Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças!
Terça-feira, 27 de Março de 2007
Histórias curtas XVI - Um encontro inoportuno
Sábado de manhã.
Adelino Meireles estava no café, sozinho, e fez um telefonema:
- Olá, Olga! Logo podemos encontrar-nos no sítio do costume? – perguntou.
- Olá, amor! Isto hoje está complicado. Apareceu-me o período e está muito abundante – respondeu, de casa, a Olga Gomes.
- Mas que chatice! Hoje era um bom dia. A minha mulher vai visitar a irmã e eu posso baldar-me porque há um encontro do partido – disse ele.
- Olha! Eu sei que tu não gostas, mas podíamos ir ao cinema e depois dar um pequeno passeio de carro. Há dois ou três filmes no Shopping que eu gostava de ver. Escolhemos um deles – sugeriu ela.
- Tu sabes que é perigoso irmos juntos ao cinema. Mas se estás muito interessada, podemos encontrar-nos lá por volta das duas e meia – anuiu o homem.
- Obrigado! Eu sei que é arriscado mas só se não tivermos cuidado. Se fizermos como de costume acho que não há problema nenhum – opinou a mulher.
- Pronto! Então está combinado.
- Então até logo, Lino!
- Até logo, minha querida!
 
O Adelino Meireles era um tipo de estatura média, cinquenta e cinco anos, abundante cabelo grisalho e uma barba ainda mais branca. Trabalhava nas vendas e era casado com a Madalena mantendo uma relação pouco amistosa e de fachada. Tinham uma filha que ainda estudava apesar dos seus vinte e seis anos e vivia com eles.
A mulher era baixa e gorda. Tinha a idade do marido mas, sobretudo depois dos cinquenta, ganhara bastante peso e perdera muito do apetite sexual que já tivera.
A Olga Gomes tinha quarenta e três anos, era uma mulher bonita, mas discreta com os seus cabelos castanhos, forma simples de vestir e estatura abaixo da média. Sem roupa, todavia, ainda tinha um corpo esbelto e digno de ser apreciado. Trabalhava no sector de compras de uma empresa e fora aí que conhecera o fornecedor Meireles. Desde que se divorciara há três anos, vivia com a mãe e o filho Nuno que, com os seus vinte anos, estudava no primeiro ano de um curso de informática.
Tinha a relação íntima com o Lino há mais de dois anos e vivia na esperança de que o seu amante deixasse a mulher e se ligasse definitivamente a ela. Mas o homem nunca mais ganhava coragem para dar o passo decisivo.
 
Eram duas e quinze quando ela chegou ao local combinado.
Escolheu o filme, comprou dois bilhetes, tomou um café e ficou a aguardar que o Adelino chegasse.
Passavam cinco minutos da hora aprazada quando ele surgiu, charmoso como sempre, e o coração dela palpitou.
O homem não a viu e dirigiu-se para o átrio das salas de exibição. Ela levantou-se deixando o dinheiro sobre a mesa e foi postar-se junto dele:
- Olá! – disse.
O homem olhou para ela, depois olhou em volta, aproximou-se e perguntou:
- Já escolheste o filme?
- E já comprei os bilhetes. Vamos entrar porque começa daqui a cinco minutos – informou ela.
E lá foram os dois, guardando uma prudente distância entre ambos até entrarem na sala 5 onde se sentaram numa das últimas filas pois havia já alguns espectadores instalados. Trocaram umas palavras, ele disse que depois lhe pagava os bilhetes e ela respondeu que não:
- Desta vez pago eu, para variar.
E começou a sessão.
Passado pouco tempo sentou-se um casal junto deles.
Cerca de hora e meia decorrida apareceram no écran as palavras: The End.
Levantaram-se, os do lado também mas pararam na coxia deixando passar os dois amantes.
Eis que o Adelino deu de caras com o seu vizinho do andar das traseiras, o Vieira que ele detestava, e a mulher Henriqueta. 
Para complicar a situação o Lino tinha a mão no ombro da amiga. Retirou-a rapidamente mas o sorriso do outro não lhe deixou dúvidas. Tinha percebido!
O Joaquim Vieira cumprimentou-o sonoramente e o comprometido Lino respondeu com um sumido:
- Boa tarde!
Saiu mais afastado da Olga do que tinha entrado e fez-lhe um discreto sinal.
Quando finalmente chegaram ao carro dele e entraram, falou:
- Que grande merda! Os tipos que estavam ao tem lado moram no mesmo andar que eu e toparam. Ele é um sujeito asqueroso. Espero que não haja problemas.
E o resto da tarde não foi nada agradável tirando uns beijos e carícias que trocaram dentro do carro.
 
Passados seis dias, estava ele a meter a viatura na garagem, ao fim da tarde, quando foi abordado pelo Quim Vieira.
- Olá, vizinho! Queria dar-lhe só uma palavrinha.
O Adelino, se já não gostava da cara do outro, da sua careca e dos seus dentes estragados à frente, desta vez achou-o pior que o Quasimodo.
- Diga! Diga!
- Só lhe queria pedir cinco mil euros para esta boca ficar calada! – ameaçou o Joaquim.
A vontade do Meireles foi dar-lhe um murro e partir-lhe os dentes horrorosos, mas conteve-se.
- Não sei do que fala! – retorquiu.
- Ora! Ora! Claro que sabe. E eu tenho provas fotográficas – revelou o chantagista.
O Vieira achou esse argumento pouco credível e, depois de pensar um pouco, respondeu:
- Eu vou meditar no assunto, mas primeiro tem de me mostrar as provas.
- Está bem! Eu dou-lhe oito dias para pensar. Depois eu apresento-lhe as provas e, de imediato, você dá-me o dinheirinho – definiu o Vieira.
- Combinado! – concordou o marido da Madalena.
E afastou-se sem dizer mais nada.
Mas começou a elucubrar:
- Que diabo! Ele não pode ter provas nenhumas. É só a palavra dele e da mulher contra a minha. É melhor nem me preocupar muito com o assunto.
Mas a proposta do outro não lhe saiu da cabeça nessa noite e, logo na manhã seguinte, lá estava o sorriso podre do vizinho desenhado na sua mente.
Logo que pôde ligou para a Olga e contou-lhe o sucedido.
Esta pensou rapidamente que talvez fosse esta a oportunidade de o Lino se separar da mulher e, portanto, as coisas poderiam ser boas para ela. Mas imediatamente lhe ocorreu que se não colaborasse com o seu homem este poderia mandá-la bugiar e isso, ela não queria.
Finalmente respondeu:
- Lino! E se ele arranjou ou, como falou em oito dias, ainda vai tentar arranjar fotografias nossas, comprometedoras?
- Pois é, Olga! Mas não acredito muito nisso. Poderíamos jogar pelo seguro e não nos vermos durante este tempo – sugeriu o homem.
- É uma hipótese! Mas vamos pensar melhor no assunto – disse a mulher.
 
Estava o Joaquim Vieira, uma tarde, a entrar para o seu carro, quando surgiu vinda do nada uma loira com as pernas bem ao léu que se agarrou a ele enquanto um homem tirava fotografias.
Logo depois a loira desapareceu e o fotógrafo gritou para o chantagista:
- Oh Vieira! Agora quem tem fotografias sou eu. E tu não tens nada.
Era o Meireles que armara uma cilada ao seu inimigo com a ajuda da Olga, que até tinha metido um dia de férias, e de uma cabeleira postiça bem ao estilo Marylin.
- Estás enganado! Logo depois de te ter apanhado em flagrante contratei um tipo para te seguir e à tua amante e tirar fotos vossas. E ele fê-lo! Foi por isso que demorei quasi uma semana a abordar-te. Portanto, eu tenho mesmo provas! – explicou o marido da Henriqueta.
- Pois é! Mas agora eu neutralizei o teu trunfo, pá! – disse, ufano, o Adelino.
- Então proponho que troquemos as fotos – quis armar-se em esperto o careca.
- Não querias mais nada? Estas fotos ficam comigo e tu, se quiseres, ficas com as tuas. Lixei-te, ó chantagista!
E riu-se enquanto se afastava até chegar junto da sua cúmplice.
- Tiveste uma ideia genial, minha querida! E só te digo que estou morto por ver as fotos. Tu estás mesmo um borracho! – elogiou ele, rindo.
- Será que é desta que me vais dar a prenda que eu tanto quero? – aproveitou a mulher para atacar de novo a questão da separação dele.
- Tem calma! Estas coisas tem de ser com calma! Mas que mereces, lá isso mereces...


publicado por António às 12:44
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30 comentários:
De Paula Raposo a 27 de Março de 2007 às 13:39
Eh eh eh ri-me à brava! Com a descrição dos dentes podres do chantagista!! Mais uma história cheia do teu sentido de humor!! Beijinhos.


De Diva a 27 de Março de 2007 às 16:40
Olá António, mais uma vez foi uma bela história e muito bem contada, estava desejosa de ver como isto ia acabar e fartei-me de rir!! Gosto muito da maneira como conta tudo até ao ultimo detalhe.
Mais uma vez dou-lhe os meus sinceros Parabens!!
Até sempre...


De António a 27 de Março de 2007 às 18:06
Olá, Diva!
Obrigado pelo comentário.
Gostei que te tivesses rido pois esse era um dos meus objectivos.
Não só...mas também.

Beijinhos


De rosa silvestre a 27 de Março de 2007 às 22:44
Mais uma história muito bem contada, cheia de pormenores...fartei-me de rir...hehehe!
Parabéns, António!


De nena a 28 de Março de 2007 às 00:40
Eiiaa..cùm catano!..inda me passou p´la cabeça rápidamente ao acabar o filme, dar de caras com a própria mulher dele atracada ao vizinho; mas teletransportaste-nos imediatamente p´ra outra dimensão,a uma velocidade estonteante.
E o final?..magnânimamente delicioso.; uma pérola.
És bom todos os dias
e descreves assaz bem
á malta que aqui vem
tantas taras e manias.
ganda António..5 stars.


De António a 28 de Março de 2007 às 09:02
Olá, Nena!
Obrigado pelo teu louco comentário que casa bem com o "Eu sou louco!".
Manda sempre!

Beijinhos


De ana joana a 28 de Março de 2007 às 10:21
Olá António,

Que história mais hilariante! Estás cada vez mais precioso nas tuas descrições e na capacidade de surpreender! eheheheheheh. Geralmente os adulteros são mesmo uns criativos na arte de disfarçar e de negar e tu apanhaste na perfeição e com humor esse lado da questão. Boa!

Beijinhos e um optimo dia para ti
Ana Joana


De António a 28 de Março de 2007 às 12:41
Olá, Ana Joana!
Obrigado pelo teu generoso comentário em relação a mais esta minha história curta.
Confesso que quasi me molhei a rir quando estava a imaginá-la em detalhe e a escrevê-la.

Beijinhos


De Caiê a 28 de Março de 2007 às 20:30
A senhora tem miolos!
Mas nunca mais acredite que ele se separe da sua mulher oficial, porque os homens são muitíssimo comodistas nestas coisas...


De leonoretta a 28 de Março de 2007 às 21:07
ola antonio
desta vez foi uma troca de galhardetes fotográficos bem engendrada.
em qualquer lado se encontra gente conhecida. é um problema para quem quer andar anonimo.
cinco mil euros. fiz a conta na maquina traduzindo em euros. mil contos dos antigos.
pouco.
ou entao... depois pedia mais. e se pedisse ja a chantagem compensava.
naome quero armar em esperta nestas coisas da escrita mas da-me a sensaçao que é a primeira vez que contas uma deixando a narrativa aberta. ou seja, a prometer uma continuaçao.
abraço da leonoreta


De Peter15 a 28 de Março de 2007 às 23:20
Brilhante o modo como a Olga contra-atacou.


De amigona a 29 de Março de 2007 às 01:08
Eh! Eh! meu querido amigo, está soberbo, como sempre! sabes que cheguei a pensar que seria a mulher que estava ao lado com um amante?! Mas soubeste dar-lhe uma volta de mestre! beijo...


De epa a 29 de Março de 2007 às 15:36
Podias era usar um estilo narrativo diferente, começam sempre da mesma maneira, com a apresentação dos personagens... Nem toda a literatura tem de ser linear.
Experimenta ler um livro de Chuck Palahniuk, a tua forma de escrever vai concerteza mudar radicalmente.

Cumprimentos


De António a 29 de Março de 2007 às 17:59
Olá!
Obrigado pelo comentário.

Saudações


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