Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças!
Sábado, 12 de Abril de 2008
Histórias curtas XLI - Conversa de amigos
Reconversão do texto “Diálogos de gente (III) (Dois tipos no café)” de 21 de Março de 2006
 
Ricardo estava sentado à mesa do café lendo um jornal.
Eis que uma voz soa, alta e grave:
- Olá, camarada! Estás muito absorvido na leitura!
Levantou a cabeça e deu de caras com o seu velho amigo Augusto.
- Ó pá! Senta aqui! – convidou.
- Com muito gosto! Já não nos vemos há umas semanas…ou meses – disse o recém-chegado.
- Eu tenho andado muito caseiro. Como de costume, aliás – justificou o Ricardo.
- Sim. És um tipo que convive pouco. És do estilo casa, trabalho, casa. Desde que deste o nó com a tua mulher, perdeste-te! – gozou o Augusto.
- É a vida! O meu trabalho é exigente, como sabes, e quando chego a casa, se não tenho ainda que acabar algum serviço, dedico-me à família, vejo as notícias e deito-me normalmente cedo – explicou o pacato amigo.
- Eu tenho uma vida um bocado mais agitada! – disse, com ar satisfeito, o outro.
- Pois tens, pá! – e, falando baixinho, o Ricardo revelou uma descoberta – Noutro dia vi-te entrar para uma pensão, ao fim da tarde, com uma mulher morena muito jeitosa. Não te ponhas a pau que a tua mulher ainda descobre as tuas aventuras e estás tramado.
- Sabes que eu não resisto às mulheres, não sabes? Costumavam dizer que eu não podia ver uma vassoura com saias. Pois nem são precisas as saias nem as lingeries; basta-me a vassoura! – confessou o garanhão, gargalhando.
- Continuas sempre o mesmo, pá! Nunca mais assentas!
- Que queres que te faça? Sabes que eu costumo dizer: “um homem sabe que não pode comer as mulheres todas do mundo, mas tem obrigação de tentar” – e riu-se, novamente, o amigo mulherengo.
- Já te ouvi essa mais de n vezes. Desculpa lá a indiscrição: mas tu gostas mesmo da tua mulher? – perguntou curioso o Ricardo.
- Claro que gosto! – respondeu o outro – Eu sou capaz de gostar de várias mulheres ao mesmo tempo. E tu também, palpita-me…
- Gostar ou amar? – procurou o amigo esclarecer.
- Eu tenho um coração muito grande, mas é gostar. Amar, num determinado momento, é só uma. Mas posso amar uma e gostar de duas ou três. E depois girar, topas? – explicou o Augusto.
E continuou:
- Se queres que te filosofe um bocado...
- Já sei o que vais dizer! Que os homens são polígamos e as mulheres monógamas – adivinhou o Ricardo.
- Já aprendeste, mas aprendeste mal! A maioria! É preciso não esquecer que é a maioria! Porque há homens monógamos, muito poucos, penso, e mulheres polígamas. E tu, que te armas em fiel e monógamo, só o és...quero dizer...talvez o sejas...porque não tens tido oportunidade. Mas um dia que a tenhas, a ver vamos se não dás uma facada no matrimónio como os outros. Mas olha que não sei se serás assim tão santinho. “Fugi dos sonsos” costumava dizer a minha mãezinha que Deus tenha – e olhou de soslaio para o amigo, com um sorriso irónico de desafio, qual imperador Augusto.
- Não digo “desta água não beberei”, mas até agora tenho cumprido o que prometi. E tu estás a ver se tiras nabos da púcara mas comigo tens azar. Eu tenho sido sempre leal – disse o Ricardo.
Entretanto, já os olhos do galifão tinham vasculhado todo o café e se haviam fixado numa mesa onde estavam duas mulheres jovens, de uns vinte e muitos, trinta anos.
- Ó Ricardo! Olha-me ali aquela morenaça. Se se proporcionasse tu ires com ela para a cama, não ias? Se disseres que não começo a pensar que és paneleiro, pá!
- Assim estás a querer influenciar a minha resposta. Mas eu digo-te que não!
- És um caso perdido! Ó pá! Eu estou a olhar para ela e não posso deixar de pensar que lhe dava uma queca monumental! – desabafou o incorrigível Augusto.
- E na amiga? – perguntou o sossegado Ricardo.
- Não me pica tanto! – respondeu o outro – Mas também não dizia que não.
- És mesmo levado da breca! – exclamou o Ricardo.
E, de imediato, colocou nova questão:
- E a tua mulher não nota nada?
- Eu acho que não! Primeiro porque faço as coisas com muita discrição, depois porque a tenho sempre satisfeita. Esta é uma regra sagrada: se não papas a tua mulher, se não a acarinhas, se não lhe levas uns chocolates ou umas flores de vez em quando, ela começa a desconfiar, mesmo que não tenhas culpas no cartório.
Tocou um telemóvel.
Foi o pacato Ricardo quem o atendeu. O amigo notou, com um sorriso malicioso, que ele ficou um pouco embaraçado:
- Estou? Sim! Eu chamo depois! – e desligou.
- Ó Ricardo! Aposto que era a loira que andas a comer…
O Augusto olhou com ar simultaneamente admirado e comprometido para o amigo e perguntou:
- Loira? Mas de quem falas?
- Ó pá! Nunca ouviste dizer que se apanha mais depressa um mentiroso que um coxo? – falou, com um ar de gozo, o garanhão.
O outro começou a ficar com uma expressão mais rígida.
- É assim: na semana passada, estava eu a entrar para o estacionamento da residencial “Roma” onde me ia encontrar com a tal morena, quando te vi a sair com uma loira ao lado. Tu olhavas para todos os lados mas não me viste. Agora nega! Nega! – e soltou uma gargalhada.
- Xiu! Fala baixo! – pediu com voz sumida o “exemplar” chefe de família.
- Ok! Mas é verdade ou não?
- É! Confesso que é! Mas não digas a ninguém porque se a minha Sara descobre é menina para pedir logo o divórcio e eu gosto é dela. A loira é uma gaja que é muito boa mas só serve para dar uma queca de vez em quando. É coisa sem futuro! – abriu-se, o Ricardo.
- Só não percebo porque te fechas com os amigos! Tens medo que eu diga alguma coisa à Sara? Tu és maluco! Nunca faria tal coisa e até gosto muito dela. Olha! Talvez por isso mesmo…
- Espero que mais ninguém saiba…
- Mas deixa-me dizer-te uma coisa: nunca se sai simultaneamente com uma mulher de um residencial, e muito menos com uma loira espampanante. Sai um por cada sítio ou em momentos diferentes. E nunca por nunca a leves no carro nem apareças com ela em locais públicos.
E rematou com ar trocista:
- Aprende que eu não duro sempre!
- Tens razão! Sabes que eu não tenho a tua experiência nestas coisas de infidelidade…
- Mas tens ouvido as minhas dissertações, não tens? Basta seguir as regras que eu já te enunciei muitas vezes para tu minimizares os riscos.
- Pois é! E como vai a tua família? – inquiriu o Ricardo.
E mudaram de assunto ficando a conversar mais um pouco.
Ao fim de algum tempo o Augusto despediu-se e foi embora. Enquanto caminhava para a sua viatura cogitava:
- Se este gajo soubesse que a Sara anda metida com o cretino do Mário Duarte até caía de cu. Eu devia avisá-lo, mas não tenho coragem. Mas se ela continuar a pôr-lhe os cornos não tenho outro remédio: afinal ele é meu amigo!


publicado por António às 17:46
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20 comentários:
De Vanda a 12 de Abril de 2008 às 18:32
Ahahahah... além de ser curioso o diálogo entre estes dois protagonistas, também deu para ter conhecimentos de truques usados.... ainda dizem que as mulheres têm manha....

Continua.
Bjs



De António a 12 de Abril de 2008 às 19:13
Olá, Vanda!
Os meus textos são muito didáticos...ah ah ah

Beijinhos


De leonoreta a 12 de Abril de 2008 às 20:51
afinal sempre houve publicaçao. as tuas reconversoes so mostram como a imaginaçao do homem é ilimitada, criando diversas maneiras de conduzir e finalizar um texto.
beijinhos


De António a 12 de Abril de 2008 às 23:43
Querida Leonor!
Obrigado por mais uma visita.
Uns tem mais imaginação outros tem menos...
...eu tenho 14 numa escala de 0 a 20.
(agora dei em Prof. Martelo)

Beijinhos


De leonoreta a 13 de Abril de 2008 às 12:11
e como e que chegaste ao 14?
atraves de algum teste ou estimativa pessoal?
queria saber a tecnica para ver qual seria o meu valor....rsss


De António a 13 de Abril de 2008 às 12:57
Cheguei ao 14 usando um aparelho de medição chamado Olhómetro.
É o o mesmo que utiliza o Prof. Martelo...

Beijinhos


De Peter15 a 13 de Abril de 2008 às 10:39
Diálogo interessante e com um final inesperado.
Não tenho aparecido pois estive internado com um problema renal, felizmente tratável com cortisona, mas de tratamento demorado, por isso vai levar uns meses.
Faço a minha vida normal, apenas com cuidados especiais na alimentação.

Abraço amigo


De António a 13 de Abril de 2008 às 12:53
Meu caro Peter!
Como sabes, a saúde é fundamental.
Fico satisfeito por saber que vais recuperar, embora lentamente...
...portanto, acima de tudo, desejo-te uma boa recuperação.

Um grande abraço


De Paula Raposo a 13 de Abril de 2008 às 12:13
Mais uma reconversão de que gostei. Lembro-me bem de ter lido o texto inicial em 2006. Mas isso não é novidade para ti. Tu sabes que eu te visito desde sempre, não sabes?! Muitos beijos, meu querido.


De António a 13 de Abril de 2008 às 12:54
Sei, Paulinha, sei!
E eu gosto muito que gostes do que escrevo...

Beijinhos


De wind a 14 de Abril de 2008 às 12:52
Gostei muito deste diálogo, aliás é muito real para muitos homens:)
Beijos


De António a 14 de Abril de 2008 às 14:48
Olá, Isabel!
Pois é...eu conheço bem o mundo dos homens...
(embora eles não sejam todos iguais: aqui estão só representados dois tipos)

Beijinhos


De Anónimo a 14 de Abril de 2008 às 13:10
LI O TEXTO.COMO LEIO COM MUITO CARINHO TODOS,E TU SABES.MAS ESTE NÃO VOU COMENTAR


De António a 14 de Abril de 2008 às 14:45
Obrigado por teres lido!

Beijos


De Maria Papoila a 14 de Abril de 2008 às 15:40
Olá António:
Diverti-me a sério com esta reedição do diálogo mas estes textos revelam segredos... muita mulhersinha vai estar atenta às maroscas e começa a desconfiar do serviço... lol...
Beijo


De António a 14 de Abril de 2008 às 21:31
Querida Papoila!
Sinto-me um traidor dos elementos do sexo masculino.
Acho que vou apagar o texto...eh eh

Beijinhos


De leonor costa a 19 de Abril de 2008 às 09:17
A realidade nua e crua e a cumplicidade entre homens.Na realidade, ens uma imaginação fértil! Penso que quanto mais se escreve mais se desenvolve essa capacidade.
Bom fim de semana

Um abraço!


De António a 19 de Abril de 2008 às 13:43
Olá, Leonor!
Obrigado pela visita.
Penso que estou com menor capacidade criativa...ou então é preguiça...eh eh

Beijinhos


De sophiamar a 23 de Abril de 2008 às 15:27
Já conhecia o texto e gostei da sua adaptação. Cenas do quotidiano que tu tu contas com maestria.
Tenho-te visitado pouco, António. Desculpa. Prometo ser mais assídua.

Beijinhosssss


De António a 23 de Abril de 2008 às 18:38
Ó minha querida!
Isto agora há poucas visitas e poucos comentários.
Mas já me vou habituando...
Vou fazendo um esforço para postar uma coisita por semana.
Até ao dia do Apocalipse...ah ah ah

Beijinhos


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