Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças!
Sexta-feira, 15 de Agosto de 2008
O prisioneiro

Estava na prisão há bastante tempo. Anos de clausura já tinham passado.

Desde logo fora isolado numa cela, mas esta tinha espaço suficiente para se mover de um lado para o outro e exercitar-se fisicamente.

Nunca o deixavam sair de lá. Isso era um ponto assente. Jamais, até chegar a hora da morte.
Mas não se podia queixar de falta de comida e bebida.
E a higiene parecia-lhe suficiente, até porque as limpezas eram frequentes e havia aberturas bastantes, naturalmente com grades, para que o ar fosse respirável.
Usava sempre a mesma roupa que, todavia, era lavada com assiduidade e secava rapidamente.
Não tinha inimigos que o atormentassem mas a solidão era grande…
Muito grande mesmo.
A falta de liberdade dava-lhe ensejo para pensar muitas vezes em escapulir-se. Tarefa quasi impossível.
E porque não sonhar?
Afinal era das poucas coisas que podia fazer…sonhar!
Por isso, e para se entreter nos momentos mais depressivos ou de ócio, algumas vezes cantava para satisfação dos seus carcereiros que admiravam a sua magnífica voz. Isso animava-o.
Por vezes falavam com ele o que também era um estupendo lenitivo.
Mas a falta de liberdade…
Um dia deixaram a porta da cela aberta. Mas quando deu por ela e pensou em fugir, alguém surgiu de repente e fechou-a de novo.
Sentiu que talvez tivesse sido uma derradeira oportunidade de se libertar, mas também pensou que, se tinha havido uma distracção por parte de quem o guardava, talvez pudesse haver outra.
Doravante teria de estar mais atento a possíveis deslizes!
 
Uma noite acordou com uma luz muito forte, um estranho cheiro a queimado, um calor intenso e fumo, bastante fumo.
Era um incêndio!
Pensou que iria morrer ali dentro, queimado; talvez tivesse a sorte de antes ficar inanimado e morrer asfixiado: seria bem melhor.
Mas de repente alguém gritou:
- Libertem o canário!
E, mesmo um pouco atordoado, voou finalmente para a liberdade.


publicado por António às 13:43
link do post | comentar | favorito
|

16 comentários:
De leonoreta a 15 de Agosto de 2008 às 18:58
mais uma vez me apanhaste de surpresa e eu nao estou a gostar nada disso.
pensei ao principio que fosse a prisao social do individuo. da para estes devaneios.
seja como for. fizeste batota nalgumas partes para dares o fim que deste. a roupa do canario por exemplo.
beijinhos


De António a 15 de Agosto de 2008 às 19:44
Em suma: caíste na esparrela!
Pois era isso mesmo que eu pretendia...ah ah ah

Beijinhos, Leonor


De wind a 15 de Agosto de 2008 às 23:37
Espectacular conto!
Imaginamos uma pessoa e no fi dás a volta.lol
Muito bom, parabéns:)
Beijos


De António a 18 de Agosto de 2008 às 00:18
Obrigadinho, Isabel, querida!
Beijinhos


De Peter15 a 16 de Agosto de 2008 às 23:45
Bem engendrado, pensei sempre num homem. Claro que há a "armadilha" da roupa. Se tivesses escrito "roupa" ficava a 100%.


De António a 18 de Agosto de 2008 às 00:22
Olá, Peter!
Se tivesse escrito "roupa" era como se tivesse escrito plumagem...eh eh

Abraço


De alfacinha a 17 de Agosto de 2008 às 10:25
conto muito lindo
Embora a liberdade possa ser de curto prazo, depois aqueles anos longes na gaiola dourada não conseguirá encontrar comida. Por isso, a liberdade exigirá do canário um preço alto.
cumprimentos


De António a 18 de Agosto de 2008 às 00:25
É verdade!
Obrigado pelo comentário.
(o nome alfacinha não está a funcionar como link)


De Paula Raposo a 18 de Agosto de 2008 às 11:27
Adorei esta tua história!! Está fantástica! Beijos.


De António a 18 de Agosto de 2008 às 18:03
Paulinha querida!
Isto não é uma história: é uma historinha...ah ah ah

Beijinhos


De meldevespas a 18 de Agosto de 2008 às 12:22
Fui completamente apanhada!!!!
Em momento nenhum pensei que não se tratasse de um prisioneiro humano!
Amei a forma como está escrito....provavelmente vou olhar de maneira diferente para o meu Trovão (o periquito lá de casa) ainda por cima a pensar que ele efetivamente estará a sonhar.....
ou não ;))))
Adorei mais uma vez.


De António a 18 de Agosto de 2008 às 18:04
Olá!
Obrigado pelo comentário.
Será que o Trovão vai voar alto?
ah ah ah

Beijinhos


De Anónimo a 21 de Agosto de 2008 às 21:25
Já disse várias vezes que não comentava, mas com esta surpreendeste-me mesmo. És exímio em trocar as voltas, disso eu sei. Mas quando eu estou a espera só da cor da farda! eis que me saiu canário, nem sequer um papagaio, mas um canário.
Parabens , esta é um "must".


De António a 21 de Agosto de 2008 às 22:12
Muito obrigado!


De rosa a 12 de Outubro de 2008 às 18:51
Os teus contos são... Uma caixa de surpresas!
Parabéns!
Beijinhos


De António a 12 de Outubro de 2008 às 18:58
Muito obrigado!

Beijinhos


Comentar post

Mais sobre mim
Maio 2013
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10
11

12
13
14
15
16
17
18

19
20
21
22
23
24
25

26
27
28
29
30
31


Posts recentes

Este parte, aquele parte....

As fotos de 21 de Maio de...

O 21 de Maio de 2011

O meu terceiro livro (IV)

O meu terceiro livro (III...

O meu terceiro livro (II)

O meu terceiro livro (I)

É dos carecas que elas go...

Três meses depois...

As fotos de 15 de Maio de...

Arquivos

Maio 2013

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Outubro 2010

Agosto 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Outros blogs
Pesquisar neste blog
 
Visitantes
Hit Counter
Free Counter