Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças!
Quarta-feira, 30 de Maio de 2007
Histórias curtas XXV - História de uma Virgem
Eu era uma figura de pau modelada por um carpinteiro e artesão com jeito para a escultura em madeira.
Era uma Virgem de Fátima com cerca de trinta centímetros de altura, vestes brancas parcialmente tapadas por um manto azul celeste, cara rosada, mãos unidas na oração de um rosário e uma auréola de fio metálico.
O senhor Amadeu, meu criador, vendeu-me pouco depois de me ter colocado em exposição numa tosca vitrina do seu local de trabalho juntamente com outras peças saídas das suas mãos de artista.
Era conhecido o seu talento de escultor e as pessoas por lá passavam frequentemente para saber o que havia de novo e que não tivesse sido encomendado ou não estivesse reservado.
Não estive muitos dias ali guardada.
Numa manhã de Janeiro de 1950, a D. Arminda, uma das pessoas mais ricas da vila e das melhores clientes do meu pai, por lá passou e escolheu-me para levar para casa.
- O Sr. Amadeu é um verdadeiro escultor. Estes seus trabalhos são únicos.
O homem sorria e recebia as poucas dezenas de escudos que pedia para pagar as horas de trabalho.
E assim fui para casa da família Fonseca.
Ele, o Manuel, era comerciante de fazendas e tecidos mais finos, quer para homem quer para senhora. Tinham uma filha adolescente que estudava num liceu da cidade mais próxima, viajando num comboio da manhã, para a ida e da tarde, no regresso.
A D. Arminda ajudava o marido no atendimento dos clientes ficando a maior parte dos trabalhos domésticos a cargo da Carmelinda, uma jovem viçosa que era empregada da família desde que houvera uma zanga com a velha Gertrudes e que motivara o despedimento desta.
Colocaram-me num móvel do corredor junto com outras peças ornamentais donde podia ver o quarto da serviçal quando a porta estava aberta.
E, muitas vezes, a meio da manhã ou a meio da tarde, o Manuel vinha até casa, punha uma nota na mão da rapariga e lá íam os dois para o quarto dela, deixando a porta aberta para escutarem qualquer entrada inoportuna da patroa, e gozavam uma relação rápida mas animada que só não me fazia corar porque eu não o podia fazer. 
Entretanto a filha do casal foi para uma Universidade qualquer que ficava longe de casa, mas os encontros amorosos do Manuel e da Carmelinda continuaram durante alguns anos.
Até que a rapariga, agora mulher, engravidou.
Segundo ouvi a própria Linda dizer ao falar consigo mesma em voz alta, nem ela sabia se o pai da criança era o patrão ou o namorado mas, espertalhona, disse a cada um que era dele. Casou com o rapaz e foi viver para outra localidade, mas o comerciante continuou a pagar um dinheirinho à que pensava ser a mãe do seu filho homem.
E assim entrou em casa uma quarentona que ocupou o lugar da jovem mamã e eu deixei de ver as poucas-vergonhas que os outros dois faziam.
Que sossego!
Mas, entretanto, estaríamos em 1960, a jovem Delfina Fonseca casou e foi viver para uma casa alugada na cidade.
O casamento foi religioso, segundo o ritual católico, e a mãe Arminda resolveu oferecer-me ao padre da vila que celebrara o matrimónio e este agradeceu, entusiasmado:
- É muita gentileza a sua, D. Arminda! Uma Virgem esculpida em madeira pelo nosso grande artista Amadeu. E como é bonita esta peça. Deus lhe pague pela sua bondade.
Fui colocada numa cómoda do quarto de dormir do reverendo Romeu na pequena casa adjacente à Igreja onde vivia solitário o clérigo que já não andava muito longe dos cinquenta.
Mas depressa descobri que a Cármen, moça baixa e roliça com cabelos longos arrepanhados num puxo, que trabalhava durante o dia na limpeza e arrumo da casa e das roupas do padre, era por este frequentemente “abençoada” depois de se despir toda para que o celibatário patrão a pudesse apreciar antes de a usufruir. Usava o homem uma coisa a que chamava camisa e que servia para não engravidar a rapariga.
E assim passei mais uns anos a presenciar aquelas cenas indecorosas.
Numa altura em que o padre foi chamado ao bispado, pela calada da noite, entrou lá no quarto um vulto com uma lanterna que pegou em mim e me meteu num saco onde encontrei uns candelabros e outros objectos que o larápio estava a roubar ao padre Romeu.
Quando me retirou do saco, pude verificar que se tratava do Zé Diogo, um rapaz ainda novo que eu conhecia por ser amigo do pastor de almas e que, pelo que ouvia, algumas vezes ajudava à missa.
Penso que escondeu o saco, onde voltou a guardar-me, numa dispensa escura mas não fiquei lá muito tempo. Ao fim de alguns dias levou-me, mais as outras coisas que subtraíra ao “casto” Romeu, para a cidade onde, disfarçado com umas barbas postiças me procurou vender mais os meus parceiros.
E assim, nos finais dos anos 60, fui colocada numa loja de antiguidades.
Lá estive algum tempo até que fui adquirida pelo triplo do preço por uma velhota que usava bengala e que pareceu ter gostado de mim.
Levou-me para casa onde me pôs num móvel da sala de jantar tendo junto de mim umas lamparinas de azeite que mantinha sempre acesas e uma jarra com flores que eram cuidadosamente tratadas.
Vivia só com uma criada tão velha e tão tosca como ela e passei alguns anos muito sossegadamente: as anciãs até se ajoelhavam diante de mim e faziam uns pedidos muito próprios de pessoas que já pouco esperam da vida.
Mas o que é bom não dura sempre e certo dia ouvi um reboliço no quarto.
A velha Ambrósia, minha dona, tinha morrido nessa noite.
Passados alguns dias pegou em mim a Amélia, filha da falecida que por lá passava de vez em quando e levou-me para a sua casa que ficava noutra vila.
Por lá estive, pacatamente, até finais dos anos 80.
Até que um dia a D. Amélia, ela mesma agora uma idosa, foi colocada num lar pela sua filha. E fiquei assim mais uns anos, sem ver ninguém excepto quando era feita uma das raras limpezas à casa.
Mas a Manuela, assim se chamava a filha, parece ter mudado de residência e levou-me para uma rica vivenda onde fui instalada num móvel depois de me ter dado um banho. Parece que ela vivia numa casa simples mas, desde que o homem fora para vereador da Câmara, tinha enriquecido rapidamente.
Decorria então o ano de 1998.
A vida não me corria mal até que apareceu por lá um cachorro jovem e traquina que resolver escolher-me para ser um dos seus brinquedos favoritos. Ao princípio ainda o tentaram impedir de me espetar as dentuças afiadas mas, com o passar do tempo, o maldito animal foi-me destruindo. Eu já não era mais a bonita escultura do Sr. Amadeu mas um pedaço de madeira só com uns vestígios de tinta, deformada e perfurada até que fui atirada para um canto de um escuro e sórdido compartimento da cave.
Mas, numa noite fria, o marido apareceu no meu local de exílio e levou-me para cima. Estando a lareira acesa, assim falou o político:
- Ó Manela! Estava lá em baixo esta coisa. Acho que é o que resta daquela estatueta da Virgem Maria que estava em casa da tua mãe mas que o Leão estragou. Vou deitá-la aqui no fogão de sala pois já não vale nada.
- Ora deixa ver! – disse a mulher – Realmente, é pena porque era uma peça com algum valor; mas agora está toda estragada. Põe no fogo, põe!
E assim em cinzas me tornei, como se fosse um mortal.


publicado por António às 14:41
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Quinta-feira, 24 de Maio de 2007
Histórias curtas XXIV - O testamento
Leonardo Brito era um tipo não muito dado ao trabalho.
Tinha vinte e sete anos e vivia com os pais num apartamento na periferia da cidade. Concluíra os estudos secundários e trabalhava com os progenitores numa pequena papelaria e tabacaria pertença da família que, não gerando rendimentos que dessem para enriquecer, chegavam para que usufruíssem de uma vida com certa folga.
O casal Américo e Margarida Brito, ambos com pouco mais de cinquenta anos, eram os únicos familiares próximos e vivos do Leonardo. Não tinha irmãos, todos os seus avós tinham já falecido e não tinha tios nem primos pois os pais eram filhos únicos.
Mas restava alguém: o velho Samuel Azevedo, irmão do falecido padrasto de sua mãe, não era exactamente familiar mas era rico, solteiro e sem herdeiros. Tinha uma boa relação com os Brito, nomeadamente com o Américo. O Leonardo e a mãe esperavam ser os herdeiros dos bens do tio, como lhe chamavam.
Quando o pai procurava alertá-lo para a necessidade de se levantar mais cedo para ir trabalhar ou para ser menos gastador, ele respondia:
- Quando o tio Samuel morrer nós herdamos tudo e ficamos governados para o resto da vida.
O Américo repontava:
- Não contes com sapatos de defunto. Olha que muita gente pensava como tu e depois as previsões saíram furadas.
- Mas isso é a excepção à regra. Normalmente as coisas correm bem. E comigo irão correr bem, tenho a certeza – respondia o jovem.
- E além disso a tua mãe está mais próxima dele do que tu.
- Ora! Sendo para a mãe é como se fosse para mim...
- Fia-te na Virgem e não corras... – rematava o pai para não se incomodar muito pois sofria de problemas cardíacos.
De facto, a mamã Guida era muito responsável pela forma de pensar do filho; sempre lhe retirava todos os escolhos do caminho e o mimava demais. O pai bem tentava remar contra a maré mas ficava sempre rebaixado pois a querida esposa não se eximia de lhe atirar na cara:
- Tu cala-te porque se não fosse o dinheiro que os meus pais me deram e depois me deixaram como herança, não tinhas onde cair morto.
As coisas não seriam bem assim, mas o Américo calava-se sempre, embora ficasse a remoer:
- Ainda um dia te hás-de lixar! E então serei eu a rir-me.
Mas, pensando melhor, concluía:
- Se eu entretanto não bater a bota e tiver tempo para assistir ao descalabro, claro!
E lembrava-se que quer o pai quer a mãe tinham morrido novos com problemas cardíacos.
Todavia, o Américo sabia do que falava.
O velho Samuel, que até não era assim tão velho pois tinha cerca de setenta anos, fizera fortuna na Venezuela mas regressara há já quasi vinte. Como ganhara tanto dinheiro com uma mercearia era um enigma que nunca desvendara, nem ao seu confidente principal, exactamente o Américo.
Mas outras coisas lhe contara, o velho.
Que tinha uma amante, a Irene, que conhecera pouco depois de regressar das terras da América Latina. Ela era casada e a relação mantivera-se sempre secreta e ainda durava. A mulher tinha três filhas, uma com vinte e cinco, outra com vinte e dois e a mais nova com dezoito anos. Ela bem tentara convencer o Samuel a casar, chegando mesmo a pedir o divórcio ao marido numa fase mais complicada do casamento, mas o ex-emigrante disse-lhe não muito depois do início do envolvimento:
- Minha menina! Comigo não contes para casar ou mesmo para viver contigo sem casamento. Eu não tenho jeito para marido nem para pai. Vamos continuar como até aqui que quando eu morrer tu terás uma boa recompensa por seres boa para mim. Mas continua com o teu homem!
E assim continuaram e se mantinham agora que ela estava a entrar nos cinquenta.
Tudo isto sabia o Américo mas nunca dissera nada em casa. Aliás, o velho tinha-lhe pedido segredo, por razões óbvias.
E era sabedor de que o velho tinha um testamento. Não tinha a certeza, mas das conversas entre ambos inferira que a principal contemplada seria a Irene, mas ele, a Guida e o filho Leonardo teriam uma fatia igual cada um deles. Também a velha criada Fátima veria reconhecida a sua dedicação. Uma dádiva especial estava destinada a uma instituição particular de caridade de que era membro.
 
Numa noite fria e chuvosa, o telefone tocou quando terminavam o jantar e a Margarida foi atender.
Era a velha empregada do tio Samuel a dar a má nova:
- O senhor morreu! – disse ela desfeita em lágrimas.
A Guida também começou a soluçar mas ainda fez umas perguntas, ficando a saber que o homem tinha morrido de repente, caindo para o chão sem dar um ai.
Depois de desligar o telefone deu a notícia ao seu homem e ao filho e imediatamente partiram para casa do falecido para tratar dos assuntos inadiáveis nessas situações.
Estava ainda lá o médico amigo que acabara de passar a certidão de óbito e esclareceu que o Samuel falecera de enfarte de miocárdio fulminante.
Tiveram de contactar um armador, o mesmo que de vários enterramentos já tratara na família, e viriam a conseguir que o funeral fosse marcado para o dia seguinte, ao fim da tarde, graças ao registo na certidão escrita pelo médico de uma hora de falecimento mais recuada do que a real.
Quando, um dia após o funeral e por sugestão da Guida, íam começar a lidar com a questão da habilitação de herdeiros, o Américo revelou que tinha em seu poder uma cópia do testamento do tio.
- Onde arranjaste isso? – perguntou a mulher.
- Ele já me tinha dito há muito que tinha feito um testamento e o local onde esta cópia se encontrava. A Fátima também sabia. O original está na Conservatória.
- E não disseste nada? – refilou a mulher.
- Ele pediu-me segredo. E, não tendo ele herdeiros, era natural que fizesse um testamento, não é?
E o homem que detinha o documento cuja existência agora divulgara disse:
- Amanhã vou ao Registo Civil para lá ser aberto e serem convocados todos os herdeiros que estejam mencionados no testamento.
Assim fez.
A conservadora assumiu a tarefa de convocar as pessoas mencionadas no testamento para o dia e hora de leitura do mesmo aos interessados.
Passados uns dez dias, às onze da manhã, lá estavam o Américo, a Guida, o Leonardo, a Fátima, a Irene que levou a filha mais nova e um representante credenciado da tal associação de apoio aos mais necessitados.
Todos revelavam alguma tensão, mas eram a mamã e o filho, os prováveis contemplados com um quinhão mais significatico, quem mais falava mas sem esconder um certo nervosismo.
Começada a leitura do documento pela própria conservadora, desde logo ressaltou que a principal beneficiária era a Susana Maria de Campos Almeida que o redactor designava como “minha filha natural”.
Os olhares voltaram-se todos para a filha da Irene e ambas sorriram em contraste com a fisionomia carregada e os olhos que pareciam deitar fogo da Margarida e do Leonardo. Os outros manifestaram apenas surpresa com excepção do homem da sociedade caritativa que assistia indiferente ao que se passava junto dele.
No final, o Américo, que recebera tanto quanto a mulher e o filho, virou-se para este e disse-lhe:
- Eu não te avisei que não estivesses à espera dos sapatos do defunto?
E, aproximando-se da esposa, falou-lhe ao ouvido:
- Gostaste do teor do testamento, meu amor?


publicado por António às 18:20
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Sábado, 19 de Maio de 2007
Histórias curtas XXIII - O primeiro amor
Manhã de um domingo primaveril.
António Santos, já preparado para sair, beijou a mulher e disse-lhe:
- Vou tomar o café e dar uma volta.
- Não venhas tarde – recomendou a Lídia.
- Estou cá antes da uma, não te preocupes.
Dirigiu-se para a porta, saiu, chamou o elevador e desceu até à garagem. Entrou no carro e pensou:
- Ainda são dez e meia! Vou tomar o café ao Shopping, para variar.
Pouco depois estava no Centro Comercial que mais frequentava.
Aos domingos de manhã costumava comprar um jornal desportivo no quiosque de um café que ficava a uns cinco minutos de casa, tomava a bebida negra e quente ao balcão, fumava um cigarro e sentava-se numa mesa a ler as notícias da bola.
Desta vez, por ser mais cedo que o habitual, resolveu andar mais uns quilómetros.
Estacionou a viatura na parque, subiu ao piso da restauração e cafetaria e foi ao balcão onde costumava tomar o cimbalino quando ía a esse palácio do consumismo.
Levou a chávena para uma mesa e instalou-se.
Adoçou a bica com duas pedrinhas de Canderel, sorveu a bebida em dois tragos, pegou num cigarro, acendeu-o, ajeitou os óculos de lentes progressivas, arrumou a xícara num canto e estendeu o diário sobre o tampo.
Iniciou um varrimento do espaço circundante com os olhos e parou fixando uma mulher de idade próxima da sua.
Ele tinha cinquenta anos, era baixo, usava barba já com muitas zonas salpicadas de branco, bem aparada.
- Mas aquela é a Julinha! Tenho a certeza. – falou consigo próprio – Está com óptimo aspecto para quem tem quarenta e nove ou cinquenta.
E começou a recordar os tempos de teenager em que a Júlia Costa fora a sua grande paixão. Tinham sido amigos de infância. Mais tarde chegaram a namoriscar, mas a intromissão de um tipo mais velho e experiente fizera com que ela o trocasse.
Todavia, nunca a esquecera!
Provavelmente nunca gostara tanto de uma mulher. Estas paixões da tenra juventude são muitas vezes assim: fugazes e perenes ao mesmo tempo.
E, continuando a olhar para ela, vieram-lhe à memória as imagens da ladina Julinha, filha do Dr. Costa e da D. Lucinda. Pele muito branca, cabelos cor de ouro, olhos de um azul celeste lindo, provocadora como se fosse uma mocinha mais velha e mais sabida, assediada por vários rapazes aos quais lançava um olhar que ele nunca esquecera.
Depois de acabado o namorico continuou a vê-la e a conversar com ela até que a rapariga desapareceu de cena. Fora viver para uma nova casa no outro lado da grande cidade.
Em certo momento notou que a ainda loira, agora provavelmente resultante de arranjos no cabeleireiro, olhou para ele mas logo desviou o olhar com a naturalidade de quem não reconheceu ninguém.
- Vou ter com ela! – decidiu o António.
Levantou-se, caminhou para a pequena mesa onde estava sentada a sua “inglesinha” predilecta e disse:
- Olá, Julinha! Lembras-te de mim?
Ela levantou os olhos, observou-o com ar interrogativo e, ao fim de uns largos segundos, respondeu:
- És o Toni! O António Santos.
- Tens boa memória!
- Mas como estás diferente! Se quiseres senta-te um bocado. Eu estou aqui à espera da minha neta que foi com a mãe comprar uma coisa qualquer – falou a senhora.
Ele sentou-se.
- Pois tu estás na mesma! Enfim, um pouco mais velha, mas parece teres só uns quarenta e poucos anos. E continuas a ser muito linda! – galanteou o homem.
- Obrigado! Mas isso são os teus olhos, Toni. De facto já tenho quasi cinquenta anos, quatro filhos e uma neta com três aninhos que é o meu ai Jesus, como calculas. Já és avô? – interrogou a Júlia Costa.
- Ainda não! Tenho só um filho, o João, que está a acabar o curso de Economia. Tem vinte e três anos – explicou o Santos.
- Eu tenho três rapazes, um com vinte e nove, outro com vinte e oito e o terceiro com vinte e cinco, e uma rapariga com vinte e três. A Soninha é filha dela, a mais nova, por ironia.
- Casaste com o Augusto? – perguntou ele, desejoso de saber coisas dela e referindo-se ao concorrente que o destronara no coração da amiga.
- Não! Casei com um médico, o Edgar, com quem vivo. As coisas nem sempre correm bem mas, globalmente, sou feliz – confessou ela ao amigo de infância.
E acrescentou maliciosa:
- Se estavas a pensar que eu estava livre, enganaste-te – e soltou uma risada.
Ele sorriu e respondeu:
- Também sou casado com a Lídia, uma professora. Temos um filho, como já te disse, e vamos vivendo um casamento já um pouco desgastado mas que me parece estar sólido.
- Pois é, Toni! Isto dos casamentos agora é um ai que lhes dá. O meu filho mais velho já casou e já se divorciou, vê lá! A nossa geração é a última para a qual a tradição ainda é o que era – disse ela, sorrindo.
- Eu diria que a nossa é já uma geração de transição. A dos nossos pais, sim! É à antiga portuguesa – opinou o António.
- E os teus pais? – quis ela saber.
- Estão vivos e de boa saúde. Vivem com a minha irmã que não casou nem tem filhos e os trata muito bem.
- Era muito bonita, a Fernanda! – comentou a Júlia.
- Pois era! E ainda é! Chegou a ter uma relação com um tipo de quem ela gostava muito mas, em certo momento, ele deixou-a e a Nanda nunca mais quis saber de nenhum homem. Pelo menos para casar.
- E tu tiraste algum curso? Eras um rapaz muito inteligente – elogiou ela.
- Muito não! Medianamente! Tirei engenharia e continuo a exercer. Faço sobretudo projectos de habitações e prédios. Vivemos com desafogo, felizmente. E tu? – perguntou o Toni.
- Eu fui sempre uma calaceira, como sabes. Fiz o quinto dos liceus, aliás com vários chumbos, mas casei com um cirurgião quando tinha dezanove. E vivi sempre à custa dele – e riu-se.
- Também com quatro filhos...
- Exactamente! Quando eles já eram crescidos ainda pensei em estudar, mas já não tinha paciência. Limitei-me a aperfeiçoar o meu inglês. E agora começam a aparecer os netos e o trabalho familiar vai aumentar de novo.
- Ahh...e os teus pais? – perguntou o engenheiro.
- O meu pai faleceu há cinco anos. Um médico fumador foi apanhado por um cancro do pulmão.
- Lamento, Julinha!
- Obrigado! Mas em contrapartida a minha mãe está rija.
E depois de olhar para um ponto ao longe, disse:
- Olha! Vem aí a minha filha e a minha neta. Deixa-me ficar o teu número do telemóvel para ver se nos encontramos mais vezes e conversamos sobre os velhos tempos.
Ele imediatamente lho ditou e pediu o dela, no que foi correspondido.
- Pois é, Toni! Tive imenso prazer em ver-te. E só te digo que estás com um ar de galã encantador.
- Não gozes! Não gozes! – sorriu ele, vaidoso.
Pouco depois estavam junto dos velhos amigos uma jovem loira, parecidíssima com a mãe, e uma pequerrucha que não negava a ascendência.
Fizeram as apresentações e logo se despediram.
O António e a Júlia beijaram-se na face.
Como lhe soube bem aquele beijo tão simples da sua inesquecível Julinha!
E ficou sentado a ver o seu primeiro amor afastar-se, talvez para sempre...


publicado por António às 14:10
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Quinta-feira, 17 de Maio de 2007
Comentários neste blog: mudança de critério
Tenho o hábito de agradecer os comentários que fazem aos textos que escrevo.                      
Há muito que utilizo o critério de os deixar escritos no blog do comentador ou, se este não tiver nenhum, no meu.
A novidade é que decidi, a partir de agora, fazê-lo exclusivamente no meu.
Tendo como hospedeiro o Sapo, o blog está estruturado de forma a que os comentários aos comentários possam aparecer em sequência, por isso vou aproveitar essa facilidade.
 
Aproveito este intermezzo para lembrar que o Eu sou louco! inicial continua disponível no Blogger (http://eusoulouco.blogspot.com) e que o seu clone no Sapo (http://eusoulouco.blogs.sapo.pt) vai sendo copiado tranquilamente.
 
Obrigado pela atenção!


publicado por António às 09:09
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Domingo, 13 de Maio de 2007
Histórias curtas XXII - Pânico
Estacionou o carro perto do areal.
Retirou dele uma saca grande, um guarda-sol e um colchão de boiar na água ainda com algum ar.
De tez muito morena, longos cabelos negros, um vestido muito ligeiro próprio para ir à praia e sandálias, depressa venceu a pequena distância até à areia.  
Desceu umas escaditas de quatro degraus feitas de madeira e continuou caminhando com a carga que tirara da sua viatura até um ponto onde havia pouca gente.
Gostava daquela local à beira mar exactamente porque era pouco frequentado e ali podia estar mais à vontade.
Eram dez e meia de uma manhã de Julho.
Manhã soalheira e quente, sem uma brisa que corresse e mitigasse o calor que prometia vir a ser tórrido.
Armou o guarda-sol, encheu o colchão com uma bomba de pedal que tirou da saca, besuntou-se com bronzeador, retirou da face os óculos de sol grandes e negros de armação e de lentes, estendeu uma toalha sobre o confortável suporte agora cheio de ar, tirou a parte de cima do bikini e, indiferente a alguns olhares gulosos e outros reprovadores, deitou-se a tostar.
Adorava estar deitada no colchão, quer na terra, quer no mar.
- Não falta muito tempo que vá para a água – pensou.
 
A ninfa morena, a deusa de corpo escultural, estava agora nas águas salgadas do oceano, calmas como se fossem de um pequeno lago, deitada com o peito desnudo para baixo e, usando as mãos como remos, afastava-se para mais longe da praia.
Ninguém por perto.
Voltou-se para cima e deixou-se vogar ao sabor da quase imperceptível ondulação de olhos fechados para melhor gozar aqueles momentos de paz.
Eis que começou a ouvir o barulho de um motor. Virou-se e viu aproximar-se um pequeno bote com um motor fora-de-borda que, conduzido por um homem, se movia velozmente na sua direcção.
E o barco a crescer, a crescer...
Ficou paralisada pelo medo e sem reacção mas, no último momento, o bote alterou o rumo e passou a escassos metros dela. A ondulação provocada quasi a fez cair na água. Mas aguentou-se.
Passados a surpresa e o susto, começou a bater com as mãos no mar para regressar ao areal, mas o medo remanescente fazia-a ter movimentos descoordenados que lhe tiravam toda a eficácia na tentativa de sair do sítio.
Lembrou-se de chamar por socorro.
Olhou para terra e não viu ninguém na praia.
Mas que teria acontecido?
Mas quem seria aquele sujeito cujo rosto não conseguira ver?
Que pretendia ele?
Assustá-la? Matá-la? Mas porquê?
E que tinha acontecido na praia para estar deserta?
Sentia-se só, vulnerável.
Poucos minutos depois, novamente o barulho do Mercury fez-se ouvir cada vez mais perto.
Viu o bote aproximar-se abicado ao seu colchão.
O pavor que dela se apossou fê-la ver um barco muito maior do que era na realidade e cujo tamanho ía aumentando, aumentando...
E de novo o bote motorizado passou uma tangente à beldade bronzeada.
Paralisada pelo pânico, agarrada ao colchão salvador, mais uma vez se aguentou à tona.
Novamente refeita do susto, mas hirta, com o coração a bater acelerado e a respiração arfante, olhou e continuou a ver o areal deserto.
Também no mar só o malfadado bote continuava a sua trajectória triunfal; mas agora mais longe.
Recomeçou a tentar movimentar o seu colchão. Estava mais tensa e nervosa, quasi fora de si, e como não havia qualquer aproximação de terra ainda pior se ía sentindo.
Quem seria o homem sem rosto que parecia apostado em fazê-la morrer, ou abalroada, ou afogada, ou de pavor?
Não tinha resposta.
Sacudia agora os braços com mais força, com muita força, com toda a força, mas sentia que cada vez estava mais longe de terra.
- Porque vim eu para aqui, para tão longe? – perguntou-se.
E, novamente, o insuportável som do motor se foi aproximando.
Mais e mais.
A bela movia os braços mas sem qualquer sucesso.
Sentiu então que o motor tinha parado, de repente.
Olhou!
De facto, já muito perto, reparou que a embarcação estava sem ninguém a bordo e se dirigia para ela, lentamente.
A respiração era ainda mais ofegante.
Esbracejou, esbracejou, esbracejou...parou exausta.
Mas o bote bateu-lhe no colchão e fê-la cair na água.
Começou a gritar. A pedir socorro.
O contacto com a água fria tinha-a libertado da rigidez do medo e conseguiu manter-se à tona.
Tentou agarrar o colchão, mas sem resultado.
Tentou subir para o bote mas um pontapé gorou-lhe as intenções.
Gritou ainda mais.
Engoliu água. Muita.
Não conseguia respirar.
Não gritou mais...
 
Quando acordou estava sentada na areia ao lado do colchão e várias pessoas junto dela olhavam-na de forma interrogativa.
- Precisa de alguma coisa, menina! – disse uma voz.
- Sente-se bem? – disse outra.
Ainda a respirar com dificuldade e aturdida, respondeu:
- Não, obrigado! Acho que adormeci e tive um pesadelo.


publicado por António às 14:30
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Terça-feira, 8 de Maio de 2007
Histórias curtas XXI - Herança
Jorge e Jacinto são dois irmãos filhos do falecido Manuel Leite e de sua mulher Conceição.
O mais velho, Jorge, é casado há muito pouco tempo com Sara e ainda não tem descendentes. Já completou os vinte e seis anos e, não tendo grandes habilitações académicas, arranjou há dois anos trabalho numa empresa de segurança. Alto e forte, com um corpo musculado, alguma experiência em artes marciais que praticou durante alguns anos, usa o cabelo muito curto deixando ver bem uma cara redonda e uns olhos castanhos e pequenos, quasi orientais.
O mais novo, Jacinto, é a ovelha negra da família. Tem vinte e quatro anos e nunca completou o nono de escolaridade. Vivendo sem pai desde os dez, rebelde e agressivo, nunca se deixou controlar pela mãe nem ligou nada aos conselhos do mano mais velho. Mais magro do que ele mas com a mesma altura, é elegante e com uma bonita figura.
A mãe Maria da Conceição ficou sem o seu homem há catorze anos. Juntara-se com ele quando nasceu o Jorge, tinha então vinte anos. Os doze que viveu com o Manel, dez anos mais velho do que ela, não foram de muita felicidade. Antes pelo contrário: o temperamento irascível do companheiro e a agressividade sempre presente no seu comportamento infernizaram-lhe a vida. A morte dele por cirrose não a perturbou muito, foi mesmo um alívio. Tem agora quarenta e seis mas parece ter mais. Vive só, embora mantenha há vários anos uma relação com um sujeito casado que a trata bem. Também o filho mais velho é amigo dela. Mas o Jacinto, vivendo uma vida irregular há muito tempo, raramente aparece em casa. Não sabe onde vive, nem com quem, nem o que faz. Já esteve preso por assalto mas apanhou pouco tempo porque fora a primeira vez e não estava armado. Mas é ele que, depois de falecido o Manuel Leite, a tem feito velha.
- O teu irmão sai ao pai e ao avô – costumava dizer ao Jorge – mas tu tiraste ao meu lado, felizmente.
De tempos a tempos o mais novo aparecia em casa da velha, como ele dizia.
Bons carros, bem vestido, ostentando uma riqueza cuja proveniência ela não conhecia mas suspeitava que não seria de comportamentos dentro da lei.
- Jacinto! – disse-lhe durante a última dessas visitas relâmpago – Onde é que tu arranjas o dinheiro para viveres assim? Tem cuidado com quem andas e com o que fazes. Ainda um dia fazes alguma ao estilo do teu avô e arruínas totalmente a tua vida.
- Não te preocupes, velha! Sei bem como tomar conta de mim.
- Mas não me dizes onde vives nem contas nada de ti. Isso mortifica-me, meu filho! – chorava a mulher.
- Não vale a pena chorar porque a minha vida é comigo! Tem o meu irmão para companhia e...
- Não tenho nada! O teu irmão casou e foi viver com os sogros que tem uma casa maior.
- Casou? Com quem?
- Com a Sara! Acho que não conheces.
- Pelo nome, não! – confirmou o Jacinto Leite.
Mas desta vez mostrou-se mais curioso:
- E tem filhos? Onde moram?
- Casou há três meses, ainda não tem filhos e mora aqui perto; por isso vem visitar-me muitas vezes.
- Tem a morada dele? – perguntou o jovem – Ou melhor: escreva aqui o número do telemóvel dele que eu ligo-lhe. Quero vê-lo e conhecer a mulher.
A Conceição assim fez.
- Olha, velha! Pega lá estas notas para te ajudar que eu vou-me embora.
E passados poucos minutos ela estava de novo só.
No dia seguinte recebeu a visita do Jorge.
A começaram logo a falar sobre a visita do Jacinto, na véspera.
- Oh mãe! Eu não lhe quero dar ainda mais preocupações sobre o meu irmão, mas estou convencido que ele leva uma vida de delinquência. Oxalá não acabe por morrer na prisão como o avô António.
- Eu sei, meu filho! Rezo todas as noites para que Nosso Senhor o leve para bons caminhos...mas porque haveria o Senhor de atender os meus pedidos?
- Nunca se sabe! – animou-a, desta vez, o primogénito.
- Oxalá, meu filho!
 
Não tinham passado ainda dois meses quando foram chamados pela Polícia Judiciária para depor.
As piores previsões tinham-se confirmado. O Jacinto não só estava preso como era acusado de vários crimes entre eles os de assalto à mão armada e homicídio.
Fora o mais novo dos irmãos Leite um dos autores do assalto a uma ourivesaria que tinha sido muito noticiado na TV, na rádio e nos jornais. O proprietário do estabelecimento, um sexagenário, fora alvejado com dois tiros na cabeça ao tentar accionar um alarme. Depois, os dois comparsas que estavam com ele no fatídico momento acusaram o Leite, também conhecido como “Mau-mau”, da autoria dos disparos à queima-roupa.
O processo decorreu com bastante rapidez e o filho da Conceição foi condenado a vinte cinco anos de cárcere.
De vez em quando lá íam todos fazer uma visita ao prisioneiro: a mãe, o irmão, a cunhada e o filho destes que entretanto nascera.
Pelo que o Jorge pôde ir sabendo, parece que o encarcerado tinha rapidamente adquirido um certo estatuto no meio dos seus parceiros de clausura.
Durante uma dessas visitas, a Maria da Conceição perguntou-lhe:
- É verdade que os outros reclusos te tem muito respeito?
- Pois é! E sabe porquê? Porque eu tenho personalidade!
Mas disse mais:
- E porque um velho que aqui está me disse que conheceu o avô António que morreu na prisão como todos sabemos, mas o que não sabíamos era que estava a cumprir pena também por homicídio. Também ele era um líder.
Afinal, quem sai aos seus não degenera!
Fez uma pausa e, olhando para a mãe, perguntou:
- Mas eu acho que tu sabias e nunca nos disseste nada, não é verdade, velha?
A mãe baixou os olhos.
- Vá lá! Responde! – alteou a voz o filho.
Ela levantou a cabeça e, abanando-a afirmativamente, começou a chorar e disse:
- É verdade, é!
- Era um homem com personalidade, o meu avô! É também por causa dele que me respeitam aqui dentro.


publicado por António às 14:40
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Quinta-feira, 3 de Maio de 2007
Histórias curtas XX - Concurso público
- Oh Paiva! Já está a fazer a proposta para aquele concurso da remodelação da Praça do Município em S. Francisco? – perguntou o Eng. Marques Correia ao seu colega e subordinado no Departamento de Orçamentação.
- Acabei ontem de organizar o dossier – respondeu o Eng. Jorge Paiva – e hoje o Zé vai começar a trabalhar a parte dos preços.
- Que Zé? – interrogou o chefe.
- O Zé Manel Sousa, o medidor-orçamentista.
- Ahh...Então venha ao meu gabinete pois quero falar consigo sobre isso.
- Ok! Já estou a ir.
E o mais novo, um engenheiro-técnico civil com cerca de trinta e cinco anos, moreno e de estatura média, levantou-se e seguiu o seu chefe, um experiente técnico com quasi cinquenta anos que chefiava a área de elaboração de propostas para concursos, públicos ou não. Era alto e com uma acentuada calvície.
- Interessa-nos muito ganhar esta obra porque precisamos de mais currículo neste tipo de trabalho, além de que tem um valor base muito interessante – começou por dizer o Correia.
E continuou:
- Você conhece alguém na Câmara que possamos aliciar para nos darem a adjudicação?
- Conheço o Eng. Augusto Gouveia mas não tenho nenhuma confiança com ele. No entanto o Caderno de Encargos foi elaborado pela Projectum e está assinado pelo Artur Nobre com quem tenho uma boa relação há uns anos – respondeu o Jorge Paiva.
- Mas isso pode não ser suficiente.
- Deixe estar! Eu telefono ao Nobre e falo com ele sobre o assunto. Pode ser que, como projectista, seja ele a fazer a análise das propostas. É muito comum ficar com essa incumbência quando ganha projectos – propôs o técnico que conhecia bem muitas das empresas que se movimentavam no mercado.
- Acho bem! – concordou o chefe do Departamento da empresa de construção civil e obras públicas, Scoop – Então trate disso e mantenha-me ao corrente.
- Ok! Posso retirar-me?
- Sim! E boa sorte.
De regresso à sua secretária, pegou no auscultador, viu o número no monitor do seu computador e discou.
Atendeu uma voz feminina.
- Bom dia! Projectum.
- Bom dia! Fala Jorge Paiva da Scoop. Poderia falar com o Eng. Artur Nobre?
- Um momento que vou ver se ele está.
Menos de um minuto depois ouviu uma voz:
- Olá, Jorge Paiva! Então está bom?
- Olá, Artur Nobre! Comigo está tudo bem. E consigo?
- Tudo óptimo! Então o que é que tem para me dizer? – perguntou o homem da Projectum.
- Eu tenho aqui entre mãos o Processo do Concurso para a remodelação da Praça do Município de S. Francisco e vi que o meu amigo foi o responsável pelo projecto. Quem é que vai analisar as propostas? – avançou o Paiva.
- Somos nós! Muito provavelmente serei eu.
- Pois a Scoop está muito interessada em ganhar a obra mas não conhecemos bem as pessoas da Câmara. Está disponível para almoçar comigo hoje ou amanhã? – convidou o engenheiro responsável pela proposta a apresentar a concurso.
- Um momento! Deixe-me consultar a agenda.
E após uma curtíssima pausa:
- Hoje não pode ser, mas amanhã estou livre.
- Óptimo! Então pode aparecer no restaurante do costume? A que horas lhe dá jeito? – tentou organizar o Paiva.
- Por mim pode ser à uma, mais minuto menos minuto.
- Está combinado! Um abraço e até amanhã – despediu-se o homem da Scoop.
- Até amanhã, Paiva!
E desligaram ambos.
De imediato o engenheiro voltou ao gabinete do chefe para lhe dar conta dos resultados do contacto.
- Muito bem! Agora vamos pensar nas verbas a oferecer ao Nobre em caso de ganharmos o concurso – disse o Correia.
- Provavelmente teremos de dar alguma coisa a alguém da Câmara. Eu amanhã falo com ele sobre isso.
E discutiram uns números chegando a valores que lhes pareceram razoáveis.
 
No dia seguinte, Jorge Paiva e Artur Nobre sentaram-se numa recatada mesa do restaurante.
Este era um tipo baixo e anafado, quarentão e com uma farta cabeleira penteada com muito gel.
Falaram sobre vários assuntos, começaram a comer, e a certa altura disse o homem da Scoop:
- Oh Nobre! Mudando de assunto, queria dizer-lhe que nós estamos dispostos a compensá-lo se fizer uma análise das propostas que nos seja favorável. Pela nossa parte procuraremos ir a concurso com um preço bastante baixo mas com a expectativa de termos como contrapartida uma boa quantidade de trabalhos a mais – discursou o Eng. Paiva, com a calma de quem conhece bem o seu interlocutor.
- Tudo bem! Mas convém compensar também alguém da Câmara. Penso que a pessoa indicada é o Eng. Augusto Gouveia que está muito metido neste assunto. Outra coisa importante é que a parte da fonte, com os repuxos, as bombas, o sistema de controlo e enfim...tudo o que diz respeito à hidráulica, seja da Hidroarte, quer o fornecimento quer a montagem – esclareceu amplamente o convidado.
- Muito bem! Que acha de quinze mil euros para si?
- Está bom! – anuiu o projectista.
- E para o Gouveia? Realmente eu não o conheço minimamente. O Nobre é capaz de lhe falar no assunto? – arriscou o ofertante.
- Não há problema. Eu falo com ele e depois digo-lhe com que montante é que devem contar para o engenheiro da Câmara – disse o homem da Projectus aceitando a incumbência.
- Óptimo! A nossa intenção é fazer os pagamentos em fracções proporcionais às nossas facturações ao cliente, depois de feita a liquidação. E em cash, evidentemente.
E a conversa continuou, primeiro sobre este tema e depois sobre outros assuntos.
Eram já três horas quando se levantaram e despediram.
Chegado ao escritório, o Paiva pôs o chefe Correia a par de tudo.
- Óptimo! Óptimo! Esperemos que o tal Gouveia não abra muito a boca.
- Desde que nos dê uma boa quantidade de trabalhos a mais, até pode abrir um bocado – e riu-se, o responsável pela proposta.
Passados três dias o homem da Projectus apareceu pessoalmente a informar que estava tudo em ordem e que o engenheiro camarário pretendia vinte mil euros.
- Pode-lhe dizer que está combinado – disse o Paiva.
Mas, repentinamente, lembrou-se:
- É verdade! Falou-lhe nos trabalhos a mais?
- Nem foi preciso! Ele já sabe como estas coisas funcionam e prometeu que a Scoop não se iria arrepender.
 
Passado cerca de um mês foram abertas as propostas e verificou-se que a empresa onde eram colaboradores os engenheiros Paiva e Correia tinha aparecido a concurso com o segundo melhor preço mas muito próximo do concorrente com a proposta mais barata.
Passados mais dois meses, aproximadamente, foi deliberado pela Câmara Municipal de S. Francisco que a adjudicação da obra de remodelação da Praça do Município seria feita à firma Scoop.
 
Nota: Os acontecimentos aqui apresentados são totalmente produto da imaginação do autor e, portanto, qualquer semelhança com factos reais é pura coincidência.


publicado por António às 23:25
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