Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças!
Quinta-feira, 21 de Agosto de 2008
Elísio de Moura

Psiquiatra português.

Nasceu em Braga, em 1877, e morreu em Coimbra, em 1977.
Licenciado em Medicina pela Universidade de Coimbra, inaugurou em Portugal, em 1907, o ensino da neurologia.
Foi o primeiro bastonário da Ordem dos Médicos e a ele se deve a fundação do Manicómio de Sena (1911).
 
Depois desta nota biográfica acerca do Doutor Elísio de Moura, é pertinente explicar o porquê de dedicar um post a tão ilustre clínico.
Porque deste miúdo ouvia falar no Doutor Elísio de Moura como um médico sui generis: utilizava os seus conhecimentos de psicologia e das pessoas e comportamentos humanos para efectuar curas que o povo, muitas vezes, considerava milagrosas.
E ouvi várias histórias.
Provavelmente estão mais perto da lenda do que da realidade mas, aqui e agora, o que me interessa é o que escutei.
 
Conta-se que, uma vez, um sujeito o foi consultar queixando-se de que andava com dores no estômago.
O médico auscultou-o, apalpou-o e…ou seja, fez aquilo que fazia normalmente. No final disse:
- Meu caro senhor! Não lhe vou receitar nenhum medicamento. O meu amigo só vai fazer uma coisa: rapar o bigode.
O paciente saiu desiludido com a indicação e não queria eliminar o ornamento capilar mas, por imposição da mulher, acabou por cumprir o que lhe fora ordenado.
Ao fim de algumas semanas sentia-se muito bem e resolveu ir perguntar ao doutor o que o levara a optar por tão bizarro tratamento.
Disse-lhe o médico:
- Eu reparei logo que o senhor tinha os cabelos bastante brancos e o bigode preto. Uma observação mais atenta fez-me concluir que o senhor o pintava e, provavelmente, seriam as tintas que lhe estavam a afectar o aparelho digestivo.
Agora sei que acertei no diagnóstico.
 
Numa outra ocasião foi chamado para ver uma senhora muito fina, com cerca de quarenta anos, solteirona e beata, que vivia com a mãe, viúva, habitando ambas numa casa apalaçada.
O problema descrito ao clínico foi o de à filha terem começado a surgir dificuldades no caminhar e estar agora acamada pois só conseguia andar agarrada às paredes ou a outra pessoa.
O médico conversou demoradamente com as duas mulheres, fez um ligeiro exame às pernas da paralítica e pediu à mais velha que se retirasse, trancando a porta por dentro.
Quando ficou sozinho no quarto com a doente começou a despir-se enquanto dizia:
- Minha senhora! O remédio para si é fazer sexo.
Antes que o doutor tivesse tempo de se despir, a mulher levantou-se aos gritos e fugiu a correr para fora do quarto.
 
Só lamento não me lembrar de mais nenhuma história das muitas que circulavam sobre o fabuloso Doutor Elísio de Moura e alguns métodos menos ortodoxos que usava para exercer a sua actividade como clínico.


publicado por António às 18:20
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41 comentários:
De alfacinha a 21 de Agosto de 2008 às 18:50
São os melhores médicos aqueles que ouvem, observam e não receitam imediatamente medicamentos, porém muitos pacientes não apreciam este profissionalismo.
cumprimentos


De António a 21 de Agosto de 2008 às 22:15
Obrigado pela visita e pelo comentário.


De Fernando Eugénio a 20 de Maio de 2011 às 00:47
Não sei como me lembrei mesmo agora do Dr.Elisio de Moura, e, como estava no pc lembrei-me de "vasculhar" umas estórias que em tempos ouvi na Rtp, e felizmente encontrei-as aqui. Mas, já agora, se me permite, gostaria de dizer mais alguma coisa sobre a humildade do Dr.Elisio de Moura.
Pelo que me lembro de ouvir, o Dr. Elisio de Moura viveu os seus ultimos dias num convento de freiras em Coimbra (Stª Clara Nova ?) e aconteceu o seguinte. Passo a citar.
Certo dia o carteiro foi entregar uma carta no convento endereçada ao próprio Dr.Elisio de Moura,
e, quem a recebeu foi o próprio, mas, não se identificou. Como a carta vinha registada, era preciso assinar e ele próprio disse que assinava.
O carteiro ficou desconfiado pelo aspecto da pessoa.
(velhinho, mal vestido e muito simples) e perguntou:
-O Sr. sabe escrever?
Ao qual o Dr.Elisio de Moura respondeu muito humildemente:
-Um bocadinho!
Já foi há muito tempo que ouvi esta estória, mas, ainda hoje, no meu dia a dia, reflito esta simplicidade de um HOMEM que, não se importou nem ficou ofendido com a "desconfiança" do carteiro.
Fernando Eugénio


De António a 20 de Maio de 2011 às 08:36
Obrigado pela visita e pela partilha


De wind a 21 de Agosto de 2008 às 23:51
Gargalhadas a do sexo está muito boa.lolol
Beijos


De António a 22 de Agosto de 2008 às 09:42
Gosto de ouvir as tuas gargalhadas, Isabel!

Beijinhos


De amigona a 22 de Agosto de 2008 às 08:57
O que eu me ri!!! Beijos António...


De António a 22 de Agosto de 2008 às 09:44
Olá, Rosarinho!
Bem aparecida!
Também gosto de ouvir as tuas risadas...

Beijinhos


De Paula Raposo a 22 de Agosto de 2008 às 11:45
Fiquei encantada com o que nos contas aqui!! Beijos.


De António a 22 de Agosto de 2008 às 12:12
Encantada?
Então és uma princesa encantada...ah ah ah

Beijinhos


De Paula Raposo a 22 de Agosto de 2008 às 13:43
Eu sei que tu sabes que eu sou uma princesinha encantada!! Que espera a vinda do seu príncipe...beijinhos.


De António a 22 de Agosto de 2008 às 18:51
Mas o principe ainda é um sapo...ah ah ah

Beijinhos


De leonoreta a 22 de Agosto de 2008 às 12:56
é sem duvida uma medicina de cariz heuristico a do doutor elisio.
a melhor que põe á prova o sber real do medico que nao delega para o laboratorio possiveis diagnosticos.
beijinhos


De António a 22 de Agosto de 2008 às 18:53
Pois é, minha querida leonor!
Naqueles tempos o médico tinha de ser médico a sério e não mero leitor de relatórios.

Beijinhos


De leonoreta a 23 de Agosto de 2008 às 10:12
mas este teu medico fez-me lembrar uma consulta minha aqui ha uns anos.
sentia-me desmotivada e fui ao medico saber se tinha sinais de depressao.
o medico olha para mi (eram duas da tarde) e começa a desfiar um rosario de qeixas, que estava ali desde as oito da manha, que ainda nao tinha ido almoçar, que so tinha passado receitas, se eu ja tinha visto a cor dos azulejos (brancos, deslavados), com uma depressao estava ele.
fiquei sem saber o que dizer. nem aspirinas quis e vim-me embora. coitado.afinal eu nao tinha depressao nenhuma.
beijinhos


De António a 23 de Agosto de 2008 às 13:41
ah ah ah
Mas esse médico não tinha rigorosamente nada a ver com o Elísio de Moura.

Beijinhos


De meldevespas a 22 de Agosto de 2008 às 14:50
Este homem era um sábio!!!! (por isso cá andou tanto tempo, certamente...)
Mais uma vez, foi um fartote de rir, oh meu Deus!!!
Então a beatinha não quis o tratamento hein!!!!
eheheh

Beijinho António, e um óptimo fim de semana


De António a 22 de Agosto de 2008 às 18:54
Olá, Carmo!
Bem o podes dizer: o Elísio de Moura era um verdadeiro sábio...

Beijinhos


De Sophiamar a 23 de Agosto de 2008 às 16:04
Um médico assim faz sempre falta, António!. Usa métodos menos ortodoxos mas eficazes e isso é que importa.
Fartei-me de rir com as histórias que nos contaste.
Boa lembrança!

Beijinhossss


De António a 23 de Agosto de 2008 às 17:59
Olá, Isabel querida!
As minhas tias contaram-me mais histórias do Elísio de Moura, mas agora já não estão connosco e eu só me lembro destas duas.
Na altura ainda não havia blogs...ah ah ah

Beijinhos


De alfazzemaazul a 26 de Agosto de 2008 às 01:22
Voltei para falar das minhas gentes, da minha terra, das memórias vivas e reais que perduram na minha alma e no meu coração.

Beijinhos



De António a 26 de Agosto de 2008 às 08:40
Olá, Isabel!
Já lá fui à inauguração (ou re-inauguração?).

Beijinhos


De alfazzemaazul a 26 de Agosto de 2008 às 09:13
Obrigada, António! Gostei muito do presentinho.Os amigos são como as estrelas, dizem. Embora por vezes não se vejam, elas estão presentes. Contigo, tenho sentido sempre o mesmo.A tua amizade tem sido muito importante.
Bem hajas, amigo querido.

Mil beijinhos




De António a 26 de Agosto de 2008 às 13:13
Conta comigo!
Sobretudo para as coisas importantes...
(se estiver ao meu alcance, claro!)

Beijinhos


De maria olinda soares a 7 de Janeiro de 2010 às 21:52
caro sr
li o que contou sobre o Dr.Elisio de Moura,realmente era uma pessoa especial.Eu sou uma das crianças que ele protegeu,amou e acarinhou.Foi médico,pai,amigo...tudo o que tinha para nos dar ele deu.Fiquei orfã segunda vez com a morte dele.Recordo o seu rosto cansado,os cabelos brancos,as mãos enrugadas estendidas para nos dar o pouco que tinha. Era contra o uso de vassouras porque o pó nos fazia mal,ficava zangado com as freiras se nos encontrava a varrer...hoje tenho noção das dificuldades que tinha para conseguir alimentar tantas crianças.Tenha a certeza k ele era um homem exemplar.
O mundo precisa de pessoas como ele era.
obrigado pelas historias


De António a 7 de Janeiro de 2010 às 22:08
Fico muito grato pela sua visita e pelo comentário.

Obrigado!


De Aires Henriques a 8 de Março de 2010 às 10:41
Desculpem lá, mas domino mal isto de blogs.
Deixei um comentário ontem que não aparece sobre o Dr. Elídio de Moura.
Mas responderam-me.
Obrigado pela atenção.

Aires Henriques


De António a 8 de Março de 2010 às 12:36
Aparece na 2ª página de comentários

Saudações


De gloria a 29 de Março de 2011 às 21:34
também lá vivi e adorava o Dr. Elísio de Moura foi a maior perda da minha vida ,depois da sua morte tudo mudou .quem ocupou o lugar não tinha categoria para tal


De António a 29 de Março de 2011 às 22:02
Obrigado pelo comentário


De Anónimo a 29 de Março de 2011 às 22:34
António, terá por acaso mais histórias do Dr. Elísio para contar? seria tão bom...abraço


De António a 29 de Março de 2011 às 22:40
Quem me contou estas foram umas tias que já faleceram. Penso que me contaram mais uma ou duas mas não me lembro delas e como as tias já não me podem dizer nada, o meu repertótio fica por aqui.

Beijo


De Anónimo a 29 de Março de 2011 às 22:31
Cara Gloria,em que ano lá esteve?Será que nos conhecemos? Esteja á vontade para me contactar.m.olindasoares@hotmail.com. Abraço



De Olga Nunes a 12 de Setembro de 2017 às 19:37
Pois é...

Histórias existem muitas, mas essa é a mais bela história da vida do Exmo. Sr. Dr. Elísio de Moura.
Deu a vida e tudo o que tinha pela instituição que fundou para acolher meninas na cidade que escolheu para viver, alimentou-as, pagou-lhes os estudos, formou muitas mulheres da nossa sociedade.
Hoje a instituição passa por dificuldades financeiras, mas há-de sobreviver...há-de haver uma luz...
Este homem foi um Santo vivo.


De António a 12 de Setembro de 2017 às 22:45
Obrigado pelo comentário, Olga Nunes.
O objetivo do texto não foi fazer uma biografia do Dr. Elísio de Moura mas não posso deixar de lhe pedir para me informar a que instituição se refere.
Obrigado!

Cumprimentos


De Olga Nunes a 13 de Setembro de 2017 às 12:38

Elysio de Moura

Elísio de Moura notabilizou-se no ensino e investigação da Psiquiatria e Neurologia, tendo contribuído, no início da República, para a manutenção do ensino da Medicina na Universidade de Coimbra, que estava em risco de passar para as novas universidades de Lisboa e Porto.
Em 1892, apenas com quinze anos de idade, inscreveu-se na Universidade de Coimbra, como aluno de Matemática e Filosofia. Obteve o grau de Bacharel em Filosofia em 1895. Inscreveu-se, então, na Faculdade de Medicina e, em 30 de Junho de 1900, ficou Bacharel em Medicina com a nota de Muito Bom. A 1 de Março de 1901, sem ter completado 24 anos, concluiu a licenciatura, para em 1902 adquirir o grau de Doutor. Nomeado professor, naquele ano, ascendeu a Catedrático em 1910. Acumulou o ensino de várias cadeiras de diversos cursos, vindo a ocupar a Cátedra de Clinica Numerológica durante 34 anos.
Em 1907, consegue, graças à sua notoriedade, dar início em Portugal ao ensino de Neurologia e Psiquiatria, na Universidade de Coimbra, devendo-se-lhe a criação do Manicómio da Serra. Criou a Ordem dos Médicos, da qual, foi o primeiro Bastonário. Alcançou uma aura de cientista dotado de raro poder de penetração e de irradiante simpatia.
Simples em tudo, nunca procurou lugares de prestígio ou honrarias, e dedicou grande parte da existência ao Asilo da Infância Desvalida, que, desde 1967, passou a chamar-se ‘Casa da Infância Doutor Elysio de Moura’. Doou-lhe a maior parte dos seus bens … Mandou reconstruir o edifício, uma casa velha. E das 11 crianças iniciais passou a poder recolher 230.
A Instituição esteve sempre muito ligada à Universidade, o edifício é contíguo e a maior parte dos professores e funcionários eram sócios. Com a descentralização da Universidade e a aposentação dos professores e funcionários (muitos já faleceram), o número de sócio diminuiu, o que tem afetado a sustentabilidade da instituição. Ainda hoje, na queima das fitas, existe um dia dedicado à venda da pasta, umas pastas pequeninas de papel com as fitas (semelhantes às dos estudantes) com poemas. É tradição os estudantes que colocam fitas nesse ano irem buscar as meninas e andarem nas ruas a vender as pastas, sendo que o dinheiro obtido reverte a favor da instituição. Infelizmente, também o número de estudantes que adere à iniciativa tem vindo a diminuir.
Mas, eu acredito que, a obra do Dr. Elísio de Moura (como lhe chamamos por cá...) não há-de morrer, porque os grandes Homens nunca morrem.




De António a 14 de Setembro de 2017 às 12:50
Obrigado pela biografia do Dr. Elísio de Moura que teve a gentileza de me enviar.
Nunca tinha ouvido falar nessa instituição que se chamou "Asilo da Infância Desvalida".
Espero que as dificuldades por que está a passar consigam ser superadas para a a sua ação humanitária continue a vivificar contribuindo também para consolidar a memória do seu ilustre fundador.

Obrigado!

Cumprimentos


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