Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças!
Quarta-feira, 27 de Agosto de 2008
Um filme invulgar

 

Ele era ainda um adolescente.
Teria catorze anos, talvez quinze.
Gostava muito de ver filmes mas, apesar de os visionar na TV, em cassetes VHS, em DVD’s ou ainda aqueles que sacava da Net, era nas salas de cinema que melhor os saboreava.
Porquê?
Talvez porque quando mais novo ia muitas vezes com o pai ver cinema aos Centros Comerciais e tenha ficado a gostar dos rituais de comprar o bilhete, entrar na sala mergulhada numa suave obscuridade que fazia lembrar a noite, de escolher o lugar quando era caso disso, de ver os trailers, de ouvir aquele som polifónico magnífico, de comer as pipocas, de sorver o refrigerante com palhinha…gostava, enfim!
Naquela tarde de férias grandes em que alguns amigos estavam para fora, decidiu usar uma parte do dinheiro que semanalmente os pais lhe davam e ir a um Shopping que ficava perto de casa para ver um filme de aventuras. Era-lhe também simpática a ideia de ficar sentado, bem repimpado numa cadeira confortável, dentro duma sala com pouca gente e um sistema de ar condicionado que gerava uma temperatura bem mais agradável do que aquela que o fazia transpirar na rua.
Quando entrou ainda faltavam uns cinco minutos para o início da sessão.
Verificou que estavam umas doze ou treze pessoas. Mais do que esperaria.
Sentou-se longe do ecrã e perto da coxia central.
Ainda entrou mais gente.
A seu lado sentou-se um sujeito: olhou-o de soslaio e pareceu-lhe velho.
Mas para um rapazote da idade dele até um sujeito de trinta anos é velho…
Começou a projecção e o moço estava atento ao filme, com as mãos ocupadas a comer umas pipocas, lentamente, para durarem.
Passados uns quinze minutos sentiu uma mão a afagar-lhe os genitais.
A surpresa e o susto fizeram-no deixar cair o balde com os grãos de milho torrado.
Quando se baixou para apanhar o recipiente tombado, o seu vizinho disse-lhe:
- Eu ajudo!
O rapaz não sabia o que fazer.
Mas o outro agachou-se e foi apanhando as pipocas uma a uma e colocando-as no balde que o jovem segurava nervosamente com uma mão.
A sua vontade era sair dali, rapidamente, mas alguma timidez bloqueava-o.
Entretanto, o solícito espectador, sempre abaixado, num golpe rápido e ágil fez abrir a carcela das calças bem folgadas do estupefacto miúdo e imediatamente meteu uma mão lá dentro.
O moço sentiu que o seu pénis ficava duro mas não podia deixar que o outro se aproveitasse dele. Todavia, a inanição continuava.
O sinistro parceiro, então, introduziu o falo do rapaz na boca.
Aquilo era demais!
Finalmente, e apesar de estar a sentir prazer, venceu a inércia: largou o balde, deu uma sapatada na cabeça do safado e levantou-se dirigindo-se rapidamente para a saída.
Já estava longe, no fim do corredor, quando se atreveu a olhar para trás.
Não viu ninguém.
Foi para casa o mais depressa possível e fechou-se no quarto.
Masturbou-se e adormeceu.
Quando acordou não se preocupou mais com o assunto.
Mas jamais esqueceu aquele filme tão invulgar…


publicado por António às 12:14
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Quinta-feira, 21 de Agosto de 2008
Elísio de Moura

Psiquiatra português.

Nasceu em Braga, em 1877, e morreu em Coimbra, em 1977.
Licenciado em Medicina pela Universidade de Coimbra, inaugurou em Portugal, em 1907, o ensino da neurologia.
Foi o primeiro bastonário da Ordem dos Médicos e a ele se deve a fundação do Manicómio de Sena (1911).
 
Depois desta nota biográfica acerca do Doutor Elísio de Moura, é pertinente explicar o porquê de dedicar um post a tão ilustre clínico.
Porque deste miúdo ouvia falar no Doutor Elísio de Moura como um médico sui generis: utilizava os seus conhecimentos de psicologia e das pessoas e comportamentos humanos para efectuar curas que o povo, muitas vezes, considerava milagrosas.
E ouvi várias histórias.
Provavelmente estão mais perto da lenda do que da realidade mas, aqui e agora, o que me interessa é o que escutei.
 
Conta-se que, uma vez, um sujeito o foi consultar queixando-se de que andava com dores no estômago.
O médico auscultou-o, apalpou-o e…ou seja, fez aquilo que fazia normalmente. No final disse:
- Meu caro senhor! Não lhe vou receitar nenhum medicamento. O meu amigo só vai fazer uma coisa: rapar o bigode.
O paciente saiu desiludido com a indicação e não queria eliminar o ornamento capilar mas, por imposição da mulher, acabou por cumprir o que lhe fora ordenado.
Ao fim de algumas semanas sentia-se muito bem e resolveu ir perguntar ao doutor o que o levara a optar por tão bizarro tratamento.
Disse-lhe o médico:
- Eu reparei logo que o senhor tinha os cabelos bastante brancos e o bigode preto. Uma observação mais atenta fez-me concluir que o senhor o pintava e, provavelmente, seriam as tintas que lhe estavam a afectar o aparelho digestivo.
Agora sei que acertei no diagnóstico.
 
Numa outra ocasião foi chamado para ver uma senhora muito fina, com cerca de quarenta anos, solteirona e beata, que vivia com a mãe, viúva, habitando ambas numa casa apalaçada.
O problema descrito ao clínico foi o de à filha terem começado a surgir dificuldades no caminhar e estar agora acamada pois só conseguia andar agarrada às paredes ou a outra pessoa.
O médico conversou demoradamente com as duas mulheres, fez um ligeiro exame às pernas da paralítica e pediu à mais velha que se retirasse, trancando a porta por dentro.
Quando ficou sozinho no quarto com a doente começou a despir-se enquanto dizia:
- Minha senhora! O remédio para si é fazer sexo.
Antes que o doutor tivesse tempo de se despir, a mulher levantou-se aos gritos e fugiu a correr para fora do quarto.
 
Só lamento não me lembrar de mais nenhuma história das muitas que circulavam sobre o fabuloso Doutor Elísio de Moura e alguns métodos menos ortodoxos que usava para exercer a sua actividade como clínico.


publicado por António às 18:20
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Sexta-feira, 15 de Agosto de 2008
O prisioneiro

Estava na prisão há bastante tempo. Anos de clausura já tinham passado.

Desde logo fora isolado numa cela, mas esta tinha espaço suficiente para se mover de um lado para o outro e exercitar-se fisicamente.

Nunca o deixavam sair de lá. Isso era um ponto assente. Jamais, até chegar a hora da morte.
Mas não se podia queixar de falta de comida e bebida.
E a higiene parecia-lhe suficiente, até porque as limpezas eram frequentes e havia aberturas bastantes, naturalmente com grades, para que o ar fosse respirável.
Usava sempre a mesma roupa que, todavia, era lavada com assiduidade e secava rapidamente.
Não tinha inimigos que o atormentassem mas a solidão era grande…
Muito grande mesmo.
A falta de liberdade dava-lhe ensejo para pensar muitas vezes em escapulir-se. Tarefa quasi impossível.
E porque não sonhar?
Afinal era das poucas coisas que podia fazer…sonhar!
Por isso, e para se entreter nos momentos mais depressivos ou de ócio, algumas vezes cantava para satisfação dos seus carcereiros que admiravam a sua magnífica voz. Isso animava-o.
Por vezes falavam com ele o que também era um estupendo lenitivo.
Mas a falta de liberdade…
Um dia deixaram a porta da cela aberta. Mas quando deu por ela e pensou em fugir, alguém surgiu de repente e fechou-a de novo.
Sentiu que talvez tivesse sido uma derradeira oportunidade de se libertar, mas também pensou que, se tinha havido uma distracção por parte de quem o guardava, talvez pudesse haver outra.
Doravante teria de estar mais atento a possíveis deslizes!
 
Uma noite acordou com uma luz muito forte, um estranho cheiro a queimado, um calor intenso e fumo, bastante fumo.
Era um incêndio!
Pensou que iria morrer ali dentro, queimado; talvez tivesse a sorte de antes ficar inanimado e morrer asfixiado: seria bem melhor.
Mas de repente alguém gritou:
- Libertem o canário!
E, mesmo um pouco atordoado, voou finalmente para a liberdade.


publicado por António às 13:43
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Domingo, 10 de Agosto de 2008
Os Reiseiros da Maia

Era adolescente quando ouvi contar algumas histórias d’ Os Reiseiros da Maia.

Mas quem são eles, os Reiseiros?
Ou melhor, quem eram?
Confesso que não sei exactamente, mas que existiram é um facto comprovado em documentação existente e fidedigna, mas não muito vasta.
Parecem ter sido um ou mais grupos que representavam peças de teatro, fundamentalmente ligadas aos Reis Magos (daí o nome) e outros temas religiosos e também alguns autos vicentinos.
Não sei quando começaram mas parece terem acabado a meio do século XX.
 
No entanto, não é sobre os verdadeiros Reiseiros da Maia que quero aqui escrever, mas antes acerca daqueloutros que fazem parte das minhas memórias da juventude.
Aquilo que me contaram (e que parece ter só um fundo de verdade) referia-se a um grupo teatral constituído por gente boçal, que actuava pelas vastas Terras da Maia e mesmo fora delas.
Essas representações eram servidas por actores, encenadores e técnicos totalmente amadores, o que levava a que, mesmo em momentos de grande dramatismo, cometessem falhas que acabavam por deixar o público a rir à gargalhada.
 
Uma dessas situações humorísticas ocorreu durante a representação de uma peça em que um tipo representando Cristo era elevado aos céus pendurado numas cordas que eram puxadas por meio de um guincho ou cabrestante manual.
Mas o sistema encravou e o actor ficou a meio do caminho olhando para baixo e para cima à espera de ser totalmente içado para sair de cena. Mas a avaria (ou a incompetência) era grande demais e, em certo momento, Jesus Cristo, o filho de Deus, olhou para o alto e bradou:
- Então esta merda sobe ou não sobe?
 
Uma outra aconteceu quando a protagonista, aproveitando a ausência do marido, introduziu o amante nos seus aposentos.
Todavia o cornudo, representado por um tal Mota, apareceu mais cedo do que os infames esperavam e encontrou-os no seu quarto. Imediatamente sacou da sua pistola para matar o vilão. Mas o pequeno explosivo que devia provocar o ruído de um tiro não soou. O homem largou a pistola e procurou lavar a honra usando a espada. Todavia, talvez porque estava ferrugenta, não conseguia retirá-la da bainha.
E perante o gáudio de todos, um espectador gritou:
- Ó Mota! Dá-lhe com a bota!
O actor parou, olhou para o público e disse:
- Boa ideia!
E depois de descalçar uma botifarra começou a bater com ela no outro desgraçado que teve de fugir correndo antes que ficasse com a cabeça rachada.
 
Também se contava esta peripécia, de novo passada no quarto de um nobre casal onde a dama, sozinha, lia uma carta escrita por um apaixonado admirador.
Se tudo corresse normalmente, ela ouviria os passos do marido e queimaria a carta usando uma vela acesa que constituía um dos adereços. Entretanto o marido entraria, mostrava estranhar o cheiro do aposento e diria:
- Cheira-me a papel queimado!
E a representação continuava…
Mas, uma bela noite, a actriz que fazia o papel de esposa não viu a vela, nem acesa nem apagada, e para remediar a situação resolveu rasgar a missiva.
O actor que desempenhava o esposo entrou, fez os mesmos trejeitos de quem achou estranho o odor, mas dessa vez falou:
- Cheira-me a papel rasgado!
 
E não me lembro de mais nenhuma das famosas cenas falhadas dos Reiseiros que me deram a conhecer. Certamente diferentes do que foram na realidade, mas suficientemente engraçadas para eu aqui as relembrar.


publicado por António às 18:15
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Segunda-feira, 4 de Agosto de 2008
Um quisto anal

O homem, reformado pobre já com idade avançada e vários problemas de saúde, estava sentado no sofá encardido pelo tempo e pelo uso a ver qualquer coisa na TV. Era noite e já dormitava mais do que observava o desinteressante programa que lhe era impingido.

A seu lado, a mulher, companheira certa de uma vida longa, mais velha do que ele e de saúde ainda mais periclitante.
Maria da Luz e João eram dois idosos com reformas de miséria como há tantos por aí. Serviam de muleta um ao outro pois os dois filhos andavam longe, nas obras, e não lhes podiam dar grande apoio.
Em certo momento o ancião abanou a companheira e disse:
- Ó Maria! Tenho aqui um quisto no olho do cu.
Ela acordou e resmungou:
- Que foi, chato? Estava a dormir tão bem!
- Estava aqui a coçar o rabo e notei uma saliência.
- Ora! Tu és tão peludo que deve ter sido algum bocado de caca que ficou presa aos pelos.
Mas ele teimou:
- Isso já me aconteceu algumas vezes mas lavei-me e saiu. Como fiz a limpeza antes de me sentar aqui, não é nada disso. Vamos ali ao quarto para tu veres o aspecto desta coisa.
A mulher emitiu um desafabo quasi inaudível mas levantou-se, no que foi seguida pelo João.
De cócoras em cima da cama e traseiro empinado e bem à vista, aconselhou:
- Põe os óculos e apalpa, mas com cuidado para não me magoares.
A Maria da Luz assim fez e com ar doutoral, depois de tirar os correctores da visão ao perto, afirmou:
- Realmente tens aí um pequeno quisto preto mesmo junto ao olho. O melhor é ires amanhã de manhã cedo ao médico do Recurso.
- Pois é! Vou já deitar-me para estar lá antes das oito da manhã. Fiquei preocupado e quero tratar isto. Mas tenho de pedir ao doutor para me passar um remédio barato senão o dinheiro não chega para o comprar e já não podemos tirar mais ao comer.
 
Na manhã seguinte, ainda o sol não despontara e já lá estava o João; fora o quinto a chegar.
Pelas dez horas chamaram:
- João Silva!
Como ouvia razoavelmente, de imediato começou o trajecto que tão bem conhecia para a zona das consultas de Recurso.
Ainda esperou um pouco até aparecer o médico que o cumprimentou:
- Olá, Sr. João! Então como vão as coisas? Entre e sente-se aí.
- Bom dia, Sr. Doutor! Eu vinha cá porque ontem à noite…
E contou o sucedido com bastante minúcia.
Depois de responder a duas ou três perguntas do médico este mandou-o tirar as calças e subir para uma marquesa.
Colocado na posição mais conveniente o clínico, que entretanto colocara as luvas, observou e apalpou a proeminência que tão preocupado deixara o seu paciente.
Depois de ter feito um qualquer trabalho com a tesoura, disse:
- Ó Sr. João! Olhe aqui o que o senhor tinha…
E mostrou-lhe o tal quisto.
- Sabe o que é isto? É cocó que ficou preso nos seus pelos e endureceu. Pode ir descansado e no futuro tem de se lavar melhor para não apanhar sustos.


publicado por António às 14:14
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