha junto da mãe que, entretanto, resolvera preparar uma refeição para o filho.
- Lembrei-me de uma coisa! – interrompeu o silêncio, a senhora.
- O quê?
- Trancá-la em casa sem haver aqui nenhum álcool, nem mesmo perfume, e assim impedir que ela vá lá fora comprar vinho. Em suma: privá-la da bebida maldita.
- Nunca tentamos isso, realmente! – pareceu corroborar o homem.
 
E assim fizeram.
Logo no primeiro dia de encarceramento a aprisionada veio à janela do 3º andar em que ficava o apartamento e procurou aliciar uns rapazinhos pedindo-lhes para irem a uma velha mercearia buscar vinho.
Mas a sogra Isaura estava atenta e impediu que a mediação se concretizasse.
Quando chegou a casa, o Zé Alberto até sentiu dó do estado de carência em que a Luciana estava. Esta vociferou com ele, depois suplicou-lhe, mas o homem conseguiu aguentar firme.
Os dias seguintes pareceram ter sido copiados deste primeiro.
Até que ao fim da manhã do quarto dia a mulher pura e simplesmente saiu por uma janela indo cair no toldo de um estabelecimento comercial donde rolou para o pavimento onde ficou inerte.
Foi chamado o 112 pela própria sogra que continuava vigilante. A Luciana estava consciente mas não se conseguia mexer da cinta para baixo. Depois da chegada da ambulância foi estabilizada e transportada à urgência do hospital onde foi imediatamente atendida.
A sogra acompanhou-a no veículo de socorro e pouco depois estava no hospital com o filho e com o marido, que entretanto tinham chegado, aguardando informações dos médicos. Também alguns familiares da Luciana lá aguardavam novidades.
Ao fim de mais de uma hora foram informados de que, além de ter fracturado uma perna, uma anca e um braço, tinha uma lesão na coluna que a deixara paraplégica. Iria ficar internada e ser submetida a uma operação para tentar minimizar a lesão na espinal-medula
Ao fim de quasi duas semanas voltou para casa numa cadeira de rodas. A cirurgia fora bem sucedida mas teria de fazer fisioterapia para recuperar o mais possível.
- Foi pior a emenda que o soneto! – disse o Zé para a mãe.
- Não sei! Pode ser que se se mantiver sem ingerir álcool durante uns tempos perca o vício...
- Pois! Mas não sei o que é pior: se tê-la aqui paralisada pelo álcool ou pela lesão da medula.
- Tenho esperança de que recupere com a fisioterapia... – tentou acreditar a mãe.
 
Passados poucos meses, a Luciana já conseguia andar com canadianas. Não mais houvera sorvido qualquer bebida alcoólica e parecia duplamente curada.
Um dia, pouco antes das dez da manhã, bateram à porta.
Como a essa hora costumava estar sozinha, levantou-se da cama e com o auxílio das muletas foi abrir.
- Bom dia, D. Luciana! Precisa de alguma coisa para hoje? – perguntou um miúdo dos seus doze anos, o Renato, que vivia mesmo ao lado.
- Claro, meu rapaz! Traz a garrafinha do costume – disse ela enquanto entregava ao moço uma garrafa vazia, de vidro muito escuro, que meteu numa saca de napa grossa e preta.
E acrescentou ao dar-lhe uma nota:
- E guarda o troco!


publicado por António às 12:58
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22 comentários:
De leonoreta a 7 de Dezembro de 2007 às 20:33
precipitei-me.
nao li as tuas notas precedentes e quando começei a ler o texto vi que já o conhecia de muito antes.
acho que tiveste uma boa ideia.
beijinhos


De António a 7 de Dezembro de 2007 às 21:35
Querida Leonor!
Este texto está muito mais alongado do que o inicial.
A história tem mais peripécias.

Beijinhos


De leonoreta a 8 de Dezembro de 2007 às 16:41
tens razão. eu fiquei logo pelas primeiras linhas. um
acrescento e um final bem à tua medida de trabalhador do suspense.

beijinhos


De António a 8 de Dezembro de 2007 às 18:25
Mas não houve mortos, desta vez!
ah ah ah
(por pouco...)


De Paula Raposo a 7 de Dezembro de 2007 às 22:12
Lembro-me perfeitamente de ter lido parte da história em 2006. Ficou excelente com a reconversão que fizeste. Gostei imenso. A dependência do alcool (neste caso) é tremenda. Beijos.


De António a 8 de Dezembro de 2007 às 08:45
Gostastes, Paula?
Não está brilhante mas foi o que pude arranjar.
E quasi havia mais uma morte...ah ah ah

Beijinhos


De apps a 7 de Dezembro de 2007 às 22:27
li, mas nao foi fácil... o Zé!
Beijo apertado *ap


De António a 8 de Dezembro de 2007 às 08:42
Reconheceste a fonte de inspiração!

Beijinhos, prima


De a sua vizinha a 8 de Dezembro de 2007 às 17:42
Meu vizinho, vocemecê cada vez escreve melhor! Inté dá gosto ler as suas histórias. Olhe eu cá estou muito aborrecida... Proquê?... Olhe, esta coisa do Natal não me agrada nada.

É verdade, já há uns tempos que estou para fazer-lhe um pedido. Explique-me, como se eu fosse muito burra, como é que se comenta como deve ser para eu aparecer como deve de ser. Percebeu?... Deve ter percebido e eu sei que já ensinou há alguns meses mas não consigo encontar o comentário. Desculpe lá...

Beijinhos


De lena a 8 de Dezembro de 2007 às 20:15
lembro-me muito bem deste teu texto

lembro-me dele mais pequeno, está melhor assim, deste-lhe um final com melhor qualidade, da outra vez ficou pela cama ...

continua a chocar-me situações destas tão reais!

lembro-me destes diálogos perfeitamente.

as situações que narravas eram tão reais e com o teu toque especial do saber .

o meu abraço onde vai o meu carinho

beijinhos para ti querido António

lena





De António a 8 de Dezembro de 2007 às 21:43
Leninha querida!
Obrigado pela tua apreciação.
Palpita-me que foste reler a versão curta...eh eh

Beijinhos


De António a 8 de Dezembro de 2007 às 21:40
Minha querida vizinha!
Obrigadinho pela sua visita.
Como não tem conta no Sapo, não vemos a mesma coisa quando pretendemos comentar.
Só lhe posso dizer que tem de clicar em "Comentar" e depois pôr a pintinha onde diz "Não tem Blog nos novos Blogs do SAPO"
Depois...é preencher correctamente o que lhe aparecer...e que eu não sei o que é.
Valeu?

Beijinhos


De Maria Papoila a 9 de Dezembro de 2007 às 10:25
Olá António:
Lembro-me da história e do que comentei sobre o drama do alcoolismo no feminino tantas vezes escondido... Gostei do teu arranjo e do final.
Beijos


De António a 9 de Dezembro de 2007 às 14:55
Olá, Papoila!
Obrigado pela tua dedicação ao meu blog.
Toma lá um grande beijo


De Brito Ribeiro a 9 de Dezembro de 2007 às 16:30
Estes casos não são raros e geralmente escondidos pela família, como bem sabemos...

Abraço


De António a 9 de Dezembro de 2007 às 18:03
Neste caso abordei a situação mais rara e mais reprovada socialmente.
Mas a dos homens alcoólicos é mais frequente e mais facilmente assumida.

Abraço


De wind a 10 de Dezembro de 2007 às 10:45
Relataste muito bem o drama do álcool, do que sofre dessa doença , dos familiares que o rodeiam e o fim foi fenomenal:)
Beijos


De António a 10 de Dezembro de 2007 às 12:45
Querida Isabel!
Muito obrigado por mais uma presença tua.
Não falhas!

Beijinhos


De sophiamar a 10 de Dezembro de 2007 às 19:00
Lembro-me deste texto embora não o tenha comentado. Às vezes vou ao blogue e leio, leio, leio...
Uma situação dramática e bem real. Estes não tinham filhos mas quantos há que já os têm e ficam envergonhados com as lamentáveis cenas que os seus progenitores tomam em público sob o efeito do álcool. Fico sempre chocada com cenas destas quer os seus protagonistas sejam homens ou mulheres. O que está por detrás destes comportamentos? Outros casos de alcoolismo na família, desgostos, frustrações...enfim, posso estar aqui a escpecular sem parar. No entanto, o tema tratado é pertinente e erradicá-lo através de tratamento adequado é a melhor solução. Abandonar a "doente" nem pensar. Essa é a solução mais fácil.
Beijinhossss


De António a 10 de Dezembro de 2007 às 21:52
Olá, Isabel querida!
Obrigado por teres vindo mais uma vez.
Sobre o alcoolismo não estou bem informado pelo que não sei a resposta para as dúvidas que colocaste no teu comentário.

Beijinhos


De rosa silvestre a 22 de Dezembro de 2007 às 19:28
Pensando eu que a senhora iria recuperar...mas qual quê!


De António a 22 de Dezembro de 2007 às 21:24
Tu acreditas em milagres?
Eu não!
ah ah ah

Beijinhos


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