Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças!
Domingo, 10 de Agosto de 2008
Os Reiseiros da Maia

Era adolescente quando ouvi contar algumas histórias d’ Os Reiseiros da Maia.

Mas quem são eles, os Reiseiros?
Ou melhor, quem eram?
Confesso que não sei exactamente, mas que existiram é um facto comprovado em documentação existente e fidedigna, mas não muito vasta.
Parecem ter sido um ou mais grupos que representavam peças de teatro, fundamentalmente ligadas aos Reis Magos (daí o nome) e outros temas religiosos e também alguns autos vicentinos.
Não sei quando começaram mas parece terem acabado a meio do século XX.
 
No entanto, não é sobre os verdadeiros Reiseiros da Maia que quero aqui escrever, mas antes acerca daqueloutros que fazem parte das minhas memórias da juventude.
Aquilo que me contaram (e que parece ter só um fundo de verdade) referia-se a um grupo teatral constituído por gente boçal, que actuava pelas vastas Terras da Maia e mesmo fora delas.
Essas representações eram servidas por actores, encenadores e técnicos totalmente amadores, o que levava a que, mesmo em momentos de grande dramatismo, cometessem falhas que acabavam por deixar o público a rir à gargalhada.
 
Uma dessas situações humorísticas ocorreu durante a representação de uma peça em que um tipo representando Cristo era elevado aos céus pendurado numas cordas que eram puxadas por meio de um guincho ou cabrestante manual.
Mas o sistema encravou e o actor ficou a meio do caminho olhando para baixo e para cima à espera de ser totalmente içado para sair de cena. Mas a avaria (ou a incompetência) era grande demais e, em certo momento, Jesus Cristo, o filho de Deus, olhou para o alto e bradou:
- Então esta merda sobe ou não sobe?
 
Uma outra aconteceu quando a protagonista, aproveitando a ausência do marido, introduziu o amante nos seus aposentos.
Todavia o cornudo, representado por um tal Mota, apareceu mais cedo do que os infames esperavam e encontrou-os no seu quarto. Imediatamente sacou da sua pistola para matar o vilão. Mas o pequeno explosivo que devia provocar o ruído de um tiro não soou. O homem largou a pistola e procurou lavar a honra usando a espada. Todavia, talvez porque estava ferrugenta, não conseguia retirá-la da bainha.
E perante o gáudio de todos, um espectador gritou:
- Ó Mota! Dá-lhe com a bota!
O actor parou, olhou para o público e disse:
- Boa ideia!
E depois de descalçar uma botifarra começou a bater com ela no outro desgraçado que teve de fugir correndo antes que ficasse com a cabeça rachada.
 
Também se contava esta peripécia, de novo passada no quarto de um nobre casal onde a dama, sozinha, lia uma carta escrita por um apaixonado admirador.
Se tudo corresse normalmente, ela ouviria os passos do marido e queimaria a carta usando uma vela acesa que constituía um dos adereços. Entretanto o marido entraria, mostrava estranhar o cheiro do aposento e diria:
- Cheira-me a papel queimado!
E a representação continuava…
Mas, uma bela noite, a actriz que fazia o papel de esposa não viu a vela, nem acesa nem apagada, e para remediar a situação resolveu rasgar a missiva.
O actor que desempenhava o esposo entrou, fez os mesmos trejeitos de quem achou estranho o odor, mas dessa vez falou:
- Cheira-me a papel rasgado!
 
E não me lembro de mais nenhuma das famosas cenas falhadas dos Reiseiros que me deram a conhecer. Certamente diferentes do que foram na realidade, mas suficientemente engraçadas para eu aqui as relembrar.


publicado por António às 18:15
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12 comentários:
De leonoreta a 10 de Agosto de 2008 às 20:27
poças!
nunca mais saia!
está fantastica a cena do papel rasgado.
os actores divertem-se.

gosto de saber destas tradiçoes (os reiseiros e porque a origem do nome atribuido)

beijinhos


De António a 11 de Agosto de 2008 às 00:17
Leonor querida!
Obrigado pelo comentário.
Não sabes a origem do nome Reiseisos?
Então é porque não leste o texto com atenção...ah ah ah
De castigo vais ler outra vez.

Beijinhos


De leonoreta a 11 de Agosto de 2008 às 10:38
ola bom dia antonio
nao me expliquei bem. nao conhecia essa coisa dos reiseiros. claro que percebi a origem do nome ou nao estivesse habituada a fazer analise de conteudo. rsss
beijinhos


De António a 11 de Agosto de 2008 às 13:11
E que conteúdos é que analisas?
ihihihihih

Beijinhos


De leonoreta a 11 de Agosto de 2008 às 13:24
analiso que os actores divertem-se com a sua profissao; que confundem ficção com realidade; que nalguns casos nao incorporam bem a personagem.
dai que seja necessario uma reflexão sobre aquilo que poderá ser a representação e proporcionar uma formação adequada aos actores e a todos os agentes envolvidos da vida teatral de modo a evitar erros de casting.
rssssssssssssssss


De António a 11 de Agosto de 2008 às 18:57
Tu mandas cada boca...ah ah ah

Beijinhos


De meldevespas a 11 de Agosto de 2008 às 10:56
Estas peripécias dos antigamentes são uma delícia.
O que eu já me ri com o pobre do Jesus Cristo!!!
Cá em Reguengos também houve sempre "grupos de Teatro", e conta-se que por altura dos loucos anos 30 do século passado, um aspirante a actor que nunca ara convocado para as lides de palco, por motivo de um quqlquer achaque dum outro, teve a sua primeiríssima oportunidade. Tinha uma única fala para decorar para a estreia dentro de um mês, e que rezava assim: Senhor Doutor, o jantar está servido!- todo satisfeito ensaiou com afinco dia e noite......no dia da estreia, muito "inchado" pelo orgulho, quando chegou a sua deixa, ele entrou, e numa voz limpa e forte disse: Senhor Jantar, o doutor está servido!
Conta-se que acabou ali a efémera experiencia dele como actor....
Beijinho e desculpe lá o tamanho do comentário....


De António a 11 de Agosto de 2008 às 18:59
Olá, Carmo!
Comenta como entenderes; este espaço é teu!

Beijinhos


De wind a 12 de Agosto de 2008 às 17:01
Gargalhadas, o que me fizeste rir:)
Boas "estórias":)
Beijos


De António a 12 de Agosto de 2008 às 18:06
Olá, Isabel!
Gosto de te "ouvir" rir...ah ah ah

Beijinhos


De Paula Raposo a 18 de Agosto de 2008 às 11:31
Adoráveis estas histórias!! Ri-me...é preciso é desenrascar...beijinhos.


De António a 18 de Agosto de 2008 às 18:01
Olá, Paulinha!
"Buchas" destas são o delírio para a plateia...ah ah ah

Beijinhos


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