Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças!
Quarta-feira, 27 de Junho de 2007
Histórias curtas XXVII - Uma avaria no alto da serra
Simone Cabral trabalhava no sector de Assistência Técnica duma empresa de representações de equipamentos mecânicos.
Com o curso de engenharia de máquinas do Politécnico tirado sem qualquer reprovação, cedo arranjou estágio na firma para a qual trabalha há dez anos.
Depois esteve dois anos com contrato a prazo mas, ao fim desse tempo, a chefia propôs à administração a sua integração nos quadros da empresa.
As condições eram agradáveis e ela gostava do trabalho de percorrer o país, agora numa nova e espectacular pick-up todo-o-terreno Nissan Navarra Pilot de 2007 que a empresa comprou de propósito para ela visitar os clientes que tinham problemas com os produtos adquiridos à sociedade técnica e comercial
Resoluta, desenrascada, de raciocínio rápido e uma intuição técnica pouco comum nas mulheres, sentia-se muito bem com os seus trinta e quatro anos e um corpo alto e de estrutura larga. Não era gorda mas tinha um físico que impunha respeito aos homens. Uma cara simpática com uns olhos muito vivos, uma fileira de dentes alvos e certinhos, cabelos curtos com madeixas de vários tons, desde o castanho como as suas pupilas ao loiro claro, uma voz um tanto grave com óptima dicção, não era pelo aspecto geral um tanto masculinizado que deixava de agradar aos homens.
Enfim! Aquilo a que se poderia chamar de “uma mulheraça”.
Adorava automóveis e mecânica e agora pouco andava no seu Ford Focus pois a nova máquina da empresa era a menina dos seus olhos.
Vivia sozinha num apartamento situado não longe da sede da firma e tinha um namorado com quem partilhava a cama algumas vezes por semana: umas vezes no quarto dela, outras no do flat do João Colaço.
Apesar de trintona não sentia o apelo do matrimónio nem da maternidade, maugrado as insistências do seu parceiro, também ele um calmeirão com bastante peso acima do recomendado pelos médicos. Era mais velho do que ela dois anos e conheceram-se no Instituto enquanto estudantes, mas a grande aproximação fez-se quando se reencontraram no casamento de uns amigos comuns.
 
Uma chamada urgente mesmo ao fim dum dia de trabalho, fê-la levantar-se cedo na manhã seguinte para ir até um cliente cujo centro de laboração ficava a cerca de 150 km.
Saiu de casa pelas sete e meia e preferiu guiar pela estrada da serra, coisa que gostava muito mais de fazer do que ir pela auto-estrada que seria um percurso mais rápido mas que lhe dava menos deleite.
Ao fim de umas dezenas de quilómetros a subir, numa recta com uns setenta metros praticamente no início da zona descendente, foi sinalizada por uma luz vermelha de que a temperatura da água de refrigeração estava alta.
Parou e saiu.
Nem vestiu o colete nem foi colocar o triângulo lá para trás pois a primeira coisa que quis fazer foi observar a zona do motor.
Lá estava um tubo de água fendido e a verter.
- Bolas! Um carro caríssimo e novo já com um problema destes! – falou entre dentes.
Pegou no telemóvel e ligou para a sede. Falou com o chefe Romeu Caeiro, que já lá estava, e contou-lhe o sucedido.
- Que chatice, Simone! Assim vai ter de ser rebocado – disse o homem.
- Claro! Eu tenho aqui o número do telefone da seguradora e vou ligar já para eles me mandarem um reboque. Estou a falar consigo, não só para comunicar o que aconteceu mas para pedir que alguém venha ter comigo para me levar ao cliente. Estou praticamente no cimo da serra. Que tal o Arnaldo? – falou a jovem mulher.
- Está bem! Ligue então para a seguradora que eu vou tratar de mandar alguém ter consigo.
- Pronto! Vamos comunicando. Até já!
Ainda ligou para a companhia de seguros que prometeu chegar o mais depressa possível ao local para transportar a viatura empanada para uma oficina a combinar.
Só depois se lembrou de ir colocar o triângulo e vestir o colete amarelo.
Sentou-se na pick-up, ligou o rádio e começou a ler algo relacionado com o trabalho.
Pouco depois recebeu uma mensagem no telemóvel em que o seu chefe Caeiro lhe confirmava que o Arnaldo acabara de sair.
Voltou a mergulhar os olhos na papelada.
O trânsito era muito pouco e mal reparava nele.
Por isso também não viu um Opel Corsa que passou por ela no mesmo sentido. E muito menos reparou que passado pouco tempo o mesmo carro surgiu em sentido contrário e estacionou nas traseiras da sua Nissan.
Dele saiu um trintão, com aspecto de rufia, que se aproximou da viatura avariada e interrogou a condutora:
- Precisa de alguma coisa?
Ela olhou, sorriu, e respondeu:
- Não, obrigado! Tenho o carro avariado mas já vem aí o reboque.
- Mas tem a certeza?
- Tenho, muito obrigado – retorquiu a Simone.
- Então tenha um bom dia! – e regressou ao Corsa, o homem.
A engenheira continuou absorta a ler os seus papéis e não viu que do carro estacionado atrás do dela saíram então mais três homens.
Quando deu por ela, estavam dois sentados atrás, um ao lado dela, e aquele que fora tão prestimoso abrira a porta do seu lado e apontava-lhe uma faca:
- Anda filha! Vamos dar ali um passeio – convidou o meliante após o que soltou uma gargalhada da qual fizeram eco os outros.
- Sai por aquele porta e depressinha! – ordenou o mesmo tipo que aparentava ser o chefe do bando.
E falando para o que estava sentado no banco ao lado da Simone:
- Puxa-a por esse lado.
Encostou o bico da arma branca na coxa da mulher que sentiu que a ganga da calça fora trespassada e a pele tocada.
Achou por bem obedecer.
Não adiantava nada gritar pois não se via vivalma e pouco depois essa hipótese foi descartada pois, já fora do carro, lha amarraram as mãos atrás das costas e puseram uma tira de fita-cola industrial na boca.
- Vá! Desce! – continuou a ordenar o mandão.
Ela viu que estava na berma e que para lá dela havia uma pequena ribanceira que terminava numa zona plana uns três ou quatro metros abaixo. Se descesse deixava de ser visível da estrada e, se a intenção dos homens fosse violá-la, havia árvores e arbustos em quantidade suficiente para ficarem bem escondidos.
- Tirem-lhe o telefone e tudo o que tenha valor e metam no Corsa e depois vamos levá-la para baixo antes que apareça alguém.
- E tu escusas de estar a olhar para a matrícula do nosso carro porque é roubado – disse para a mulher que tentava coordenar ideias no meio da surpresa de que ainda não se tinha refeito.
- Oh Quim! Tu ficas aqui para dares o alerta se alguém parar. Mas não te preocupes porque depois serás rendido.
E, com uma corrida descendente, os outros quatro rapidamente estavam na plataforma arborizada.
- Tirem-lhe a roupa! – ordenou a Zé da Coca, como era conhecido o líder dos meliantes.
Apesar da Simone ter esperneado o mais que pôde, a diferença numérica impôs-se e ela ficou sem os sapatos, sem as calças de ganga, sem as meias-calças, sem a camisola e sem a camisa.
Teve frio, mas ainda lhe arrancaram o soutien e as calças interiores.
E assim ficou completamente à mercê da cáfila.
Entretanto foi deitada e amarrada de mãos a uma árvore enquanto dois meliantes lhe abriam as pernas.
- Boa febra! – comentou o Zé enquanto baixava as suas calças e ajudava o membro viril a manter-se erecto.
- Vem aí o jipe da Guarda! – gritou o sentinela Quim.
Os de baixo pararam todos.
A mulher sentiu que talvez fosse a sua oportunidade de não ter de passar pelo momento mais horrível de toda a sua vida.
- Se eles pararem salta cá para baixo e pirámo-nos todos – falou o da Coca.
O suspense manteve-se com todos parecendo estátuas.
Ouvia-se o ruído do motor do carro da GNR e foi claramente perceptível que ele ía parar.
O Quim Barnabé desceu depressa, dizendo:
- Pararam!
E os quatro violadores falhados desceram da plataforma por uma outra ribanceira para não mais serem vistos pela prisioneira.
A viatura da Guarda parou, os soldados saíram e foram espreitar a pick-up por dentro e por fora; fizeram o mesmo no Corsa.
- Esquisito! – disse um deles.
- Dois carros e ninguém à vista! Será que estará gente ali em baixo?
E espreitaram para a zona plana onde estava presa a vítima. Esta abanou com força um arbusto usando os pés e assim chamou a atenção dos dois homens.
- Parece que está ali alguém! Vai lá ver!
O menos graduado obedeceu e pouco depois disse:
- Venha cá ver isto!
O outro aproximou-se do camarada e ficaram os dois a olhar para a rapariga.
Esta, completamente desnuda, leu no olhar dos homens um frémito de concupiscência.
- Meu Deus! – pensou – Será que estes sacanas se vão aproveitar de mim?
E não tardou que o primeiro a descer sussurrasse para o outro:
- E se aproveitássemos este presente de Deus?
O outro ficou pensativo durante uns demorados segundos até que, finalmente, disse:
- Não! Isto não é um presente de Deus! É um presente do Diabo.
Pouco depois estavam os três em cima, junto aos carros, e não tardou que chegasse e parasse um novo carro.
Era o Arnaldo que viera a acelerar o mais que podia.
Viu os da GNR e comentou:
- Então, engenheira! Há mais algum problema além do carro avariado?
- Quando lhe contar nem vai acreditar, Arnaldo! – disse ela, ainda visivelmente combalida.


publicado por António às 12:50
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Quinta-feira, 21 de Junho de 2007
O homem genial
Isto não é um poema!
Não lhe chamem isso, por favor.
É uma visão pessoal de um homem genial, quiçá imortal.
 
 
Era um homem que...
Como César nasceu e como Amadeus cresceu
Como Pelé jogou e como Spitz nadou
Como Becker bateu e como Zatopec correu
Como Bubka saltou e como Senna pilotou
Como Newton estudou e como Alexandre lutou
Como Ciro perdeu e como Mandela venceu
Como Verdi criou e como Rubinstein tocou
Como Camões versejou e como Hemingway narrou
Como Rodin modelou e como Pavarotti cantou
Como Dali pintou e como Nureyev dançou
Como Fleming salvou e como Gagarine voou
Como Henrique sonhou e como Magalhães navegou
Como Lincoln libertou e como Edison inventou
Como Paulo pregou e como Maomé fundou
Como Ghandi guiou e como Platão pensou
Como Mao transformou e como Cristo morreu
...ou não morreu?


publicado por António às 13:49
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Sábado, 16 de Junho de 2007
Histórias curtas XXVI - Uma relação muito especial
Helena Pereira era viúva e vivia com o seu único filho, Raul, num bom apartamento duma cidade satélite da grande e antiga urbe, centro de toda aquela região.
Aos vinte anos engravidou e casou pouco depois com o namorado Manuel Vilaça que tinha mais cinco anos.
O filho nasceu, foi crescendo normalmente, usufruindo a família de uma boa qualidade de vida. Eram felizes, se é que se pode dizer isso.
Os elementos do casal trabalhavam numa seguradora onde se conheceram e começaram a sair juntos. Não tardou muito que andassem enrolados e, pensando que as coisas só acontecem aos outros, distraíram-se e espermatozóide e óvulo juntaram-se. Resultado: casamento.
Mas quando o jovem tinha cinco anos a tragédia aconteceu: uma ida à praia, uma bandeira amarela, um banho no mar e o cadáver do Manuel só apareceu dois dias depois.
E assim a Helena ficou precocemente viúva, aos vinte e seis anos, com um filho que nem sequer tinha entrado para a escola.
Com ajuda dos pais conseguiu manter a casa e passou a viver para o trabalho e para o pequeno órfão.
Os seus progenitores viviam desafogadamente e quiseram que a Lena e o Raul fossem viver para sua casa mas ela pensou que talvez, numa fase em que as marcas da tragédia estivessem cicatrizadas, pudesse refazer a vida com outro homem e preferiu continuar sempre só mais o seu rebento
Os pais do falecido viviam longe e tinham outros três filhos que, mais os netos, lhes absorviam muito tempo pelo que as ligações com o neto Raul, que nunca haviam sido muito fortes, tornaram-se ainda mais ténues.
Tinha a Helena trinta anos quando apareceu na sua vida um homem, pouco mais velho do que ela, tendo começado a florescer uma atracção mútua que foi continuada pela presença assídua do Telmo Coutinho, engenheiro técnico do ramo eléctrico e ainda solteiro, na casa da viúva.
Daí a passar lá três ou quatro noites por semana foi um ápice.
O Telmo tinha uma boa relação com o rapazito que, com nove anos, ainda não atingira a fase difícil da adolescência.
E daí a decidirem viver juntos não demorou mais do que meia dúzia de meses.
As coisas corriam bem, com alguns problemas como é normal, mas nada de grave.
Aos cinco anos de vida em comum, o rapaz começou, como aliás é próprio desse período da vida dos jovens, a querer impor a sua vontade.
- Ouve Lena! O Raul está a entrar numa fase de auto afirmação e vai precisar de ter uma maior liberdade, obviamente controlada. Mas não podemos fazer-lhe as vontades todas. Temos de o preparar para a vida e, como sabes, a vida não é fácil. Não podemos desbravar-lhe todos os caminhos removendo os escolhos que lá estejam. Deverá ser ele a fazê-lo para assim aprender à sua própria custa. Claro que teremos de lhe dar ajuda quando ele estiver mais atrapalhado para ultrapassar determinado problema e dar-lhe sempre os melhores conselhos para ele ir ouvindo: pode não os seguir logo mas, se forem bem martelados, acabará por se lembrar deles em muitos momentos da vida e aplicá-los. Aliás como temos feito até aqui, nomeadamente eu.
- Falas bem, Telmo! Mas eu sou mãe e não quero ver o meu filho a sofrer provações.
- Não se trata disso! Eu estou só a pensar em que é péssimo para um jovem ser super protegido e tu tens uma forte tendência a fazê-lo, por isso falei como falei; para prevenir.
- Mas ele não é super protegido! Falas assim porque não és o pai dele! – disparou a mulher.
O homem foi atingido gravemente. Nunca pensara ouvir da boca da Lena uma afirmação daquelas.
- Estás a ser terrivelmente injusta e a magoar-me. Eu gosto do teu filho e acho que o provei bem ao longo destes mais de cinco anos em que temos convivido – disse ele num tom de voz algo agastado.
- É verdade! Mas a mãe sou eu e a última palavra sobre a educação do meu filho será sempre minha.
- Se escolheres enveredar por me desautorizar perante o Raul vais criar problemas a toda a estrutura familiar – afirmou o Telmo.
- Se tu te meteres demais entre mim e o meu filho é que crias problemas – sentenciou a Helena Pereira.
- Mas eu sempre participei na educação do garoto e nunca houve problemas – argumentou ele.
- Mas tu podes continuar a participar; só que a decisão final é sempre minha.
A conversa continuou mas não por muito tempo.
Pouco depois o engenheiro arranjou-se e saiu de casa com um seco:
- Vou ao café!
A partir de então nada mais foi igual ao que tinha sido.
O Telmo Coutinho era sucessivamente desautorizado, a mãe satisfazia todos os desejos do filho e ao fim de dois anos o homem saiu de casa por já não aguentar sentir-se estranho dentro dela.
O rapaz tinha dezasseis anos e a mãe trinta e sete e a cumplicidade entre os dois foi sendo cada vez maior.
Quasi, quasi de seguida, o pai da Helena, fumador inveterado faleceu vítima do seu vício e dois anos depois a sua mãe foi vítima de cancro na mama e no útero. Anos difíceis para ambos em que muito se ajudaram mutuamente.
Quando foi para a Universidade cursar Economia, o Raul e a mãe geriam um bom património a maior parte do qual lhes chegara como herança.
Andava o jovem no 3º ano, bom estudante, baixo mas atraente, aliás era parecido com a mãe, cabelos lisos, compridos e castanhos, olhos dessa mesma cor, quando se tomou de amores por uma colega. Passou a andar muito com ela o que deixava a Helena lamuriosa.
- Já não me ligas nada, meu querido! Eu gosto tanto de ti e tu gostas da Sandra mais do que de mim.
- Oh mãe! Sabes que gosto de ti como dantes. Mas estou apaixonado pela Sandra! – respondia o rapaz às persistentes lamentações da mulher que o gerara.
E começou a levar várias vezes a Helena para os encontros com a namorada.
A rapariga começou a gostar pouco da situação e, depois de muitos remoques mais ou menos directos, certa vez não se conteve mais e disse:
- Oh Raul! Ando farta de que andes sempre com a tua mãe a reboque. Ou te libertas disso ou acabamos com a nossa relação.
- Tem calma! – respondeu ele – Eu prometo que as coisas vão mudar.
Mas não mudaram e a Sandra mandou-o bugiar.
O jovem ficou muito abalado e quasi deixou de sair, salvo para assistir às aulas.
A mãe era cada vez mais cuidadosa com ele e não parecia incomodar-se muito com este isolamento do moço.
Tratava-o com todo o carinho e, quando ele estava mais deprimido ía para a cama dele e deitava-se ao seu lado fazendo-lhe carinhos.
Até que uma noite, notou que o rapaz estava com uma erecção imponente.
- Estás muito excitado! – comentou a mulher.
- Não tenho tido contactos sexuais desde que a Sandra me deixou – esclareceu ele.
- Se calhar não te tens aliviado. – disse enquanto afagava o generoso falo – A mamã pode ajudar-te a libertares-te dessa tensão.
O rapaz não respondeu mas beijou a face da mãe.
Esta continuou a tocar o pénis do jovem e, em certo momento, iniciou descarados movimentos de vaivém com a sua mão que foi intensificando até que o Raul ejaculou abundantemente.
Foi o começo!
Não tardou muito que ambos tivessem relações sexuais como se de um casal se tratasse.
O Raul acabou o curso e pouco depois conseguiu arranjar trabalho na seguradora onde os seus pais se haviam conhecido.
Hoje, ele tem vinte e cinco anos e a colega de trabalho Lena tem quarenta e seis.
Passam o tempo juntos, embora procurem não deixar que alguém saiba da relação muito especial que mantém há três anos.
Provavelmente ninguém tem a certeza, mas há pessoas que desconfiam, as críticas correm em surdina e eles são alvo de olhares prescutadores na rua e no trabalho. Mas nada os incomoda muito.


publicado por António às 09:55
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Domingo, 10 de Junho de 2007
O derradeiro Dia da Raça
Escreveu Conceição Meireles, professora de História Contemporânea na Faculdade de Letras da Universidade do Porto:
 
“Após a Implantação da República em 5 de Outubro de 1910, foram desenvolvidos trabalhos legislativos e, logo em 12 de Outubro, saiu um decreto que estipulou os feriados nacionais.
Alguns desapareceram, nomeadamente os ditos feriados religiosos, uma vez que o objectivo da República era justamente laicizar a sociedade e subtraí-la à influência da igreja.
Os feriados que ficaram consignados por esse decreto de 12 de Outubro de 1910 foram:
o 1 de Janeiro, que era o dia da Fraternidade Universal;
o 31 de Janeiro, que evocava a revolução – aliás, falhada – do Porto e que portanto era consagrado aos mártires da República;
o 5 de Outubro, vocacionado para louvar os heróis da República;
o 1 de Dezembro, que era o Dia da Autonomia e o Dia da Bandeira;
e o 25 de Dezembro, que passou a ser considerado o Dia da Família, tentando também laicizar essa festa religiosa que era o Natal”.
O decreto de 12 de Outubro dava aos municípios a possibilidade de escolherem um dia do ano que representasse as suas festas tradicionais e concelhias.
Lisboa escolheu para feriado municipal o 10 de Junho, em honra de Camões, uma vez que a data é apontada como sendo a da morte (em 1580) do poeta que escreveu Os Lusíadas”.
 
O dia da morte de Camões só em 1925, ainda no tempo da 1ª República, foi comemorado como feriado nacional.
O Estado Novo manteve essa celebração, tendo até utilizado o dia para a inauguração do Estádio Nacional, em 1944. Durante a cerimónia, Salazar proferiu um discurso em que rebaptizou o feriado como Dia da Raça, nome que, aliás, já vinha sendo usado, ao que parece, embora não oficialmente.
Não sei exactamente, mesmo depois de ter feito várias pesquisas, qual a evolução do nome oficial do 10 de Junho ao longo deste período:
Dia de Camões?
Dia de Portugal?
Dia de Camões e de Portugal?
Dia da Raça?
À data do golpe militar de 25 de Abril de 1974 parece que o 10 de Junho era conhecido como o Dia de Camões, de Portugal e da Raça.
Mas a terceira República não se revia nesta designação e em 1978 já é comemorado como Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.
E entre 1974 e 1977?
Fica a minha interrogação.
 
Após este longo intróito, passemos então ao assunto que me levou a escrever este texto:
Em Fevereiro de 1973, e após ter concluído os meus estudos, ingressei voluntariamente, mas após prestar provas várias, incluindo documentais, no Curso de Formação de Oficiais da Reserva Naval (no meu caso, o 22º CFORN) destinado à formação de oficiais milicianos da Armada.
Éramos quarenta no curso de Marinha, trinta e cinco no curso de Técnicos Especialistas, que englobava licenciados em Direito, em Geografia, em Química e muitas outras áreas e vinte e cinco no curso de Oficiais Fuzileiros Navais. Cem no total.
Fomos todos instalados, com várias mordomias como era apanágio da Marinha de Guerra, na Escola Naval do Alfeite onde fizemos uma instrução durante cerca de seis meses sendo que um deles foi passado no Grupo nº 1 de Escolas da Armada em Vila Franca de Xira.
O curso era razoavelmente exigente do ponto de vista de estudo teórico, mas pouco no que respeitava à preparação física.
Em Agosto, penso que só os cadetes do curso de Marinha, embarcamos na fragata Roberto Ivens para cerca de duas semanas de uma viagem de instrução: Ponta Delgada em S. Miguel (Açores), Mindelo em S. Vicente (Cabo Verde) e Las Palmas na Gran Canaria (Ilhas Canárias) foram os locais de atracação.
Depois seguiram-se as férias e a colocação, já como aspirantes a oficial, em várias unidades navais ou de terra, no Continente ou no Ultramar, como eram chamadas as colónias.
 
Mas o que eu queria verdadeiramente deixar aqui escrito foi que, no dia 10 de Junho de 1973 (reparem bem no ano – 1973), a companhia de cadetes da Escola Naval foi destacada para desfilar no Terreiro do Paço, na capital, numa cerimónia comemorativa do dia que foi presidida pelo então Presidente da República, Almirante Américo de Deus Rodrigues Thomaz e pelo Presidente do Conselho de Ministros (actualmente chamado de Primeiro-ministro), Professor Doutor Marcello José das Neves Alves Caetano.
As muitas companhias que iriam participar no desfile, dos três ramos das forças Armadas, estiveram no centro da praça esperando a sua vez de prestar o respectivo contributo activo à cerimónia, enquanto oficiais e soldados íam sendo condecorados na tribuna de honra. Muitos já estavam enterrados e a homenagem era póstuma sendo as medalhas entregues a familiares.
Deprimente!
Antes, tinham sido proferidos os discursos da praxe com a exaltação do papel das Forças Armadas na defesa da Pátria multiracial e pluricontinental
Até que ao fim de uma eternidade lá começou o desfile.
A minha companhia foi a primeira e lembro-me perfeitamente de, ao fazer a saudação em marcha à tribuna de honra que tinha sido montada mesmo junto ao Cais das Colunas e virada para norte, vislumbrar com nitidez aquelas duas altas figuras do Estado.
Marchávamos no sentido jusante – montante, tendo em consideração o rio Tejo.
Depois foi meter pela rua da Prata, virar à esquerda não sei onde e regressar pela rua do Ouro.
Havia muitos populares que nos saudavam e, tanto quanto me apercebi, eram as companhias da Marinha de Guerra as mais aplaudidas.
- Estes é que são bons! – gritava, entusiasmada, uma quarentona.
- Olha como é linda esta farda! – dizia outra mulher em voz alta.
Os mirones eram sobretudo pessoas que viviam em zonas menos abastadas da baixa e da beira-rio, assim me pareceu.
Terminada a volta, voltamos a formar no centro da praça mas, desta vez por pouco tempo. A ordem de destroçar não demorou.
E foi assim que fui protagonista do derradeiro Dia da Raça!


publicado por António às 00:10
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Segunda-feira, 4 de Junho de 2007
Concurso de contos
Está a decorrer um Concurso de contos promovido pelo Henrique Sousa, pela Otília Martel e pela Heloísa.
 
Os trabalhos devem ser entregues até ao dia 23 de Junho no endereço do
 
 “Ora, vejamos...”                              http://horabsurda.com/moodle
 
É fundamental uma visita a este site por parte de todos os interessados.


publicado por António às 15:04
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