Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças!
Sexta-feira, 13 de Abril de 2007
Histórias curtas XVIII - A mulher invisível
Francisco Mesquita era um chefe de família trabalhador e amigo da mulher e dos filhos aos quais procurava não faltar com nada.
Quarentão, de estatura média, trabalhava numa empresa onde ganhava um belo ordenado. Tinha uma barriguita já notoriamente protuberante e um cabelo castanho escuro com poucas cãs mas com umas entradas pronunciadas. Palrador, de verbo fácil e inventivo, era muito teimoso e a opinião dele tinha de prevalecer nem que usasse os argumentos mais estapafúrdios.
A Eva era professora do secundário, baixa e anafada, mas com uma cara ainda bonita.
O Tiago e o Carlos eram os filhos, adolescentes dinâmicos.
Mas o Mesquita, com a sua prosápia, gostava de dizer às mulheres daquelas coisas que elas adoram ouvir. Muitas delas não lhe ligavam nada, mas algumas tomavam-se de amores pelo Chico.
Uma delas era uma funcionária do laboratório, Amélia de seu nome, vinte e poucos aninhos muito bem aplicados num corpo de escultura grega e numa cara de deixar as bocas masculinas em forma de O.
Tanto o parlapatão gabou a sua vivenda à loira rapariga, tanto lhe descreveu os seus interiores, as salas onde se sentava a ouvir musica e a pensar nela, os quartos onde sonhava possuí-la e outros cânticos celestiais, que já levava a moça para uma residencial uma ou duas vezes por semana.
Mas ele insistia em mostrar-lhe a casa. Ela dizia que podia ser perigoso, que era melhor desistir da ideia.
- Não, Melinha! Quero que vejas a casa onde um dia havemos de morar os dois – insistia ele.
E a bacoca da rapariga olhava embevecida para ele.
Até que, um dia, o Mesquita lhe telefonou do seu gabinete e falou assim:
- Minha querida! Vai ser hoje! A velha foi num passeio da escola e os rapazes estão nas aulas.
- Mas de que falas? – perguntou ela.
- Da minha vivenda! É hoje que vamos lá dar uma saltada. Vamos recolher umas amostras de água e depois vou-ta mostrar.
- E tens a certeza de que é seguro?
- Então tu não confias em mim, Melinha? – inquiriu o homem.
- Claro que sim!
- Vou telefonar daqui a pouco à tua chefe e depois saímos no carro da firma que já requisitei.
- Está certo! Fico à espera – anuiu a rapariga.
O trabalho fez com que o Chico se atrasasse mas isso não impediu que, por volta das cinco da tarde e com a maior desfaçatez, ambos entrassem na Vivenda Paraíso.
E o vaidoso Mesquita foi mostrando à loira extasiada as maravilhas de que tantas vezes lhe havia falado.
Mas, de repente, ouviram a porta a abrir-se.
- Esconde-te e não faças barulho! – ordenou ele enquanto a empurrava para dentro do escritório.
Fechou a porta e perguntou:
- Quem está aí?
- Sou eu, Chico! – respondeu a Eva.
- Já? O passeio foi rápido – disse ele sem deixar transparecer qualquer perturbação.
- Foi anulada uma visita e chegamos mais cedo. Como quasi todos os alunos tem telemóvel comunicaram com os pais para os avisar e eu vim logo para casa – explicou a mulher.
- E fizeste muito bem! – mentiu o descarado.
Mas Eva também estranhou a presença do marido em casa e perguntou:
- E tu? Que estás a fazer aqui em casa a esta hora? Sentes-te bem?
- Estou óptimo! Vim aqui procurar uns papéis que me fazem falta lá na empresa.
- Está bem! – rematou a gorducha.
O passarão do Mesquita voltou a entrar no escritório, pegou num dossier e disse para a apavorada Amélia:
- Não tenhas medo! Ela foi para o quarto e vai-se despir. Eu vou lá controlar os movimentos e quando for seguro passo por aqui, abro-te a porta e vens atrás de mim. E tem calma que não vai haver nenhum problema.
Mas eis que a mulher entra no escritório, em trajos menores e vê o homem e a loira.
A primeira reacção foi de tal estupefacção que ficou paralisada, mas não demorou muito a dizer num tom de voz nada amistoso:
- Mas quem é esta mulher?
- Que mulher? – perguntou o mariola.
- Que mulher? Essa loira que está aí ao teu lado! – especificou ela.
- Mas aqui não está ninguém! Que se passa contigo? Estás com alucinações? – negou ele com uma tremenda convicção.
- Tu não me queiras convencer que estou maluca porque estou muito bem da minha cabeça e dos meus olhos – falou a Eva, já aos gritos e com as banhas a saltitar.
- Desculpa, meu amor! Mas de facto não está aqui ninguém. – insistiu o homem na mentira – Só nós os dois.
- Ai não? Então espera aí que já vais ver se está ou não está! – e dirigiu-se para a dispensa tão depressa quanto o pesado rabo manchado por celulite lhe permitia.
- Anda agora, Melinha! É o momento de saíres. Vem atrás de mim.
E levou-a rapidamente até à porta da rua, dizendo:
- Vai de autocarro para a empresa. Depois falamos.
E empurrou a aturdida amante para o pequeno jardim que ficava na frente da habitação, fechou a porta e, quando chegou ao escritório já lá estava a mulher de vassoura em punho.
- Onde está essa galdéria? Vai levar umas mocadas e depois quero que me digas se está ou não está cá alguém.
- Podes ter a certeza que não há cá mais nenhuma mulher além de ti, Eva!
- Ai meu sacana que já a puseste na rua! – discerniu ela.
E, começou a dar umas vassouradas no seu homem, enquanto bradava:
- Não apanha ela, apanhas tu, meu estupor! Toma! Toma!


publicado por António às 14:04
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26 comentários:
De Paula Raposo a 13 de Abril de 2007 às 14:52
Está divino este teu conto!! Eh eh eh ri que me fartei! A mulher invisível, grande ideia!! Boa! Gostei imenso. Beijinhos.


De António a 13 de Abril de 2007 às 15:29
Estás a ver, Paulinha!
Estou a contribuir para a tua saúde...ah ah ah.
Obrigado pela visita.
Beijinhos


De Maria Papoila a 13 de Abril de 2007 às 17:28
António:
A tua imaginação não tem limites esta foi das histórias mais divertidas que li. Ri-me a perder com esta história.
Beijoa


De Diva a 13 de Abril de 2007 às 17:29
Olá António, recomendaram-me que viesse ler esta história com a promessa que me iria fartar de rir. Bingo! Está espetacular mas é preciso ter muita lata..... além de enganar a mulher ainda a faz passar por "louca burra"... Adorei.!! Só gostava de saber se essa "Amélia" é alguém que eu conheça......
Beijinhos e bom fim de semana!


De António a 13 de Abril de 2007 às 22:44
Olá!
Obrigado pelo comentário.
Não te posso dizer se a "Amélia" é alguém que conheças porque eu não sei quem és.
Mas não deve ser...eh eh

Beijinhos


De ana joana a 13 de Abril de 2007 às 21:19
Olá António , A latosa do cromo! ahahahahah . Também aquela Eva em vez de se atirar logo à lambisgóia ainda foi buscar a vassoura! Então um belo puxão na cabeleira loira não seria uma eficaz primeira abordagem???? É o que acontece quando as pessoas não acreditam nas suas capacidades eheheheheheheeh - é só deixar fugir as oportunidades!

Beijinhos António
Vou-me embora a rir!

Ana Joana


De António a 13 de Abril de 2007 às 22:47
Olá, Ana Joana!
Obrigado pelo comentário.
Se a Eva se atirasse ao cabelo da Melinha para um corpo a corpo a história seria outra e muito mais erótica.
ah ah ah
(e eu sou muito contido...eh eh)

Beijinhos


De nena a 13 de Abril de 2007 às 22:14
ai bate, bate..bate a preceito..
ai bate, bate..
que este homem não tem geito..
mete-se cas cachopas..\ vai de vassourada..
e mijei-me a rir..
nem me digas nada..
ai bate, bate..\ bate com geito..
o que é que este homem..
não terá já feito..
deves ser fresquinho..
meu Antóniozinho..
que és um bom galã..
nanarã,narã.ã..
nã,nã.rã.nã.nãaãaã..
nem me digas nada..
que história engraçada..
e toma lá beijinho\ meu ganda fresquinho..
(hi.hi.hi.hiii.hi..(é um rir fininho)


De António a 13 de Abril de 2007 às 22:54
Olá, Nena!
Obrigado pelo comentário tão rimado...ah ah ah.
Agora deixa-me dizer-te uma coisa muito a sério: (olha para a minha foto para veres como estou sério)
Isto é pura ficção e imaginação.
Não se inspira em nenhum facto real (do meu conhecimento) e muito menos passado comigo.
Eu era incapaz de fazer qualquer coisa de parecido!!!!
ihihihihihihihihhihih
(eu já sabia que era um riso fininho...eh eh)

Beijinhos


De Morgaine a 13 de Abril de 2007 às 22:42
Antóoniooooooooooooo grande malandrooooooooo? Olha lá, quando levaste com as vassouradas doeu muito? hehehe
Está espectacular e o riso já começa a meio do conto!

Beijos e bom fim de semana


De leonoretta a 13 de Abril de 2007 às 22:49
ola antonio
obrigado pela tua continuada visita la no sitio e pelo sempre amavel comentario.
realmente, pretender uma invisibilidade da mulher foi a melhor saida. como se diz em psicologia: inteligencia, na medida em que foi a palavra certa para a situação.
depois temos a escrita coloquial que flui sem esforço na mente do leitor tornando-se aprazivel e sempre á espera da frase seguinte.
abraço da leonoreta


De António a 13 de Abril de 2007 às 23:16
Querida Leonor!
Tenho sempre muito prazer em ir ao teu sítio, como sabes, assim como tenho prazer em te receber no meu.
Obrigado pelo teu comentário e volta sempre porque és recebida com um sorriso.
(achei interessante teres usado a palavra sítio em vez de site ou blog)

Beijinhos


De bomdiaisabel a 14 de Abril de 2007 às 10:24
E aproveitando a " deixa" da Leonor, digo-te que gosto muito de vir ao teu sítio ( cuidado com os eufemismos , metáforas, hipérboles e quejandos)embora o faça, aqui, mais esporadicamente do que no anterior. Dá mais trabalho entrar nesta "vivenda". Quando regressas à primeira?
Voltando ao teu conto, só te posso dizer que a tua imaginação continua com uma fertilidade espantosa. Sabes que Melinhas, Mesquitas e Evas não faltam por aí e, por conseguinte, deixaste-nos mais um fragmento deste quotidiano numa tragicomédia muito, muito cómica e que poderá tornar-se muito, muito trágica. A Eva não deve ficar pelas vassouradas.
Deixo-te beijinhos e desejo-te um óptimoo fim-de-semana.


De Caiê a 14 de Abril de 2007 às 14:06
Surpreendente! A lábia do homem! Não é caso único, há mesmo tipos assim... MAs bem bom que apanhou umas vassouradas! Ah ah ah! :)


De Graça Pimentel a 15 de Abril de 2007 às 17:34
Acho o conto giro. Mas, contrariamente à maioria dos "comentadores", apenas sorri. Apreciei as características, tão reais, do "marido" e da "amante". Há homens que sabem cantar a música que uma mulher gosta de ouvir e há mulheres que são levadas por quem lhes canta a música que gostam de ouvir. Normalmente essas mulheres lixam-se. Aqui quem apanhou foi ele. A mulher dele deve ser loira...


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