Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças!
Sábado, 19 de Abril de 2008
Histórias curtas XLII - Duas mulheres
Reconversão do texto “Diálogos de gente (XI) (Duas mulheres no café)” de 9 de Maio de 2006
 
Maria de Lurdes Salgado, quarenta e cinco anos muito bem conservados, estava sentada à mesa de um café quasi vazio àquela hora da tarde lendo um livro.
Alguém entrou, parou, olhou para a mesa ocupada pela atenta leitora e avançou.
- Olá, Lurdes! – disse.
A outra levantou a cabeça e fitou o vulto em pé mesmo defronte dela.
- Henriqueta! Há quanto tempo! – exclamou com um sorriso aberto – Queres sentar-te?
A recém-chegada puxou de uma cadeira e acomodou-se à frente da outra enquanto dizia:
- É verdade! Moramos relativamente perto mas nunca nos encontramos. Como está a tua família?
- Sabes que estou divorciada? – disse, quasi em surdina.
- A sério, Lurdes? – admirou-se a Henriqueta Santos, antiga colega dos tempos do liceu – Mas isso é recente, não é?
- Separei-me há três anos e o processo de divórcio ficou concluído há onze meses – respondeu a professora do secundário.
- E tu ficaste com a custódia da tua filha, não? Tens só uma filha, se bem me lembro – aventou a empregada bancária.
- Exactamente! O meu “ex” deixou o lar e foi juntar-se com outra mulher. – disse a Lurdes – Um traste!
- Pois! Casados são todos iguais, minha filha! – retorquiu a desempoeirada colega – E já arranjaste um gajo?
- Não! Ainda não estou preparada para isso. Dezassete anos em conjunto é muito tempo e isso deixa marcas – respondeu a Lurdes.
- Por isso mesmo é que tens de arranjar outro para esqueceres essas mágoas. – e continuou, a loira, visivelmente artificial  – Mas não te cases outra vez! Deves ganhar bem, não precisas de aturar outro tipo.
E prosseguiu:
- Nunca desconfiaste de nada?
- Não! Mas parece que já se encontrava com ela há quatro anos antes de se ir embora. Chorei muita lágrima! – lamuriou-se a professora.
- E quem é a fulana? – quis satisfazer a curiosidade, a outra.
- É uma colega de trabalho! O costume! – disse a Lurdes.
- Pois! Acontece muitas vezes. – concordou a antiga companheira de escola – Mas agora tens de esquecer isso e gozar a vida!
- O trabalho ocupa-me muito. Além das aulas e do tempo que agora tenho de dar a mais, ainda tenho umas explicações de matemática.
- Ó minha menina! Desculpa lá! Mas tu ainda és muito jeitosa e tens é de entrar numa onda nova. Olha que qualquer dia tens isso cheio de teias de aranha – e riu-se, a amiga.
A Lurdes, mais pacata e virada para a introspecção, sorriu.
- Olha como tens um sorriso bonito! Aproveita a vida enquanto estás numa idade boa – aconselhou a Henriqueta.
Mas disse mais:
- Eu separei-me do Artur há dez anos. Mal soube que ele me punha os cornos, a primeira coisa que fiz foi pô-los a ele. Vivo com um dos meus dois filhos e nunca mais casei. Conheci...deixa-me pensar...cinco gajos até que me fixei com um que era também divorciado; um borracho que tem agora cinquenta. O tipo é rico, uma máquina na cama e vivemos separados. Umas vezes dormimos em minha casa, outras na dele, algumas vezes não ficamos juntos, aos fins-de-semana costumamos ir passear e ficamos em hotéis porreiros e ele paga tudo. Mas a relação é aberta. Ele já dormiu com outras e eu já lhe paguei na mesma moeda. Mas tudo numa boa! E sabes o que te digo? Sou feliz!
A outra ouviu-a atentamente e, finalmente, disse:
- Mas tu tens um feitio diferente do meu, Queta! Eu gostaria de casar com outro homem, confesso. E há um tipo lá na escola que me faz a corte de maneira descarada. Mas é casado e eu não quero desfazer um lar como me fizeram a mim.
- E tu sabes se o lar já não está desfeito e só existe na aparência? Deixa-te de pruridos e dá-lhe uma oportunidade. Se agradar, tudo bem. Se não agradar, passas-lhe a guia de marcha.
A Lurdes desta vez riu-se e falou:
- Tu és sempre a mesma! Quem me dera ter o teu feitio.
- Mas não te cases! Eu não percebo como quem já viveu um casamento que se desfez ainda pensa em casar. Abrenúncio! Lá para os sessenta e tal, quando te reformares, quando ele só der uma de quinze em quinze dias, e tu já estiveres cheia de celulite, pneus e rugas e com poucas necessidades, então casas e fazem umas viagens porreiras – aconselhou, de novo, a bancária.
Mas não parou:
- E agora podes arranjar tipos com toda a facilidade através da Net. Tu que és das matemáticas até nem deves ter problemas nenhuns em mexer na informática. Olha! Eu arranjei dois por essa via. Um deles saiu um escroque, mas o outro era cá um naco que nem te digo nem te conto. Ó Lurdes! Afinal para que serve querermos a igualdade se continuarmos a comportar-nos como as nossas avós? Espevita, mulher!
A Lurdes, embora conhecesse a antiga colega, não imaginava que ela tivesse concepções das relações entre homem e mulher tão avançadas.
A conversa continuou durante mais uns minutos até que a Henriqueta saiu.
A Lurdes continuou com o livro fechado, olhar fixo num ponto distante e invisível, o pensamento a voar.
Finalmente mexeu-se. Pagou a conta, levantou-se, deixou escapar um sorriso e pensou:
- Ah professor Matias! Talvez venhas a ter uma surpresa!
 
Passados cerca de dois meses, e novamente por acaso, a Maria de Lurdes Salgado e a Henriqueta Santos voltaram a encontrar-se no mesmo café, de novo quasi vazio.
Depois das saudações habituais, a professora falou:
- Sabes que ando com o tal colega que é casado?
- Assim sim, mulher! – aprovou a bancária – E não andas muito melhor?
- Nem se compara! Sinto-me outra! Bendita a conversa que tivemos aqui…tenho de te agradecer o que me disseste.
- Ora! Deixa-te disso! – retorquiu a loiríssima Henriqueta.
- E sabes que estamos a pensar em casar? – informou a Lurdes.
- Como? Tu estás maluca! – censurou a outra.
E continuou:
- Aposto que ele já te disse que te adora e que só precisa de ganhar um pouco de coragem e esperar o momento adequado para falar com a mulher. Foi ou não foi?
- Tu sabes muito…
- Diz-me só mais uma coisa: eles têm filhos? – perguntou a sabida.
- Tem duas raparigas, uma com quinze e outra com doze.
- Pois eu te digo! Ou ele está perdidamente apaixonado por ti ou nunca mais se divorcia. Nestas matérias, os homens raramente tem a coragem de encaram os factos de frente e pôr os pontos nos is. Vou deixando correr e poucas vezes tomam a iniciativa de se divorciarem. Portanto, não contes com isso. E logo com duas filhotas ainda novas…
- Acho que tens razão!
- Podes crer! – insistiu, peremptória, a Queta – Vai desfrutando da situação e não te iludas com um novo casamento. Se quiseres um tipo só para ti tens de arranjar um separado ou viúvo ou divorciado. Solteiro, não! Solteiros com mais de 40 anos podem ser meio maricas. Mas não vivam juntos! Isso desgasta a relação e ao fim de poucos anos já estareis fartos um do outro. Olha! A minha relação está cada vez melhor. Mas casar, só depois dos sessenta ou sessenta e cinco… – e riu-se, a mulher de ideias mais modernas.
- Se calhar tens razão! Tens quasi de certeza, mas eu continuo a sonhar em ter um marido que viva comigo, me apoie, me dê mimos, seja o meu companheiro e meu cúmplice de todos os dias…
- Pois! Queres um príncipe perfeito que não existe. E se pode parecer que o teu o é, ao fim de algum tempo verás nele um sapo e não um príncipe – e a bancária riu-se de novo.
- Tu não acreditas no casamento de maneira nenhuma! – exclamou a Lurdes.
- E tu já tens idade e experiência para também não acreditares. Valha-te Deus!
E depois de falarem noutros assuntos, despediram-se.
 
Só lá longe no tempo, ao fim de quinze anos voltaram a encontrar-se.
Foi numa esplanada, numa tarde soalheira.
Saudaram-se efusivamente.
- Sabes que passei dez anos no Brasil? O meu Carlos foi para lá e como o meu banco tinha filiais em Porto Alegre eu pedi a transferência. Reformei-me há cinco – contou a Henriqueta.
- E voltaste agora?
- Viemos há cinco anos pois ele reformou-se com sessenta e agora vivemos juntos. Temos uma vida de nababos!
- Sabes uma coisa, Queta? – disse, a dado momento, a professora.
- Para já, não! – e riu-se a que fora loira e agora tinha uns lindos cabelos brancos com reflexos azulados.
- Pouco depois de nos encontrarmos da última vez, quando eu estava divorciada e tinha uma ligação com um professor casado, lembras-te?
A amiga acenou que sim com a cabeça e a Lurdes prosseguiu:
- Pois ele enviuvou quasi de seguida, casamos e sou muito feliz! É aquele tipo charmoso que está ali – e apontou para um sujeito com uma bela figura.
A Henriqueta olhou.
- Tiveste sorte, rapariga! Os casamentos costumam ser uma merda – e largou mais uma das suas gargalhadas.


publicado por António às 14:18
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22 comentários:
De leonoreta a 19 de Abril de 2008 às 16:56
ola antonio
pois. realmente a maior parte das vezes eu gosto de chocar com a veracidade dos factos, desfazer sonhos, rsss
ai sou tao má.
quanto a henriqueta nao sei se quando ela diz que e feliz por ter uma relação aberta se o e realmente. quer dizer, ela pensa na maneira mais feliz de disfrutar o que tem.
"escroque". mais uma palavra nova.
beijinhos


De António a 19 de Abril de 2008 às 19:08
Que és muito má eu sei-o há muito tempo, Leonor!

A Henriqueta não representa o comum das mulheres, actualmente. Esse é o rolo desempenhado pela Lurdes.
Mas parece-me que a tendência está a deslocar-se no sentido de comportamentos mais próximos dos da loira.
Atentemos nos sinais que nos dão as mulheres mais jovens...
(mas isto é ficcção...)

Beijinhos


De leonoreta a 19 de Abril de 2008 às 19:52
qualquer semelhança da realidade com esta ficção é pura coincidencia.
era isto que aparecia nos romances de antigamente nao era?


De António a 19 de Abril de 2008 às 21:39
"Qualquer semelhanças da história ou das personagens com a realidade é pura coincidência".
Era prudente escrever isto por causa dos processos judiciais...e ainda continua a ser!

Beijinhos


De Peter15 a 19 de Abril de 2008 às 17:30
Segui com interesse toda a história, pois aprecio imenso a naturalidade que imprimes aos diálogos entre as personagens.

Agora vou aparecendo menos, pois estou a 50%.

Abraço e que tenhas uma boa semana.


De António a 19 de Abril de 2008 às 19:12
Obrigado Peter!
Só a 50%?
Pensei que estivesses a 70 ou 80!
Então recupera mais depressa!

Abraço


De Anónimo a 19 de Abril de 2008 às 21:21
como tu és velhinho !!!!!!!!!!!!!!!e tens a sabedoria de transformar situações esporádicas, em quotidianas. Sabes: acho que ambas eram, mulheres de carácter e foram felizes com o término. Cada uma realizou o seu sonho. Ou se quiseres fez valer o seu estilo de vida. O IMPORTANTE É QUE AMBAS FORAM //AMADAS//. Porque ainda existem seres humanos verdadeiros.,BEIJOS.............................!?


De António a 19 de Abril de 2008 às 21:41
Olá, anónima!
Obrigado pelo teu comentário.
E, de facto, sou muito mais velho do que pareço...

Beijinhos


De Anónimo a 19 de Abril de 2008 às 21:52
AH, EU QUERIA DIZER VELHINHO E: //SÁBIO//
e a velhice está na nossa mente. como tu próprio dizes.secalhar, eu sou mais !VELHA! que tu . pelo menos teimosa sou.UMA IMAGINAÇÃO DESSAS NÃO É DE UM VELHO É DE UM SÁBIO. Originada , pela vivência


De António a 20 de Abril de 2008 às 08:44
Olá, anónima!
Sou menos sábio do que pareço...

Beijinhos


De Paula Raposo a 20 de Abril de 2008 às 10:04
Gostei imenso desta reconversão (acho que me repito...). Pena que a vida real não seja tão simples como parece no teu diálogo. E eu sei que tu sabes do que falo. Os beijos de sempre, para ti.


De António a 20 de Abril de 2008 às 14:34
Olá, Paulinha!
Obrigado!
Lembra-te que isto é uma "História curta".
Se quisesse contar tudo o que pode acontecer de bom e de mau teria que escrever um romance de muitas páginas.

Beijinhos


De Paula Raposo a 23 de Abril de 2008 às 13:48
Muitas páginas...daria para vários volumes, até!! Beijinhos.


De António a 23 de Abril de 2008 às 14:11
Pois...a vida é um manancial de situações mais ou menos interessantes.

Beijinhos


De wind a 20 de Abril de 2008 às 12:15
Gostei deste diálogo porque está baseado na realidade de muita gente.
Mais do que se pensa:)
Beijos


De António a 20 de Abril de 2008 às 14:36
Olá, Isabel!
Obrigado pelo comentário.
Tens razão: isto não é tão ficção como se pode pensar.

Beijinhos


De Maria Papoila a 22 de Abril de 2008 às 23:07
Querido António:
Requintada reconversão nos diálogos desta história.
Gostei!
Beijos


De António a 23 de Abril de 2008 às 14:12
Obrigado por teres aparecido e comentado mais uma vez, Papoila!

Beijinhos


De criancices a 24 de Abril de 2008 às 21:18
Olá António, olha que 2 comadres..hehehe!
Um bom feriado!
Bjs, RS.


De António a 25 de Abril de 2008 às 10:01
Obrigado, Rosa!
E beijinhos para ti


De Marrie a 1 de Maio de 2008 às 22:39
Primeira vez q venho aqui..........
Gostei deste diálogo..... interessante o modo como vês as coisas, já q as falas das duas amigas nada mais é do q a representação dos pensamentos teus!
Voltarei.........


De António a 2 de Maio de 2008 às 01:50
Obrigado pela visita!
Isto é ficção, mas reflete sempre algumas coisas da mente do autor.

Beijos


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