Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças!
Segunda-feira, 2 de Abril de 2007
Histórias curtas XVII - A cilada
Gilberto Silveira era um médio empresário com cerca de quarenta anos, tinha um filho que vivia com a ex-mulher, era de estatura e compleição mediana, figura simpática e com um rosto arredondado donde sobressaíam uns olhos grandes e vivos, muito escuros.
Há uns tempos que costuma ir, depois de jantar, até um pequeno bar na zona velha da pequena cidade onde vivia.
Uma noite sentou-se ao balcão, como de costume, e pediu o habitual: um café e um whisky simples.
Pouco depois sentou-se junto dele, com um banco de intervalo, uma mulher vistosa, elegante, de cabelos loiros e pele branca. Aparentava uns trinta anos e aquela cara bonita não era estranha ao Gilberto. Usava óculos escuros, mesmo naquele inverno, que lhe ficavam muito bem.
- Desculpe! Posso sentar-me neste banco? – perguntou ele à desconhecida enquanto se adiantava e ocupava o assento ao lado da jovem mulher.
- Com certeza! – respondeu ela com um sorriso sedutor.
- Não a conheço! Mas a sua cara não me é estranha...
- É natural! Eu vivo aqui e o senhor provavelmente também. Já nos devemos ter cruzado – disse ela.
- Pois! Deve ser isso.
Fez uma pausa e continuou, o Gilberto:
- É a primeira vez que vem a este bar?
- Sim! Começava a estar farta de estar em casa à noite, mesmo com a companhia da TV e da Internet – e deu uma risada discreta.
- Mas que solidão! – exclamou o Silveira, não podendo esconder algum entusiasmo.
Conversaram mais um pouco e, pouco depois, a convite do homem, foram sentar-se numa mesa.
Não tardou muito que Gisela Brito, assim se chamava a mulher, dissesse:
- Tenho de me ir embora! Amanhã entro às oito e meia no emprego.
- Quer que a leve a casa? A noite está feia – ofereceu ele os seus préstimos, solícito.
- Não, muito obrigado! Tenho carro e não bebi álcool – e levantou-se.
- Obrigado pela sua companhia. Gostei muito de conversar consigo – disse o Silveira.
- Eu também!
- Olhe que já está pago! – informou ele.
- Sim? Muitíssimo obrigado. Amanhã venho cá de novo para me pagar outro café – disse a mulher ao mesmo tempo que soltava uma gargalhada cristalina.
E retirou-se.
Na noite seguinte lá se encontraram de novo e assim foi durante mais uns dias até que ela, finalmente, aceitou um convite do homem para darem uma volta.
- Amanhã o meu chefe está fora e dispensou-me durante a manhã – justificou-se a Gisela.
Saíram ao mesmo tempo, como já tinham feito algumas vezes, e ela disse que iria pôr primeiro o carro a casa.
O Silveira anuiu e segui-a até que ela voltou da garagem do prédio que habitava e entrou no automóvel dele, bem encapuçada pois chovia bastante.
Foram até um miradouro que ficava num ponto alto na periferia da urbe e onde costumavam parar alguns carros com casais. Ele estacionou.
Só mais um automóvel lá estava.
- Agora não chove! Vou ver a vista! Gosto muito de olhar lá para baixo, quer de dia quer de noite – e saiu do carro, a jovem.
Ele fez o mesmo.
Aproximou-se da loira, pegou-lhe na mão e beijou-a. Depois abraçou-a e colou a boca à dela.
Eis que lhe prenderam as mãos atrás das costas e lhe colaram um adesivo largo na boca.
Eram dois vultos, com silhueta de homem, que haviam saído do carro que lá estava parado.
Entretanto chegou e parou no local um jeep da GNR e de lá saiu um soldado que se aproximou do grupo sem nada dizer.
A Gisela falou, então:
- Gilberto! Vais pagar caro por teres estragado o casamento da minha irmã, tê-la feito divorciar-se com promessas doiradas e depois despediste-a e abandonaste-a. Levaste-a ao suicídio. Isso não se faz a um Castro. Sim! Porque o meu verdadeiro nome é Susana Castro. Eu vivia noutra cidade mas mudei-me para aqui porque a queria vingar, meu sacana! E chegou o momento!
Um dos homens encostou algodão embebido em éter no nariz do Gilberto que perdeu a consciência.
Desamarram-no e, enquanto dois deles o levavam, um pegando pelos pés outro por baixo dos ombros, pela estrada descendente do miradouro, a Susana ía colocando mais do volátil líquido na vítima e o guarda guiou o carro para uma berma junto de um profundo e abrupto precipício.
Meteram o empresário no veículo e empurraram-no para o abismo.
Impossível escapar com vida!
 
O plano tinha sido urdido pelos três com a maior minúcia. O soldado fora aliciado depois.
A noite chuvosa apagaria algumas marcas que ficassem no chão da zona do miradouro.
Mas havia alguns riscos que era preciso neutralizar:
Alguém poderia ter visto o Silveira e a Susana saírem juntos do bar ou mesmo da casa dela. Mas esse estaria resolvido facilmente pois um dos assassinos era também irmão das mulheres e ao mesmo tempo chefe do posto da GNR. Assim, o José Castro estaria a par de qualquer denúncia e neutralizava-a. Um terceiro elemento era um seu subordinado que, em tempos, tinha feito um roubo de dinheiro no posto e que fora descoberto pelo chefe; mas este ocultou o facto guardando contudo as provas e ficando, deste modo, com o Joaquim nas suas mãos. O Manuel, o quarto elemento, era o antigo marido da mana suicida, a Clara.
Outro risco era estarem mais viaturas no miradouro. Mas, pouco antes do crime, o jeep da GNR tinha passado por lá e dado ordem para se retirar ao condutor da única que estava estacionada com um parzinho.
 
Entretanto, e muito naturalmente, o Gilberto Silveira não voltou a ser visto, o que levou o seu filho e a ex-mulher a deram parte do desaparecimento na GNR.
Mas também o fizeram na Polícia Judiciária de uma cidade próxima já que naquela não existia nenhuma delegação
O José Castro foi encarregue de ajudar a PJ na descoberta da causa do misterioso desaparecimento.
Passam-se várias semanas e nada se descobriu.
A vida da pacata cidade que ainda há poucos anos era uma vila, agitada durante os primeiros tempos após a notícia, voltou à normalidade.
Teria sido cometido o crime perfeito?
 
O inspector Emanuel Vargas da PJ, encarregue do caso, já estava mais preocupado a desvendar outros mistérios quando, numa tarde de primavera, recebeu um telefonema:
- Queria dizer que eu sei quem matou o Gilberto Silveira – falou uma voz de homem.
- Sim? E quem fala?
- Isso não lhe posso dizer. Eu sou uma pessoa conhecida na cidade e não quero que os outros saibam do meu vício de espreitar para dentro dos carros com casais – confessou a nova personagem.
O inspector sorriu, fez um sinal a um agente que estava perto dele e disse:
- Mas pode dizer-me os pormenores?
- Posso, porque eu estava escondido e vi tudo. Sei quem são os quatro assassinos – respondeu o “voyeur”.
- Quatro? Então era importante que passasse por aqui para prestar depoimento. Ou nós vamos falar consigo. Como prefere? – sugeriu o inspector.
- Digo-lhe pelo telefone – respondeu o outro.
- Pode dizer! Mas se não prestar depoimento não podemos incriminar os homicidas – disse o homem da Judiciária.
- E podem dar-me garantias de que o meu vício não será descoberto pela gente da terra?
- Podemos! Basta arranjar um outro pretexto para lá ter estado. Consegue? – inquiriu o policial.
- Claro que não! Caso contrário já teria revelado o segredo há muito tempo.
- Bom! Depois pensamos nisso. Conte-me o que viu, por favor – pediu o Vargas enquanto viu o agente a levantar o polegar em sinal de que tudo estava bem.
E o denunciante contou tudo com muito rigor. Tinha reconhecido a vítima, os dois agentes da autoridade e o ex-marido da suicida. A mulher só descobriu quem era quando ela fez o discurso de despedida para o empresário. Indicou ainda a matrícula dos dois carros e do jeep, que anotara. Enfim! A solução do enigma da morte do Gilberto Silveira estava ali, como que caída do céu.
- Depois temos de inventar uma história para que o seu vício não seja descoberto. Pode contactar comigo amanhã? – disse o satisfeito inspector.
- Sim! Mas porquê?
- Porque não me deu o seu contacto, pois não?
- Nem dou! Está bem! Eu telefono.
- Então até amanhã e obrigado – despediu-se o Emanuel Vargas.
Desligou e perguntou ao colaborador com quem trocara sinais durante o telefonema:
- Segundo percebi localizaste a chamada. Eu fiz a gravação. De qualquer modo mandei-o telefonar amanhã. E é preciso confirmar a veracidade das afirmações, começando por localizar a viatura e o cadáver.
- Sim inspector. Tem aqui o número do telefone utilizado. Até já sabemos onde está. É de uma casa comercial, a Casa Santos.
- O “pestaninha” pensava que era muito esperto – disse sorrindo o inspector.
E continuou:
- Mas se os criminosos confessarem nem precisa de depor. Pode ser que tenha sorte.
E virando-se para outro agente:
- Prepare os seus homens porque vamos imediatamente sair. Eu dou-lhe já mais detalhes. 
Mas só no dia seguinte o carro foi descoberto com o cadáver lá dentro e os criminosos foram presos com grande espanto e alvoroço da populaça.
 
O comerciante Álvaro Santos, homem dos seus cinquenta e tantos anos, muito conhecido na cidade, solteirão, viu entrar um homem pelo seu estabelecimento.
- Senhor Santos! Podíamos falar um bocadinho? – pediu baixinho o Vargas.
- Sim! Venha ao meu escritório. – respondeu o mirone – É o senhor inspector, não é?
O outro fez um sinal afirmativo com a cabeça.
Entraram, fecharam a porta e disse o homem da PJ:
- Quero agradecer toda a sua colaboração. Já temos algumas confissões mas contamos obter mais. Se assim for, o senhor não precisará de depor. Mais uma vez muito obrigado.
- Eu é que agradeço, senhor inspector.
E o homem da Polícia Judiciária abandonou a Casa Santos.


publicado por António às 22:37
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31 comentários:
De gr-gr a 3 de Abril de 2007 às 00:10
Um bom policial!
Moral da história, “o crime não compensa!”
Não compensou para o Gilberto (indirectamente, fez uma morte), não compensou para os outros quatro!
Quando já temos a certeza do fim!
Dás a volta ao texto e reaparece uma história, outra com grande suspense.
És magnífico!
Adorei.

Muitos bjs,
GR


De António a 3 de Abril de 2007 às 21:55
Olá, Guida!
Foi um ensaio a escrever policiais.
É muito difícil para mim porque não conheço nada sobre o funcionamento das polícias, venenos, armas e outros assuntos fundamentais para me poder mover nestes meandros.

Beijinhos


De Paula Raposo a 3 de Abril de 2007 às 09:17
Adorei esta deliciosa história policial! À maneira...beijinhos.


De António a 3 de Abril de 2007 às 09:33
Olá, Paulinha!
Achas que vou concorrer com a Aghata Christie? Com o Conan Doyle? Com o Simenon?
Ou fazer argumentos para o Duarte & Companhia?
ah ah ah
Obrigado pelas tuas palavras.

Beijinhos


De sonamaia a 3 de Abril de 2007 às 10:24
É caso para comentar que não há crime perfeito e que mesmo os mais ardilosos são apanhados, não achas??

Gostei deste novo estilo!! adoro policiais com muito " suspense"!! Parabéns!! beijinho


De António a 3 de Abril de 2007 às 18:16
Olá!
Então já és outra vez "sonamaia"?
Ok!
Tu é que sabes.
Obrigado pelo comentário a esta tentativa de história policial.

Beijinhos


De leonoretta a 3 de Abril de 2007 às 13:44
muda o genero literario mas os ingredientes do autor mantêm-se: humor, criatividade, boa sintaxe. ´
vargas é mesmo nome de inspector. li alguns policiais da agatha, e outros. passei pelas varias personagens que eles criaram. por acaso escrevi uma coisa acerca de holems para sabado que vem mas a proposito do raciocinio indutivo.
mas a maneira como esta historia está montada lembra-me mais aqueles autores americanos que tendem a fazer-se de vitimas burras de um sistema com uma modestia mal disfarçada que os faz os melhores do mundo.
fui confusa?

concluindo: está o maximo.

abraço da leonoreta


De leonoreta a 3 de Abril de 2007 às 13:45
"holmes"

a culpa é das teclas


De António a 3 de Abril de 2007 às 18:25
Querida Leonor!
Agradeço o teu comentário mas, usando da franqueza que costumo tentar utilizar normalmente, acho que foste confusa, sim senhora.
ah ah ah
(no 1º comentário tinhas falado em Holmes? parece-me que mão; porquê a correcção?)

Beijinhos


De António a 3 de Abril de 2007 às 18:31
Ahhhh...
O holems é que era o Holmes.
Já percebi!
ah ah ah

Beijinhos


De rochasuave a 3 de Abril de 2007 às 14:01
História interessante... um bom policial... hehe

www.rochasuave.blogs.sapo.pt


De António a 3 de Abril de 2007 às 18:37
Olá!
Obrigado pelo 1º comentário.
Fui ao teu blog mas é demasiado escuro para os meus olhos de velho cansado e resolvi agradecer aqui.

Abraço


De Morgaine a 3 de Abril de 2007 às 18:27
Pena o Gilberto não ter dado uma cambalhota com a mulheraça santes de se finar. Ao menos morria feliz.

Esse voyeur caiu do céuuuuu!!! Bela profissão a dele, bem podia ganhar uns tustos a fazer estas coisas.. Com voyeurs destes para que precisamos nós dos bófiass???

Genial António, gostei, António Bond! Bond! António Bond! hehehe
Beijufas


De nena a 3 de Abril de 2007 às 20:58
bem, guardei-te p'ró fim que eras mais comprido;..mas tu tens muita energia homem!?!..se fõr igual á tua imaginaçâo,..(fogo!..coitada da maria..he.he.hee..)..até ali áquela parte do afogueamento; até eu estava afogueada; mas depois essa cabeça desmesuradamente grande, não se conteve,e destrambelha logo prás guerrinhas dos miudos, pum,.pum.,é 1 vêr se te avias de homens maus e tal, tive que voltar a ler; e já cá volto..xpera aí:.(he.he..o que eu me ri com esta aqui)..gostei muito; beijinhos.


De António a 3 de Abril de 2007 às 22:37
Olá, Nena!
Um comentário louco da mais "louca" mulher que conheço na Net.
ah ah ah

Beijinhos


De poesiamgd.blogspot.com a 3 de Abril de 2007 às 22:06
Não existem crimes perfeitos como também não existem denunciantes poupados... e eu sei do que falo! A sua Judiciária é muito "humana"!
Um belo conto! Muito bom mesmo! Um abraço


De wind a 4 de Abril de 2007 às 13:50
Não existe o crime perfeito.lololol.
Excelente história e magnífica a forma como a escreveste, como já é habitual em ti, indo a todos os pormenores físicos, espaciais e temporais.
Parabéns:)
beijos


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