Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças!
Terça-feira, 27 de Março de 2007
Histórias curtas XVI - Um encontro inoportuno
Sábado de manhã.
Adelino Meireles estava no café, sozinho, e fez um telefonema:
- Olá, Olga! Logo podemos encontrar-nos no sítio do costume? – perguntou.
- Olá, amor! Isto hoje está complicado. Apareceu-me o período e está muito abundante – respondeu, de casa, a Olga Gomes.
- Mas que chatice! Hoje era um bom dia. A minha mulher vai visitar a irmã e eu posso baldar-me porque há um encontro do partido – disse ele.
- Olha! Eu sei que tu não gostas, mas podíamos ir ao cinema e depois dar um pequeno passeio de carro. Há dois ou três filmes no Shopping que eu gostava de ver. Escolhemos um deles – sugeriu ela.
- Tu sabes que é perigoso irmos juntos ao cinema. Mas se estás muito interessada, podemos encontrar-nos lá por volta das duas e meia – anuiu o homem.
- Obrigado! Eu sei que é arriscado mas só se não tivermos cuidado. Se fizermos como de costume acho que não há problema nenhum – opinou a mulher.
- Pronto! Então está combinado.
- Então até logo, Lino!
- Até logo, minha querida!
 
O Adelino Meireles era um tipo de estatura média, cinquenta e cinco anos, abundante cabelo grisalho e uma barba ainda mais branca. Trabalhava nas vendas e era casado com a Madalena mantendo uma relação pouco amistosa e de fachada. Tinham uma filha que ainda estudava apesar dos seus vinte e seis anos e vivia com eles.
A mulher era baixa e gorda. Tinha a idade do marido mas, sobretudo depois dos cinquenta, ganhara bastante peso e perdera muito do apetite sexual que já tivera.
A Olga Gomes tinha quarenta e três anos, era uma mulher bonita, mas discreta com os seus cabelos castanhos, forma simples de vestir e estatura abaixo da média. Sem roupa, todavia, ainda tinha um corpo esbelto e digno de ser apreciado. Trabalhava no sector de compras de uma empresa e fora aí que conhecera o fornecedor Meireles. Desde que se divorciara há três anos, vivia com a mãe e o filho Nuno que, com os seus vinte anos, estudava no primeiro ano de um curso de informática.
Tinha a relação íntima com o Lino há mais de dois anos e vivia na esperança de que o seu amante deixasse a mulher e se ligasse definitivamente a ela. Mas o homem nunca mais ganhava coragem para dar o passo decisivo.
 
Eram duas e quinze quando ela chegou ao local combinado.
Escolheu o filme, comprou dois bilhetes, tomou um café e ficou a aguardar que o Adelino chegasse.
Passavam cinco minutos da hora aprazada quando ele surgiu, charmoso como sempre, e o coração dela palpitou.
O homem não a viu e dirigiu-se para o átrio das salas de exibição. Ela levantou-se deixando o dinheiro sobre a mesa e foi postar-se junto dele:
- Olá! – disse.
O homem olhou para ela, depois olhou em volta, aproximou-se e perguntou:
- Já escolheste o filme?
- E já comprei os bilhetes. Vamos entrar porque começa daqui a cinco minutos – informou ela.
E lá foram os dois, guardando uma prudente distância entre ambos até entrarem na sala 5 onde se sentaram numa das últimas filas pois havia já alguns espectadores instalados. Trocaram umas palavras, ele disse que depois lhe pagava os bilhetes e ela respondeu que não:
- Desta vez pago eu, para variar.
E começou a sessão.
Passado pouco tempo sentou-se um casal junto deles.
Cerca de hora e meia decorrida apareceram no écran as palavras: The End.
Levantaram-se, os do lado também mas pararam na coxia deixando passar os dois amantes.
Eis que o Adelino deu de caras com o seu vizinho do andar das traseiras, o Vieira que ele detestava, e a mulher Henriqueta. 
Para complicar a situação o Lino tinha a mão no ombro da amiga. Retirou-a rapidamente mas o sorriso do outro não lhe deixou dúvidas. Tinha percebido!
O Joaquim Vieira cumprimentou-o sonoramente e o comprometido Lino respondeu com um sumido:
- Boa tarde!
Saiu mais afastado da Olga do que tinha entrado e fez-lhe um discreto sinal.
Quando finalmente chegaram ao carro dele e entraram, falou:
- Que grande merda! Os tipos que estavam ao tem lado moram no mesmo andar que eu e toparam. Ele é um sujeito asqueroso. Espero que não haja problemas.
E o resto da tarde não foi nada agradável tirando uns beijos e carícias que trocaram dentro do carro.
 
Passados seis dias, estava ele a meter a viatura na garagem, ao fim da tarde, quando foi abordado pelo Quim Vieira.
- Olá, vizinho! Queria dar-lhe só uma palavrinha.
O Adelino, se já não gostava da cara do outro, da sua careca e dos seus dentes estragados à frente, desta vez achou-o pior que o Quasimodo.
- Diga! Diga!
- Só lhe queria pedir cinco mil euros para esta boca ficar calada! – ameaçou o Joaquim.
A vontade do Meireles foi dar-lhe um murro e partir-lhe os dentes horrorosos, mas conteve-se.
- Não sei do que fala! – retorquiu.
- Ora! Ora! Claro que sabe. E eu tenho provas fotográficas – revelou o chantagista.
O Vieira achou esse argumento pouco credível e, depois de pensar um pouco, respondeu:
- Eu vou meditar no assunto, mas primeiro tem de me mostrar as provas.
- Está bem! Eu dou-lhe oito dias para pensar. Depois eu apresento-lhe as provas e, de imediato, você dá-me o dinheirinho – definiu o Vieira.
- Combinado! – concordou o marido da Madalena.
E afastou-se sem dizer mais nada.
Mas começou a elucubrar:
- Que diabo! Ele não pode ter provas nenhumas. É só a palavra dele e da mulher contra a minha. É melhor nem me preocupar muito com o assunto.
Mas a proposta do outro não lhe saiu da cabeça nessa noite e, logo na manhã seguinte, lá estava o sorriso podre do vizinho desenhado na sua mente.
Logo que pôde ligou para a Olga e contou-lhe o sucedido.
Esta pensou rapidamente que talvez fosse esta a oportunidade de o Lino se separar da mulher e, portanto, as coisas poderiam ser boas para ela. Mas imediatamente lhe ocorreu que se não colaborasse com o seu homem este poderia mandá-la bugiar e isso, ela não queria.
Finalmente respondeu:
- Lino! E se ele arranjou ou, como falou em oito dias, ainda vai tentar arranjar fotografias nossas, comprometedoras?
- Pois é, Olga! Mas não acredito muito nisso. Poderíamos jogar pelo seguro e não nos vermos durante este tempo – sugeriu o homem.
- É uma hipótese! Mas vamos pensar melhor no assunto – disse a mulher.
 
Estava o Joaquim Vieira, uma tarde, a entrar para o seu carro, quando surgiu vinda do nada uma loira com as pernas bem ao léu que se agarrou a ele enquanto um homem tirava fotografias.
Logo depois a loira desapareceu e o fotógrafo gritou para o chantagista:
- Oh Vieira! Agora quem tem fotografias sou eu. E tu não tens nada.
Era o Meireles que armara uma cilada ao seu inimigo com a ajuda da Olga, que até tinha metido um dia de férias, e de uma cabeleira postiça bem ao estilo Marylin.
- Estás enganado! Logo depois de te ter apanhado em flagrante contratei um tipo para te seguir e à tua amante e tirar fotos vossas. E ele fê-lo! Foi por isso que demorei quasi uma semana a abordar-te. Portanto, eu tenho mesmo provas! – explicou o marido da Henriqueta.
- Pois é! Mas agora eu neutralizei o teu trunfo, pá! – disse, ufano, o Adelino.
- Então proponho que troquemos as fotos – quis armar-se em esperto o careca.
- Não querias mais nada? Estas fotos ficam comigo e tu, se quiseres, ficas com as tuas. Lixei-te, ó chantagista!
E riu-se enquanto se afastava até chegar junto da sua cúmplice.
- Tiveste uma ideia genial, minha querida! E só te digo que estou morto por ver as fotos. Tu estás mesmo um borracho! – elogiou ele, rindo.
- Será que é desta que me vais dar a prenda que eu tanto quero? – aproveitou a mulher para atacar de novo a questão da separação dele.
- Tem calma! Estas coisas tem de ser com calma! Mas que mereces, lá isso mereces...


publicado por António às 12:44
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Quinta-feira, 22 de Março de 2007
Histórias curtas XV - Adoramos o papá!
Albertino Simões era um velhote já com mais de oitenta anos que acabara de enviuvar da sua querida Delfina.
Esta, dez anos mais nova, tinha ainda uma vitalidade enorme. Era a verdadeira comandante daquele exército de dois soldados que vivia num pequeno apartamento para onde se havia mudado há três anos, após que o seu benjamim, o João Paulo, deixara a casa onde ele e os seus três irmãos mais velhos haviam nascido e sido criados por um pai então rigoroso e uma mãe que sabia muito bem como simular que desempenhava um papel secundário.
O mais velho era o Pedro, com quasi cinquenta anos, que vivia com a Ana Maria, sua mulher, e mais dois rapazes num andar em Vila do Conde.
Depois tinha nascido a Júlia que casara com um oficial do Exército, o Adriano, e agora estava a residir em Santarém. Tinha quarenta e cinco anos e também dois filhos: um casal.
O terceiro era também uma mulher. Sofia, de seu nome, tinha quarenta e dois anos e vivia numa moradia em Oeiras com o marido Vítor, um economista do Banco de Portugal, tipo muito ocupado mas que tivera tempo para fazer quatro filhos à mulher: dois casalinhos.
Nascido já tardiamente, o João Paulo, tinha trinta e três anos e há quatro que fora viver com a Mafalda, de quem teve uma menina, para Rio Tinto.
Há dois anos o ancião tivera uma trombose que o deixou com significativas limitações no lado esquerdo do corpo. E era a mulher, frenética, inteligente, lúcida, quem tudo comandava e de tudo tratava. Que fibra ela tinha!
Mas um ataque cardíaco levou-a para o hospital onde esteve nos cuidados intensivos até a máquina que lhe dava uma vida artificial ter sido desligada.
Foi o momento de a família se reunir.
Nem todos, diga-se, pois alguns dos netos não vieram prestar a última homenagem a esta mulher anónima mas cheia de méritos pessoais.
Mas isso acontece muitas vezes!
Cumpridas as exéquias fúnebres e afastados os demais, Pedro convocou o irmão, irmãs, cunhados e cunhada para uma reunião.
Tema: o que fazer com o querido pai.
Durante os dias em que a D. Fina estivera hospitalizada fora a empregada que ía lá a casa e a nora Ana Maria quem cuidaram dele.
Mas isso era uma situação passageira. Impunha-se encontrar uma outra, definitiva.
A idade, as deficiências físicas e também uma já avançada esclerose mental obrigavam a que fosse necessária uma grande disponibilidade para cuidar dele.
Na casa do velho Albertino fizeram a tal reunião, depois de tomadas as cautelas para que ele de nada se apercebesse.
Pedro equacionou o problema e disse que não tinha casa com capacidade suficiente para lá ter o progenitor, apesar de que, se o pudesse fazer, não passaria o testemunho.
- Vocês sabem bem como eu gosto do nosso pai! – repetiu duas ou três vezes.
Júlia, a mulher do militar, alegou que apesar de todo o seu amor pelo papá não se poderia comprometer pois o marido poderia ser transferido, como já acontecera algumas vezes, e toda a família tinha de o acompanhar. Aliás, esses eram momentos sempre complicados pois ela era professora e havia um período de tempo em que o casal estava separado. Além disso, o pai poderia sentir-se desenraizado:
- Sabem como são os velhos – concluiu.
Sofia pegou no argumento do desenraizamento do velho e acrescentou o dos quatro filhos:
- Se tivesse condições, poderia assumir a tutela do papá e até arcar com todas as despesas. Mas com quatro jovens em casa...não dá! Não dá mesmo! Mas tenho pena de não poder.
Finalmente, o João Paulo, que vivia num apartamento com dois quartos, disse:
- Apesar de gostar imenso do paizinho, não o posso ter no meu T2. E a miúda ainda é muito pequena e dá imenso trabalho.
Depois de todos terem falado, o Pedro retomou a palavra:
- Já sabia que isto iria acontecer! Ninguém tem possibilidades de tomar conta do nosso pai. Por isso, penso que temos de arranjar depressa uma saída diferente. Julgo que não haverá oposição se disser que é preciso arranjar, e rapidamente, um lar onde o pai possa ficar e seja tratado com dignidade. E digo rapidamente porque a situação actual não é sustentável para a Ana Maria.
- Tens toda a razão! – interveio o João Paulo – Por isso eu já tenho uma proposta de um lar excelente que fica na zona de Santo Tirso e reúne todas as condições. É cara, claro! Dois mil e quinhentos euros por mês. Mas divididos por quatro, fica a seiscentos e vinte e cinco a cada um de nós. Proponho que se venda o andar dos pais e com o dinheiro que ele render, mais um pecúlio razoável que eles têm em Certificados de Aforro, podemos mitigar bastante o nosso esforço financeiro.
- Pela minha parte acho bem! – disse a Sofia – Além de que penso que, infelizmente, o nosso papá não deve durar muitos anos.
- Eu também concordo! – disse o Pedro depois de ver a mulher a dizer que sim com movimentos muito discretos da cabeça e dos olhos.
- Eu também! Acho que o pai não vai durar muitos anos e merece que os últimos tempos sejam passados com todo o apoio e companhia – falou a Júlia.
Entreolharam-se, e o João Paulo concluiu:
- Então eu posso tratar do assunto já amanhã.
- E o processo de habilitação de herdeiros da mãe? – perguntou a Júlia.
- Eu trato disso. Como o pai é vivo, é relativamente fácil. Quando for precisa a colaboração dos que vivem longe, eu aviso - afirmou o Pedro.
- E a questão da venda deste andar? – inquiriu a Sofia.
- Eu e o João Paulo, que vivemos aqui perto, encarregar-nos-emos de tratar das coisas e iremos dando as informações lá para baixo. Ainda não há muito tempo que eu tratei dos assuntos relativos à morte do pai da Ana Maria – disse o Pedro.
- Já estás formado no assunto. – brincou o Vítor – Se for preciso mexer influências em bancos, falem comigo.
- Certo! – anuiu o mais velho.
E mudando o tom:
- Como vêem, quando as pessoas têm inteligência e boa vontade, tudo se resolve. E afeição aos pais, também!
- E dinheiro! – rematou a Mafalda, que era considerada pelos outros como uma esquerdista contestatária.
 
Passado ano e meio faleceu o Albertino Simões.
Os filhos, genros, noras e alguns netos reuniram-se novamente.
Durante o período de internamento no lar só o Pedro, a Ana Maria e o João Paulo tinham visitado algumas vezes o adorado papá.  
Poucas vezes!         


publicado por António às 13:51
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Sábado, 17 de Março de 2007
Histórias curtas XIV - Falta de água
Adolfo Dias era um jovem de 22 anos, de bela figura, filho único, que vivia com os pais num apartamento duma zona suburbana com grande população.
Estudava Economia mas naquela manhã não tinha aulas e ficara em casa enquanto o Manuel Dias e a Irene estavam no trabalho.
Habitualmente saíam cedo e regressavam tarde. Gostariam de ter tido mais um filho, pelo menos, mas o tipo de vida que levavam não permitia muitas condições para a concretização. Ou por isto ou por aquilo, seguiram a tendência, cada vez mais comum, de se ficarem por um só descendente.
O jovem levantou-se cedo pois queria aproveitar a manhã para estudar umas matérias que ainda nem sequer lera.
Antes, foi tomar um duche e depois iria comer uma ou duas sandes feitas por ele com o pão que uma mulher deixava junto à porta, bem cedo, e beber um grande copo de leite, sem açúcar.
Estava completamente ensaboado quando...faltou a água!
- Que merda! – vociferou.
Enquanto pensava como resolver o problema, ouviu tocar a campaínha.
Com o toalhão limpou-se como pôde. Vestiu um roupão e foi à entrada:
- Quem é? – perguntou.
- Sou a Sandra.
- Quem?
- A Sandra. A nova empregada.
A mulher começara a trabalhar no dia anterior e ele ainda não a conhecia.
Abriu a porta e apareceu-lhe uma mulher ainda nova, com um óptimo aspecto.
- Bom dia! – disse o rapaz.
E prosseguiu:
- Faça favor de entrar. Eu estava no banho mas faltou a água – procurou justificar o seu aspecto.
- Bom dia, menino! Com licença! – e a nova contratada entrou.
O Adolfo pôde então apreciar uma mulher de pouco mais de trinta anos, com um corpo curvilíneo, seio bem torneado e rosto sensual, vestida com pouca roupa como justificava o calor daquela primavera quente.
- Não há água? Sabe se vai demorar muito a voltar? – quis saber a vistosa morena.
- Sei que faltou agora mesmo e apanhou-me todo ensaboado. Limpei-me com um toalhão para vir aqui mas sinto o corpo cheio de sabão. Ahh...não faço ideia se demora muito ou pouco! – falou o Adolfo.
- É chato! – disse ela, olhando o charmoso rapaz.
- Acho que vou telefonar para os SMAS para saber informações – disse ele.
- Seria bom, menino...como se chama?
- Adolfo! Mas não gosto muito que me tratem por menino – replicou o estudante.
- Então chamo por senhor Adolfo? – ironizou a nova aquisição do casal Dias.
- Senhor? Também não gosto muito, sinceramente – confessou ele.
- Então?
- Então? Sei lá! Olhe! Trate-me como quiser.
- Então o melhor é mesmo menino. Eu sei que já não é menino nenhum, mas é o mais habitual – decidiu a Sandra.
- Pronto! Seja! Agora vou telefonar para os SMAS. – e avançou para o local do telefone fixo – Sabe o que tem a fazer, não sabe?
- Se não há água, vou começar por tratar da sala – esclareceu ela, enquanto caminhava para a zona da lavandaria a fim de pousar as suas coisas e preparar-se para o trabalho.
Pouco depois apareceu o moço:
- Oh Sandra! Foi Sandra que disse que se chamava, não foi?
- Exactamente, menino.
- Pois as notícias não são muito boas. Parece que houve uma ruptura numa conduta e vai demorar algumas horas até a água voltar – explicou o mancebo.
- Sendo assim, hoje não posso lavar nada – lastimou-se a empregada.
- E eu estou assim! Que chatice!
- Menino Adolfo! Tem aqui uns garrafões de água para beber. Acho que hoje, excepcionalmente, poderíamos dar-lhes uma aplicação diferente da habitual – sugeriu a funcionária de limpeza doméstica.
- E quantos garrafões há? – perguntou ele.
- Três!
- Acho que há mais lá em baixo, na arrecadação. Mas eu penso que já conseguia tirar todo o sabão com um.
- Sozinho não é muito fácil fazê-lo! Quer que o ajude? Vou-lhe deitando água aos poucos nos sítios em que mais precisar e assim a sua limpeza fica perfeita e com pouco líquido gasto – sugeriu a descontraída Sandra.
O Adolfo ficou um pouco estonteado, mas logo recuperou a lucidez e disse, já se sentindo excitado:
- Boa ideia! E não tem problemas em me fazer esse serviço?
- Eu sou bastante desinibida e pode ter a certeza que não será a primeira vez que vejo um homem nu – disse ela, num tom claramente provocatório.
- Sim! Acredito em si! – falou o jovem, com o coração a bater forte de pensar no que aquilo poderia resultar.
- Vamos então ao trabalho! – e pegou num garrafão, a mulher.
Foram para o quarto de banho, o rapaz meteu-se na banheira, em pé, tirou o roupão e atirou-o para longe. O pénis estava totalmente erecto e entumescido.
A mulher, então, para surpresa do estudante que já nem pensava em estudar, ajoelhou-se e começou a passar a língua pelo órgão do rapaz.
Mas fez uma careta e cuspiu:
- Safa! É a primeira vez que uma coisa destas me sabe a sabão – e riu-se.
Abriu o garrafão, lavou o falo e depois, calmamente, foi levando o Afonso ao êxtase.
Este imitia uns sons mais ou menos habituais nestas circunstâncias mas nada disse.
- Agora vamos limpar esse corpinho todo, ok? – continuou ela a comandar as operações.
E pouco depois o jovem estava sendo enxugado com todo o carinho pela desconcertante Sandra.
Terminado este trabalho, disse a mulher:
- Agora quero ver se o menino é capaz de me compensar.
O Adolfo nunca vira uma mulher tão descarada e fogosa. Ainda não se sentia em condições para satisfazer a Sandra mas respondeu, ousado:
- Vamos lá!
E dirigiram-se para o quarto dele onde ela se despiu completamente deixando-o a sentir que, afinal, o bicho morto poderia ressuscitar.
E não foi nada difícil!
A talentosa fêmea rapidamente deixou o jovem preparado para a batalha que decorreu furiosa sobre os lençóis da cama.
Estiveram mais de meia hora numa luta corpo a corpo até que, com um ai bem suspirado, o Adolfo se esvaiu enquanto ela gritava de prazer.
- Muito bem, menino Adolfo! – disse a jovem mulher após uns minutos de repouso – Temos homem!
O estudante não pôde deixar de se sentir lisonjeado e sorriu, triunfante.
Foi então que a Sandra, assumindo um ar muito sério, falou:
- Ahh...menino Adolfo! Devia ter usado preservativo!
O rapaz estranhou a exclamação da mulher e, logo de seguida, disse:
- Não me diga que não usa nenhum método anticonceptivo!
- O problema não é esse! – disse a empregada com o mesmo ar sério.
- Então?
- É que eu sou seropositiva!
O rapaz deu um salto e gritou:
- Porra! E não disse nada! Estou fodido! E se me contagiou?
- Mas o menino não sabe que se deve usar preservativo quando se tem relações com pessoas que não são conhecidas? – e ela continuou com um ar muito sério.
- Não me lixe! Você é que deveria ter dito alguma coisa. Raios partam isto! – e o pobre moço estava já em pé caminhando de um lado para o outro do quarto.
- Tenha calma, menino Adolfo, tenha calma! Estou a brincar consigo. Não tenho nada o HIV e estou bem protegida contra qualquer gravidez – disse a mulher enquanto se levanta e se agarrava a ele.
- A sério? – e olhou para a mulher com aquele ar de criança a quem acabaram de dar uma prenda.
- Claro! Desculpe, mas eu gosto de pregar umas partidas.
E continuou, a Sandra:
- Quanto ao que se passou aqui não vai dizer nada a ninguém, pois não? Sobretudo aos amiguinhos!
- Não! Não! Esteja descansada.
- Então vamos poder repetir a brincadeira, está bem?
- Agora não! – disse ele, já inquieto – Agora tenho de recuperar do susto.
- Hoje não! Eu tenho de fazer o meu trabalho. Mas há outros dias em que vai ficar aqui sozinho, não é?
- Sim! Claro! Terei muito prazer!
- Que tem prazer já eu reparei – e soltou uma sonora gargalhada, a Sandra, enquanto se afastava depois de ter dado um piparote no agora flácido órgão do rapaz.


publicado por António às 15:31
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Segunda-feira, 12 de Março de 2007
Histórias curtas XIII - O velório
Jaime Pereira da Cruz era engenheiro-técnico numa empresa de construção civil.
Quadro intermédio, trabalhador, com um bom nível intelectual, percorreu vários departamentos da empresa ao longo dos inúmeros anos em que lá trabalhou. Estava agora no de Orçamentação.
Tinha sessenta e dois anos.
Já sonhava com a reforma e na forma como a iria usufruir e agora estava ali estendido, frio e branco como mármore, dentro de um bonita caixa de madeira ornamentada com tecidos brancos, finos ou almofadados, lisos ou rendados, e rodeado por ramos de flores.
Nesse dia de manhã, no escritório, sentira uma dor intensa no ventre, depois no peito, uma estranha impressão no braço e caíra de borco sobre a secretária.
Nem um ai.
Os seus colaboradores que estavam mais perto ainda acorreram. O Pina, que sabia de primeiros socorros pois era bombeiro voluntário, verificou que não tinha pulso mas, mesmo assim, tentou reanimá-lo enquanto a Adelina chamava o 112.
Mas não havia mais nada a fazer. Já era finado quando a ambulância chegou.
A autópsia revelou morte por enfarte do miocárdio.
A intervenção de pessoas influentes propiciou que o cadáver fosse levado para uma capela mortuária anexa à igreja que ficava perto da que fora a sua morada durante os últimos anos.
Nela vivera com a Doroteia, sua mulher, e com o mais novo dos três filhos, o Miguel.
Os outros dois já estavam arrumados: o Hernâni, casado com a Ana, já tinha uma menina de cinco anos; o Orlando, que vivia com a Sofia, ainda não lhe dera nenhum neto.
Eram dez da noite e o velório estava muito concorrido.
Além dos familiares mais próximos já apresentados acima, estava lá a sua mãe Juliana, viúva e octogenária, que via assim desaparecer o primeiro dos seus dois descendentes. O outro era a Fernanda. Ela e o José Manuel, seu marido, também já lá estavam, assim como a Olga, a filha de ambos, ainda solteira.
E várias outras pessoas.
Mas mais foram chegando.
Com ramos de flores, uma parte delas, entraram com o rosto fechado e um ar compenetrado e sério, triste e choroso nalgumas mulheres. Dirigiram-se para a urna, poisaram os arranjos florais, aquelas que os traziam, e ficaram quietos, em meditação ou oração durante uns instantes.
Depois foram apresentar as condolências à viúva, inconsolável com os olhos vermelhos escondidos por uns óculos de lentes muito escuras, à velha Juliana, meio apática pela acção dos sedativos e da idade, em suma: aos mais próximos do Jaime, ou Sr. engenheiro, ou Pereira da Cruz.
Eram parentes mais afastados, colegas da empresa, amigos de infância, das escolas que frequentara enquanto jovem e do Instituto Superior onde tirara o curso. Vizinhos, conhecidos de outras firmas, também.
Depois afastaram-se para deixar que outros dessem mostras do seu desgosto, estupefacção e solidariedade aos mais directamente atingidos pela terrível fatalidade.
- É assim a vida! Acabaremos todos numa caixa daquelas – disse um que, cumpridas as formalidades sociais, tinha ido para o exterior fumar um cigarro.
- Era um tipo porreiro! – elogiou outro – Não é justo que um gajo desapareça assim, de repente.
- Pois era! Mas para ele terá sido melhor assim do que estar meses e meses a morrer lentamente, a sofrer e a dar uma trabalheira a quem tivesse que cuidar dele – opinou um outro.
- Mas estas mortes repentinas causam um impacto muito forte. Quando a doença é prolongada já se está preparado e custa menos – falou um vizinho.
- Os colegas que o viram tombar também devem ter apanhado um choque muito violento – alvitrou um parente.
- Eu estava lá! Ainda tentei reanimá-lo mas já não havia nada a fazer. É de facto um impacto tremendo – confirmou o Pina.
Aproximou-se o filho mais velho, o Hernâni.
- Agora é que se vê como ele era estimado. – disse – Nunca pensei que viesse tanta gente.
E continuou:
- Agradeço a todos a vossa presença. Para nós, familiares, é um lenitivo e também uma forma de nos distrair o pensamento. Estas conversas são boas para nos fazer sentir menos angustiados.
- Não é o caso do Sr. engenheiro, mas já estive em velórios, sobretudo de pessoas idosas ou outras cuja morte era esperada, em que até anedotas se contavam – opinou um dos seus colaboradores mais próximos.
- É verdade! Mas isso também serve de escape, embora não seja socialmente muito bonito – ouviu-se.
- Oh Hernâni! O funeral é amanhã às três da tarde, não é? – perguntou um primo afastado.
- É! O caixão sai daqui uns minutos antes e às três começa a missa de corpo presente na igreja. A seguir vai para o cemitério que fica atrás do templo – esclareceu o primogénito.
E conversas como estas foram-se desenvolvendo em vários grupos.
Alguns dos presentes encontraram amigos e conhecidos que não viam há muito. Sem se darem conta disso, cumprimentavam-se efusivamente.
- Há que tempo não estava contigo! Tens um óptimo aspecto! Ainda estás a trabalhar no mesmo sítio? – disse um tal Bernardo.
- Estou! Esta aqui é a minha nova mulher. Divorciei-me e casei de novo – respondeu um Frederico.
- Muito prazer! Bernardo Ferreira.
- Igualmente! Leonor Martins.
E algumas conversas foram-se tornando mais leves.
- Oh pá! Já viste como é boa a nova mulher do Frederico?
- Nem me fales! Se o morto a visse ainda ressuscitava.
- Olha com quem! O Jaime parecia que não quebrava um prato mas partia a louça toda.
- Palpita-me que o tipo não tem pedalada para uma coisa daquelas.
E riram-se baixinho.
Algumas pessoas foram-se despedindo e retirando.
Umas disseram que iriam ao funeral; outras que tinham muita pena mas lhes era totalmente impossível comparecer.
O espaço foi-se esvaziando.
De vez em quando chegava um retardatário.
Um deles foi uma mulher de uns quarenta e poucos anos que, mesmo sem querer, dava nas vistas pelo seu ar capitoso. Vestia de preto e cinzento e vinha acompanhada por um jovem com uns doze anos.
Deixaram um ramo de rosas vermelhas junto do caixão mas não cumprimentaram ninguém da família.
Afastaram-se para junto de uma parede onde ficaram a observar.
Em certo momento disse ela para o rapazito:
- Meu filho! Espero que o teu pai tenha feito o testamento e tu estejas lá incluído, como ele prometeu. Senão metemos um advogado no assunto. És tão filho dele como os outros três. Estás perfilhado e, portanto, não será complicado receberes a tua parte da herança – disse a mulher.
Pouco depois retirou-se.
Um velho colega de trabalho do falecido aproximou-se de outro, também já perto da reforma e disse:
- Viste quem saiu agora mesmo?
- Claro!
- E como é que ela soube?
- Há sempre alguém para dar notícias, boas ou más. E vais ver que daqui a pouco tempo vai haver escândalo na família.
- Humm...parece-me que sabes mais do que eu!


publicado por António às 23:23
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Quinta-feira, 8 de Março de 2007
Histórias curtas XII - O cego
Norberto Branco era cego de nascença. Era cego há trinta e cinco anos, filho de pais também invisuais e já falecidos.
Talvez por isso, desde muito novo se habituou a sobreviver num mundo que não foi criado para ele e pessoas como ele.
Frequentou escolas especiais e, com a ajuda da ACAPO – Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal conseguiu um emprego como telefonista numa empresa particular. Não foi fácil mas a sua determinação, capacidade e competência tinham dado uma preciosa ajuda.
Era um pouco baixo e anafado e já tinha uma considerável calva.
Vivia num quarto alugado a um casal de reformados que assim tinham um pouco da sua companhia e da de uma jovem estudante de Biologia que viera de uma vila beirã. Mas tinham também um complemento para a reforma.
Norberto todas as manhã saía cedo da casa que ostentava uma traça arquitectónica dos anos cinquenta como quasi todas as outras que ficavam nessa sossegada rua. Andava a pé cerca de quinhentos metros, sempre com a ajuda da vara de liga de alumínio, que era fundamental, até uma artéria muito mais movimentada onde apanhava um autocarro que parava praticamente à porta do emprego. Almoçava sempre num café modesto que servia refeições e se situava quasi ao lado do prédio onde se localizava a empresa.
Às cinco e meia iniciava o mesmo percurso mas em sentido contrário.
Tinha uma namorada, também invisual, que trabalhava numa cantina mas só costumava encontrar-se com ela aos fins-de-semana.
 
Numa tarde amena de Maio, quando regressava e já na rua onde morava, ouviu uns passos atrás de si. Nada de anormal. A via não era movimentada mas também não era deserta. Quando parou para contornar um obstáculo que não era habitual estar nesse ponto, os passos deixaram de se ouvir. Retomou a marcha e novamente quem estava a caminhar muito perto dele reatou o movimento.
Parou outra vez para atravessar a passadeira para peões que sempre usava e o som que lhe despertara a atenção deixou de se fazer ouvir.
Atravessou e continuou a marcha, apercebendo-se de que, do outro lado da rua, os passos continuaram.
Parou à porta, abriu-a e entrou. Escutou antes de a fechar e sentiu o retomar da marcha do transeunte misterioso.
Contudo, após cinco minutos em casa esqueceu o assunto.
No dia seguinte e novamente ao chegar à rua onde residia, sentiu os mesmos passos. Estacou de repente, propositadamente, e o enigmático homem, pois conseguiu aperceber-se de que se tratava, com grande probabilidade, de um homem, parou. Retomou a caminhada e lá ressurgiram os passos. Começou a ficar intrigado e receoso. Parou junto da passadeira e tudo se passou como no dia anterior.
E foi assim mais duas vezes.
Combinou então com a jovem estudante, a Sara, que no dia seguinte ela estaria a espreitar pela janela à hora dele chegar para ver quem seria a estranha personagem.
E no outro dia:
- Olá, Norberto!
Ele exigira que a moça deixasse de o tratar por senhor.
- Olá, Sara! Boa tarde! Então?
- Pelo que vi, trata-se de um jovem, talvez com uns dezoito anos e com ar de quem não tem muito dinheiro – disse a rapariga.
- Mas tem um aspecto perigoso? De ladrão? Drogado? Tresloucado? – perguntou o invisual.
- Não me pude aperceber desses detalhes, mas não me pareceu fora do normal. Mas notei bem que andava a segui-lo.
- Intrigante! – exclamou o Norberto passando a mão pelo pouco cabelo – Amanhã a Sara está cá a esta hora?
- Amanhã não! Mas depois de amanhã estou.
- Então não se importa de ficar outra vez em observação que eu vou meter conversa com ele? – perguntou o homem.
- Se quiser até vou para junto da passadeira no passeio do outro lado.
E continuou a jovem:
- Assim, não só o poderei ajudar se houver alguma complicação como observarei melhor o rapaz.
- Boa ideia! Faz-me esse favor?
- Claro que sim! Também estou a ficar muito curiosa – confessou a rapariga.
 
Dois dias depois a cena parecia uma reposição do mesmo filme até que, ao parar na passadeira, o Norberto virou-se para o local onde supostamente estaria o jovem e disse:
- Porque é que me andas a seguir? Conheces-me? Fiz-te mal alguma vez? Que pretendes de mim?
O rapaz ficou estático e nada disse. Até que o cego falou de novo:
- Então? Comeram-te a língua?
- Peço desculpa! Mas o senhor é o meu pai! – disparou o jovem, quasi fulminando o Norberto.
- Eu? Deves estar enganado. Mas mesmo que o fosse, isso não justificava essa perseguição tão estranha. Se querias falar comigo, metias conversa, não achas? – interrogou o mais velho.
- Sim! Peço desculpa!
- Mas agora diz-me: que idade tens?
- Dezoito anos – respondeu o rapaz.
- Isso quer dizer que, se fosses meu filho, eu te teria gerado com dezasseis anos. Impossível, porque só iniciei a minha vida sexual com dezoito anos. Mas quem é que te meteu isso na cabeça? – continuou o Norberto a tentar desvendar o enigma.
A Sara continuava ali, junto deles, a ouvir atentamente a conversa.
- A minha mãe disse-me que o meu pai era cego e se chamava Norberto – confidenciou o jovem deixando o homem ainda mais confuso.
- E quem é a tua mãe? – perguntou.
- É a Clara!
- Ahh... – exclamou o invisual – de facto, conheci uma rapariga chamada Clara nessa altura, quando tinha dezasseis ou dezassete anos. Cega também! Tivemos um namorico mas nunca tivemos relações sexuais, por isso não sei que ideia é essa de ela dizer que sou o teu pai – disse o homem já um pouco irritado.
- Eu agora não lhe posso explicar, mas se falar com ela fica a saber – aconselhou o jovem.
- Nunca mais a vi desde essa época. Onde vive ela? – perguntou o Norberto.
- Aqui perto! Quando quer falar com ela? Amanhã? – sugeriu o moço.
- Está bem! Amanhã podes esperar por mim à saída do autocarro?
- É melhor ser eu a entrar porque é nessa carreira que se vai para minha casa – esclareceu o jovem.
- Sendo assim, está atento que eu faço sinal. Espero que me vejas pois eu não te posso ver.
- Sim senhor!
- Ahh...como te chamas?
- Tiago!
- Então até amanhã, Tiago! – despediu-se o Norberto.
O cego e a Sara foram para casa e falaram sobre o assunto:
- Eu achei o moço um tanto estranho! – disse a rapariga – Estava sempre a olhar para o fundo da rua como se alguém conhecido fosse aparecer de repente.
- Tudo isto me parece bastante esquisito, mas amanhã espero tirar as coisas a limpo.
- Quer que vá consigo? – ofereceu os seus préstimos, a estudante.
- Não, muito obrigado! Não me parece que corra nenhum risco!
 
No fim da tarde do dia seguinte os acontecimentos ocorreram como previsto.
Não demorou muito que o Tiago dissesse:
- Saímos aqui!
E apearam-se ambos e mais alguns utentes.
- A minha casa é pertinho – informou o rapaz.
- Melhor assim!
Pouco depois:
- É esta! Vou tocar à campaínha! – e assim fez, o jovem.
Apareceu uma mulher baixa e gorda, que disse:
- Olá, Norberto! Sou a Clara! Lembraste de mim?
- Claro que sim! Mas não falamos há mais de dezoito anos – foi dizendo o homem.
- Entra para conversarmos um pouco – convidou ela.
- Para isso eu vim cá. Mas sobretudo quero clarificar as coisas.
- Tiago! Ficas aqui que eu quero falar a sós com o Sr. Norberto. Está bem, filho? – falou a mulher.
- Sim, mãe!
Uma vez sentados dentro da humilde casa, Clara começou:
- Muito pouco depois de nos termos afastado, conheci um tipo que me prometeu tudo e mais alguma coisa. Acabei por ficar grávida. Quando lhe disse, desapareceu e nunca mais soube nada dele. Tive um filho a quem dei o nome de Tiago, como já percebeste. Passei muito nestes anos. Andei quasi a pedir esmola e isso não aconteceu porque tive o apoio de um grupo de senhoras ligadas a uma obra da igreja. Durou alguns anos até que me arranjaram um empregozito e esta casita.
O Norberto ouvia atentamente e ela continuou:
- Não sei se fiz mal, mas sempre disse ao meu filho que o pai era uma pessoa má. Em contrapartida, dizia-lhe que tinha conhecido um homem muito bom, também cego como eu, que se chamava Norberto. E dizia-lhe que tu é que devias ter sido o pai dele. Talvez por castigo, no ano passado o Tiago começou a ter comportamentos estranhos e foi para o hospital dos malucos. Os médicos acabaram por dizer que ele tinha uma doença mental grave chamada...deixa ver se não me engano...esquizofrenia.
- Humm...começo a perceber...
Mas ela continuou:
- E assim começou a cismar que eras o pai dele. Recentemente soube, através da Amélia – lembras-te dela? – onde tu trabalhavas. Disse-o ao Tiago e agora acho que já compreendes porque ele te persegue e diz que és o pai.
O Norberto estava destroçado. A vida daquela mulher com trinta e tal anos devia ser um verdadeiro inferno. Não sabia bem o que dizer, mas, ao fim de algum tempo, conseguiu articular umas palavras.
- Sim, Clara! Percebo!
Fez uma pausa e continuou:
- Espero que essa ideia fixa que tem o Tiago, desapareça. Vives sozinha com ele, não é? Não tens nenhum homem que te apoie – perguntou, curioso, o cego.
- Não! Tenho de lidar com a minha deficiência e com um filho que adoro mas que, infelizmente, é doente mental, sem quaisquer apoios, para além de um ordenado miserável e desta casinha onde entra água quando chove – lamentou-se ela.
- Clara! Eu não te prometo nada, mas se conseguir melhorar a tua vida, podes ter a certeza de que o farei – falou ele, com o coração apertado.
- Obrigado, Norberto! Tu foste o melhor homem que conheci na minha vida.
E conversaram durante mais algum tempo.
Depois o Norberto voltou a casa, comeu qualquer coisa e contou toda a história aos velhotes e à Sara.
 
No dia seguinte, quando regressou do trabalho e se apeou do autocarro, ouviu uns passos que lhe eram familiares. Parou e disse:
- Anda para o meu lado e vamos caminhar e conversar, Tiago!
- Sim, pai! – anuiu o jovem.
E o Norberto Branco iniciou a sua tentativa de persuadir o rapaz de que não era o pai dele.
A tarefa era complicada.
Passadas algumas semanas o seu pretenso filho deixou de aparecer até que uma tarde foi surpreendido pela Clara.
- Olá, Norberto! – saudou a mulher.
- Olá, Clara! Estou admirado porque já há uns quinze dias que o Tiago não aparece.
- Nem vai aparecer mais! Suicidou-se!


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Quarta-feira, 7 de Março de 2007
...e a caminhada louca continua...

E aqui estou pronto para continuar a caminhada com todos os que quiserem fazer o favor de me acompanhar.



publicado por António às 00:01
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