Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças!
Quinta-feira, 30 de Julho de 2009
A Luanda que eu conheci (parte II)

O clima de Luanda era pouco aprazível.

Havia duas estações: a das chuvas ou verão, com o sol sempre aberto, mais quente e mais húmida, que durava de Setembro a Maio, e a do cacimbo, em que o calor era menos intenso e decorria em Junho, Julho e Agosto.
Como curiosidade direi que mais tarde, quando tinha já aquele que foi o meu primeiro automóvel, um velho Fiat 500 descapotável que, tendo a cobertura rasgada me fazia deixá-la sempre aberta, e porque a estação das chuvas se caracterizava também por repentinos e fortíssimos aguaceiros, quando andava no passeio com o meu bólido e a água começava a cair, torrencial, só tinha uma solução: parar o carro e ir abrigar-me numa loja ou outro sítio coberto. Passada a chuvada que, normalmente, não demorava mais de quatro ou cinco minutos, voltava à carripana. Como logo o sol refulgia intensamente e o chão da viatura tinha um furo para escoar a água, em menos de três minutos podia sentar-me ao volante e continuar o meu caminho.
 
Fui-me apercebendo, também, que não havia racismo digno desse nome. A segregação era essencialmente económica.
Um caso curioso e que atesta bem a forma de sentir e pensar dos nativos foi-me contado da seguinte forma: um operário negro (que eu cheguei a conhecer), especializado, já de meia-idade e que trabalhava na reparação dos navios, vivia num musseque. Como ganhava razoavelmente, foi convencido pela gente da Armada e alugar um apartamento na zona de betão. Ele assim fez mas, ao fim de poucos meses saiu e regressou ao sítio onde estavam as suas origens e se sentia bem: o musseque.
Também me membro perfeitamente de ter visto pretos e branco a laborar juntos em obras de construção civil e outros trabalhos, e até a serem os mais escuros a darem ordens aos claros.
 
Mas, na manhã do dia 25 de Abril de 1974, estava eu em Luanda há cerca de dois meses e meio, soube-se que o Estado Novo, na versão Marcello Caetano, tinha sido derrubado. Tudo começou a mudar: ao princípio lentamente mas em 1975 os acontecimentos iriam precipitar-se de forma dramática.
Entretanto o navio começou a navegar e fizemos os monótonos cruzeiros (assim chamávamos às missões no oceano) ao norte, até Cabinda ou ao Zaire, nos quais o mar de vaga morta propiciava um certo mal-estar físico, embora eu nunca tivesse enjoado, e os interessantíssimos cruzeiros ao sul, com paragem habitual em Porto Amboim, Lobito, Moçâmedes e Porto Alexandre.
No início de Julho fomos para S. Tomé e quando regressamos, em meados de Setembro, já o comandante do navio não era o Silva Dias que voltara ao continente com a sua mulher francesa, a bela Jacqueline, terminada que fora a sua comissão de serviço, mas sim o 1º tenente Nunes Ferreira, tipo bastante mais simples e modesto que o seu antecessor.
Diga-se que sempre tive boas relações com ambos e também com o imediato Ribeiro e Castro.
De novo em Luanda, cada vez tentávamos acompanhar melhor o desenrolar dos acontecimentos na Metrópole, nomeadamente pela leitura dos jornais “A Província de Angola” e “O Diário de Luanda”, mais o primeiro, e do semanário “Expresso” que ia do continente.
Mas a situação nas colónias, nomeadamente em Angola, também era alvo das nossas atenções.
As autoridades de Lisboa, ocupadas com os imensos problemas gerados pela revolução que se desenrolava no Portugal europeu, iam menosprezando o que se passava nas colónias, mau grado os avisos do então major Pezarat Correia, o coordenador do Movimento das Forças Armadas (MFA) em Angola. O Eng.º Santos e Castro e o Secretário-Geral do Governo de Angola, o militar Soares Carneiro, que viria a ser candidato a presidente da República portuguesa em 1980, saíram em Maio, sendo a posição de topo ocupada por Franco Pinheiro, também militar do Exército. Em Junho foi nomeado para o posto máximo na colónia o general Silvino Silvério Marques que mal aqueceu o lugar pois estava em notória oposição com o MFA. Em Julho foi colocado no topo da pirâmide o Almirante Rosa Coutinho que ficou até Janeiro de 1975, altura dos acordos do Alvor que, supostamente, teriam gerado um clima de entendimento entre os três movimentos de libertação.
O Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), enfraquecido pela guerra e pelas divisões causadas por Daniel Chipenda (revolta de Leste) e Mário Pinto de Andrade (revolta activa, facção intelectual, não armada), continuava a ser liderado pelo Dr. Agostinho Neto (médico, casado com uma branca de nome Vitória) e era considerado por muitos como sendo o que tinha melhores quadros, apesar da sua ideologia pro-comunista. Rosa Coutinho encarregou-se de dar uma preciosa ajuda para a sua reabilitação. Curiosamente, o dia 4 de Fevereiro de 1961 (exactamente treze anos antes de eu ter voado para Luanda) era, e é, considerada a data oficial do início da luta de guerrilha pois assinala a primeira acção armada, levada a cabo precisamente pelo MPLA.
A Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA), descendente da União dos Povos de Angola (UPA) que tinha iniciado uma vaga de massacres no norte da colónia em 1961 a qual motivara o envio massivo de tropas para Angola, era liderada por um indivíduo que mal falava português, Holden Roberto, e parecia não ter uma ideologia bem definida, mas caracterizava-se por ser, acima de tudo, um grupo militar.
A União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA), chefiado por um hábil político chamado Jonas Malheiro Savimbi (dissidente da FNLA), parece ter surgido na luta em 1966 por inspiração das autoridades lusitanas e com o objectivo secreto de combater o MPLA.
Enquanto se iam formando e derrubando governos e iam decorrendo negociações e mais negociações, os homens dos movimentos de libertação, fortemente armados, foram ocupando zonas no território angolano perante a passividade da soldadesca portuguesa para quem o 25 de Abril significava, acima de tudo, o fim da guerra. Este facto foi, na minha opinião, a razão porque a descolonização não poderia ter sido feita de modo muito diferente. Um lado estava armado e o outro, na prática, desarmado.
Em Luanda, a população branca, que manifestava a intenção de não abandonar o território, ia-se alinhando de forma mais ou menos explicita com os movimentos de libertação: os mais ricos com a FNLA, a média burguesia mais direitista com a UNITA, a gente de esquerda com o MPLA.
Sobretudo depois dos acordos do Alvor e de o general da Força Aérea Silva Cardoso ter assumido as funções de alto-comissário, grupos armados dos três grupos que reivindicavam cada um para si os maiores contributos para a independência, cuja declaração já estava aprazada para o dia 11 de Novembro de 1975, infiltraram-se na cidade e foram abrindo delegações, especialmente nos musseques.
E foi aí que, aos poucos mas de forma imparável, começou a guerra civil.
As populações negras, de várias etnias, viram-se forçadas a deixar Luanda pois a situação activou, de forma notória, os ódios tribais. Como a etnia predominante na zona eram os quimbundos, aos quais o MPLA estava umbilicalmente ligado, os apoiantes deste movimento eram os que iam ficando na cidade. Lembro-me de ter ido, numa altura em que os navios já não faziam patrulhas, como navegador de um navio mercante comandado por um oficial da Armada levar centenas de pessoas, das etnias do norte, em fuga para Santo António do Zaire. Até uma criança nasceu a bordo durante a viagem.
As populações brancas, que não foram molestadas, salvo casos pontuais, viram-se envolvidas pelo fogo cruzado dos tiroteios que, muitas vezes, saíam dos bairros negros e vinham para o asfalto. E o pânico apossou-se da maior parte das pessoas que decidiram abandonar Luanda, procurando fugir para Portugal Continental, mas também para o Brasil e para a África do Sul que, ao tempo, ainda vivia em regime de apartheid.
Foi o tempo dos caixotes de madeira contendo os bens que era possível tentar transportar e da gigantesca ponte aérea. E as lutas e o pânico foram-se estendendo a todo o território angolano.                


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Sexta-feira, 24 de Julho de 2009
A Luanda que eu conheci (parte I)

Passei o cinzento dia 4 de Fevereiro de 1974 em Lisboa com os meus pais.

Cerca de um ano antes tinha entrado como aluno na Escola Naval onde, durante seis meses, frequentei o 22º Curso de Formação de Oficiais da Reserva Naval (CFORN), classe de marinha, tendo andado também pelos Grupos 1 e 2 de Escolas da Armada. Fiz ainda uma viagem de instrução a bordo de uma fragata, tive férias e fui colocado no patrulha NRP “Maio” (NRP significa Navio da República Portuguesa), estacionado na Base Naval do Alfeite, até receber a guia de marcha para o navio patrulha NRP “Rovuma”, colocado na Base Naval de Luanda.
Os oficiais da Reserva Naval eram os milicianos da Armada, note-se.
Os meus pais fizeram questão de ir à capital despedir-se de mim, o que aconteceu quando embarquei para um avião da TAP, perto da meia-noite, que voou sobre o Atlântico pois os aparelhos de bandeira portuguesa estavam proibidos de sobrevoar terras de África devido à guerra colonial que agora me chamava e ao ostracismo internacional a que, por isso, era votado Portugal.
 
Bem cedo, na manhã seguinte, e depois de ter passado toda a noite sem dormir sequer uns míseros cinco minutos, o avião pousou na pista do aeroporto da capital de Angola.
Quando me aproximei da porta para sair senti uma tremenda baforada de ar quente que me fez ter a certeza que não estava na Europa.
À minha espera estavam dois amigos da Faculdade: o Alberto Sereno, que exercia funções como oficial ajudante de ordens do Comandante Naval de Angola, ao tempo o almirante Henrique Silveira Borges, e a sua mulher, a Isabel. Eram ambos licenciados em Engenharia Química e tinham sido meus colegas de curso. O Sereno estava fardado e todo engalanado pois logo de seguida iria a uma cerimónia acompanhando o seu chefe.
Foi por isso que a Isabel se viu investida das funções de minha motorista e guia.
Como era muito cedo, andamos a percorrer Luanda de carro: embora estivéssemos na estação quente e das chuvas, a manhã estava cinzenta, mas quente e húmida.
Vi várias zonas da cidade do asfalto e do cimento, habitadas essencialmente por brancos e mestiços. Percorri importantes vias como as avenidas dos Combatentes da Grande Guerra, dos Restauradores de Angola e a bonita marginal (avenida Paulo Dias de Novais) que limitava a lindíssima baía de Luanda a leste, percorri toda a estrada da ilha do Cabo, fui ao largo da Mutamba e ao de Diogo Cão, junto da zona portuária no extremo norte da marginal, passei pela igreja da Sagrada Família e pelo estádio dos Coqueiros.
Mas também vi vários musseques, manchas de pobreza no interior ou na periferia da progressiva cidade que era Luanda naquela época, e habitados essencialmente por negros. O da Ilha, o Marçal, o Prenda, o Sambizanga, o Bairro Operário e outros nomes que me fui habituando a ouvir enquanto por lá estive. Os musseques eram um amontoado de pequenas habitações feitas de lata, madeira e barro, tendo tectos de Lusalite (fibrocimento), zinco, latão ou folhas de palmeira, com estreitas ruas de terra batida, sem água canalizada nem saneamento básico.
Confesso que fiquei com uma péssima impressão da cidade, mas não demorou muito tempo que começasse a encantar-me com aquele mundo, tão diferente daquele de onde eu vinha.
Na altura, Luanda tinha 600.000 habitantes e era a segunda cidade de Portugal depois de Lisboa. Em 2008 tinha cerca de 2.500.000.
 
Quando começou a aproximar-se a hora de me apresentar no navio do qual iria ser o 3º oficial, dirigimo-nos para a Messe dos Oficiais que ficava na longa a estreita ilha do Cabo que delimitava a baía de Luanda a sul. Essa magnífica zona de hospedagem ficava anexa à Base Naval de Luanda com os seus navios patrulha, lanchas de fiscalização grandes e lanchas de desembarque grandes e da zona de manutenção e reparação desses vasos de guerra que fiscalizavam a costa e faziam transporte para outros pontos de Angola, inclusivamente para Santo António do Zaire, já nas margens desse enorme e caudaloso rio que servia de fronteira norte da colónia (ou, como então se chamava, província ultramarina). A Messe dos Sargentos também ficava ali pertinho, bem como uma pequena zona desportiva.
Depois de arrumar os meus pertences na única camarata (tudo o mais eram quartos) da Messe, a qual dispunha de quatro beliches duplos e vários armários e onde me mantive até ao fim da comissão de serviço, dirigi-me ao Rovuma. O oficial imediato, Fernando Ribeiro e Castro, um jovem guarda-marinha de carreira que era filho do Governador-Geral da colónia, Eng.º Santos e Castro, tinha ido a Cabinda pelo que fui conduzido à câmara onde estava o comandante, capitão-tenente José Manuel da Silva Dias, por um sargento. Cumpridas as formalidades da praxe e antes de me mandar embora para descansar da viagem e voltar depois de almoço, ouviu-se um burburinho. O Silva Dias levantou-se, foi para bombordo e eu segui-o. Atendendo à indicação de um marinheiro olhamos para a água: a uns dois metros do casco do navio estava a boiar de borco o cadáver nu de um menino negro que, ao que disseram, tinha desaparecido no dia anterior.
- Isto começa mal! – disse para comigo.
Como o “meu” patrulha estava atracado para fazer algumas reparações que duraram umas semanas, fui tendo oportunidade de conhecer os membros da guarnição e, na Messe, muitos dos oficiais que lá estavam instalados ou, simplesmente, lá tomavam as refeições, aliás muito boas. E um comprimido contra o paludismo não faltava.
 
Como não tinha carro, durante esse primeiros tempos, não saí muito. Só quando tinha boleia ou, algumas vezes, usando o machimbombo, que não era senão o nome que davam ao autocarro e que me levava ao largo da Mutamba, no coração da cidade. Poucos eram os brancos que o utilizavam, pelo que, quer pelo calor, quer pela falta de higiene, quer pela natureza do suor dos viajantes negros, o chamado cheiro a catinga era muito intenso. Mas eu até gostava! Assim sentia-me mais em África. Outras vezes ia para a praia: ou para uma que ficava junto da Base, do outro lado da estrada e na parte exterior da baía ou, quando tinha boleia, para a Barracuda, que era a mais frequentada, ficava quasi no extremo da ilha do Cabo e era complementada por um frequentado bar. Também íamos, por vezes, comer um gelado à Versalhes ou à Pólo Norte, na avenida Salvador Correia.
Outro destino era a encantadora ilha do Mussulo que ficava um pouco a sul de Luanda e era local obrigatório para muita gente visitar nos fins-de-semana, tendo eu passado parte da tarde de um domingo com o Silva Dias a percorrer o mar circundante dentro de uma pequena lancha motorizada por mero prazer lúdico.
A zona do Cacuaco onde ficava a refinaria de petróleo, e que limitava a baía a norte, também era visitada, mais raramente.
E a localidade de Viana, mais para o interior, também.
Por vezes ficava a ler, a dormir ou a jogar ténis.
À noite, umas vezes íamos dançar (ou ver dançar) o merengue nos rebita, dança e bailes nas zonas dos bairros negros.
Outras vezes íamos ao cinema: lembro-me de ter visto o Jesus Christ Superstar no Miramar, um cinema ao ar livre mas com uma cobertura por causa das chuvadas tropicais, que ficava numa zona alta e rica. Mas havia também o Colonial, o Tropical, o Aviz, o Restauração e outros.
Em diversas ocasiões íamos beber um copo ou ver um espectáculo a casas nocturnas como a Gruta, ou o Tamar na restinga, mesmo à entrada da ilha, à esquerda. À direita ficava o fino Iate Clube. No interior da cidade havia, por exemplo, o Maxime ou o Copacabana.
A ilha do Cabo era separada da parte continental por uma estreita faixa de água atravessada por uma ponte. Imediatamente antes da ponte e do lado da cidade, à esquerda, erguia-se a antiga Fortaleza de S. Miguel.
Mas, o que se repetia noite após noite eram as cavaqueiras, com um copo de whisky com gelo na mesa e a apanhar um ar mais fresco junto da vasta sala do bar da Messe.
Dentro desta havia um certo distanciamento entre os oficiais do quadro e os milicianos. Era com estes que eu mais convivia e quero destacar o Max (António Rodrigues Maximiano), jurista do Comando Naval, divorciado e que estava lá sozinho, como a maioria, aliás. Um tipo brilhante e de uma vivacidade impressionante era, de certa forma, o líder. Infelizmente faleceu em 2008 somente com 61anos de idade. Mas havia o Alberto Sereno e a Isabel, o Luis Cunha e Melo e a Beatriz, o Barreiros Antunes, o João Távora, o Neves Gomes, o Luis Vieira Ferreira, o Emílio da Mata Pereira (que viria a casar com uma filha do Comandante Olgário Borges, chefe da Base Naval), o Manuel José Lima sempre com a mãe viúva, o Craveiro Duarte e a mulher, o Galhardas Vermelho, o Costa e Silva e a Carolina, o Siragusa Leal, médico, o Rui Ferreira Marques que estava numa fragata, o Nogueira Soares, o Zulmiro Barbosa, o José António Sarsfield Cabral, o Henrique Gomes e a mulher algarvia, o Pescaria Costa, o Vilela Bouça e outros mais. A esmagadora maioria estavam em navios. Obviamente que nem todos estiveram lá ao mesmo tempo. Uns acabavam o seu tempo e regressavam a Portugal indo outros substituí-los. Alguns dos referidos eram os comandantes de lanchas de fiscalização pequenas, em Cabinda ou em Santo António do Zaire, que lá iam para trabalhos de manutenção e reparação das suas unidades navais. Mas também havias os engenheiros da reparação naval e os camaradas da administração, bem como alguns oficiais fuzileiros (como o referido Lima).
Entre todos, lembro-me de um 1º tenente bastante mais velho do que os outros pois, sendo do quadro, não fora aluno da Escola Naval mas começara como grumete. Era dos chamados oficiais do serviço geral. Acho que tinha o nome de Santos. Pois uma vez ele foi dormir três ou quatro noites para a camarata. Mas o homem ressonava de tal modo alto e de forma continuada que eu mal consegui dormir durante essas noites. Vingava-me ao fim da tarde. Que felicidade quando ele voltou para o seu quarto…               


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Quinta-feira, 16 de Julho de 2009
As "sopeiras"

Na geração dos meus pais, e outras anteriores, as pessoas dos vários níveis da burguesia tinham, normalmente, uma empregada interna que fazia grande parte parte dos serviços domésticos, muitas vezes com a colaboração da patroa que, não tendo uma profissão remunerada, orientava os trabalhos da casa e cuidava dos filhos e do marido que era o único a trazer dinheiro para o lar.

As excepções a esta regra só a confirmam.
Oficiosamente, a profissão das “donas-de-casa”, assim se chamavam as patroas, era a de “domésticas”.
Por outro lado, as empregadas, normalmente raparigas novas, solteiras, pouco letradas ou mesmo analfabetas, provinham maioritariamente de famílias rurais pobres.
Eram chamadas de “criadas”. Mais tarde passaram a ser conhecidas como “empregadas domésticas”. Recebiam ao mês, sem recibo nem qualquer tipo de descontos. Algumas passavam a vida inteira a servir os mesmos senhores e até os filhos destes, mas a maioria acabava por casar ou ir viver maritalmente com o seu amor, mas fixando-se nas cidades.
Pois eram as criadas que, na gíria, eram conhecidas como “sopeiras”.
Nos anos 60 começou a impor-se um outro tipo de serviço doméstico: o das “mulheres-a-dias”, que eram empregadas externas que viviam, logicamente, fora da casa dos patrões, casadas e, na maioria dos casos, tinham sido criadas.
A folga das sopeiras era, geralmente, ao domingo de tarde e as mais afoitas saíam sozinhas e iam para parques e jardins (o do Marquês de Pombal, no coração da urbe portuense, era o mais popular) onde apareciam os “magalas”, jovens soldados que estavam estacionados em quartéis da cidade ou sua periferia e muitos eram também de origem rural e pobre. Lá se engatavam e muitos casamentos daí surgiram. Claro que também apareciam os mariolas que seduziam e abandonavam as moçoilas, muitas vezes já no seu estado interessante.
Outra praga que recaía sobre as jovens recém-entradas na vida cosmopolita das cidades eram os filhos dos patrões que muitas vezes perdiam com elas a virgindade. Estas histórias acabavam muitas vezes num obscuro quarto onde uma qualquer “parteira” fazia o desmancho que encobria a incómoda situação para a família burguesa.
 
Nas casas onde habitaram os meus pais, primeiro uma muito pequena na Rua de Oliveira Monteiro (ao Carvalhido) com o número 1015, e a partir dos meus sete anos numa outra situada nas Antas, muito perto do antigo estádio com o mesmo nome, na Rua de Vasques de Mesquita, sendo o número do correio o 232, ambas arrendadas e hoje já demolidas (a primeira situava-se onde hoje se cruzam a Rua de Oliveira Monteiro com a da Constituição) …
 
Faço uma pausa no que ia escrever pois, já que estou com a mão na massa, como sói dizer-se, vou referir alguns pormenores dessas habitações.
A primeira tinha uma porta e uma janela viradas para rua, um corredor longitudinal que terminava na cozinha que tinha ainda fogão a lenha. Depois, à esquerda havia a sala de jantar com uma janela virada para uns vastos campos nas traseiras e à direita um pequeno terraço com acesso à casa de banho e a uma escada de pedra, larga, que descia para um quintal empedrado e com 3 ou 4 níveis de pavimento. Ao fundo havia um portão que dava para a rua mas nunca era utilizado. À direita do fundo das escadas abria-se uma porta que permitia a entrada para uma cave que funcionava como espaço para arrumos e onde, apesar dos ratos, aranhas e outra bicharada, dormia a criada e algumas visitas, coitadas! Nem eu nem a minha irmã lá íamos sozinhos pois o seu aspecto lúgubre atemorizava-nos.
Ao entrar na habitação e logo no início do corredor, à esquerda, ficava o quarto dos meus pais com um espaço interior separado onde eu dormia e o meu pai improvisara um escritório. A mana Fernanda dormia no quarto dos papás que era o que tinha a única janela que estava virada para a rua barulhenta, especialmente quando passava um carro eléctrico da linha 6.
Com estas péssimas condições, e depois de eu fazer a 1ª classe na escola do Carvalhido, mudamos.
E que salto qualitativo!
A casa das Antas ficava numa rua sem saída pelo que não havia nenhum tráfego automóvel ao contrário da casa velha, como passamos a chamar à de Oliveira Monteiro. Tinha dois pisos e um pequeno quintal traseiro.
A entrada era larga e com pavimento de azulejo. Depois havia um hall, uma sala com dois compartimentos, um que era o escritório do pai, ao fundo, com uma janela para a rua, e um outro a que chamávamos a sala do piano pois nele estava colocado um desses instrumentos musicais e tinha um grande postigo aberto para o exterior com um gradeamento do lado de fora. Na zona recuada desse primeiro piso havia uma sala de jantar ligada ao hall por uma larga porta envidraçada e ao jardim por uma outra porta também muito rasgada. Uma dispensa, interior, uma cozinha e uns pequenos lavabos eram os outros compartimentos. Era na cozinha que estava a porta que utilizávamos para ir para o quintal. Este tinha uns canteiros que eram arranjados de tempos a tempos pelo Sr. Moreira, um velhote que vivia perto, um galinheiro, uma ameixieira que só dava frutos a cada dois anos e que os pais acabaram por mandar derrubar para tornar mais soalheiro esse espaço.
No andar superior havia dois quartos virados para a frente: o do casal, que tinha uma varanda e o da Nanda; e dois para as traseiras: o meu e o da empregada. Este funcionava também como local para costurar e passar a roupa a ferro. Os três tinham janelas. Agora, e ao contrário da casa velha, todas elas tinham persiana. No meio ficava o quarto de banho iluminado por uma clarabóia, sendo que era uma segunda abertura dessas que deixava a luz do dia iluminar as escadas. Estas nasciam no hall e terminavam num espaço comum do andar superior.
E penso que agora já se percebe que o tal salto qualitativo resultante da mudança de casa foi enorme.
Em frente à casa havia um enorme espaço cheio de pinheiros e eucaliptos.
Que pureza de ar!
 
Depois desta longa e chata descrição, voltemos ao ponto em que eu escrevia:
 
Nas casas onde habitaram os meus pais, sempre houve uma criada que ajudava a dona-de-casa, a minha mãe. Lembro-me de algumas das muitas que connosco viveram. A Rosa, a Maria Júlia, a Alice, a Tina, a Deolinda, a Arlete, uma outra Júlia, não sei quantas Marias e muitas outras cujo nome não recordo, mas de algumas ainda lembro as feições e as características físicas. Uma delas, depois de nos deixar, tornou-se corista em revistas do Parque Mayer, em Lisboa.
Como eu era tímido mas com uma libidus bastante intensa, algumas delas não deixavam de me excitar, mas os meus pais eram cautelosos e não permitiam que se criassem situações que dessem azo a problemas.
Até que, teria eu os meus dezasseis anos, descobri que por volta das onze da noite, numa casa das traseiras, a criada que lá trabalhava se ia deitar sem ter o cuidado de tapar os vidros da janela. E como se despia toda, eu tinha ali um show de strip-tease nas noites em que podia pôr-me a espreitar.
Muitas vezes, quando o tempo estava convidativo, os meus pais iam dar um passeio a pé, o chamado passeio dos tristes, depois de jantar. Umas vezes demoravam pouco mais de meia hora, outras mais tempo. Às vezes calhava de encontrarem pessoas conhecidas e regressavam mais tarde.
Uma vez, estava eu com a luz apagada e ver a sopeira da vizinha toda descascada, quando me apercebi que os velhotes já estavam a subir as escadas.
Meti-me na cama, ofegante, acendi a luz da mesa-de-cabeceira e peguei em qualquer coisa que estava à mão para simular que estava a mexer nisso.
O meu pai entrou no quarto e perguntou-me se estava tudo bem. Eu respondi a gaguejar, a respirar mal e com o olhar muito fixo. Além do mais, temia que ele fosse junto da janela e visse a acalorada rapariga descobrindo assim o meu segredo erótico.
Quando saiu, ouvi-o dizer à minha mãe:
- Passou-se alguma coisa de estranho!
Mas o que pensaram foi que algo tivesse ocorrido entre mim e a criada, uma moça que tinha uma pancada na cabeça e que gostava muito de mostrar as coxas.
Esta cena foi importante porque marcou uma viragem: não demorou muito tempo que a sopeira fosse embora e, a partir daí, começaram a contratar mulheres-a-dias.
Entretanto, a empregada da vizinha também desapareceu, eu cresci, comecei a sair à noite e as sopeiras passaram a ser uma recordação da infância e de parte da adolescência.
Todavia, não posso terminar sem referir que algumas delas foram marcantes pela dedicação a toda a família e chegaram a ser tratadas quasi como se fizessem parte dela.
Um nome a destacar: Alice.


publicado por António às 22:16
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