Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças!
Sábado, 26 de Abril de 2008
Histórias curtas XLIII - Ligação perigosa
Reconversão do texto “Diálogos de gente (XVII) (Homo)” de 3 de Setembro de 2006
 
Bruno Gouveia, o Becas, era um tipo de trinta e poucos anos.
Solteiro, alto, elegante, sempre impecavelmente vestido, cabelo liso e relativamente comprido que afastava da frente dos olhos com os dedos ou com um trejeito adequado da cabeça. Caminhava sempre muito hirto, com um passo de desfile em “passerelle” e todos os movimentos que fazia eram como que meticulosamente ensaiados diante do espelho. Eram notórios alguns tiques afeminados. A voz era grave, mas o modo de falar era algo afectado e carregava nos erres. Tinha um emprego estável e razoavelmente remunerado.
Não tinha muitos amigos nem amigas. Íntimos, ainda menos, e não se lhe conheciam amantes nem namoradas.
Vivia com a sua mãe Lucrécia, há muito viúva do Gouveia que só lhe dera aquele filho e que ela educara com todo o desvelo e carinho.
Poucas vezes saía de casa sozinho, salvo para ir ao café mais perto e, mesmo lá, geralmente ía com a mamã.
As más-línguas diziam que ele era maricas ou, algumas mais viperinas, cochichavam mesmo que haveria uma relação incestuosa na casa, tal o número de vezes que mãe e filho saíam juntos e o tempo que ele passava dentro da habitação.

Certo dia, recebeu um telefonema de uma colega de trabalho, que vivia perto dele e com quem se encontrava algumas vezes no tal café, que lhe propôs irem almoçar fora no sábado seguinte.
Já por várias vezes que a Cátia Gomes, interessante mulher que andava perto dos trinta anos, lhe havia feito aquele convite. Ele recusara sempre.
Mas desta vez ela conseguiu convencê-lo.
E assim, não sem antes ouvir as habituais recomendações maternas, saiu de casa conduzindo o seu carro, sempre muito limpo, para se encontrar com a colega no restaurante combinado.
Lá chegado, não teve que esperar muito para que visse a Cátia sair da viatura com um provocante vestido branco, curto e semi-transparente.
Durante a refeição, que foi frugal pois ambos queriam manter uma boa silhueta, conversaram sobre vários assuntos, inclusivamente de trabalho mas, no final, ela propôs irem num dos automóveis para um sítio fresco já que o calor apertava.
E nada melhor, mesmo sendo noite, que sob um arvoredo denso que recobria um conhecido monte nos arredores da cidade. Um daqueles locais muito frequentado por namorados e também pelos famosos “pestaninhas” ou “espreitinhas”.
A jovem insistiu para irem no carro dela.
Assim, estacionou exactamente onde quis.
- Bruno! Tu és um homem muito bonito. Mas acho que não tens namorada. É verdade? – perguntou a rapariga.
- É! – respondeu ele, laconicamente.
- Que desperdício! E nunca tiveste? – insistiu ela.
- Ó Cátia! Onde é que tu queres chegar? – interrogou o Becas.
- Queres que te diga? Eu digo-te! – disse ela convictamente, enquanto se colocava numa posição em que ele pudesse ver bem as suas coxas descobertas e uma boa parte dos roliços seios destapados.
E prosseguiu:
- Não sei se sabes, mas tu tens fama de ser maricas! Ora eu acho que tu não és nada disso. Acho que és muito tímido, que tens pouca experiência com mulheres e tens um certo receio de te aproximar. Tenho razão, não tenho?
E começou a passar-lhe os dedos suavemente pelas pernas com a óbvia intenção de o excitar.
O homem manteve-se impassível e respondeu:
- De facto, nunca me senti muito atraído por mulheres. Por isso nunca namorei a sério. Tive uns namoricos quando era mais novo mas ao fim de pouco tempo acabava com eles pois não me interessava aprofundar nenhuma relação.
Ela começou a acariciar-lhe a zona entre pernas mas, contudo, o falo continuava sem fala.
- Então não gostas mesmo de mulheres! – disse ela – Mas podes estar descansado que o que dissermos aqui dentro será um segredo só nosso.
E continuou:
- E por homens? Sentes atracção? Olha! Vou ser totalmente directa: és homossexual?
O Bruno Gouveia desviou os olhos e fitou o infinito.
Só ao fim de uns dois ou três minutos olhou para a Cátia que tinha ficado positivamente suspensa.
- Sou homossexual! – confessou o Becas, enquanto os seus olhos brilhantes de água olhavam para a companheira.
- Podes estar descansado que eu não digo nada a ninguém – repetiu a jovem mulher – e se quiseres desabafar comigo está à vontade. Acho que deves ter muita coisa dentro de ti que gostarias de deitar cá para fora e não consegues porque não ousas assumir-te.
Cátia deixara de provocar o homem e agora pegava-lhe numa mão que acariciava maternalmente.
- Nem imaginas! Nem imaginas! Não sabes o que é ter a obrigação social de gostar de mulheres quando elas não me excitam. – e prosseguiu, num imenso desabafo – Eu gosto muito de um tipo da minha idade que me corresponde. Mas o pior de tudo é que ele é bi, casado e com um filho. Encontramo-nos uma ou duas vezes por mês e falamos na Net ou ao telefone, embora não com a frequência que eu desejaria.
Cátia sentiu que não devia ser demasiado curiosa, mas não desistiu da insistência: - Se assumisses a tua homossexualidade não seria melhor?
- Já pensei nisso muitas vezes! Mas acho que não! Tenho quasi a certeza que seria muito pior para mim. Além de ti, da minha mãe, e de alguns homens com quem tive relações, mais ninguém sabe. Rogo-te que guardes isto que agora te disse e nunca o reveles a ninguém – pediu o homem.
- Olha, Bruno! Devo dizer-te que a partir deste momento sinto um afecto e uma ternura por ti como nunca senti antes. Respeito totalmente a tua opção sexual e, sempre que quiseres desabafar ou uma companhia feminina para calar as bocas, conta comigo – ofereceu-se a amiga.
- Agradeço imenso! E provavelmente vou aproveitar a tua oferta. Só te quero dizer que não se trata de uma opção. Eu não sou homo por opção mas porque nasci assim e nada disto depende da minha vontade – disse o jovem e começou a chorar.
Ela sentiu os olhos humedecidos. Apertou a mão dele com força e disse-lhe o que lhe pareceu mais oportuno:
- Bruno! Tu ainda vais ser feliz!
- Duvido muito, Cátia, duvido muito! Se tivesse coragem de fugir, ir para longe, para um lugar onde ninguém me conhecesse, talvez. Mas enquanto tiver de guardar tudo isto dentro de mim, nunca serei feliz. Limito-me a ter alguns momentos, poucos, de felicidade.
 
O tempo foi passando e, cerca de dois anos depois, a mamã Lucrécia faleceu.
O filho teve de se adaptar a uma vida de solitário mas, para ultrapassar essa situação, começou a sair à noite para frequentar bares gay.
Aí conheceu o José Gomes: um tipo um pouco mais novo, bela figura, mas mandrião e pouco recatado.
Até que uma noite o Bruno o convidou a ir a casa beber mais um copo.
E a noite virou uma sessão de sexo desvairado!
E os encontros foram-se repetindo até que o Zé se instalou de armas e bagagens no apartamento do amante.
Nessa altura já a vizinhança falava deles à boca cheia como um casal de pouca vergonha.
Uma vez, no emprego, a Cátia falou para o colega:
- Ó Bruno! Tem cuidado! A tua relação como teu namorado anda a ser muito falada e, segundo sei, ele não é boa rês.
- Eu sei, minha querida! Mas tenho de me vingar de todos os anos em que vivi oprimido.
- Mas tem cuidado, está bem? Sabes que gosto de ti e não te queria ver doente, prejudicado ou aldrabado pelo teu homem.
- Agradeço o teu cuidado, Cátia, mas não te preocupes…
- E acautela-te com o teu lugar na empresa! Tens andado um pouco desleixado com o trabalho e sabes como são as pessoas – informou a mulher.
- Eu sei! Mas esta fase vai passar e depois tudo será mais calmo.
E continuou o Becas:
- Sabes que estamos a pensar casar em Espanha? E depois, quando for possível, tentaremos adoptar uma criança.
- Sim? – disse ela, laconicamente.
- Acho que estou perto de conseguir concretizar os sonhos da minha vida.
- Se ficas contente, eu fico satisfeita também! Mas cuida-te! E agora vamos trabalhar…
 
Um dia, passados cerca de três meses, o Becas faltou ao trabalho sem avisar. Coisa rara.
A Cátia apercebeu-se e ligou para casa dele:
- Olá, Bruno! Estás doente?
Do outro lado ouviu um silêncio durante vários segundos que a deixaram a pensar que alguma coisa não estaria bem.
- Bruno! Estás aí?
Desta vez o rapaz falou:
- Sim, Cátia! Quero falar contigo. Preciso muito de falar contigo.
- Então vou já para aí – disse a rapariga, e desligou.
Depois arranjou uma desculpa, saiu da empresa e foi até casa do amigo.
Quando o colega a encarou à entrada da porta agarrou-se a ela a chorar convulsivamente.
- Que aconteceu, Bruno? – inquiriu ela quando sentiu que o homem estava em condições de falar.
- O Zé está doente com sida e eu fui fazer o teste e sou seropositivo.


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Sábado, 19 de Abril de 2008
Histórias curtas XLII - Duas mulheres
Reconversão do texto “Diálogos de gente (XI) (Duas mulheres no café)” de 9 de Maio de 2006
 
Maria de Lurdes Salgado, quarenta e cinco anos muito bem conservados, estava sentada à mesa de um café quasi vazio àquela hora da tarde lendo um livro.
Alguém entrou, parou, olhou para a mesa ocupada pela atenta leitora e avançou.
- Olá, Lurdes! – disse.
A outra levantou a cabeça e fitou o vulto em pé mesmo defronte dela.
- Henriqueta! Há quanto tempo! – exclamou com um sorriso aberto – Queres sentar-te?
A recém-chegada puxou de uma cadeira e acomodou-se à frente da outra enquanto dizia:
- É verdade! Moramos relativamente perto mas nunca nos encontramos. Como está a tua família?
- Sabes que estou divorciada? – disse, quasi em surdina.
- A sério, Lurdes? – admirou-se a Henriqueta Santos, antiga colega dos tempos do liceu – Mas isso é recente, não é?
- Separei-me há três anos e o processo de divórcio ficou concluído há onze meses – respondeu a professora do secundário.
- E tu ficaste com a custódia da tua filha, não? Tens só uma filha, se bem me lembro – aventou a empregada bancária.
- Exactamente! O meu “ex” deixou o lar e foi juntar-se com outra mulher. – disse a Lurdes – Um traste!
- Pois! Casados são todos iguais, minha filha! – retorquiu a desempoeirada colega – E já arranjaste um gajo?
- Não! Ainda não estou preparada para isso. Dezassete anos em conjunto é muito tempo e isso deixa marcas – respondeu a Lurdes.
- Por isso mesmo é que tens de arranjar outro para esqueceres essas mágoas. – e continuou, a loira, visivelmente artificial  – Mas não te cases outra vez! Deves ganhar bem, não precisas de aturar outro tipo.
E prosseguiu:
- Nunca desconfiaste de nada?
- Não! Mas parece que já se encontrava com ela há quatro anos antes de se ir embora. Chorei muita lágrima! – lamuriou-se a professora.
- E quem é a fulana? – quis satisfazer a curiosidade, a outra.
- É uma colega de trabalho! O costume! – disse a Lurdes.
- Pois! Acontece muitas vezes. – concordou a antiga companheira de escola – Mas agora tens de esquecer isso e gozar a vida!
- O trabalho ocupa-me muito. Além das aulas e do tempo que agora tenho de dar a mais, ainda tenho umas explicações de matemática.
- Ó minha menina! Desculpa lá! Mas tu ainda és muito jeitosa e tens é de entrar numa onda nova. Olha que qualquer dia tens isso cheio de teias de aranha – e riu-se, a amiga.
A Lurdes, mais pacata e virada para a introspecção, sorriu.
- Olha como tens um sorriso bonito! Aproveita a vida enquanto estás numa idade boa – aconselhou a Henriqueta.
Mas disse mais:
- Eu separei-me do Artur há dez anos. Mal soube que ele me punha os cornos, a primeira coisa que fiz foi pô-los a ele. Vivo com um dos meus dois filhos e nunca mais casei. Conheci...deixa-me pensar...cinco gajos até que me fixei com um que era também divorciado; um borracho que tem agora cinquenta. O tipo é rico, uma máquina na cama e vivemos separados. Umas vezes dormimos em minha casa, outras na dele, algumas vezes não ficamos juntos, aos fins-de-semana costumamos ir passear e ficamos em hotéis porreiros e ele paga tudo. Mas a relação é aberta. Ele já dormiu com outras e eu já lhe paguei na mesma moeda. Mas tudo numa boa! E sabes o que te digo? Sou feliz!
A outra ouviu-a atentamente e, finalmente, disse:
- Mas tu tens um feitio diferente do meu, Queta! Eu gostaria de casar com outro homem, confesso. E há um tipo lá na escola que me faz a corte de maneira descarada. Mas é casado e eu não quero desfazer um lar como me fizeram a mim.
- E tu sabes se o lar já não está desfeito e só existe na aparência? Deixa-te de pruridos e dá-lhe uma oportunidade. Se agradar, tudo bem. Se não agradar, passas-lhe a guia de marcha.
A Lurdes desta vez riu-se e falou:
- Tu és sempre a mesma! Quem me dera ter o teu feitio.
- Mas não te cases! Eu não percebo como quem já viveu um casamento que se desfez ainda pensa em casar. Abrenúncio! Lá para os sessenta e tal, quando te reformares, quando ele só der uma de quinze em quinze dias, e tu já estiveres cheia de celulite, pneus e rugas e com poucas necessidades, então casas e fazem umas viagens porreiras – aconselhou, de novo, a bancária.
Mas não parou:
- E agora podes arranjar tipos com toda a facilidade através da Net. Tu que és das matemáticas até nem deves ter problemas nenhuns em mexer na informática. Olha! Eu arranjei dois por essa via. Um deles saiu um escroque, mas o outro era cá um naco que nem te digo nem te conto. Ó Lurdes! Afinal para que serve querermos a igualdade se continuarmos a comportar-nos como as nossas avós? Espevita, mulher!
A Lurdes, embora conhecesse a antiga colega, não imaginava que ela tivesse concepções das relações entre homem e mulher tão avançadas.
A conversa continuou durante mais uns minutos até que a Henriqueta saiu.
A Lurdes continuou com o livro fechado, olhar fixo num ponto distante e invisível, o pensamento a voar.
Finalmente mexeu-se. Pagou a conta, levantou-se, deixou escapar um sorriso e pensou:
- Ah professor Matias! Talvez venhas a ter uma surpresa!
 
Passados cerca de dois meses, e novamente por acaso, a Maria de Lurdes Salgado e a Henriqueta Santos voltaram a encontrar-se no mesmo café, de novo quasi vazio.
Depois das saudações habituais, a professora falou:
- Sabes que ando com o tal colega que é casado?
- Assim sim, mulher! – aprovou a bancária – E não andas muito melhor?
- Nem se compara! Sinto-me outra! Bendita a conversa que tivemos aqui…tenho de te agradecer o que me disseste.
- Ora! Deixa-te disso! – retorquiu a loiríssima Henriqueta.
- E sabes que estamos a pensar em casar? – informou a Lurdes.
- Como? Tu estás maluca! – censurou a outra.
E continuou:
- Aposto que ele já te disse que te adora e que só precisa de ganhar um pouco de coragem e esperar o momento adequado para falar com a mulher. Foi ou não foi?
- Tu sabes muito…
- Diz-me só mais uma coisa: eles têm filhos? – perguntou a sabida.
- Tem duas raparigas, uma com quinze e outra com doze.
- Pois eu te digo! Ou ele está perdidamente apaixonado por ti ou nunca mais se divorcia. Nestas matérias, os homens raramente tem a coragem de encaram os factos de frente e pôr os pontos nos is. Vou deixando correr e poucas vezes tomam a iniciativa de se divorciarem. Portanto, não contes com isso. E logo com duas filhotas ainda novas…
- Acho que tens razão!
- Podes crer! – insistiu, peremptória, a Queta – Vai desfrutando da situação e não te iludas com um novo casamento. Se quiseres um tipo só para ti tens de arranjar um separado ou viúvo ou divorciado. Solteiro, não! Solteiros com mais de 40 anos podem ser meio maricas. Mas não vivam juntos! Isso desgasta a relação e ao fim de poucos anos já estareis fartos um do outro. Olha! A minha relação está cada vez melhor. Mas casar, só depois dos sessenta ou sessenta e cinco… – e riu-se, a mulher de ideias mais modernas.
- Se calhar tens razão! Tens quasi de certeza, mas eu continuo a sonhar em ter um marido que viva comigo, me apoie, me dê mimos, seja o meu companheiro e meu cúmplice de todos os dias…
- Pois! Queres um príncipe perfeito que não existe. E se pode parecer que o teu o é, ao fim de algum tempo verás nele um sapo e não um príncipe – e a bancária riu-se de novo.
- Tu não acreditas no casamento de maneira nenhuma! – exclamou a Lurdes.
- E tu já tens idade e experiência para também não acreditares. Valha-te Deus!
E depois de falarem noutros assuntos, despediram-se.
 
Só lá longe no tempo, ao fim de quinze anos voltaram a encontrar-se.
Foi numa esplanada, numa tarde soalheira.
Saudaram-se efusivamente.
- Sabes que passei dez anos no Brasil? O meu Carlos foi para lá e como o meu banco tinha filiais em Porto Alegre eu pedi a transferência. Reformei-me há cinco – contou a Henriqueta.
- E voltaste agora?
- Viemos há cinco anos pois ele reformou-se com sessenta e agora vivemos juntos. Temos uma vida de nababos!
- Sabes uma coisa, Queta? – disse, a dado momento, a professora.
- Para já, não! – e riu-se a que fora loira e agora tinha uns lindos cabelos brancos com reflexos azulados.
- Pouco depois de nos encontrarmos da última vez, quando eu estava divorciada e tinha uma ligação com um professor casado, lembras-te?
A amiga acenou que sim com a cabeça e a Lurdes prosseguiu:
- Pois ele enviuvou quasi de seguida, casamos e sou muito feliz! É aquele tipo charmoso que está ali – e apontou para um sujeito com uma bela figura.
A Henriqueta olhou.
- Tiveste sorte, rapariga! Os casamentos costumam ser uma merda – e largou mais uma das suas gargalhadas.


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Sábado, 12 de Abril de 2008
Histórias curtas XLI - Conversa de amigos
Reconversão do texto “Diálogos de gente (III) (Dois tipos no café)” de 21 de Março de 2006
 
Ricardo estava sentado à mesa do café lendo um jornal.
Eis que uma voz soa, alta e grave:
- Olá, camarada! Estás muito absorvido na leitura!
Levantou a cabeça e deu de caras com o seu velho amigo Augusto.
- Ó pá! Senta aqui! – convidou.
- Com muito gosto! Já não nos vemos há umas semanas…ou meses – disse o recém-chegado.
- Eu tenho andado muito caseiro. Como de costume, aliás – justificou o Ricardo.
- Sim. És um tipo que convive pouco. És do estilo casa, trabalho, casa. Desde que deste o nó com a tua mulher, perdeste-te! – gozou o Augusto.
- É a vida! O meu trabalho é exigente, como sabes, e quando chego a casa, se não tenho ainda que acabar algum serviço, dedico-me à família, vejo as notícias e deito-me normalmente cedo – explicou o pacato amigo.
- Eu tenho uma vida um bocado mais agitada! – disse, com ar satisfeito, o outro.
- Pois tens, pá! – e, falando baixinho, o Ricardo revelou uma descoberta – Noutro dia vi-te entrar para uma pensão, ao fim da tarde, com uma mulher morena muito jeitosa. Não te ponhas a pau que a tua mulher ainda descobre as tuas aventuras e estás tramado.
- Sabes que eu não resisto às mulheres, não sabes? Costumavam dizer que eu não podia ver uma vassoura com saias. Pois nem são precisas as saias nem as lingeries; basta-me a vassoura! – confessou o garanhão, gargalhando.
- Continuas sempre o mesmo, pá! Nunca mais assentas!
- Que queres que te faça? Sabes que eu costumo dizer: “um homem sabe que não pode comer as mulheres todas do mundo, mas tem obrigação de tentar” – e riu-se, novamente, o amigo mulherengo.
- Já te ouvi essa mais de n vezes. Desculpa lá a indiscrição: mas tu gostas mesmo da tua mulher? – perguntou curioso o Ricardo.
- Claro que gosto! – respondeu o outro – Eu sou capaz de gostar de várias mulheres ao mesmo tempo. E tu também, palpita-me…
- Gostar ou amar? – procurou o amigo esclarecer.
- Eu tenho um coração muito grande, mas é gostar. Amar, num determinado momento, é só uma. Mas posso amar uma e gostar de duas ou três. E depois girar, topas? – explicou o Augusto.
E continuou:
- Se queres que te filosofe um bocado...
- Já sei o que vais dizer! Que os homens são polígamos e as mulheres monógamas – adivinhou o Ricardo.
- Já aprendeste, mas aprendeste mal! A maioria! É preciso não esquecer que é a maioria! Porque há homens monógamos, muito poucos, penso, e mulheres polígamas. E tu, que te armas em fiel e monógamo, só o és...quero dizer...talvez o sejas...porque não tens tido oportunidade. Mas um dia que a tenhas, a ver vamos se não dás uma facada no matrimónio como os outros. Mas olha que não sei se serás assim tão santinho. “Fugi dos sonsos” costumava dizer a minha mãezinha que Deus tenha – e olhou de soslaio para o amigo, com um sorriso irónico de desafio, qual imperador Augusto.
- Não digo “desta água não beberei”, mas até agora tenho cumprido o que prometi. E tu estás a ver se tiras nabos da púcara mas comigo tens azar. Eu tenho sido sempre leal – disse o Ricardo.
Entretanto, já os olhos do galifão tinham vasculhado todo o café e se haviam fixado numa mesa onde estavam duas mulheres jovens, de uns vinte e muitos, trinta anos.
- Ó Ricardo! Olha-me ali aquela morenaça. Se se proporcionasse tu ires com ela para a cama, não ias? Se disseres que não começo a pensar que és paneleiro, pá!
- Assim estás a querer influenciar a minha resposta. Mas eu digo-te que não!
- És um caso perdido! Ó pá! Eu estou a olhar para ela e não posso deixar de pensar que lhe dava uma queca monumental! – desabafou o incorrigível Augusto.
- E na amiga? – perguntou o sossegado Ricardo.
- Não me pica tanto! – respondeu o outro – Mas também não dizia que não.
- És mesmo levado da breca! – exclamou o Ricardo.
E, de imediato, colocou nova questão:
- E a tua mulher não nota nada?
- Eu acho que não! Primeiro porque faço as coisas com muita discrição, depois porque a tenho sempre satisfeita. Esta é uma regra sagrada: se não papas a tua mulher, se não a acarinhas, se não lhe levas uns chocolates ou umas flores de vez em quando, ela começa a desconfiar, mesmo que não tenhas culpas no cartório.
Tocou um telemóvel.
Foi o pacato Ricardo quem o atendeu. O amigo notou, com um sorriso malicioso, que ele ficou um pouco embaraçado:
- Estou? Sim! Eu chamo depois! – e desligou.
- Ó Ricardo! Aposto que era a loira que andas a comer…
O Augusto olhou com ar simultaneamente admirado e comprometido para o amigo e perguntou:
- Loira? Mas de quem falas?
- Ó pá! Nunca ouviste dizer que se apanha mais depressa um mentiroso que um coxo? – falou, com um ar de gozo, o garanhão.
O outro começou a ficar com uma expressão mais rígida.
- É assim: na semana passada, estava eu a entrar para o estacionamento da residencial “Roma” onde me ia encontrar com a tal morena, quando te vi a sair com uma loira ao lado. Tu olhavas para todos os lados mas não me viste. Agora nega! Nega! – e soltou uma gargalhada.
- Xiu! Fala baixo! – pediu com voz sumida o “exemplar” chefe de família.
- Ok! Mas é verdade ou não?
- É! Confesso que é! Mas não digas a ninguém porque se a minha Sara descobre é menina para pedir logo o divórcio e eu gosto é dela. A loira é uma gaja que é muito boa mas só serve para dar uma queca de vez em quando. É coisa sem futuro! – abriu-se, o Ricardo.
- Só não percebo porque te fechas com os amigos! Tens medo que eu diga alguma coisa à Sara? Tu és maluco! Nunca faria tal coisa e até gosto muito dela. Olha! Talvez por isso mesmo…
- Espero que mais ninguém saiba…
- Mas deixa-me dizer-te uma coisa: nunca se sai simultaneamente com uma mulher de um residencial, e muito menos com uma loira espampanante. Sai um por cada sítio ou em momentos diferentes. E nunca por nunca a leves no carro nem apareças com ela em locais públicos.
E rematou com ar trocista:
- Aprende que eu não duro sempre!
- Tens razão! Sabes que eu não tenho a tua experiência nestas coisas de infidelidade…
- Mas tens ouvido as minhas dissertações, não tens? Basta seguir as regras que eu já te enunciei muitas vezes para tu minimizares os riscos.
- Pois é! E como vai a tua família? – inquiriu o Ricardo.
E mudaram de assunto ficando a conversar mais um pouco.
Ao fim de algum tempo o Augusto despediu-se e foi embora. Enquanto caminhava para a sua viatura cogitava:
- Se este gajo soubesse que a Sara anda metida com o cretino do Mário Duarte até caía de cu. Eu devia avisá-lo, mas não tenho coragem. Mas se ela continuar a pôr-lhe os cornos não tenho outro remédio: afinal ele é meu amigo!


publicado por António às 17:46
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Domingo, 6 de Abril de 2008
Eu sou tu!
O jovem, filho de boas famílias, conduzia a sua viatura nova e de gama média pela cidade em dia de chuva.  
A água caía miudinha, do tipo molha tolos, e obrigava-o a ter o limpa pára-brisas em movimento de frequência constante. Mas o nevoeiro ainda era mais incomodativo pois fazia com que estivesse mais atento do que habitualmente ao que acontecia nas ruas.
Em certo momento, não soube explicar como, sentiu o carro bater num vulto que se atravessava, qual fantasma vindo do nada, à sua frente. Depois viu um corpo a voar e cair alguns metros à frente. Teve tempo de se desviar mas não teve coragem para parar e saber o que acabara de acontecer, com mais rigor. Acelerou e continuou o seu percurso.
Foi então que ouviu uma voz vinda do seu lado direito:
- Fizeste mal em não ter parado! Agora devias voltar ao local em que atropelaste alguém e verificar o que se passou. Se já estiverem a socorrer a vítima o melhor é não dares muito nas vistas e logo de seguida vais apresentar-te numa esquadra da polícia.
- Mas quem é que fala?
- Eu!
- Mas quem és tu?
- Eu sou tu!
- Como?
- Sou a tua consciência. Tu podes não estar arrependido de teres atropelado alguém e depois ter abandonado o ferido, ou morto, no local do acidente. Mas eu estou. Porque sou aquilo que tu tens de melhor.
- Mas se voltar ao sítio ou me apresentar na polícia posso ir preso.
- Pois podes! Mas terás uma atenuante e, com sorte, podes escapar à prisão. Se não o fizeres terás uma pena muito mais pesada a cumprir.
- Mas ninguém sabe quem fez o atropelamento…
- Isso é o que tu pensas! Apesar da fraca visibilidade alguém deve ter visto e tomado nota da matrícula, ou da marca do carro, ou da cor, ou de vários desses detalhes. E tens o carro amolgado, de certeza…
E continuou a voz:
- E já pensaste que podes ter sido filmado por uma câmara de vigilância no momento do impacto e da fuga?
- Pois…
- E já viste o peso que eu, que sou tu, vou carregar para o resto da vida?
- Pois é! Vamos lá ver o que se passou.
E o condutor voltou ao lugar do acidente. Ainda havia grande balbúrdia e estavam lá uma vulgar ambulância e outra do INEM, da emergência médica.
Parou a saiu.
Ouviu alguém dizer:
- O patife atropelou a miúda, que deve ter uns 14 anos, na passadeira e pirou-se. Mas alguém viu e tomou nota da matrícula. Portanto quem atropelou e fugiu não tem escapatória.
- Ouviste? – disse a voz da sua consciência – Vamos lá à polícia.
- E como estará a rapariga?
- Vamos perguntar.
Alguém inquirido, respondeu:
- Está viva mas não parece nada bem! Estão ainda a estabilizá-la antes de ir para o hospital.
O jovem voltou ao carro, arrancou, deu meia volta e parou junto de uma esquadra da PSP.
- Ganhaste! – disse para a voz.
- Vais ver que quem ganhou foste tu.


publicado por António às 14:31
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