Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças!
Quinta-feira, 16 de Julho de 2009
As "sopeiras"

Na geração dos meus pais, e outras anteriores, as pessoas dos vários níveis da burguesia tinham, normalmente, uma empregada interna que fazia grande parte parte dos serviços domésticos, muitas vezes com a colaboração da patroa que, não tendo uma profissão remunerada, orientava os trabalhos da casa e cuidava dos filhos e do marido que era o único a trazer dinheiro para o lar.

As excepções a esta regra só a confirmam.
Oficiosamente, a profissão das “donas-de-casa”, assim se chamavam as patroas, era a de “domésticas”.
Por outro lado, as empregadas, normalmente raparigas novas, solteiras, pouco letradas ou mesmo analfabetas, provinham maioritariamente de famílias rurais pobres.
Eram chamadas de “criadas”. Mais tarde passaram a ser conhecidas como “empregadas domésticas”. Recebiam ao mês, sem recibo nem qualquer tipo de descontos. Algumas passavam a vida inteira a servir os mesmos senhores e até os filhos destes, mas a maioria acabava por casar ou ir viver maritalmente com o seu amor, mas fixando-se nas cidades.
Pois eram as criadas que, na gíria, eram conhecidas como “sopeiras”.
Nos anos 60 começou a impor-se um outro tipo de serviço doméstico: o das “mulheres-a-dias”, que eram empregadas externas que viviam, logicamente, fora da casa dos patrões, casadas e, na maioria dos casos, tinham sido criadas.
A folga das sopeiras era, geralmente, ao domingo de tarde e as mais afoitas saíam sozinhas e iam para parques e jardins (o do Marquês de Pombal, no coração da urbe portuense, era o mais popular) onde apareciam os “magalas”, jovens soldados que estavam estacionados em quartéis da cidade ou sua periferia e muitos eram também de origem rural e pobre. Lá se engatavam e muitos casamentos daí surgiram. Claro que também apareciam os mariolas que seduziam e abandonavam as moçoilas, muitas vezes já no seu estado interessante.
Outra praga que recaía sobre as jovens recém-entradas na vida cosmopolita das cidades eram os filhos dos patrões que muitas vezes perdiam com elas a virgindade. Estas histórias acabavam muitas vezes num obscuro quarto onde uma qualquer “parteira” fazia o desmancho que encobria a incómoda situação para a família burguesa.
 
Nas casas onde habitaram os meus pais, primeiro uma muito pequena na Rua de Oliveira Monteiro (ao Carvalhido) com o número 1015, e a partir dos meus sete anos numa outra situada nas Antas, muito perto do antigo estádio com o mesmo nome, na Rua de Vasques de Mesquita, sendo o número do correio o 232, ambas arrendadas e hoje já demolidas (a primeira situava-se onde hoje se cruzam a Rua de Oliveira Monteiro com a da Constituição) …
 
Faço uma pausa no que ia escrever pois, já que estou com a mão na massa, como sói dizer-se, vou referir alguns pormenores dessas habitações.
A primeira tinha uma porta e uma janela viradas para rua, um corredor longitudinal que terminava na cozinha que tinha ainda fogão a lenha. Depois, à esquerda havia a sala de jantar com uma janela virada para uns vastos campos nas traseiras e à direita um pequeno terraço com acesso à casa de banho e a uma escada de pedra, larga, que descia para um quintal empedrado e com 3 ou 4 níveis de pavimento. Ao fundo havia um portão que dava para a rua mas nunca era utilizado. À direita do fundo das escadas abria-se uma porta que permitia a entrada para uma cave que funcionava como espaço para arrumos e onde, apesar dos ratos, aranhas e outra bicharada, dormia a criada e algumas visitas, coitadas! Nem eu nem a minha irmã lá íamos sozinhos pois o seu aspecto lúgubre atemorizava-nos.
Ao entrar na habitação e logo no início do corredor, à esquerda, ficava o quarto dos meus pais com um espaço interior separado onde eu dormia e o meu pai improvisara um escritório. A mana Fernanda dormia no quarto dos papás que era o que tinha a única janela que estava virada para a rua barulhenta, especialmente quando passava um carro eléctrico da linha 6.
Com estas péssimas condições, e depois de eu fazer a 1ª classe na escola do Carvalhido, mudamos.
E que salto qualitativo!
A casa das Antas ficava numa rua sem saída pelo que não havia nenhum tráfego automóvel ao contrário da casa velha, como passamos a chamar à de Oliveira Monteiro. Tinha dois pisos e um pequeno quintal traseiro.
A entrada era larga e com pavimento de azulejo. Depois havia um hall, uma sala com dois compartimentos, um que era o escritório do pai, ao fundo, com uma janela para a rua, e um outro a que chamávamos a sala do piano pois nele estava colocado um desses instrumentos musicais e tinha um grande postigo aberto para o exterior com um gradeamento do lado de fora. Na zona recuada desse primeiro piso havia uma sala de jantar ligada ao hall por uma larga porta envidraçada e ao jardim por uma outra porta também muito rasgada. Uma dispensa, interior, uma cozinha e uns pequenos lavabos eram os outros compartimentos. Era na cozinha que estava a porta que utilizávamos para ir para o quintal. Este tinha uns canteiros que eram arranjados de tempos a tempos pelo Sr. Moreira, um velhote que vivia perto, um galinheiro, uma ameixieira que só dava frutos a cada dois anos e que os pais acabaram por mandar derrubar para tornar mais soalheiro esse espaço.
No andar superior havia dois quartos virados para a frente: o do casal, que tinha uma varanda e o da Nanda; e dois para as traseiras: o meu e o da empregada. Este funcionava também como local para costurar e passar a roupa a ferro. Os três tinham janelas. Agora, e ao contrário da casa velha, todas elas tinham persiana. No meio ficava o quarto de banho iluminado por uma clarabóia, sendo que era uma segunda abertura dessas que deixava a luz do dia iluminar as escadas. Estas nasciam no hall e terminavam num espaço comum do andar superior.
E penso que agora já se percebe que o tal salto qualitativo resultante da mudança de casa foi enorme.
Em frente à casa havia um enorme espaço cheio de pinheiros e eucaliptos.
Que pureza de ar!
 
Depois desta longa e chata descrição, voltemos ao ponto em que eu escrevia:
 
Nas casas onde habitaram os meus pais, sempre houve uma criada que ajudava a dona-de-casa, a minha mãe. Lembro-me de algumas das muitas que connosco viveram. A Rosa, a Maria Júlia, a Alice, a Tina, a Deolinda, a Arlete, uma outra Júlia, não sei quantas Marias e muitas outras cujo nome não recordo, mas de algumas ainda lembro as feições e as características físicas. Uma delas, depois de nos deixar, tornou-se corista em revistas do Parque Mayer, em Lisboa.
Como eu era tímido mas com uma libidus bastante intensa, algumas delas não deixavam de me excitar, mas os meus pais eram cautelosos e não permitiam que se criassem situações que dessem azo a problemas.
Até que, teria eu os meus dezasseis anos, descobri que por volta das onze da noite, numa casa das traseiras, a criada que lá trabalhava se ia deitar sem ter o cuidado de tapar os vidros da janela. E como se despia toda, eu tinha ali um show de strip-tease nas noites em que podia pôr-me a espreitar.
Muitas vezes, quando o tempo estava convidativo, os meus pais iam dar um passeio a pé, o chamado passeio dos tristes, depois de jantar. Umas vezes demoravam pouco mais de meia hora, outras mais tempo. Às vezes calhava de encontrarem pessoas conhecidas e regressavam mais tarde.
Uma vez, estava eu com a luz apagada e ver a sopeira da vizinha toda descascada, quando me apercebi que os velhotes já estavam a subir as escadas.
Meti-me na cama, ofegante, acendi a luz da mesa-de-cabeceira e peguei em qualquer coisa que estava à mão para simular que estava a mexer nisso.
O meu pai entrou no quarto e perguntou-me se estava tudo bem. Eu respondi a gaguejar, a respirar mal e com o olhar muito fixo. Além do mais, temia que ele fosse junto da janela e visse a acalorada rapariga descobrindo assim o meu segredo erótico.
Quando saiu, ouvi-o dizer à minha mãe:
- Passou-se alguma coisa de estranho!
Mas o que pensaram foi que algo tivesse ocorrido entre mim e a criada, uma moça que tinha uma pancada na cabeça e que gostava muito de mostrar as coxas.
Esta cena foi importante porque marcou uma viragem: não demorou muito tempo que a sopeira fosse embora e, a partir daí, começaram a contratar mulheres-a-dias.
Entretanto, a empregada da vizinha também desapareceu, eu cresci, comecei a sair à noite e as sopeiras passaram a ser uma recordação da infância e de parte da adolescência.
Todavia, não posso terminar sem referir que algumas delas foram marcantes pela dedicação a toda a família e chegaram a ser tratadas quasi como se fizessem parte dela.
Um nome a destacar: Alice.


publicado por António às 22:16
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25 comentários:
De Gisela a 17 de Julho de 2009 às 01:07
É uma história apelativa :)

Mais uma memória futura!

Beijinhos


De António a 17 de Julho de 2009 às 08:00
Olá, querida Gisela!
Um texto para memória futura, sem dúvida.

Beijinhos


De primavera a 17 de Julho de 2009 às 12:35
Memórias de infância...Perduram para sempre!

Beijinho


De António a 17 de Julho de 2009 às 12:48
Olá, querida Rosinha!
Sim!
E quero deixá-las em livro para a posteridade...

Beijinhos


De wind a 17 de Julho de 2009 às 14:21
Gostei muito de ler, pois relembrei histórias da minha mãe e da minha meninice:)
Claro que continuas excepcional nas tuas descrições:)
Beijos


De António a 17 de Julho de 2009 às 17:38
Olá, Isabel!
Obrigado pelo teu comentário.
Gosto que gostes.

Beijinhos


De Bárbara a 18 de Julho de 2009 às 19:20
Querido António,

Vejo que continuas "louco" e ainda bem.
Há mais de 3 anos que as minhas andanças não passam pelos blogs mas foi muito, muito bom reencontrar-te nesta nova morada ao fim deste tempo todo.

Como sempre... deste-me a mão e levaste-me contigo num passeio incrível!

Sempre gostei das tuas descrições, principalmente porque muitas vezes se cruzaram com vivências minhas ou da minha família. Esta é uma delas :) Ainda hoje há sopeiras em Vila Marim, em casa de umas primas minhas, já velhinhas. E a história dos filhos dos patrões fazerem filhos às "criadas" é mesmo verdade pois sei que, algures, tenho alguns parentes que foram concebidos assim!

Vou tentar regressar ao teu canto com alguma regularidade.

Já te disse que o meu pai, desde 2007, já editou 5 livros? Começou impulsionado pelo meu gosto pela escrita e não mais parou. Devias fazer o mesmo! Tens talento!

Beijinhos!!!

Bárbara (do velhinho Sublimações)


De António a 19 de Julho de 2009 às 12:32
Mas que surpresa, querida Bárbara!
É bom ver-te por aqui ao fim de vários anos.
Espero que entretanto a vida te tenha sorrido.

Agora eu estou reformado definitivamente.
Em Outubro de 2008 publiquei um livro de contos que me deu mais trabalho a vender do que a escrever...
Por isso, nestes meses tenho escrito muito pouco. Por isso e porque não tenho tido vontade.
Tencionava publicar outro livro de contos no próximo Outono mas só vai ser possível lá para Fevereiro de 2010. Depois tenho quatro novelas e um livro de memórias para serem lançados um a cada ano. Se for possível, claro!

E tu?
Não tens escrito?
Sabes que tens um talento especial.
Não o desperdices.

Podes contactar-me para:
a.castilho.dias@netcabo.pt

Um xi-coração muito apertado e...
...até sempre!


De leonoreta a 18 de Julho de 2009 às 20:00
ola antonio
as sopeiras e os magalas e os filhos dos patroes e os patroes e o abuso dos poderes de quem tinha tudo sobre quem nao tinha nada
e era assim que se brincava com a dignidade humana de quem precisava de trabalhar para comer.
claro que estes relatos da alguns aspectos sociais da nossa cultura sao sempre mais interessantes quando cruzados com historias pessoais.
beijinhos


De António a 19 de Julho de 2009 às 12:37
Olá, querida Leonor!
Obrigado pelo teu comentário.
Olha que as sopeiras não eram violadas...algumas, se calhar, pensavam que podiam asseguram melhor o futuro se tivessem filhos dos "meninos". E muitas conseguiram-no.
É uma outra face da moeda, pois claro!

Beijinhos


De Maria a 19 de Julho de 2009 às 12:55
Meu querido Amigo
Nao resiti e, deixei o livro "As noites das mil e uma noites" de Naguib Mahfouz ,a meio( ele que me perdoe, mas foi por uma boa causa lol), para ler o teu " Pelos trilhos de betão" ...
Parabéns pelo teu "primogénito", de leitura facil, humorada, e actual.
Um abraço grande deste lado do Atlantico, e cá fico á espera do segundo "filho".
Maria Vargas


De António a 19 de Julho de 2009 às 13:12
Olá!
Muito obrigado pelo teu comentário.
É bom saber que apreciam o que escrevo.

Beijinhos para ti


De MARINA a 19 de Julho de 2009 às 13:51
AÍ PROSE IRO ..ESTOU AGORA A CONHECER SEUS ESCRITOS ..ESTOU GOSTANDO.. PARABÉNS ....
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AÍ PROSE IRO ..ESTOU AGORA A CONHECER SEUS ESCRITOS ..ESTOU GOSTANDO.. PARABÉNS .... <BR><BR class=incorrect name="incorrect" <a>BEIJOSSSS</A>


De António a 19 de Julho de 2009 às 14:18
Muito obrigado!

Mas parece que não utilizaste o sistema muito bem: acusa erro.

Beijinhos


De MARINA a 19 de Julho de 2009 às 14:35
POIS ,ACHO QUE AINDA NÃO SOU MUITO ÍNTIMA COM ESTE TRECO..RRSRSRSR MAS CHEGO LÁ....
ENGATINHO ..PROSEIRO BEIJOS
E CONTINUE PARA NOSSO BEM COM TUAS DESCRIÇÕESSSSSSSSSS
MARINA


De António a 19 de Julho de 2009 às 18:05
Agora já está melhor!
Mas podes escrever com letra minúscula, ok?

Beijinhos


De Brito Ribeiro a 20 de Julho de 2009 às 15:05
Guardo uma imagem muito viva da Vossa casa nas Antas e do terreno com uns eucaliptos enormes. Recordo tambem as vagonetes suspensas que transportavam o carvão desde S. Pedro da Cova. Esta recordação tem mais de quarenta anos certamente.
Quanto às sopeiras... eu não tive tanta sorte! A que havia na casa dos meus pais tinha uns sessenta ou setenta anos e um mau feitio que metia respeito. Talvez te lembres dela, chamava-se Ermesinda.
Abraço


De António a 20 de Julho de 2009 às 17:45
Obrigado pelo comentário!

Claro que me lembro da Ermesinda...ah ah ah

As tuas irmãs ainda se devem lembrar da casa de Oliveira Monteiro.

Um abraço


De Paula Raposo a 20 de Julho de 2009 às 20:40
Nesse tempo era mesmo assim. Em casa do meu Pai a Ana foi quem o criou e só saiu de lá quando depois dos 90 foi morrer à terra. Nunca casou.
Até eu casar e sair de casa passaram algumas criadas a quem a minha Mãe ensinou tudo. Não foram muitas porque estavam muitos anos connosco. Um tempo giro. Uma delas disse-me que não existia Menino Jesus e que quem dava as prendas no dia de Natal eram os Pais...grande idiota que me tirou o sonho! O curioso é que nem lembro do nome dela!! Beijinhos.


De António a 20 de Julho de 2009 às 21:54
Olá, Paulinha querida!
Afinal as "sopeiras" acabaram por ter mais influência na nossa vida do que pode parecer se não meditarmos um pouco sobre o assunto.
Obrigado pelo comentário.

Beijinhos


De maria taboas a 3 de Outubro de 2009 às 16:39
Olá, boa tarde, foi uma coincidência muito grande quando o meu marido me falou neste blog.É que talvez a minha mãe tenha sido uma das sopeiras que o Sr menciona. A Rosa. Tinha o Sr à volta dos 3, 4 anos de idade. A sua mãe chamava-se Julieta e o seu pai Fernando? A sua mãe era de Âncora? A minha mãe é de Darque mas mora em MonçãoTalvez possamos trocar impressões interessantes, pois a minha mãe ainda hoje se recorda e fala dos tempos em que foi sopeira aí. Ela hoje conta com 72 anos .


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