Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças!
Sábado, 8 de Março de 2008
Uma cena da vida...ou talvez não!

Cheguei a casa eram duas da manhã.

Abri a porta da garagem com o telecomando e, embora com dificuldade, arrumei o carro. Acho mesmo que bati em qualquer coisa, mas o teor de álcool no sangue devia ser bastante elevado que não tive a certeza. Tivera sorte em não ser apanhado pela polícia, na rua.

Tranquei o carro carregando no botão do comando, saí e fechei a porta da área de parqueamento.

Já estava a tentar meter a chave na fechadura da porta de casa quando me lembrei:

- Mas não estava lá o outro carro!

O outro carro era o da minha mulher.

Voltei para trás e confirmei.

- Mas que raio terá acontecido?

Fui para casa a matutar no assunto.

Ao fim de uns poucos minutos a tentar abrir a porta, entrei e acendi as luzes.

Subi as escadas e fui ao quarto.

A cama estava vazia.

- Mas que é isto?

Os dois filhos tinham ido passar umas pequenas férias para o estrangeiro pelo que percebi que estava sozinho em casa.

O que acontecera com a minha mulher?

- Madalena! – gritei.

Mas, naturalmente, ninguém respondeu.

Para cortar o efeito do álcool fui à casa de banho para cheirar um pouco de amoníaco.

Foi então que vi um papel manuscrito que estava preso por uma pequena tira de fita-cola no espelho.

Removi-o e comecei a ler:

“Duarte:

Estou farto de aturar as tuas saídas nocturnas, as tuas bebedeiras, as tuas traições, a cumplicidade dos teus amigos, a indiferença com que me tratas. Hoje o copo transbordou e fui para casa dos meus pais. Não haverá retorno.

Amanhã vou falar com um advogado. Aconselho-te a fazer o mesmo.

Também virei aqui buscar mais roupas e outros pertences.

Vou telefonar aos nossos filhos para lhes dizer que finalmente tomei uma atitude.

Apesar de tudo espero falar contigo mais vezes (desde que estejas sóbrio e suportável) pois há muitas coisas que temos em comum e muitas outras decisões a tomar. Gostaria que concordasses com um divórcio amigável para que não seja tudo ainda mais penoso.

Madalena”

Fiquei provavelmente com uma cara como nunca antes tinha mostrado a ninguém, nem aos espelhos, mas o raciocínio estava toldado e não conseguia coordenar ideias.

Só lavei o rosto e bochechei com água fria.

Fui para a cama vestido e calçado, estirei-me e adormeci quasi de seguida.

Na manhã seguinte acordei, a boca tinha aquele sabor típico das ressacas. O estômago estava ardente e pensei que tudo o que se passara na noite anterior, e de que nem lembrava muito bem, não fora mais que um sonho mau.

Levantei-me.

Vi o papel e reli-o.

Espreitei para o interior dos móveis e constatei que faltava roupa da minha mulher.

Também só então me apercebi de que os artigos de higiene e cosméticos tinham desaparecido quasi todos.

Olhei para o relógio.

- Meu Deus! Já passa das onze…

Mas, em vez de me lavar e vestir, sentei-me na borda da cama a pensar.

- Que se lixe o trabalho!

- E agora que vou fazer?

E continuei meditabundo.

De repente levantei-me, peguei no telemóvel e marquei.

- Leonor! Ainda estou em casa. Sabes que a minha mulher me abandonou e vai pedir o divórcio?

E contei-lhe tudo aquilo de que me lembrava.

- Queres que vá para tua casa? Agora?

- Está bem! Daqui a uma hora lá estarei.

- Queres que leve as coisas para ficar aí? Vais apoiar-me? És tão querida, Leonor!

- Achas que é melhor eu esperar e tu passas por cá?

- Tens razão! Não estou em muito bom estado. Então cá te espero…



publicado por António às 18:23
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19 comentários:
De leonoreta a 8 de Março de 2008 às 19:12
ola antonio
em primeiro lugar os meus agradecimentos pela tua visita la ao sitio. sabes que eu nao agradeço la a quem tem blog. so aos que nao tem blog.

a cena que contas é uma cena da vida... ou talvez sim. embora algumas vezes ou a maior parte das vezes, as separaçoes sejam necessarias, serao sempre tristes pela desilusao que comportam e pelo medo que este ultimo sentimento arrasta.

como acredito que somos entidades superiores com determinadas missoes na vida, pergunto qual a finalidade de cartas unioes que nao funcionam. isso é que ainda nao percebi.

o texto está muito bem escrito. beijinhos


De António a 8 de Março de 2008 às 19:25
Minha querida Leonor!
(a Leonor da historieta apareceu por acaso)
O que eu quis mostrar, sobretudo, é que os homens não conseguem viver sozinhos e rapidamente aceitam partilhar, de novo, a vida.
As mulheres não são assim...vão andando à procura do Homem Perfeito...que nunca mais aparece!
(isto em linhas gerais, obviamente)

Às vezes as uniões podem não funcionar mas são úteis para uma ou ambas as partes, certo?

Beijinhos


De jampg a 9 de Março de 2008 às 02:40
Já há muito tempo que não passava por aqui e fui logo dar com esta estória.
Só te digo uma coisa, está lixado!


De António a 9 de Março de 2008 às 09:06
Olá!
Também me parecia que andavas ausente...
Não percebi o teu comentário!

Abraço


De Vanda Rafeiro a 9 de Março de 2008 às 09:39
Como sabes, visito o teu bog apenas há dois dias; já li alguns textos e, sinceramente, tens "veia".... este não é excepção. O seu conteúdo também daria uma larga exposição de ideias.
parabéns, Antóni, e continua...
Vanda


De António a 9 de Março de 2008 às 21:56
Olá, Vanda!
Obrigado pela visita e pelo comentário.

Beijinhos


De Paula Raposo a 10 de Março de 2008 às 12:55
É. Coisas que acontecem. Normalmente cada um faz a cama em que se deita...beijos.


De António a 10 de Março de 2008 às 18:06
Este deitou-se sem fazer a cama...ah ah ah

Beijinhos


De wind a 11 de Março de 2008 às 09:04
Gostei de ler esta prosa, mas confesso que esperava mais no final, ficou suspenso.
Beijos


De António a 11 de Março de 2008 às 12:42
Querida Isabel!
Deixei-o assim de propósito pois já percebi que poucas são as pessoas que lêem textos grandes.
Agora vou escrever preferencialmente prosas curtas.

Beijinhos


De Maria Papoila a 11 de Março de 2008 às 22:45
António:
Mais uma das tuas histórias de vida de que gostei... os homens são sempre assim são rápidos a arranjar companhia? É que foi logo na manhã seguinte... e a companhia está logo assim disponível? Olha que nem na SL vejo esta velocidade... lol...
Beijos


De António a 12 de Março de 2008 às 09:30
Olá, Papoila!
A amiga é que o convidou...

Beijinhos


De Anónimo a 12 de Março de 2008 às 00:40
COMO SABES JÁ TINHA RESPONDIDO , MAS QUE DIZER MAIS? TU ÉS LOUCO , VIVES DESSA INSANIDADE MENTAL DOS OUTROS PARA TRANSPORES PARA A ESCRITA A VIDA REAL. SÓ QUE NÃO CONCORDO CONTIGO CASTILHO, COM ESSA PROPENSÃO DAS MULHERES (SEREM MAIS CAPAZES DE IGNORAR , A CAPACIDADE DE SUMISSÃO ) HOJE A FELICIDADE CONSTROI-SE , DENTRO OU FORA DE PORTAS , CONFORME O QUE TIVERMOS-MOS DENTRO OU FORA DAS MESMAS.SENDO HOMEM OU MULHER,eu


De António a 12 de Março de 2008 às 09:28
Beijos


De poesiamgd a 12 de Março de 2008 às 10:10
Como se costuma dizer: soma e segue!
O mundo é assim? Quando uma mulher sai, entra logo outra? Até nem seria mau, aborreceriam menos no processo de divórcio...
Um abraço


De António a 12 de Março de 2008 às 15:09
Ora!
Quantas vezes não entra outra antes de sair a primeira!
Então qual a admiração?

Beijinhos


De sonamaia a 12 de Março de 2008 às 17:57
É caso para dizer que hoje pus a "tua" leitura em dia!! Vejo com agrado que continuas a postar com regularidade. Os textos, embora abordem diferentes temas, continuam a revelar a tua forma de estar na vida: um pouco de loucura mas também bom senso q.b.
Parabéns pela tua versatilidade! Jinhos


De António a 12 de Março de 2008 às 18:47
Olá, amigona!
Obrigado pela visita e pelas palavras.

Beijinhos


De joao sa carneiro a 13 de Março de 2008 às 23:37
ReViVências...


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