Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças!
Sábado, 17 de Maio de 2008
O cronista desinspirado

O cronista estava sentado em frente ao seu PC com uma página de Word aberta e em branco.

Eram seis da tarde e tinha de entregar a sua crónica diária no jornal para onde escrevia há mais de dois anos.
Mas nesse dia estava seco de ideias.
Já não era a primeira vez, mas nunca falhara. À última da hora aparecia sempre qualquer luzinha na sua cabeça que o punha a teclar. Depois de começar acendiam-se mais luzinhas e o artigo acabava por sair. Melhor ou pior.
Levantou-se, foi à janela do seu quarto e olhou para a rua em busca de inspiração enquanto acendia um cigarro.
Viu uma senhora vestida com uns jeans, uma camisa branca e uma camisola de lã azul-marinho que andava lentamente levando pela trela um cão de tamanho médio. Como não sabia nada sobre raças caninas, salvo o nome de meia dúzia delas, se tantas (e pensou nos dálmatas, nos boxer, nos galgos, nos S. Bernardo, nos cães pastores e lobos daqui e dacolá, nos pitbull, nos dobermann, nos rottweiler, nos bulldog, nos perdigueiros, nos terrier, nos chihuahua), não reconheceu o animal que estava lá em baixo.
Mas confortou-se:
- Afinal sei mais do que meia dúzia.
Entretanto reparou que o cachorro da senhora se colocou na posição conveniente e fez um cocó no passeio perante a indiferença da dona.
Mas, em sentido contrário, vinha um sujeito de idade que ao ver aquilo começou a falar e a gesticular com a loira muito bem penteada.
Do alto do seu quinto andar não ouviu a conversa mas percebeu claramente que o ancião estava a dar uma reprimenda à madame, mas esta, satisfeitas as necessidades do canino, prosseguiu no seu caminhar sereno alheada das palavras do velhote.
Este olhou para todos os lados como que a ver se alguém aparecia e se juntava a ele na defesa da causa comum. Mas só viu o escriba lá no cimo e prosseguiu cabisbaixo e seu caminho.
O cronista atirou o cigarro ainda aceso pela janela e voltou a sentar-se em frente ao seu computador, escrevendo um título:
 
 O CRONISTA DESINSPIRADO
 

 



publicado por António às 14:05
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23 comentários:
De António a 17 de Maio de 2008 às 17:58
O que descrevi no primeiro parágrafo aconteceu-me hoje antes de almoço.
Depois inspirei-me e saiu o texto tipo "caganita de chihuahua" que puderam ver.


De Maria Papoila a 18 de Maio de 2008 às 00:20
Olá António:
Como se pode fazer um texto divertido de uma "desinspiração"...
Olha eu também sei poucas raças, gosto mais de "rafeiros"...
Continua assim "desinspirado".
Beijos


De António a 18 de Maio de 2008 às 10:33
Papoila, querida!
Obrigado pela tua presença mesmo quando estou desinspirado.

Beijinhos


De Paula Raposo a 18 de Maio de 2008 às 09:58
O cronista estava desinspirado, mas tu não! Gostei. Beijos.


De António a 18 de Maio de 2008 às 10:34
Por acaso estava, Paulinha!
Mas depois fez-se uma luzinha e saiu qualquer coisa.

Beijinhos


De Paula Raposo a 18 de Maio de 2008 às 10:38
A luzinha saiu clara e brilhante...beijitos.


De António a 18 de Maio de 2008 às 13:20
A lâmpada era nova...eh eh


De Paula Raposo a 19 de Maio de 2008 às 08:55
Nada como uma lâmpada nova para iluminar brilhantemente as ideias!! Eh eh


De António a 19 de Maio de 2008 às 12:04
O Sol também serve...eh eh

Beijinhos


De leonoreta a 18 de Maio de 2008 às 15:20
ola antonio
antes do seculo XiX escrevia-se por inspiraçao. depois o romantismo trouxe-nos a escrita por obrigação senao os poetas morriam á fome. é o caso de camilo, um dos primeiros no nosso pais a escrever periodicamente para o jornal.
um texto à "moda antiga" onde ainda nao havia regras para o ambiente: os caes sujam os passeios, o cronista atira o cigarro para a rua... é tudo nosso.
eu penso que quando encostamos a caneta á folha ela escreve sempre alguma coisa.
nao acredito nas faltas de inspiração. acredito nas faltas da vontade.
e nao me venhas dizer que nao.
beijinhos


De António a 18 de Maio de 2008 às 16:18
Olá, Leonor!
Isso pode ser verdade para umas coisinhas pequenas.
Para obras de fôlego é preciso muita inspiração...não duvides!
Senão estás sempre encravada.
Certo?

Beijinhos


De leonoreta a 18 de Maio de 2008 às 17:37
nao.
quantas vezes começaste com uma coisa na cabeça e acabaste com outra porque o texto deu a volta sozinho?
nao me venhas dizer que quando escreveste aquela saga daquela familia tinhas tudo controladinho do principio ao fim.
tambem escrevo. conheço os turques do lapis.
beijinhos


De António a 18 de Maio de 2008 às 22:07
Mas para dar as voltas é que é precisa a inspiração!!!!!
Ou então serve para quê?
Beijinhos


De Anónimo a 19 de Maio de 2008 às 22:06
serve para dar a volta a perguntas como esta.
xeque mate
da tua parte


De António a 20 de Maio de 2008 às 00:06
És uma querida!
Beijos


De leonoreta a 24 de Maio de 2008 às 09:55
obrigado antonio pelo comentario.
curtinho mas cheio de força
saio-me sempre bem dizes tu.
mais ou menos digo eu.
beijinhos


De António a 24 de Maio de 2008 às 13:03
Mas eu é que tenho razão!
ah ah ah
Beijos


De wind a 19 de Maio de 2008 às 10:26
Uma história real para um cronista desinspirado:)
Muita gente não limpa com sacos o cócó dos seus canídeos.
Beijos


De António a 19 de Maio de 2008 às 12:06
Isabel!
Muita gente?
Aqui no norte eu diria que NINGUÉM.
Somos uns porcos...mas eu não tenho animais nenhuns, por estas e outras.

Beijinhos


De Vanda a 23 de Maio de 2008 às 18:27
Tony,
Sem inspiração?... dizes tu... não me parece....
Só não gostei que o cronista tivesse atirado o cigarro aceso pela janela....
Bj
vanda


De António a 23 de Maio de 2008 às 23:26
És uma ambientalista de extremos...eh eh
Beijos


De tb a 29 de Maio de 2008 às 20:05
Gostei da tua desinspiração. Sobretudo porque foca um tema bastante comum hoje em dia e que é mais uma das demonstrações de falta de educação e civismo da nossa sociedade.
Beijinhos


De António a 29 de Maio de 2008 às 21:58
Olha a Teresa!!!!
Temos andado muito afastados, não temos?
Obrigadinho pela visita.

Beijinhos


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