Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças!
Terça-feira, 30 de Outubro de 2007
O rapto (parte VII e última)
Voltou a observar a criança.
- Coitadinho! Com sete anos já passou por uma situação bem complicada.
O puto continuava a comer mas deixara de chorar. Parecia estar mais calmo. De repente parou e disse:
- Eram um homem e uma mulher e levaram-me num Volkswagen Polo preto.
O detective esboçou um sorriso que ninguém viu e elucubrou:
- Sempre é uma mulher! Resta saber se é a Sónia.
Logo de seguida recebeu uma sms do Paulo em que este escrevera:
“Não vai GNR saber dono do carro? Devem dar informação depressa”.
- Como é que ainda não tinha pensado nisso! – censurou-se.
E respondeu: “Boa malha!”.
Esse seria o próximo passo, mas por agora estava ali a velar pela família Campelo. Sentia que eles precisavam de alguém que estivesse pronto para os apoiar a qualquer momento. Aliás, fora isso que fizera desde o fatídico dia do rapto.
Já passava da uma da tarde e ousou perguntar:
- Vocês não almoçam?
E virando-se para a Eulália:
- Tem preparada a refeição, não tem?
- Está preparada, sim, senhor Morais. – respondeu a serviçal.
E o vizinho falou agora em tom mais incisivo:
- Jaime! Zulmira! Vão comer que eu farei o mesmo. Depois de almoço conversamos mais.
- Está bem! Mas gostava que nos fizesse companhia – respondeu o dono da casa.
- A Fátima deve ter o almoço pronto. Mas terei muito gosto em ficar aqui convosco.
E ligou para a sua empregada:
- Olá, Fátima! Tem o almoço preparado?
- Tenho sim, senhor Morais. Mas o menino Rui telefonou a dizer que não vinha comer e a D. Bela também – esclareceu a empregada.
- Então coma você porque eu estou aqui na casa do lado e cá vou almoçar – disse o António.
- Eu vi-o entrar! Como está o menino?
- Fisicamente parece um pouco debilitado mas já comeu e não deve haver problema. Psicologicamente é que será mais difícil a recuperação. Vamos ver!
- E já apanharam os bandidos?
- Ainda não, Fátima! Mas logo eu conto tudo. Agora vou desligar. Boa tarde!
Depois ligou para o salão da mulher e deu-lhe a boa nova.
O almoço em casa do Campelo foi de poucas palavras. A Zulmira só comeu a sopa porque o Tiago queria dormir e a mãe foi com ele.
Até que o convidado falou:
- Acho que o seu filho vai precisar de acompanhamento psicológico. É muito novo e a situação porque passou foi muito traumática.
- Para já precisa é do amor dos pais. Se não recuperar rapidamente pensarei nisso – replicou o coxo.
O “detective” achou que devia mudar de assunto e assim fez.
- Já temos algumas certezas quanto aos patifes: são dois operacionais, um homem e uma mulher, actuaram num Polo preto e eu tomei nota da matrícula 80-28-XJ.
- Sim? Isso da matrícula é importante se o carro não for roubado.
- Pois é! Logo vou ver se a GNR me dá os dados do proprietário.
- Então se o Tiago estiver melhor eu vou consigo. Como fui eu quem apresentou a queixa...
- Muito bem! – concordou o Morais.
- Você não deve saber Morais, mas o Tiago já me disse que esteve numa cabana velha durante estes dias, sempre amarrado – informou o Campelo.
- Ora a isso se chama informação relevante... – retorquiu o outro.
Mal acabaram a refeição, dirigiram-se ao posto da Guarda Nacional Republicana.
O Jaime mandou chamar o chefe com quem tinha falado da outra vez e contou-lhe tudo o ocorrido, com algumas ajudas do antigo bancário, nomeadamente a indicação da matrícula do carro. O homem entendeu mandar tomar nota deste depoimento para o juntar ao processo e entregar na Judiciária.
Finalmente, o Campelo pediu:
- Não podem ver já quem é o proprietário da viatura?
- Se tivermos ligação via computador é rápido. Um momento.
Pouco depois apareceu com um papel e começou a ler o que nele tinha escrito:
- A proprietária é uma senhora de nome Lígia Correia da Silva Monteiro...
E prosseguiu até ser interrompido por um quasi grito do espoliado.
- É a filha do Homero Monteiro! Ai o sacana! É ele quem está por trás de tudo isto. Eu tinha um palpite!... E agora vão prendê-la?
- Ainda não! Mas vamos fazer vigilância. Como a criança já está sã e salva, na segunda-feira vou contactar pessoalmente com a PJ e depois agiremos em concordância.
- E também era bom que recuperassem o meu dinheiro. Não é tão pouco que dê para esquecer...
- Claro que serão feitos todos os esforços nesse sentido... – prometeu o chefe Carneiro.
- E quem será o homem que comandou as operações? – perguntou o Morais, um tanto decepcionado por ter falhado a sua previsão – Será esse Homero? É seu conhecido?
- Foi meu sócio num negócio que correu mal e meteu-se-lhe na cabeça que eu o tinha aldrabado. Ficou bastante endividado e jurou vingança. Mas embora a voz do homem mascarado não me fosse estranha, tenho quasi a certeza de que não era a dele.
- Mas se esta senhora, ou menina, porque parece que só tem vinte anos, for interrogada é garantido que diz quem foi o cúmplice e se o tal Homero é o mandante. Sabe que há métodos que ajudam a soltar a língua.
- Espero bem que sim.
O negociante ligou para casa, soube que o filho ainda estava a dormir e contou à mulher.
Depois de tudo tratado no posto, os amigos foram para a agência onde contaram as últimas aventuras, pois bem se pode usar esta palavra.
 
Correu o resto de sexta-feira, o fim-de-semana, a segunda até que, da parte de tarde de terça, o Jaime recebeu um telefonema do corpulento e calvo chefe Carneiro a pedir-lhe para ir ao posto.
Uma vez lá chegado na companhia do inefável António Morais, o homem da GNR disse:
- Já interrogamos a tal Lígia que rapidamente confessou e denunciou que o mandante fora o pai e o cúmplice foi o namorado. Este foi aliciado por gostar muito dela, por ter um fascínio por aventuras e, sobretudo, porque receberia uma boa parcela do dinheiro do resgate. Ela também indicou onde está a pasta com o dinheiro. E sabe que a pistola que ele lhe apontou era um brinquedo? Mas já o vamos buscar. É curioso que mora na sua rua...
- Na minha rua? – admirou-se o Campelo.
- Sim! Chama-se Rui Manuel Leitão Peres e também é muito novo...
- Mas...é o meu enteado! – disse, quasi sufocado, o “detective”.  


publicado por António às 14:29
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Sábado, 27 de Outubro de 2007
O rapto (parte VI)
De vez em quando o ex-bancário tinha de se levantar e mexer as pernas mas rapidamente voltava à posição inicial.
Foi ouvindo o motor de carros que depois passavam bem perto de si. Eram muito poucos pois a estrada tinha um reduzidíssimo movimento. Mas nada de suspeito observara.
Seriam umas nove e meia quando ouviu o som de um motor que se tornava progressivamente mais audível até que o barulho cessou, de repente. Essa viatura, que vinha do lado oposto ao dele àquele donde apareceria o Jaime, não devia ter ficado muito longe,
Arrumou o livro e ficou à escuta. O coração batia mais acelerado. Cerca de um quarto de hora depois apareceram três pessoas. Os dois adultos usavam longas gabardinas com capuz e meias enfiadas na cabeça. Irreconhecíveis, caminhavam tão rapidamente quanto o permitia o suposto rapazito, tapado por um cobertor que não deixava que se lhe visse nada do rosto, e dando uma mão a cada um dos adultos que quasi o puxavam.
Chegados à entrada do atalho por ele meteram.
O “detective” pensou consigo mesmo:
- Estão a arriscar bastante ao andar assim. O carro deve estar muito perto. Vou vê-lo.
E logo saiu do seu esconderijo e caminhou até que viu meio escondido atrás de uns arbusto um carro preto. Aproximou-se e viu que era um Volkswagen Polo.
- Humm...é igual ao do tal Bruno que é irmão da Sandra... será que as minhas suspeitas se confirmam? – elucubrou.
As matrículas estavam tapadas por panos. Removeu o da frente e leu: 80-28-XJ. Voltou a colocá-lo a cobrir a chapa depois de ter escrito números e letras num papelito.
Deu uma olhadela para dentro do veículo mas não notou nada particularmente relevante para além de cordas e trapos.
Voltou ao seu ponto de observação.
Olhou o relógio, coisa que fizera inúmeras vezes nessa manhã e murmurou:
- Quasi dez e meia! Já falta pouco.
Começou então a congeminar:
- Será que há quatro pessoas envolvidas nisto? O Eurico, a Sandra, o irmão e o outro que passou aqui. Pelo andar parecia uma mulher mas não tenho a certeza pois estava com uma capote que não deixava ver o corpo em condições. Pode ser que o Tiago tenha algumas informações. Se for uma mulher será provavelmente a namorada dele, a tal Sónia. Tenho de verificar se tem álibis. Sendo assim, foi mesmo o Eurico que levou a carta a pedir o resgate a casa do irmão. Custa-me a acreditar que ele tenha feito uma coisa destas a pessoas de família, mas... não seria o primeiro, e ele não morre de amores pelo Jaime.
Não demorou muito tempo que chegasse o Ford Fiesta da Zulmira conduzido pelo marido. Meteu pelo atalho e o António seguiu-o a pé.
Naturalmente andava mais devagar e foi-se atrasando mas, a certo momento, ouviu o motor parar.
- Já lá está!
De facto, o carro preto parou junto da cerca de arame.
O coxo saiu do carro com as mãos no ar e gritou:
- Já cá estou!
De repente, surgiu da mata um encapuçado que apontava uma pistola.
- Afaste-se do carro! – disse.
O homem ameaçado teve a sensação de que aquela voz não lhe era estranha, mas tinha de se concentrar no que estava a fazer.
Logo de seguida surgiram, do mesmo ponto de onde tinha aparecido o que parecia ser o chefe, um vulto adulto vestido do mesmo modo e uma criança tapada por um cobertor.
- Tiago! Não tenhas medo que o pai está aqui! – gritou o Jaime.
- Pouco barulho! Vamos fazer exactamente o que eu disse – falou o líder.
O outro patife entrou para a parte traseira do Fiesta levando o garoto, abriu uma pasta gorda e viu o dinheiro.
- Está aí o dinheiro? Vê bem se não há jornais ou papel que não sejam notas. Agora não dá tempo para o contar. Mas ai deles se não estiver todo! – falou o sujeito armado.
Pouco depois, o outro fechou a mão esquerda enluvada, esticou o polegar para cima em sinal de que estava tudo bem e saiu trazendo a pasta com o pecúlio extorquido ao Campelo. E começaram a correr pelo atalho em direcção à saída.
O Morais ainda presenciou a parte final da cena, de longe, e escondeu-se bem até a parelha passar por ele. Dirigiu-se então para o carro onde o pai ainda procurava desamarrar completamente o Tiago.
Quando lá chegou já ambos estavam abraçados, chorando convulsivamente, e o homem dizia:
- Estás salvo, meu filho! Agora vamos para casa porque a mamã está à nossa espera.
E mais falava.
E mais choravam.
O Morais assistia comovido e umas lágrimas, não sabia bem se de alegria ou de raiva, escorreram-lhe pela face.
- Estás bem, meu filho? – perguntava o pai.
- Estou! Agora estou! – e nada mais conseguia dizer, o rapazinho.
O “detective” deixou passar alguns minutos até que falou.
- Vamos embora, amigo Jaime! A mãe também quer abraçar o Tiago!
- Tem razão!
A manobra de inversão de marcha só foi possível com umas arranhadelas na pintura do carro. Mas que importava isso?
O vizinho resolveu conduzir a viatura enquanto o homem baixo, feio e coxo telefonava para a sua mulher.
Só parou junto do local onde deixara o seu Mercedes. Apeou-se e os dois automóveis dirigiram-se para a rua nova junto da escola.
O vizinho também entrou em casa do Campelo e assistiu a uma cena emocionalmente muito forte, com os três agarrados a chorar e a Eulália, embora um pouco mais afastada, também parecendo uma fonte. Pela segunda vez nesse dia o “detective” não aguentou e sentiu as lágrimas a correr-lhe pelo rosto.
Olhava para o miúdo que praticamente não dissera outras palavras para além de papá e mamã e pensou:
- Quatro noites sabe-se lá em que condições. Este miúdo deve estar fortemente traumatizado. Vai precisar de muito apoio psicológico ou mesmo psiquiátrico.
Lembrou-se então de telefonar para o escritório para dar a boa nova.
Atendeu a Catarina mas falou com o Eurico.
Todos parecem ter suspirado de alívio.
- Depois eu passo por aí para vos contar pormenores – prometeu antes de desligar.
Ocorreu-lhe então que talvez lá estivessem pessoas com responsabilidades no rapto. E lembrou-se que devia verificar se Bruno e Sónia tinham ou não álibi.
Foi então que ouviu o petiz dizer:
- Tenho fome e sede!
Imediatamente a Eulália foi buscar bebida e alimento para o seu Tiaguinho. Observou o moço a comer sofregamente e continuou a cogitar:
- O Paulo já me deu os endereços dos sítios onde trabalham os meus suspeitos. Vou-lhe mandar uma sms com a marca e matrícula do carro dos facínoras.
E assim fez.


publicado por António às 18:47
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Quarta-feira, 24 de Outubro de 2007
O rapto (parte V)
A quarta-feira decorreu sem novos acontecimentos significativos relacionados com o caso.
As pessoas estavam tensas e muito apreensivas, nomeadamente os pais, a Eulália e o Eurico. Os avós e o resto da família nem tinham sabido do rapto pois o Jaime não quis criar preocupações pois estava convencido de que o problema se resolveria rapidamente e a seu contento.
Ao fim do dia já o Campelo tinha todo o dinheiro reunido numa mala. A numeração das notas tinha sido registada.
À noite, o Paulo deu mais algumas indicações ao Morais que este apontou e os sequestradores foram fazer nova visita ao rapaz que continuava na cabana.
 
A quinta-feira amanheceu cinzenta mas sem chuva, como os dias anteriores. Umas gotas que aqui e ali íam caindo não eram muito incomodativas. O último dia de acentuada pluviosidade fora o do rapto, a segunda-feira.
A ansiedade estava latente no rosto das pessoas.
Sempre que um telefone ou um telemóvel tocava na empresa, todos os que lá estavam como que sentiam o coração parar de bater e, após constatarem que não era a chamada esperada, respiravam fundo e tinham um momento de descompressão. Mas logo voltava a inquietação. Para combater esta espera desesperante alguns fumavam mais que de costume e, embora sem vontade de o fazer, procuravam falar uns com os outros sobre tudo e nada, menos acerca do caso. Mas só estavam presentes o Campelo, a Sandra, a Catarina e o Paulo; a mulher do Jaime estava em casa acompanhada pelo cunhado pois a mensagem do raptor não dizia para onde seria feito o telefonema.
Eis que se abriu a porta e entrou o Morais.
- Bom dia! – saudou.
Desta vez, só o Paulo tivera disposição para responder.
Mais um toque dum telefone. Foi o da Catarina como de costume, pois ela é que atendia as chamadas para o fixo que provinham do exterior, mas quem estava a fazê-lo nessa manhã era o Jaime Campelo.
- Estou!
- Ora aqui estou eu, conforme prometido – falou uma voz de homem, visivelmente disfarçada, do outro lado.
E continuou:
- Já tem o dinheiro?
- Tenho! Tenho tudo! – respondeu, num tom vigoroso, o pai do garoto.
- Então amanhã, às onze horas, esteja junto da mata que há ao lado da ponte velha de pedra, em Ceifas. Conhece?
- Sim! – respondeu o Jaime.
- Mas não fica na estrada, naturalmente. Mete pelo atalho e só pára quando vir um obstáculo. Desliga o carro e sai com as mãos no ar. Nada de polícia nem de armas. Alguém entra com o seu filho para a viatura, abre a mala que deve estar na parte de trás, verifica se contém o dinheiro e depois sai, deixando lá o garoto. Finalmente, você dá meia volta ao carro e sai do atalho por onde entrou. Falei devagar. Entendeu tudo?
- Sim! Às onze horas no atalho da mata de Ceifas, não é? – pretendeu confirmar o homem.
- Exactamente! E nada de truques, para bem de todos.
E desligou.
O homem ouviu a ligação ser cortada, ficou com o auscultador na mão, deu um forte suspiro e finalmente pousou-o.
- Já está! É amanhã às onze!
Depois de ter ido buscar uma garrafa de brandy e de ter tomado dois ou três goles, sempre sem dizer mais nenhuma palavra, sentou-se, ligou para casa e contou a conversa com o sequestrador de forma que todos ouvissem.
O Morais aproximou-se do Paulo e perguntou-lhe baixinho:
- Porque será que o raptor ligou para aqui e não para casa?
- Sei lá?
- Porque sabia que o Campelo estava aqui!
- Humm...bem visto! – comentou o jovem enquanto abanava afirmativamente a cabeça.
Pouco depois o Morais chegou-se para junto do vizinho e sussurrou-lhe:
- Quero falar consigo a sós! Vamos até lá fora?
- Pois sim! Vamos ali ao café – anuiu o coxo.
Uma vez sentados numa mesa, disse o “detective”:
- Eu quero dizer-lhe que vou para lá pelas sete e meia da manhã, quando começar a clarear. A essa hora eles...eu digo eles porque tenho a certeza que são dois, pelo menos...a essa hora eles ainda lá não estão. Vou deixar o carro bem longe e escondido e depois vou a pé pela estrada e meto pelo atalho. Os raptores vão de carro, até porque tem de levar o Tiago, e eu vou tentar aprender o mais que puder acerca deles. Faça de conta que eu não estou lá, mas vou estar.
- Por mim acho uma boa ideia, mas não será perigosa?
- Não se preocupe comigo. E digo-lhe outra coisa: hoje de tarde já vou reconhecer o terreno. Quer vir comigo?
- Ó Morais! Você parece o Sherlock! Sim senhor. Vamos lá.
E combinaram a hora.
- Outra coisa. Sugiro que leve o Fiesta da sua mulher para se poder movimentar melhor na mata.
- Boa! Você é que devia ser o chefe da PJ – comentou, com um sorriso, o Campelo.
Pouco depois voltaram para o escritório.
Quando lá chegaram a Sandra disse de imediato:
- Telefonou a D. Zulmira a dizer que tinham ligado da GNR a perguntar se o Tiago já tinha aparecido. Ela disse que não e eles disseram que íam agora comunicar à Judiciária aquilo que o senhor tinha dito quando lá foi.
- Trabalham bem, estes tipos! Mas depois de eu ter o nosso filho connosco eles vão mesmo ter de apanhar o patife – desabafou o marido.
- Os patifes – corrigiu o Morais.
 
Eram sete da manhã de sexta-feira quando o Morais saiu de casa. Levou o carro, um Mercedes negro, e conduziu-o ainda de noite até uns três quilómetros da velha ponte de pedra, que uns diziam que era romana e outros que não. Depois foi a pé pela estrada, protegido por um crepúsculo ainda incipiente, e meteu pelo atalho até um ponto onde este terminava numa cerca de arame que delimitava um campo. Os carros não poderiam passar daí. Seria esse, provavelmente, o ponto onde o Jaime seria forçado a parar. Para voltar teria de fazer a inversão de marcha o que não era fácil e como certamente ainda ficaria a falar e acarinhar o filho os meliantes teriam tempo para se escapulir.
Depois regressou pelo mesmo caminho e postou-se num local de vigia improvisado, junto da ponte sob a qual agora passava um ribeiro com um caudal maior que o habitual graças à água que caíra. Mas como não chovia quasi nada desde segunda-feira, a lama que se formara já estava quasi seca.
Olhou o relógio e leu oito e quarenta. A espera seria longa. Olhou para o céu e pensou:
- Oxalá não chova hoje, senão apanho um resfriado ou até uma pneumonia.
E tirou um livro da algibeira da gabardina, instalou-se o melhor que pôde e começou a ler.


publicado por António às 14:00
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Domingo, 21 de Outubro de 2007
O rapto (parte IV)
Enquanto todos saíam, o Morais fez um sinal ao Paulo.
Este ficou para trás e o mais velho disse-lhe:
- Vou precisar da sua ajuda por causa do rapto do Tiago. Alinha?
O jovem pensou um pouco e disse:
- Em princípio, sim! Mas queria saber que tipo de ajuda.
- Então diga-me o número do seu telemóvel, por favor. Logo à tarde vamos combinar um encontro para falar sobre o assunto.
O moço ditou e o António escreveu.
- Então bom apetite, Paulo! – despediu-se o “detective” – E não fale nisto a ninguém.
- Esteja descansado! Eu percebo que é uma situação que tem de ser tratada de forma muito discreta. Até logo! – respondeu o jovem, já excitado com a hipótese de ter uma aventura diferente do normal.
Eram umas quatro horas da tarde e o sol espreitava de vez em quando por entre as nuvens que ameaçavam chuva.
O Paulo Nogueira recebeu uma mensagem:
“Posso passar por sua casa logo às 21 para o apanhar?”
E escreveu:
“Sim. E vamos aonde?”
A resposta foi:
“Minha casa. Depois levo-o de volta. Diga-me seu endereço”
E o empregado da agência de viagens rematou:
“Combinado! Rua D. Manuel I, 110 1º Dtº”
 
Pouco passava das nove da noite e o Morais estacionou junto do prédio onde vivia o rapaz. Saiu e tocou à campainha.
Pelo intercomunicador ouviu:
- Quem é?
- António Morais para o Paulo.
- Um momento, por favor.
Logo de seguida outra voz disse:
- Já vou descer.
E em menos de quinze minutos estavam junto da casa do ex-bancário que enriquecera à custa da herança dos pais e de um tio rico e solteirão que tinham falecido.
- Quieto, Valente! – disse o anfitrião ao mesmo tempo que segurava um belo exemplar de boxer.
Dentro da moradia, o Morais apresentou o jovem à esposa:
- Este é o Paulo Nogueira que é também um fanático da literatura policial – mentiu o António.
- Pobre de si! Vai apanhar uma seca do meu marido – disse, sorrindo, a Anabela Leitão.
E concluiu:
- Prazer em conhecê-lo.
- Obrigado e igualmente – correspondeu o moço.
E a mulher informou virando-se para o companheiro, pois viviam maritalmente embora fossem ambos divorciados:
- Vou deixar-vos à vontade! Hoje houve muito trabalho no salão e depois de fazer umas arrumações vou-me deitar.
- Está bem, Bela! Eu depois vou levar o Paulo a casa. O Rui está cá? – quis saber o homem.
- Não! Já saiu! Boa noite!
- Boa noite! – respondeu o convidado.
- Até logo! – retorquiu o anfitrião.
Dirigiram-se para um escritório e o dono da casa falou:
- A Anabela é proprietária de um salão de cabeleireira. Podia não trabalhar e limitar-se a dar ordens. Mas gosta de o fazer. O Rui Manuel é filho do primeiro casamento da minha mulher. Eu também sou divorciado mas não tenho filhos.
E continuou:
- Mas isto foi só um intróito para conhecer a minha família. Vamos agora ao assunto.
- Estou pronto! – disse o rapaz.
- Eu gosto muito de investigação policial e leio não só romances mas tudo o que diz respeito a casos reais que me vem parar às mãos e ainda livros sobre teorias da investigação. Acontece que, depois do rapto do Tiago, achei que tinha uma boa oportunidade para tentar descobrir quem são os autores do crime. Não há grandes pistas mas, alguma coisa que não lhe digo por agora me fez seguir uma linha de investigação relacionada com os conhecimentos do seu colega Eurico Pereira. Por isso lhe perguntei se ele tinha alguma mulher. Pelos vistos é amante da Sandra, às escondidas. Também verifiquei, como pôde ouvir, que ela tem um irmão que trabalha numa imobiliária. Mas preciso de saber mais sobre a família da Sandra e do irmão. Onde vivem, onde trabalham, viaturas que tem, namoradas, etc. O mais possível!
- Está bem! Assim de repente não lhe posso dizer muito. Sei que a Sandra tem vinte e sete anos, vive com os pais e tem um só irmão, o Bruno.
Começou a trabalhar na agência cerca de um ano após a abertura, tinha só dezoito, salvo erro. Mas posso confirmar. Antes dela, só os patrões e o Eurico. Sobre o Bruno sei que tem vinte e nove anos, trabalha numa imobiliária, tem um Volkswagen Polo preto e namora com uma tal Sónia que é empregada de balcão numa loja de pronto-a-vestir. Penso que nenhum deles é rico. Vivem até com algumas dificuldades – dissertou o Paulo.
O Morais tomou apontamentos e depois disse:
- Muito bem! De qualquer modo, quando souber mais alguma coisa comunique comigo, está bem?
- Com certeza, senhor Morais! Até já me sinto o Dr. Watson – e deu uma pequena gargalhada.
- Ah! Se souber de alguém que possa ser inimigo do Sr. Campelo diga-me, também.
- Já ouvi uns nomes: lembro-me de Homero e de Tavares. Penso que há mais, mas o Homero tem-lhe um ódio de morte. O próprio Eurico já falou nisso.
A conversa prolongou-se durante mais algum tempo e depois o mais velho foi levar o rapaz a casa.
 
A essa mesma hora já os dois raptores tinham entrado na cabana onde haviam sequestrado o petiz e, usando de todos os cuidados da véspera, o que demonstrava que tinham pensado com detalhe a operação, preparavam-se para sair.
- Vamos lá embora! Parece que está tudo feito por esta noite. Só falta apagar o candeeiro – disse o que, desde o começo, fora o único a falar.
- Já estou a ir! – respondeu uma voz feminina.
Os criminosos nem deram pela falha, mas o rapazito notou e, quando ficou sozinho, disse para consigo:
- São dois! Um homem e uma mulher e tem um Polo preto.


publicado por António às 12:03
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Quarta-feira, 17 de Outubro de 2007
O rapto (parte III)
A noite foi de insónia para muita gente: para o Tiago que só tarde e no escuro logrou sucumbir ao sono e à fadiga física e psicológica; para a mãe que cedo foi para a cama mas não conseguia pregar olho e de vez em quando se levantava para ir ver se o marido estava bem na sala onde, ora sentado ora deambulando, pensava na forma de ter o dinheiro todo preparado o mais depressa possível; ele mesmo se deitou tarde e teve de tomar uns comprimidos para dormir como o fizera cerca de uma hora antes a sua Zulmira; para o Morais que congeminava sobre a maneira de pôr em prática o que lera nos livros de Arthur Conan Doyle, Agatha Christie, Georges Simenon e outros; para o Eurico que ficara, naturalmente, perturbado; para a Eulália que molhou a travesseira com as lágrimas que verteu pelo seu menino; para os raptores, provavelmente...
Na manhã de terça-feira, enquanto o Jaime tratava de reunir o dinheiro para pagar o resgate, a mulher foi à escola para saber se alguém tinha visto o filhote. Ao fim de algum tempo regressou a casa pesarosa pois alguns alunos tinham-no visto virar para a rua nova...e mais não soube.
No caminho de regresso encontrou o vizinho Morais acocorado junto da berma do passeio.
- Bom dia, senhor Morais!
- Bom dia, D. Zulmira! Há alguma notícia?
- Venho agora da escola e ninguém o viu.
E contou-lhe tudo o que sabia, espicaçada pelo candidato a detective.
- Pois eu ando aqui a ver se encontro alguma coisa no chão que possa ter caído ao Tiago ou ao raptor. Eu diria antes, raptores, pois uma acção destas requer normalmente dois celerados, pelo menos.
- Muito obrigado pela sua colaboração! Agora vou a casa e depois para o escritório.
E despediram-se.
O António Morais continuou a sua pesquisa mas em vão. Andou mesmo a espreitar para o caminho entre o portão da vivenda do Campelo e a porta de entrada. Pensou:
- Se o teimoso do Jaime tivesse um cão ninguém poderia ter colocado a carta sem ser denunciado pelo animal. Mas ele diz que detesta bichos...
Quando reentrou em casa, elucubrou:
- A maldita chuva limpou possíveis pegadas que o portador da carta tivesse deixado. Mas acho estranho que tenham vindo fazer esse serviço tão cedo. Podia ter sido o Eurico a trazê-la. Mas é irmão do Jaime, embora não simpatize muito com ele. Enfim! Todos devem ser considerados suspeitos...
E sentou-se, mas continuou a matutar:
- Ora vejamos! Penso que serão mais do que um, os raptores. E das duas uma: ou é gente conhecida, daqui ou de perto, ou gente de fora eventualmente lesada pelo Jaime e que agora se quer vingar. Se fosse gente de fora provavelmente teriam sido vistos a rondar a casa para estudar locais e movimentações; vou tirar a limpo se alguém viu algo suspeito, mas não me parece que alguém tenha visto movimentos estranhos em dias anteriores. Se for gente de cá...acho que vou seguir a pista do Eurico e ver até onde leva.
Pouco depois andava a falar com os vizinhos e ninguém se tinha apercebido do que quer que fosse de invulgar nos dias anteriores.
Depois foi a casa do Campelo e falou com a Eulália.
Esta também não se dera conta de nada nem ninguém nos dias que precederam o rapto.
- Ó D. Eulália! O Sr. Eurico vive só?
A mulher estranhou a pergunta mas respondeu:
- Vive só! Mas com a idade que tem deve ter alguma amásia.
- E não sabe quem é? – inquiriu o antigo bancário.
- Eu? Estou sempre aqui metida. Se alguém souber alguma coisa é a gente da agência.
- Vou lá! – pensou o homem.
Conversaram mais um bocadinho sobre o tempo que, nessa manhã, estava mais simpático, cinzento mas sem chuva, e pouco depois despediram-se.
O “detective” foi buscar o seu Mercedes negro e dirigiu-se para o centro da cidade.
Passados uns vinte minutos entrou na loja, coisa que ninguém estranhou pois fazia-o pelo menos uma vez por semana.
- Bom dia a todos!
- Bom dia, senhor Morais! – ouviram-se só duas ou três vozes.
Olhou e viu que só faltava o seu amigo Jaime. Apesar do mau feitio deste, o vizinho entendia-se bem com ele pois era um tipo calmo e paciente.
- Estou a ver que o Jaime anda a tratar do assunto – disse.
- Sim! – respondeu a mulher sem levantar os olhos da secretária.
Notava-se que não queriam falar no rapto ou em qualquer tema que lho fizesse recordar.
- Vou à casa de banho e venho já! – avisou o António Morais.
Uma vez lá dentro escreveu num pequeno papel:
“O Eurico anda com alguma mulher?”
Guardou-o e reentrou no open space. Dirigiu-se para a secretária do jovem Paulo e sentou-se, ao mesmo tempo que lhe colocava debaixo dos olhos o papel em que acabara de escrever e perguntou:
- Então sempre vai passar uma férias de inverno aos montes Cantábricos?
- Se tudo correr bem espero fazê-lo. Aproveito os bons preços que a agência me arranja! – respondeu o moço que tinha vinte e dois anos.
E embrenhou-se a escrever qualquer coisa.
Logo a seguir o papel estava de novo em frente do reformado que leu:
“Anda com a Sandra, mas escondido do Sr. Jaime porque este não gosta que os empregados namorem uns com os outros”
Aproveitando o silêncio reinante o visitante falou para a Sandra:
- Então, Sandrinha! Como está a sua família? Os seus pais e a sua irmã?
- Estão todos bem! Mas eu não tenho irmã. Tenho um irmão: o Bruno.
- Ah...como está a minha cabeça! E que faz ele que também não me lembro?
- Trabalha numa agência imobiliária – respondeu descontraídamente a rapariga.
- E já é casado? Ora! Desculpe a minha curiosidade! Não responda para eu aprender a não ser metediço – procurou jogar o Morais.
- Não faz mal! Esteja à vontade! Ainda é solteiro mas vive com a namorada. E se quiser saber tem mais dois anos do que eu: vinte e nove
- Agora a juventude prefere co-habitar a casar. Se calhar é o que fazem de melhor.
Depois voltou-se para a jovem Catarina:
- E com a sua família também está tudo bem? Também vai co-habitar?
- Está sim, senhor Morais! – respondeu a linda jovenzinha.
E concluiu:
- Eu espero casar! Mas ainda só tenho vinte anos.
E a conversa acabou porque o Eurico propôs:
- Vamos almoçar?                   


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Sábado, 13 de Outubro de 2007
O rapto (parte II)
A viagem do casal, desde uma zona comercial no centro da cidade onde se situava a agência de viagens até à sua vivenda na periferia, demorou cerca de quinze minutos. Nas cidades pequenas os pormenores do quotidiano são menos desgastantes do que nas grandes urbes.
O Jaime Campelo era um self made man. Com quarenta e cinco anos, baixo, feio, coxo e antipático, mas rico porque sempre lutou muito na vida e também muito aldrabou para bem por ela trepar. Saiu-lhe há poucos anos a lotaria o que veio dar mais uma ajuda no seu gosto por se gabar e menorizar os outros.
Está casado há dez anos com a Zulmira Moreira, agora Campelo, mais nova três anos, e também ela baixa, gorda e feia.
Como a empregada interna, a Eulália.
E nem o puto Tiago, com seis anos, escapava: também tinha uma carranca pouco agradável de ver, o pobre rapaz.
Chegado a casa buzinou e, quando a criada apareceu a uma janela, fez-lhe sinal para ir ter à garagem.
Mal tinha estacionado disparou na direcção da atarantada funcionária doméstica:
- Então o meu filho ainda não apareceu?
- Não, senhor Campelo! – e choramingava, mostrando a sua dor.
- Eu vou à escola! – decidiu o chefe.
Mas lembrando-se que acabara de estacionar o automóvel, vociferou:
- Porra! Arrumei o carro. Agora vou a pé!
A mulher disse:
- Olha! É melhor levar o carro porque se o miúdo não estiver lá depois podemos ir perguntar à vizinhança se alguém o viu.
Ele estacou e respondeu:
- Boa ideia! E depois vamos à polícia.
E voltou a entrar no BMW topo de gama prateado no que foi imitado pela esposa.
E a Eulália ficou a vê-los sair e os portões automáticos a fecharem-se, com uma cara de pasmada.
Na escola só estavam duas professoras retardatárias que nada sabiam do Tiago nem do seu eclipse.
- Não se preocupem que ele aparece! – quis consolar uma delas.
- Isso diz a senhora porque não é seu filho! – ripostou o Campelo.
E noutro tom:
- Eu acho tudo muito estranho. Se estivesse bom tempo...mas a chover assim...
- Então sugiro o seguinte! – disse a outra professora que tinha um ar mais simpático – Se amanhã o Tiago ainda não tiver aparecido peço-lhes para nos avisarem a fim de nós interrogarmos as crianças.
- Está bem! Agora vou procurar para outros lados.
E saiu.
- Boa noite e muito obrigado! – disse a Zulmira que tinha modos menos grosseiros.
E seguiu o marido.
Começaram pelas casas mais ao fundo da rua onde habitavam. Bateram à porta de três que sabiam estar já ocupadas e perguntaram se tinham visto o filho, exibindo ao mesmo tempo uma fotografia que o pai do rapazito tinha na carteira.
Depois bateram na do vizinho António Morais que vivia na casa mesmo ao lado da deles. Era um bancário reformado e amante de literatura e filmes policiais, com cinquenta e cinco anos, estatura mediana e cabelo grisalho sempre bem penteado com risca ao lado, usava óculos e era divorciado mas sem filhos. Vivia com a Anabela Leitão, mais nova três anos, cabeleireira, agora também proprietária do salão, morena e muito exuberante na maquilhagem e modo de vestir e com o filho do primeiro casamento desta, o Rui Manuel Peres, um rapaz com vinte e um anos, bonitão, preguiçoso, narcisista, bon vivant e irresponsável.
Atendeu-os o Morais que, posto ao corrente do assunto, se prontificou logo a ajudar na procura do Tiago que disse não ter visto.
O Jaime agradeceu:
- Obrigado Morais! Eu sei que posso contar consigo. De momento pedia-lhe que fosse olhando para a minha casa e para a rua a fim de detectar alguma movimentação estranha.
- Estarei atento, descanse!
Depois foram para a rua da escola.
Quando eram oito e meia da noite:
- Ó homem! É melhor irmos a casa, telefonarmos para os hospitais, comermos qualquer coisa e depois vamos à polícia.
Mas eis que tocou o telemóvel do muito preocupado homem.
- Estou!...És tu, Eurico?...Diz!...Uma carta no chão junto à porta? Já vou para aí!
Desligou e voou até casa.
Estacionou atrás do carro do meio-irmão e correu para a porta que já estava aberta, seguido pela mulher.
- Ora mostra lá a carta!
- Usa luvas por causa das impressões digitais – aconselhou o também empregado.
- E tu usaste?
- Eu não, porque não sabia o que era. Mas não convém deixar nela as impressões de muita gente.
- Ó mulher! Traz-me umas luvas!
Pouco depois o Jaime abriu o envelope que só tinha as palavras “Quer o Tiago?” escritas com letras recortadas de jornais e nele coladas, e leu o texto fabricado do mesmo modo que estava na folha de papel retirada do seu interior: “Prepare uma mala com 250.000 euros em notas de 100, 200 e 500 euros até 5ª feira e aguarde instruções nesse dia”.
Ficou petrificado.
Só passados uns instantes conseguiu ler o papel em voz alta, mas embargada.
- Hoje é segunda, não é? Três dias! – falou o irmão, quebrando um silêncio que só era perturbado pelo choro das mulheres.
- Dois dias e meio! Acho que vou pagar. Mas antes vamos à GNR – decidiu o Jaime.
- Anda comigo! – ordenou ao irmão
E abalaram, deixando as mulheres lavadas em lágrimas.
- E achas que pagar é a melhor solução? – perguntou o Eurico Pereira já com a viatura a circular.
- Acho que sim! Primeiro que tudo quero recuperar o meu filho. Depois a polícia tratará de apanhar o sacana. Ou sacanas – explicou o pai do puto desaparecido.
- Não está mal pensado, não senhor! – comentou o outro.
Chegados ao posto da GNR participaram a ocorrência mas logo perceberam que dali não surgiria grande empenhamento.
- Vocês vão comunicar à Judiciária, não vão?
- Sim! Daqui a quarenta e oito horas para dar tempo a que o miúdo apareça, pois pode ter-se escondido na brincadeira com outros ou estar em casa de amigos. É muito vulgar – explicou o chefe do posto, o Carneiro, um homenzarrão.
- Na brincadeira parecem estar vocês! – disse baixo o Jaime enquanto o irmão lhe dava uma cotovelada.
- Ah! E fiquem a saber que eu vou pagar o resgate para reaver o meu filho e depois quero que, ou vocês ou a PJ ou seja lá quem for, apanhem os meliantes e o dinheiro.
E saiu.


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Segunda-feira, 8 de Outubro de 2007
O rapto (parte I)
Numa rua rasgada há cinco ou seis anos na zona periférica e ainda muito rural duma cidade do interior, apenas umas moradias novas, nem todas habitadas, contrastavam com os campos, baldios, silvedos e lotes de terreno que predominavam.
Tinham sido plantadas umas árvores que ainda não eram suficientemente crescidas para darem uma sombra capaz e muito menos nesta época invernosa em que deixavam ver somente os troncos e os galhos desfolhados.
Um carro preto de gama baixa estava estacionado junto ao passeio.
Chovia, mas podiam-se ver dois vultos lá dentro. Ambos no banco traseiro.
Da escola primária do plano centenário que ficava situada numa antiga artéria donde nascia a rua das moradias saíram muitas crianças. Umas entraram em viaturas que as esperavam, outras quedaram-se na porta, outras avançaram a pé para o seu destino. Só um rapazito da segunda classe, bem protegido contra a intempérie, andou uns cem metros e depois virou à direita pela rua nova. Bastava-lhe andar mais uns duzentos metros e estaria em casa onde o esperava a empregada Eulália.
Pouco passava das cinco e meia da tarde e a noite começava a cair.
Viu o carro preto que, ao aproximar-se, identificou como um Volkswagen Polo. Quando estava a passar por ele, subitamente abriram-se ambas as portas traseiras. Dois indivíduos vestindo longas gabardinas com capuz precipitaram-se sobre a criança, num ápice adormeceram-na com éter e meteram-na no banco de trás. Uma das estranhas personagens entrou para lá, o outro torneou o automóvel e, sentando-se ao volante arrancou devagar, fez inversão de marcha pois a rua nova ainda só tinha uma entrada, e guiou calmamente pela estrada empedrada e estreita da escola seguindo depois por outras vias com o mesmo enquadramento rural mas afastando-se sempre da zona citadina.
Percorreu poucos quilómetros por estradas em paralelo até parar numa zona descampada:
- Vou tirar os panos que estão a tapar as matrículas – disse o condutor.
Assim fez e lançou os trapos para um ribeiro que a chuva tornara mais caudaloso.
Depois abriu a porta traseira do seu lado, entrou, e os dois amarraram o jovem ainda adormecido, taparam-lhe a boca com adesivo industrial, certificaram-se de que respirava bem pelo nariz, vendaram-lhe os olhos e o condutor retirou da cabeça um pedaço de meia de senhora com o qual se mascarara. O cúmplice fez o mesmo. Guardaram-nos num bolso dos capotes.
- Agora vamos para o local – falou de novo o chefe.
Passados alguns quilómetros saíram das estradas empedradas, andaram uns quinhentos metros por uma de terra batida e lamacenta que mais parecia uma picada e, numa zona arborizada, pararam junto de um casebre. Os faróis já estavam acesos e a vítima desperta.
Saíram os três, entraram na cabana e depois de acenderem um candeeiro a petróleo deitaram a criança num colchão, bem amarrada, mas de modo que poderia alimentar-se pelas suas próprias mãos, pois só os pulsos estavam presos. Os pés estavam atados entre si e a uma forte estaca vertical.
Colocaram de novo as meias na cabeça e retiraram a venda do rapazito.
Destaparam-lhe a boca para ele comer mas a vítima começou aos berros.
Levou uma valente bofetada e ouviu:
- Ó miúdo! Tu come e está calado! Só estarás aqui o tempo necessário para que o teu pai nos dê o dinheiro que lhe vamos pedir. Mas porta-te bem, porque senão nós podemos ser muito maus para ti, ouviste? – ameaçou uma voz de homem um pouco distorcida pela meia.
O mocito, feio que era, tinha os olhos muito arregalados e pareceu perceber pois comeu e bebeu sem dizer mais nada.
No final, puseram-lhe as mãos atrás das costas, amarraram-no deitado com a cabeça um pouco elevada e amordaçaram-no, desta vez com um pano, mas deixando os olhos descobertos.
- Agora só vimos cá amanhã à noite. Se o teu pai se portar bem ficas aqui pouco tempo. Entretanto, se tiveres sede, tens estes copos de plástico junto ao colchão e podes beber pelas palhinhas – falou o líder.
E continuou:
- Dorme e até amanhã!
Apagaram o candeeiro, saíram, tiraram novamente as máscaras improvisadas, removeram as luvas que tinham mantido sempre calçadas e, devagar, foram embora.
 
Já eram seis menos dez quando a Eulália, cinquenta anos envelhecidos, baixa, gorda, feia e abandonada pelo homem, estando preocupada com o atraso do petiz resolveu ir à escola ver se o Tiago lá estava.
Voltou ainda mais aflita e decidiu telefonar para a agência de viagens de que eram proprietários os pais do miúdo, Jaime e Zulmira Campelo.
Atendeu uma jovem empregada, a Catarina.
- Menina! Sou a empregada dos senhores. Queria falar urgentemente com o senhor Campelo – falou num tom que deixou a jovem apreensiva.
Esta fez um sinal para o patrão de que ía transferir a chamada enquanto dizia que era a empregada lá de casa.
- Está? Há algum problema, Eulália?
- Há, senhor Campelo! O menino Tiago ainda não apareceu.
E contou o que se passara.
- Vamos para aí de seguida. Até já!
Desligou e quasi berrou para a mulher:
- Ó Zulmira! O Tiago ainda não chegou a casa. Vamos ver o que se passa.
E virando-se para o Eurico Pereira, seu empregado e meio-irmão, ordenou:
- Tu ficas a tomar conta da firma como de costume.
Quasi de seguida saiu com a mulher deixando para trás um:
- Até amanhã!
Além do proprietário, da sua mulher e do meio-irmão, trabalhavam na empresa e assistiram a toda a cena, a Sandra Maciel, vinte e sete anos, estatura média, não propriamente bonita mas elegante e com um sorriso largo que permitia ver uns dentes esplendorosos e os muito jovens Paulo Nogueira, de origem modesta e apaixonado pela colega Catarina Sousa, de família com boas posses, alta, loira e bonita. Tinha um namorado do mesmo estrato social. O Paulo nem namorada tinha, sempre na esperança de que acabaria por encantar a jovem colega de trabalho.
O enigmático desaparecimento do Tiago foi o tema da conversa até todos saírem e o Eurico fechar o estabelecimento.


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Segunda-feira, 1 de Outubro de 2007
Histórias curtas XXXI - Pelos trilhos do betão (parte II e última)
Lá fora já não chovia e os candeeiros da rua estavam acesos.
Voltou a descer a rua com a passada lenta e o olhar perscrutante, dirigindo-se para uma zona mais moderna da cidade.
Agora as pessoas não eram tão visíveis. O anoitecer torna as gentes que andam na rua mais anónimas: menos pessoas e mais sombras.
Estava a caminhar por uma pequena área comercial que trespassava de lado a lado um moderno e enorme prédio de betão quando viu um homem já de certa idade, barba por fazer, cabelo desgrenhado e sujo, a deitar-se num curioso arranjo de caixas de cartão. Era a sua casa!
O Álvaro não resistiu:
- Boa noite! Já vai dormir?
- Sim! Sou doente dos pulmões e canso-me muito. Preciso de descansar.
O homem dos óculos redondos olhou para o desgraçado e notou um ar macilento que a barba disfarçava a um primeiro olhar. Ouviu-o tossir e reparou na sua magreza. Pensou:
- Este coitado não vai viver muito tempo. Doente dos pulmões e a viver assim...
- E não se trata? – perguntou.
- Já fui a um médico que me deu uns medicamentos e me quis internar. Mas eu não quero estar preso.
- E já tomou os remédios?
- Já acabaram!
- E não vai buscar mais?
- Fizeram-me bem, os comprimidos, mas se vou lá eles podem querer internar-me...
- E comeu alguma coisa?
- Sim, senhor! Fui comer uma sopa dos pobres e um pão. Felizmente é perto daqui, senão nem forças tinha para ir e vir.
- E não tem frio?
- Graças a Deus estas caixas são boas e tenho bastante roupa. Passo bem a noite.
- E não tem nada para comer, aqui?
- Agora não!
- Então espere que eu vou buscar alguma coisa...
E o Leite foi a uma pastelaria e trouxe uns bolos, uns pacotes de bolachas e duas garrafas de águas.
Quando regressou o homem parecia estar a dormir.
- Ó senhor! Tenho isto aqui para si.
O pobre indigente mexeu a cabeça, reconheceu quem o chamava e sentou-se.
- Tome lá! Coma agora qualquer coisa e amanhã de manhã come mais.
- Muito obrigado! Deus o ajude como me está a ajudar a mim.
- Então boa noite! – despediu-se o benfeitor enquanto o miserável comia um bolo, visivelmente satisfeito.
E a caminhada prosseguiu.
Na rua formara-se um nevoeiro com alguma densidade e que pairava baixo.
De repente, ouviu uma voz a gritar:
- Agarra que é ladrão! Agarra que é ladrão!
Quasi ao mesmo tempo passou por ele, a correr, um rapazote.
Não conseguiu ver mais do que isso: que era um rapazote, e que pela velocidade com que fugia devia ser ele o ladrão.
Andou mais um pouco e a sombra que via à sua frente começou a tomar a forma de um homem. De um homem idoso que estava parado no passeio a vociferar baixinho enquanto olhava para o lado por onde tinha fugido o rapaz.
- Boa noite! – saudou o Álvaro – Foi o senhor que gritou para agarrarem o ladrão?
- Sim, fui eu! Maldito rapazola!
- Mas pareceu-me ser ainda muito novo...
- É novo mas um gabiru de primeira categoria – resmungou, ainda irritado, o velhote.
- E conhece-o?
- Sim! É um miúdo de dez ou onze anos que costuma fazer assaltos de...como se diz?
- Esticão!
- Isso! Costuma fazer assaltos de esticão por estas bandas. Aparece de vez em quando e de surpresa. À noite. No resto do tempo deve andar a malandrar e a roubar por outras zonas.
- E nunca ninguém o agarrou? Nem foi detido pela polícia? – inquiriu o homem da gabardina.
- Que eu saiba não! O senhor viu como ele corre? Ninguém o consegue apanhar e como é pequeno esgueira-se com uma facilidade incrível. Só lhe digo que não se pode andar na rua – queixou-se o lesado.
- Mas...porque anda o senhor, que até já não é novo, aqui à noite sabendo que pode ser assaltado? – interrogou o Leite.
- Estive ali no café com uns amigos e moro além, a cerca de trezentos metros. Confiei que num percurso tão curto nunca me roubariam, afinal... – e fez um esgar engraçado.
- E o que lhe roubou o rapaz?
- Uma pasta de couro antiga de que gostava muito. Trouxe-a porque com este tempo não queria molhar uns jornais e dois livros que levei para mostrar aos meus amigos – esclareceu o idoso.
E concluiu:
- Mostrei, mas fiquei sem eles! – desabafou, ainda chateado.
- Bom! Agora parece-me que não há nada a fazer, salvo apresentar queixa na Polícia.
- Pois é! Mas agora vou para casa! Talvez amanhã vá à esquadra. Mas já sei que não adianta nada...
- Então boa noite e tenha cuidado! – despediu-se o caminheiro.
- Boa noite e obrigado! Vou ter cuidado, vou...senão um dia ainda me matam!
E o Álvaro Leite, depois de tomar mais uns apontamentos, prosseguiu o seu caminho, agora com um passo mais rápido porque a temperatura já tinha baixado bastante.
Chegou a uma praceta onde confluíam várias ruas: cinco, para ser rigoroso.
Pelos passeios podiam-se ver mulheres a fazer trottoir ou encostadas às paredes ou aos candeeiros.
Transeuntes a pé, mas sobretudo potenciais clientes de automóvel, paravam para falar palavras breves com as mulheres da noite.
Umas entravam nos carros que arrancavam enquanto uns tipos, provavelmente proxenetas, anotavam as matrículas das viaturas que levavam mulheres. Outras entravam para pensões manhosas acompanhados por algum homem.
Olhou para todos os lados mas foi uma rapariga ainda nova, magra, loira, de botas e uma saia muito curta que lhe chamou mais a atenção.
Dirigiu-se a ela e verificou que já não era assim tão nova: teria uns trinta anos, mas não é fácil adivinhar a idade destas mulheres de vida tão irregular.
- Olá! Boa noite! – disse o Álvaro – Quanto é?
- Dois pratos, quinze euros, filho! – respondeu a mulher.
- E onde?
- Temos aqui esta pensão que é muito limpa. Tens de pagar mais cinco euros pelo quarto.
- Vamos então! – disse o homem.
Entraram e uma recepcionista com mais de sessenta anos, talvez nem tantos, com o cabelo rarefeito e uns óculos muito graduados disse:
- São cinco euros pelo quarto.
E virando-se para a prostituta disse:
- Podes ir para o 12.
O Leite pagou e ambos subiram umas escadas que rangiam a cada pé num novo degrau.
Uma vez dentro do quarto 12, que ficava perto das escadas, a mulher falou:
- Fecha a porta e dá-me o dinheiro. Tens camisa? Se não tiveres eu tenho aqui mas tens de pagar mais três euros.
Ele fechou a porta, tirou o dinheiro da carteira e disse à mulher:
- Escusas de te despir porque eu não quero ter sexo. Vamos conversar pois preciso de desabafar. Não há problema, pois não?
Ela fez uma careta esquisita mas anuiu:
- Por mim está bem!
Ele sentou-se na borda da cama, junto aos pés, e ela perto dele.
- Tens a certeza que o teu homem não se chateia? – perguntou ele.
- Não te preocupes que eu não tenho homem. Por isso não ataco os tipos dos carros. Prefiro vir para aqui. Mas tu és polícia? – falou ela.
- Não! Podes estar descansada. Tenho problemas com a minha mulher e às vezes preciso de conversar.
- E não precisas de foder?
- Também! Mas hoje não quero – esclareceu o Álvaro.
E continuou:
- Tu és bonita! Não arranjas outro modo de vida? Um dia estarás velha e feia, e depois?
- Espero que os meus filhos cuidem de mim como eu cuidei da minha mãe.
- Já morreu?
- Já! Disseram-me que com Sida. É por isso que eu só alinho com camisinha. Coitada da velhota. Sofreu muito! – confessou a meretriz.
- Também andava nesta vida?
- Sim! Mas no tempo em que ela começou não se tinha medo dessa doença terrível. Só dos esquentamentos e da sífilis.
- Mas tu és nova! Os teus filhos ainda são muito pequenos, calculo.
- Tenho vinte e sete anos. O rapaz tem nove e a rapariga tem sete. São filhos do mesmo homem. Mas ele foi de cana e apanhou dez anos. Agora sou eu sozinha a aguentar com tudo – lamuriou-se a mulher da vida.
- E onde vives? – continuou o interrogatório, o Leite.
- Vivo aqui perto num quarto, com os meus filhos. A dona é porreira comigo e vai-me ajudando alguma coisa.
- Mas pagas uma renda...
- Pois então! À borliú é que era bom!
- E quanto pagas?
- Cem euros por semana.
- Isso dá...cerca de catorze euros por dia, mais ou menos. Não me parece caro!
- Para mim é! Há dias bons, mas há outros muito maus. E tenho dois filhos para sustentar.
- Pois! Tudo é relativo. Como te chamas? Eu sou Jorge.
- Eu sou Andreia. Faz de conta... – e riu-se, a mulher, deixando ver que os dentes ainda pareciam estar em bom estado.
Olhou para o relógio e falou:
- Vamos embora! Tenho de arranjar mais clientes e daqui a pouco já não aparece ninguém.
- Ok! Um dia destes venho cá falar outra vez contigo, está bem?
- Tem a certeza que não é da polícia?
- Juro-te!
- Humm...quem mais jura mais mente!
Mas riu-se.
Saíram juntos e na rua despediram-se com um singelo:
- Boa noite!
 
Cerca de meia hora depois o Álvaro Leite entrou em casa.
Ouviu o televisor ligado e dirigiu-se à sala.
A sua mulher tinha adormecido no sofá. Acordou-a com doçura e beijou-a.
- Ah...és tu! Chegaste agora? – perguntou ela.
- Cheguei!
- Está a chover?
- Não, Sara! Já choveu qualquer coisa mas há horas que não chove. Mas está nevoeiro.
- E deu resultado esse teu deambular pela cidade?
- Muito interessante! Depois conto-te porque agora parece que estás é com vontade de ir para a cama – disse o marido.
- Pois estou! Só não fui porque estava à tua espera.
Fez uma pausa e concluiu:
- Que raio de mania esta de quereres ser escritor aos cinquenta anos...


publicado por António às 13:49
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