Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças!
Sábado, 3 de Maio de 2008
Histórias curtas XLIV - O judeu
Reconversão do texto “Diálogos de gente (XVI) (O sovina)” de 22 de Agosto de 2006   
 
Isaac Woźniak era um judeu polaco, comerciante proprietário de três lojas de pronto-a-vestir e pertencente à classe média alta.
Filho único do falecido Jacob Woźniak que se refugiou em Portugal logo no início da II Grande Guerra com a mulher Sara e o menino, deu continuidade aos negócios que o progenitor por cá criara. O velho Woźniak fora o fundador do primeiro dos estabelecimentos comerciais, na altura uma casa de fazendas.
Isaac era então pouco mais que um bebé e agora tem quasi setenta anos. Casou com uma judia austríaca, Raquel, cujos pais também eram refugiados. Mas a mulher nasceu já em terras lusitanas.
Tem três filhos rapazes e cada um gere uma das lojas. O homem costuma estar mais tempo nesta, onde começa a acção, mas vai às outras pelo menos uma vez por semana.
- Bom dia, Isaac!
Ao ouvir a voz reconheceu-a imediatamente.
Levantou a cabeça do livro em que escrevia e olhou para o seu amigo Jaime Furtado.
- Olá, Jaiminho! – ripostou.
O diminutivo vinha dos tempos do liceu onde haviam sido colegas de turma e resultava de o recém-chegado ser um tipo baixo e franzino, em contraponto com o homenzarrão que era o comerciante.
E continuou:
- Já não aparecias por cá faz uns tempos! Estás sempre na mesma! Se engordasses com a idade, como seria normal, davas-me mais dinheiro a ganhar comprando nova roupa para substituir a que fosse ficando apertada.
E sorriu.
- Tu tens é inveja de não ter a minha elegância! – respondeu o Furtado, sorrindo também.
Deram um aperto de mão.
- Elegância? Diz antes magreza! Só há uma coisa que te invejo: poupas muito dinheiro em comida e em roupa – falou o judeu.
- Ó homem! Tu só pensas em poupar nos gastos e em ganhar mais. Qualquer dia bates a bota e a tua fortuna fica cá – criticou o Jaime.
- Fortuna? Tenho alguma coisa, lá isso é verdade, mas é graças ao meu feitio economizador – explicou o Isaac.
- Economizador? Tu és um somítico. Um sovina. Um avarento – disse, rindo, o magricela.
E prosseguiu o ataque:
- Ainda me lembro que me dizias muitas vezes: “Este ano tive não sei quantos contos de prejuízo”. Eu ficava sempre intrigado porque via os teus negócios a prosperarem, tu a fazeres investimentos, a construíres uma bela casa...até descobrir que afinal não tinhas prejuízo mas tão somente consideravas que se o lucro de um ano era inferior em x ao do ano anterior tinhas tido um prejuízo de x. És mesmo judeu!
Riram-se os dois.
- Como está a tua família de pobrezinhos? – quis saber o visitante.
- Tudo bem! Só a minha Raquel é que continua com os problemas nos ossos. O meu filho Moisés está ali ao fundo e os outros estão nas lojas que gerem, como sabes. E a tua de ricos?
- Está tudo dentro da normalidade, obrigado – respondeu o Jaime.
- E então o que te traz por cá?
- Quero comprar duas ou três camisas de popelina, brancas e azuis – disse o cliente e amigo.
- Que número gastas?
- Trinta e seis.
- Pois! Número de rapazinho – gozou o Isaac.
- Como é um número pequeno gasta menos pano e portanto tem de ser mais barata. Venho cá esperando um grande desconto – provocou o Jaime.
- Já sabes que para ti há sempre um preço especial. Eu venho já!
O comerciante afastou-se um pouco e deu instruções a um empregado.
- Vamos ver se me faz quinze por cento de desconto! – cogitou o Furtado.
Passado pouco tempo o Jaiminho já tinha escolhido quatro camisas: duas brancas, uma azul clara e outra bege. Todas lisas.
- Então quanto é que tenho de pagar? – perguntou o cliente.
- Ao preço normal são trezentos euros, mas para ti são...duzentos e setenta.
- Só dez por cento de desconto? Tem de ser vinte! – refilou o Jaime.
- Vinte? Tu queres que eu vá à falência? – chorou-se o judeu.
- Qual falência qual quê? Duzentos e quarenta!
- Só me aparecem clientes destes! Vinte por cento é a minha margem – mais choro do Isaac.
- Não me faças rir! Tu tens pelo menos trinta de margem. Mas acho que tens quarenta.
- Não! A sério que não posso fazer vinte. Faço-te quinze e não se fala mais nisto. Olha que é artigo do melhor.
- Quinze? Dá...duzentos e cinquenta e cinco, ou seja, cerca de treze contos cada uma. Pronto, levo! Mas vens comigo ali ao café para pôr a conversa em dia e és tu quem paga, Isaac. Mas não te preocupes que eu peço um café curto.
E riram-se os dois, de novo.
 
Passadas umas duas semanas, estava o Jaime Furtado com a mulher Margarida a almoçar uma refeição ligeira, como de costume, mas com o televisor ligado para verem e ouvirem o Telejornal da uma; o nome não era este mas era assim que eles lhe chamavam.
Uma das primeiras notícias referiu-se a um incêndio que havia ocorrido durante a noite numa loja de pronto-a-vestir do centro da cidade.
- Mas é a loja do Isaac! – exclamou o amigo.
E pararam de comer para escutar e observar atentamente as informações.
- Estás a ver, Jaime? Ardeu tudo! – disse a mulher.
- Estou, estou! Daqui a pouco vou lá para ver se falo com ele.
- E chegaram a arder coisas nos prédios ao lado. Que desgraça! – comentou a Margarida.
- Deixa ouvir! – ralhou o homem, para logo de seguida continuar – Ah! Pois! Tinha aquilo no seguro. Resta saber se, sovina como é, não tinha um contrato feito por um valor abaixo do real para poupar dinheiro.
Cerca de uma hora depois estava junto dos escombros negros e ainda fumegantes do prédio onde estivera cerca de quinze dias antes.
Foi ouvindo isto de um e aquilo de outro mas ia dizendo para com os seus botões:
- Cada pessoa tem a sua versão. Logo que possa vou falar com o Isaac. Ele agora está com o filho e o chefe dos bombeiros e não vou interromper.
Passou mais de meia hora ali perto e já devia ter a roupa que tinha vestida com o mesmo cheiro intenso a queimado que pairava no ar.
Finalmente viu o velho amigo dirigir-se para o carro que estava estacionado perto do local onde aguardava.
- Então, Isaac! Que grande chatice! Mas do mal, o menos: não ficou ninguém ferido. E tu como estás? – perguntou o Jaiminho.
- Como calculas não estou muito bem disposto…
- E tinhas isto bem seguro? – prosseguiu o homem magro curioso de saber pormenores.
- A parte material estava abaixo do valor real, mas eu queria assim mesmo. O que poupei ao longo destes anos todos a pagar menos compensa-me do que receber abaixo desse valor.
- Pois…
- Mas a indemnização por inactividade estava bem negociada. Ao fim e ao cabo eu sou judeu, não sou? – e fez um ligeiro sorriso para o amigo antes de o abraçar.
- És mesmo judeu, Isaac! Mas gosto de ti.


publicado por António às 12:49
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20 comentários:
De Paula Raposo a 3 de Maio de 2008 às 13:12
Gosto de te ler! Está excelente esta reconversão. Muitos beijos.


De António a 3 de Maio de 2008 às 13:39
Paulinha...foste mais rápida que o Lucky Luke...eh eh
Obrigado pela tua presença constante a comentar os meus textos.
Gosto muito disso!

Beijinhos


De Paula Raposo a 8 de Maio de 2008 às 13:17
Eu sei que gostas. E eu, gosto de ti. Beijinhos.


De António a 8 de Maio de 2008 às 14:08
Beijinhos para ti, também!


De wind a 3 de Maio de 2008 às 13:47
Ainda me lembro desta versão no original porque está muito bem descrita sobre a maneira pitoresca dos judeus. ou da fama que têm:)
Bom conto:)
Beijos


De António a 3 de Maio de 2008 às 14:20
Também tu, Isabel, te tens mantido fiel aos meus textos.
Obrigado por isso!

Beijinhos


De Vanda a 3 de Maio de 2008 às 14:14
Tu vais-me surpreendendo.... até sobre judeus!?!
Tony, és um espanto!
E judeus... são judeus... e aqui bem retratados..
Bj
Vanda


De António a 3 de Maio de 2008 às 14:22
Vandinha!
Acho que tenho de escrever um conto sobre mouros, para compensar...ah ah ah

Beijinhos


De leonoreta a 3 de Maio de 2008 às 14:33
antonio saraiva a paginas tantas das suas publicaºoes diz que a populaçao portuguesa é essencialmente judia e arabe.
sei que a coroa portuguesa sempre que se via "enrascada" nos seus empreendimentos maritimos recorria aos emprestimos dos judeus. e quando nao lhes pode pagar enxotou-os para os paises do norte. eu gosto de judeus... de mouros ja nao tanto, embora eu seja um deles, rsss
boa descrição do estereotipo.
beijinhos


De António a 3 de Maio de 2008 às 14:39
Olá, Leonor!
Referes-te ao António José Saraiva irmão do Hermano da TV?
Pois eu gosto mais de mouras do que de judias...nem sei porquê!

Beijinhos


De leonoreta a 10 de Maio de 2008 às 11:48
ola antonio
passei por aqui para a gradecer o comentario e ler coisas novas. aquelas voltas que das aos textos.
mas nao havia nada. passarei mais tarde. agora vou fazer bolos.
beijinhos


De António a 10 de Maio de 2008 às 14:06
Hummmmm...que cheirinho!!!!!


De Anónimo a 4 de Maio de 2008 às 23:56
TU SABES , QUE CUMPRO SEMPRE COM O QUE DIGO, E QUE TE LEIO SEMPRE PORQUE GOSTO, MAS JÁ O MEU PAI QUE CONHECEU OS DOIS LADOS DIZIA: ENTRE UNS E OUTROS, "QUE VENHA O DIABO E ESCOLHA". POR OUTRO LADO QUEM NÃO POUPA NÃO TEM. GOSTEI COMO SEMPRE.


De António a 5 de Maio de 2008 às 09:55
Olá!
Obrigado pelo comentário.

Beijo


De Maria Papoila a 6 de Maio de 2008 às 22:34
Olá António:
Lembro-me da tua primeira versão e gostei imenso da volta que lhe deste.
Judeu é mesmo "judeu"... só no Porto!
Beijo


De António a 7 de Maio de 2008 às 08:36
Querida Papoila!
Obrigado pela visita e pelo comentário.

Beijinhos


De sophiamar a 8 de Maio de 2008 às 14:34
A assiduidade tem sido irregular e espero não ter reprovado por faltas. Tu não fazias uma coisa dessas, pois não?

Olha eu gosto mais de mouras. Tinha de ser!

Beijinhosssss


De António a 8 de Maio de 2008 às 23:43
Ó minha querida!
Isto do blog já deu o que tinha dar.
Estou a tratar de publicar o meu primeiro livro.
Beijinhos


De perplexo a 19 de Maio de 2008 às 01:34
Camisas a 13 contos! E logo 4! Esse Jaiminho é um poço de dinheiro!


De António a 19 de Maio de 2008 às 08:28
Pois é!
E eu disse que não era?
ah ah ah

Abraço


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