Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças!
Quinta-feira, 22 de Março de 2007
Histórias curtas XV - Adoramos o papá!
Albertino Simões era um velhote já com mais de oitenta anos que acabara de enviuvar da sua querida Delfina.
Esta, dez anos mais nova, tinha ainda uma vitalidade enorme. Era a verdadeira comandante daquele exército de dois soldados que vivia num pequeno apartamento para onde se havia mudado há três anos, após que o seu benjamim, o João Paulo, deixara a casa onde ele e os seus três irmãos mais velhos haviam nascido e sido criados por um pai então rigoroso e uma mãe que sabia muito bem como simular que desempenhava um papel secundário.
O mais velho era o Pedro, com quasi cinquenta anos, que vivia com a Ana Maria, sua mulher, e mais dois rapazes num andar em Vila do Conde.
Depois tinha nascido a Júlia que casara com um oficial do Exército, o Adriano, e agora estava a residir em Santarém. Tinha quarenta e cinco anos e também dois filhos: um casal.
O terceiro era também uma mulher. Sofia, de seu nome, tinha quarenta e dois anos e vivia numa moradia em Oeiras com o marido Vítor, um economista do Banco de Portugal, tipo muito ocupado mas que tivera tempo para fazer quatro filhos à mulher: dois casalinhos.
Nascido já tardiamente, o João Paulo, tinha trinta e três anos e há quatro que fora viver com a Mafalda, de quem teve uma menina, para Rio Tinto.
Há dois anos o ancião tivera uma trombose que o deixou com significativas limitações no lado esquerdo do corpo. E era a mulher, frenética, inteligente, lúcida, quem tudo comandava e de tudo tratava. Que fibra ela tinha!
Mas um ataque cardíaco levou-a para o hospital onde esteve nos cuidados intensivos até a máquina que lhe dava uma vida artificial ter sido desligada.
Foi o momento de a família se reunir.
Nem todos, diga-se, pois alguns dos netos não vieram prestar a última homenagem a esta mulher anónima mas cheia de méritos pessoais.
Mas isso acontece muitas vezes!
Cumpridas as exéquias fúnebres e afastados os demais, Pedro convocou o irmão, irmãs, cunhados e cunhada para uma reunião.
Tema: o que fazer com o querido pai.
Durante os dias em que a D. Fina estivera hospitalizada fora a empregada que ía lá a casa e a nora Ana Maria quem cuidaram dele.
Mas isso era uma situação passageira. Impunha-se encontrar uma outra, definitiva.
A idade, as deficiências físicas e também uma já avançada esclerose mental obrigavam a que fosse necessária uma grande disponibilidade para cuidar dele.
Na casa do velho Albertino fizeram a tal reunião, depois de tomadas as cautelas para que ele de nada se apercebesse.
Pedro equacionou o problema e disse que não tinha casa com capacidade suficiente para lá ter o progenitor, apesar de que, se o pudesse fazer, não passaria o testemunho.
- Vocês sabem bem como eu gosto do nosso pai! – repetiu duas ou três vezes.
Júlia, a mulher do militar, alegou que apesar de todo o seu amor pelo papá não se poderia comprometer pois o marido poderia ser transferido, como já acontecera algumas vezes, e toda a família tinha de o acompanhar. Aliás, esses eram momentos sempre complicados pois ela era professora e havia um período de tempo em que o casal estava separado. Além disso, o pai poderia sentir-se desenraizado:
- Sabem como são os velhos – concluiu.
Sofia pegou no argumento do desenraizamento do velho e acrescentou o dos quatro filhos:
- Se tivesse condições, poderia assumir a tutela do papá e até arcar com todas as despesas. Mas com quatro jovens em casa...não dá! Não dá mesmo! Mas tenho pena de não poder.
Finalmente, o João Paulo, que vivia num apartamento com dois quartos, disse:
- Apesar de gostar imenso do paizinho, não o posso ter no meu T2. E a miúda ainda é muito pequena e dá imenso trabalho.
Depois de todos terem falado, o Pedro retomou a palavra:
- Já sabia que isto iria acontecer! Ninguém tem possibilidades de tomar conta do nosso pai. Por isso, penso que temos de arranjar depressa uma saída diferente. Julgo que não haverá oposição se disser que é preciso arranjar, e rapidamente, um lar onde o pai possa ficar e seja tratado com dignidade. E digo rapidamente porque a situação actual não é sustentável para a Ana Maria.
- Tens toda a razão! – interveio o João Paulo – Por isso eu já tenho uma proposta de um lar excelente que fica na zona de Santo Tirso e reúne todas as condições. É cara, claro! Dois mil e quinhentos euros por mês. Mas divididos por quatro, fica a seiscentos e vinte e cinco a cada um de nós. Proponho que se venda o andar dos pais e com o dinheiro que ele render, mais um pecúlio razoável que eles têm em Certificados de Aforro, podemos mitigar bastante o nosso esforço financeiro.
- Pela minha parte acho bem! – disse a Sofia – Além de que penso que, infelizmente, o nosso papá não deve durar muitos anos.
- Eu também concordo! – disse o Pedro depois de ver a mulher a dizer que sim com movimentos muito discretos da cabeça e dos olhos.
- Eu também! Acho que o pai não vai durar muitos anos e merece que os últimos tempos sejam passados com todo o apoio e companhia – falou a Júlia.
Entreolharam-se, e o João Paulo concluiu:
- Então eu posso tratar do assunto já amanhã.
- E o processo de habilitação de herdeiros da mãe? – perguntou a Júlia.
- Eu trato disso. Como o pai é vivo, é relativamente fácil. Quando for precisa a colaboração dos que vivem longe, eu aviso - afirmou o Pedro.
- E a questão da venda deste andar? – inquiriu a Sofia.
- Eu e o João Paulo, que vivemos aqui perto, encarregar-nos-emos de tratar das coisas e iremos dando as informações lá para baixo. Ainda não há muito tempo que eu tratei dos assuntos relativos à morte do pai da Ana Maria – disse o Pedro.
- Já estás formado no assunto. – brincou o Vítor – Se for preciso mexer influências em bancos, falem comigo.
- Certo! – anuiu o mais velho.
E mudando o tom:
- Como vêem, quando as pessoas têm inteligência e boa vontade, tudo se resolve. E afeição aos pais, também!
- E dinheiro! – rematou a Mafalda, que era considerada pelos outros como uma esquerdista contestatária.
 
Passado ano e meio faleceu o Albertino Simões.
Os filhos, genros, noras e alguns netos reuniram-se novamente.
Durante o período de internamento no lar só o Pedro, a Ana Maria e o João Paulo tinham visitado algumas vezes o adorado papá.  
Poucas vezes!         


publicado por António às 13:51
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47 comentários:
De JMC a 22 de Março de 2007 às 14:46
Adoramos o Papá,
mas em minha casa não dá.

É assim a partir de uma certa idade, deixamos de ser necessários e pronto, passamos a ser secundários e rapidamente e sem dar por isso, um estorvo.
É, um bom texto, naturalmente com uma mensagem que quem neste momento tenha 20, 30, ou 40 Anos, não a vai querem entender neste momento, mas para aqueles que tem mais uns anos, é bom que se ambientem, porque vão naturalmente passar por um situação destas.

JMC


De António a 22 de Março de 2007 às 15:01
Olá!
Obrigado pelo comentário.
Não gosto muito deste texto mas, enfim, foi o que se pôde arranjar.

Abraço


De Paula Raposo a 22 de Março de 2007 às 18:47
Uma triste realidade a desta tua história. Quanto a não gostares deste texto : nem sempre gostamos do que escrevemos! Beijos.


De António a 22 de Março de 2007 às 19:00
Querida Paula!
Eu não gostei do resultado final.
Mas não sei se tu gostaste ou não.
Como não disseste que sim, presumo que não gostaste.

Beijinhos


De Outsider a 22 de Março de 2007 às 18:51
Infelizmente esta é a realidade que aguarda a maior parte dos idosos, o abandono... Infelizmente já assisti à morte de 3 dos meus 4 avós e a minha mãe tratou de todos eles até à hora da partida. Os pais do meu pai passaram os ultimos tempos (anos) na cama e nesse período era a minha mãe que os tratava e os alimentava. Teve até que meter licença sem vencimento do seu emprego para tratar dos sogros. Não haveria muita gente que fizesse isto... Se um dia for necessário cuidar da minha mãe terei que o fazer, pois ela faz tudo por mim e é justo que lhe retribua. Inclusivamente ela já me disse que morria se um dia a puser num lar... Por isso espero nunca abandonar os meus pais quando eles precisarem de mim.
Um conto magnifico que retrata a triste realidade por que passam os mais velhos. Parabéns António.
Um Abraço.


De ana joana a 22 de Março de 2007 às 20:30
Olá António,

Este tema é delicado. Muito. Quando se fala em lares, o pensamento que mais rapidamente ocorre é o do abandono. Contudo, na minha óptica não tem que ser assim. É verdade que os lares são uma alternativa, muitas vezes a melhor alternativa para os idosos que já não conseguem viver de forma autónoma .
O mesmo se passa relativamente aos bebés que são colocados em infantários a partir dos 4 meses e muitas vezes por períodos de mais de 8 horas diárias .

Os horários de trabalho são cada vez mais alargados, o transito mais caótico . O período em que os pais têm que estar fora de casa é muito longo e tantas vezes esgotante. E ainda por cima para trazerem para casa um valor que mal dá para a subsistência . É muito exigente a vida na nossa sociedade (pelo menos nas grandes cidades é assim).

Os nossos pais precisam de muita atenção, tal como os nossos filhos; precisam de muito carinho, tal como os nossos filhos; precisam de cuidados de higiene, muitas vezes tal como os nossos filhos (mas sendo um bocadinho mais pesados ), precisam de ser alimentados e tratados.

E nós somos apanhados no meio da encruzilhada. E "deveriamos" ser capaz de responder a tudo aquilo que é realmente importante.

Há certamente formas de gerir todas as nossas importancias, de modo satisfatorio. Delegar tarefas que podem ser outros a fazer e que ate farão de forma mais eficaz do que nós fariamos, é uma delas. Sem culpabilidade e sempre sempre com todo o afecto e atenção.

Abandonar, não, nunca. Delegar tarefas e cuidados, sim, ficando nós sempre com a parte boa da questão: mimar, dar atenção, ouvir, valorizar.

Não vale a pena dramatizar a situação. A evolução dos tempos, das sociedades, trouxe-nos até aqui e é assim que temos que nos adaptar a viver. Procurar sempre viver com qualidade.

Beijinhos António
Ana Joana


De António a 22 de Março de 2007 às 22:09
Olá!
Obrigado pelo comentário.
Procurei fazer um texto que não fosse muito crítico pois, cada vez mais, o destino do Albertino vai ser o destino dos idosos.
Fui mordaz no final pois, como acontece muitas vezes, depois de os pais arrumados num lar os filhos esquecem-se deles.
E também quando referi, pela boca da Mafalda, que sem dinheiro é difícil, obter um bom sítio para os velhotes.

Beijinhos


De tb a 22 de Março de 2007 às 21:08
Mais um tema bem escrito em que trazes à liça um tema actual e que nem sempre é fácil de solucionar. Não sei se sou considerada esquerdista contestatária como na tua história, :) mas a verdade é que quando se tem dinheiro tudo é mais fácil.
Infelizmente que a vida nos empurra para situações que não queríamos passar e nem sempre é fácil conciliar o que queremos e gostamos com o que podemos.
Que bom seria que tivessemos a sociedade ideal. Mas infelizmente não temos.
Enfim...tanto que me acorre o tema desta história.
Como sempre bem escrita.
Um beijinho grande


De Caiê a 22 de Março de 2007 às 21:52
A mim, perturba-me imenso a questão da terceira idade abandonada porque vi e vivi isso de perto. Se estás inválido ou simplesmente velho, todos se descartam de ti. Há uma canção tradicional na minha terra que é cantada por um velhote que diz "eu já fui a luz do farol, hoje sou sombra triste"... e é isso mesmo.


De Morgaine a 22 de Março de 2007 às 22:01
Não gostaste porquê? foi o que saiu e saiu bem.Eu gostei. Abordaste uma coisa importante e sabes bem disso. É uma triste realidade a que contas aqui. Para o dinheiro e tratar de assuntos que beneficiem há sempre tempo.Para dar carinho ao resto da vida de um velhote descarta-se tudo. Deus me livre.

Quanto ao final, confesso que me surprendeu conhecendo apenas a tua escrita nestes ultimos tempos recentes, esperava que saísse algo de nos deixar de boca aberta., tipo o velho ter sido mais esperto que os filhos armando-lhes uma boa cilada que não lhes deixasse nada no fim.. seria o último a rir com essa de gostar do pai..

ou entao, o espírito do velho saía da tumba e ia dar um pontapé no rabo a cada um deles e depois ria-se alto e assim até se fartar.. também lhes partia algumas porcelanas em casa etc..
Mas tu nao gostas tanto de ficção se calhar ou então.. não tens a minha imaginação. Também não se pode ter tudo ihihihihih

Gudibaiiiiii e beijuussssssssssssss


De nena a 22 de Março de 2007 às 22:40
sim, pukê? o texto está de tal maneira bem escrito que se lê ávidamente á espera do tal final.Objectivo conseguido.o final toca-nos a todos, e a mim principalmente porque vou adorar ter companhia malucos á minha volta e se o filho fôr chato maçador mau e aborrecido,,ele que nem lá apareça pelo amor de deus (volta e meia haviam de perguntar..mas onde é que aquela velha maluca se enfiou? e alguém dizer,;deve ter-se enfiado aí no quarto de algum a jogar ás cartas,a pintar o caneco e de volta da pinga..
aquela velha não se aguenta catano!
he.he.hee..á pois é!..


De António a 22 de Março de 2007 às 23:14
Pssssst...
A menina enganou-se!
Não confunda um lar da 3ª idade com um manicómio.
O Albertino foi para o primeiro tipo de abrigo que eu referi, a menina vai brevemente para o segundo.
Lá nos encontraremos...ah ah ah.
Obrigado pelo comentário, Nena!

Beijinhos


De nena a 22 de Março de 2007 às 23:43
PSSSSTT!!..
Não me enganei nada António; tenho a certeza que quando entrar no lar dou com aquela gente em maluca sim, conheço-me!..Se aos 40 ainda toco campaínhas e fujo...he.he.hee..agora imagina..


De António a 23 de Março de 2007 às 09:11
Ahhhhhh...
Então tu é que és a famosa Neninha que toca nas campaínhas da vizinhança!!!!
A tal que deveria ser conhecida na zona como a Neninha da Campaínhas mas és conhecida, ilogicamente, como a fdp do 5º Esq.
ihihihihihihihhihih

Beijos meus


De nena a 23 de Março de 2007 às 09:54
3º dto. ahahahaaaa..aa


De António a 23 de Março de 2007 às 11:02
Ahhhhh...
Mudaste de casa?
E não me disseste nada?
Ora faz favor de dizer tudo direitinho para eu não cometer mais erros.
ihihihihihih

Beijinhos


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