Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças!
Sábado, 9 de Fevereiro de 2008
Histórias curtas XXXVIII - O bajulador
Reconversão do texto “Diálogos de gente (IX) – O lambe-botas” de 25 de Abril de 2006
 
Duarte Nóvoa estava sentado na secretária do seu gabinete a escrever um e-mail de resposta a uma questão suscitada pelo seu superior hierárquico e Director – Geral.
Eis que o seu subordinado Óscar Ribeiro assomou à porta do compartimento e perguntou baixinho:
- O Sr. engenheiro dá licença?
O chefe nem teve de levantar a cabeça para saber quem era:
- Ó Óscar! Eu agora preciso de estar concentrado aqui a redigir um texto para o meu chefe. Falamos daqui a um bocadinho.
- Sim, Sr. engenheiro Nóvoa – respondeu o Ribeiro, ao mesmo tempo que entrava completamente no gabinete e se postava silenciosamente junto à porta.
Ao fim de uns bons dez minutos:
- Ufa! Finalmente! – suspirou o Duarte e, reparando no outro – Então você ainda está aí, Ribeiro?
- Estava à espera que o Sr. engenheiro acabasse esse trabalho para falar consigo.
- Já lhe disse para não me chamar Sr. engenheiro. Não gosto. Pode chamar-me engenheiro Nóvoa se quiser usar o título, mas sabe muito bem que não gosto muito disso. O meu nome é Duarte Nóvoa – repreendeu o “manda-chuva”.
- Pois é! Mas estou habituado a meter sempre o engenheiro e agora, se não usar, não me sinto bem – justificou-se o Óscar.
- Mas afinal qual é o problema, Ribeiro? – interrogou o Nóvoa.
- Queria pedir-lhe autorização para logo à tarde me deixar sair. Tenho uma consulta marcada no oftalmologista às quatro horas. Mas eu ainda venho cá depois porque o Sr. engenheiro Nóvoa pode precisar de mim – disse o homem.
- Está muito bem! É sensato olhar pela saúde e a visão deve ser bem vigiada – autorizou o engenheiro.
E continuou:
- E está dispensado para o resto da tarde. Você passa cá muito tempo e até lhe faz bem ir apanhar ar fresco. Senão ainda fica mais doente estando sempre aqui metido.
- Muito obrigado, Sr. engenheiro! – agradeceu o Óscar – Mas eu gosto de estar aqui porque acho que devo dar o máximo de tempo à empresa que me paga.
- Eu agradeço muito a sua dedicação, Ribeiro, mas não quero que prejudique a sua vida privada e familiar. Salvo em situações excepcionais – disse o chefe.
- Sabe que, se eu não estou, muitas das outras pessoas que cá trabalham não sentem tanto a firma e alguns assuntos ficam adiados. Eu procuro resolver tudo de imediato.
- Eu sei da sua dedicação, Ribeiro! Não precisa de ma lembrar. – afirmou o Nóvoa, já um pouco fatigado dos salamaleques e auto-elogios do outro – Pode retirar-se e, se me fizer o favor, peça ao Nogueira para cá vir.
- Acho que o Nogueira não está cá! Mas eu vou procurá-lo e se estiver eu dou-lhe o recado – prontificou-se o lambe – botas.
- O Nogueira não está cá? Mas ninguém me disse nada! – admirou-se o Duarte.
- Eu não tenho a certeza, mas vou já tratar disso. Com licença! – e saiu da sala, o Ribeiro.
- Até que enfim! Este tipo é pior que uma carraça! – desabafou para consigo o Director do Departamento.
Passados alguns minutos, apareceu novamente o Óscar.
- O Sr. engenheiro dá licença? – perguntou.
- Diga lá, Ribeiro!
- Estive a procurar o meu colega Nogueira mas não o encontrei.
- Mas ele saiu e não disse nada? – perguntou, um pouco irritado, o responsável.
- Parece que saiu e não disse nada a ninguém – enfatizou o graxista.
- Isto assim não pode ser!
Mas eis que surgiu à porta um terceiro homem!
- O engenheiro andava à minha procura?
- Ó Nogueira! Afinal você está cá!
- Estive sempre! Mas de vez em quando tenho umas necessidades fisiológicas para satisfazer – disse o recém-chegado enquanto olhava com cara de poucos amigos para o Ribeiro.
- Entre e sente-se! E você, Ribeiro, pode retirar-se. Já não preciso de si, por enquanto – ordenou o Director.
- Então, com a sua licença, Sr. engenheiro!
E o Óscar Ribeiro saiu, a pensar:
- Este sacana vai ter de me dar um bom aumento! Nem que tenha de passar cá dentro 24 horas sobre 24 horas.
 
E os dias, as semanas, os meses foram correndo e o sabujo continuava a irritar tudo e todos.
Tal era a ânsia de exibir a sua dedicação e entrega à firma que nem percebia quão ridículo se tornava, mesmo aos olhos daqueles que mais bajulava.
Um dia, um grupo de colegas que não o suportava resolveu agir e encarregou o Jorge França, que era um excelente imitador, de telefonar para casa do Ribeiro cerca das três da madrugada simulando ser o engenheiro Duarte Nóvoa.
E ele assim fez:
- Ó Ribeiro! Desculpe estar a incomodá-lo a esta hora mas eu estou aqui na empresa porque se declarou um princípio de incêndio. Um segurança do prédio chamou os bombeiros que apagaram o fogo mas alagaram tudo e estragaram imensas coisas. Você não se importa de dar aqui um salto para ajudar a fazer umas arrumações? De manhã dormimos e vem outros e nós continuamos de tarde…uma espécie de turnos.
- Vou já, Sr. engenheiro Nóvoa! É só o tempo de me vestir e fazer a viagem. Acho que estou aí em vinte minutos.
- Obrigado, Ribeiro! Eu sabia que podia contar consigo. Depois será devidamente compensado – prometeu o chefe.
- Então até já!
Claro que quando o homem, um quarentão baixo, calvo e anafado chegou ao seu destino estava tudo na maior das calmarias.
Falou com o segurança que lhe garantiu que nessa noite nada de anormal se passara e muito menos tinham lá estado os bombeiros.
Afastou-se em direcção à sua viatura enquanto cogitava:
- O engenheiro era incapaz de me fazer uma coisa destas; mas a voz era a dele…ah…só pode ter sido o sacana do França. Maldito! Mas o chefe vai ficar a saber disto! Claro que vai!
 
No dia seguinte o Óscar Ribeiro chegou ao serviço à hora habitual mas um tanto ensonado. Todavia, não deixou de reparar que era alvo de olhares trocistas, facto que o deixou deveras irritado.
Ao passar pelo França murmurou:
- Vais-te arrepender do que fizeste!
E dirigiu-se ao gabinete do engenheiro Duarte Nóvoa.
- Posso entrar, Sr. engenheiro Nóvoa?
- Entre, Ribeiro, entre! Eu queria mesmo falar consigo.
- Mas antes, e se me autorizasse, queria contar-lhe o que me fizeram esta madrugada e provocou que hoje esteja com um ar menos agradável.
E contou tudo o que ocorrera…
O chefe olhava para ele muito atentamente e com um ar muito sério.
Quando o Óscar Ribeiro terminou a narrativa o engenheiro falou:
- Ó Ribeiro! Olhe que não foi o França. Fui mesmo eu…
 O outro ficou a olhar para o Director de Departamento com cara de parvo e, ao fim de uns segundos, perguntou:
- Mas como pode ter sido o Sr. engenheiro?
- Nem você nem ninguém nesta casa sabe que eu sou sonâmbulo. Como a minha mulher me acordou de noite quando eu acabava de fazer um telefonema, embora não me lembrasse de nada, ela foi ver que número eu marcara e era o seu. Ainda tentei comunicar consigo mas você já saíra e não deve ter levado o telemóvel. Pensei em deixar uma mensagem de voz mas achei que o melhor seria depois falar consigo pessoalmente. Peço-lhe desculpa pelo inconveniente! – falou o Nóvoa.
- Por quem é, Sr. engenheiro? São coisas que acontecem. Felizmente não houve incêndio nem nenhuma confusão grave. Esse problema que o Sr. engenheiro tem é que é muito chato – disse o graxista.
- É! Mas felizmente só me dá muito raramente. Tomo umas pastilhas para evitar fazer disparates a dormir.
E pouco depois o Óscar Ribeiro saiu do gabinete.
Continuou a parecer-lhe que muitos dos colegas tinham um ar zombeteiro, mas pensou:
- Não acredito que o engenheiro estivesse mancomunado com esta corja!
E armou a couraça da indiferença.


publicado por António às 13:37
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15 comentários:
De Brito Ribeiro a 9 de Fevereiro de 2008 às 20:10
Há sempre um sacana graxista em todas as empresas. Parece praga divina! Gostei particularmente dos diálogos.

Abraço


De António a 9 de Fevereiro de 2008 às 21:12
Olá!
Nem quando se usam mais ténis do que sapatos de couro engraxado eles diminuem...eh eh

Abraço


De leonoreta a 10 de Fevereiro de 2008 às 12:17
ola antonio
ha gente que nao tem um minimo de vergonha e tu retratas isso muito bem neste texto como alias em todos os outros. sabes exactamente como meter o dedo na ferida.
prefiro ficar a perder mas batattinhas nao peço e graxa nao dou. paciencia. orgulho de moura
beijinhos


De António a 10 de Fevereiro de 2008 às 14:44
Querida Leonor!
Este tipo de pessoas são doentiamente pegajosas.

Beijinhos


De leonoreta a 10 de Fevereiro de 2008 às 19:22
o mais engraçado antonio, é que conseguem as coisas que querem e quem lhas dá sabe perfeitamente que está a ser engraxado. isso ainda mete mais nojo.
beijiinhos


De António a 10 de Fevereiro de 2008 às 22:02
É verdade!
As chefias não tem , normalmente, capacidade e preparação para o serem.
Muitas também lá chegaram assim...

Beijinhos


De wind a 12 de Fevereiro de 2008 às 23:14
Muito bem contada esta história de um lambe botas que faz tudo para subir:)
Beijos


De António a 13 de Fevereiro de 2008 às 10:09
Olá, querida Isabel!
...e quantas pessoas não sobem na vida assim?
Masi do que se pode pensar, acho eu.

Beijinhos


De Paula Raposo a 13 de Fevereiro de 2008 às 11:56
Eh eh eh adorei, António!! Está excelente. Muitos beijos.


De António a 13 de Fevereiro de 2008 às 12:32
Olá, Paulinha querida!
Ando com uito pouca inspiração e vontade de escrever.
Vamos ver quanto tempo dura a crise...eh eh.
Obrigado pelo comentário!

Beijinhos


De andorinha negra a 13 de Fevereiro de 2008 às 21:39
Há pessoas que são diplomadas no engraxamento. Comigo é tempo perdido porque arrumo-as logo na 6ª. secção! Mas há quem goste que lhe lambam as botas e são tão estupidos que não vêm, ou não querem ver que estão a ser usados! Mas têm sorte!
Obrigada pela tua visita. A vizinha Diólinda deve ficar lá pelos Brasis porque eu penso que aquilo já deu o que tinha a dar. Agora virei-me para a poesia... De vez em quando a veia poética entra em acção! Passa por lá!

HOJE E AMANHÃ

Beijinhos!


De António a 14 de Fevereiro de 2008 às 08:52
Olá, Leonor!
Pois...já sabia que estavas mais virada para a poesia.
Mas eu gosto muito mais de uma boa prosa...eh eh

Beijinhos


De sophiamar a 22 de Fevereiro de 2008 às 23:36
Mas eu tenho andado muito distraída! Tu aqui com uma série de posts e eu a deambular por outras paragens.
Desculpa, querido António.
Voltarei para ler com atenção.
Desculpa. Tá?

Beijinhosssssssss


De Vanda a 24 de Março de 2008 às 19:06
Onde é que eu já vi cenas parecidas?
A única coisa que duvido pudesse acontecer na vida real é a atitude de chefe... eles (na generalidade) até gostam de ser valentemente bajulados....

Mais uma boa história....
Bj
Vanda


De António a 24 de Março de 2008 às 21:43
Olá!
Obrigado pela visita e pelo comentário!
É verdade que os chefes gostam de ser bajulados, gostam dos "yes, man"...mas a paciência tem limites...ah ah ah

Beijinhos


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