Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças!
Quarta-feira, 5 de Agosto de 2009
A Luanda que eu conheci (parte III e última)

E que aconteceu comigo durante este período?

Após o regresso de S. Tomé, o Rovuma continuou a navegar até que parou para novos trabalhos de manutenção.
Nessa altura, o João Távora, que estava a chefiar o Destacamento de Marinha do Cuando na povoação do Rivungo, junto da fronteira com a Zâmbia, lá longe no Cuando-Cubango, pediu o mês de férias a que tinha direito. Como eu não estava a navegar fui enviado no início de Fevereiro para o substituir. Acabei por fazer a desactivação daquela pequena unidade e só regressei a Luanda em princípios de Abril. Mesmo nessa zona recebia o jornal “Expresso” todas as semanas e mantive-me a par dos principais acontecimentos político-militares.
 
Pouco depois de regressar, e numa festa cuja causa já não recordo, travei conhecimento com uma funcionária do Comando Naval. A Zinha era mais velha do que eu sete ou oito anos, cabelos loiros e curtos, óculos graduados, franzina mas muito activa, com um magnífico BMW, separada do marido, com dois filhos no Continente e vivendo só num apartamento de duas assoalhadas duma torre situada perto do aeroporto. Não tardou muito que estivesse a viver com ela. Só lá não ia dormir quando os combates entre as facções angolanas eram mais encarniçados e a tropa portuguesa ficava de prevenção rigorosa (cada militar na sua unidade).
Vem a propósito referir que, uma noite, houve um tiroteio mesmo junto da Base Naval. Acordei com os tiros e fui espreitar, rastejando. E lá estavam os ex-guerrilheiros a lutar uns contra os outros. Acabada a batalha, com receio de ser atingido por balas perdidas de alguma nova refrega, adormeci no chão da camarata que ficava no primeiro andar. Na manhã seguinte apareceu o cadáver de um jovem dos seus dezoito anos mesmo junto do portão de entrada nas instalações navais. Era da FNLA.
Feito este aparte, direi que a Zinha tinha uma jovem empregada negra que ia algumas vezes por semana fazer trabalhos domésticos e levava uma filhinha ainda de meses. Uma menina linda! Notamos que ela tossia bastante e, ao fim de alguns dias, a Joana faltou. Fomos ao musseque saber o se passava (a Zinha conhecia bem a cidade) e verificamos que a menina estava às portas da morte. No dia seguinte faleceu com tosse convulsa ou coqueluche.
 
Entretanto, a debandada dos colonos continuava e cada vez mais intensa. Quando escrevo colonos estou a ser redutor, pois muitos negros e mestiços também abandonaram a cidade. Mais…todo o território.
A Universidade de Luanda viu-se sem muitos professores e, para poder leccionar o 2º semestre, recorreu a militares portadores de licenciaturas que por lá estavam. E assim fui dar aulas teórico-práticas de Física Geral. Como previdente que sou, tinha levado bastantes livros para Angola pelo que não me faltava bibliografia.
Os alunos eram quasi todos brancos. Contudo, recordo-me de uma bela e elegantíssima negra, muito bem vestida que, como fazia habitualmente com os alunos para os manter atentos, chamava ao quadro para resolver novos problemas com a minha ajuda (confesso que gostava de a ver de pé – um espectáculo) mas sabedoria não era o seu forte. Todavia, também me lembro de dois rapazes pretos, de aspecto humilde mas sempre de fato e gravata, embora a roupa estivesse em mau estado e amarfanhada, que eram muito aplicados mas muito lentos na resolução dos problemas. Não foi sem surpresa que, na prova final, tiveram a melhor nota. Penso que o facto de haver mais tempo para resolver os exercícios propostos e a motivação da independência do seu país a curto prazo, em contra-ponto com a desconcentração que grassava entre os alunos brancos, pode justificar o resultado. No decorrer do semestre, uma universitária branca (e eu refiro sempre a cor da pele pois isso é importante para se perceber melhor o que era a Luanda daquela época) muito conhecida, embora não por mim, estava no jardim de sua casa sentada, a estudar, quando foi atingida mortalmente por uma bala perdida. Foi uma ocorrência triste que ainda fez aumentar mais o pânico na população de raça caucasiana. Muitos alunos deixaram África antes de se ter concluído o semestre.
 
Entre o meu regresso do Rivungo e o início da minha relação com a loira, o Rovuma foi mandado regressar ao Continente. Não sei porquê, mas talvez porque ainda estivesse um pouco “apanhado” pelo tempo incrível que passei na savana, troquei com o Zulmiro que estava no NRP Orion e era casado. Também lhe comprei o Fiat 500. Como este navio estava em doca seca (da qual nunca mais saiu até ao meu regresso a Portugal), eu continuava sem navegar e dedicado ao ensino e a uma vida de casado. Uma vez, a Zinha resolveu cozinhar muamba, um prato à base de galinha mas com uma série de condimentos africanos que o poderiam tornar muito picante e lhe davam um paladar desconhecido para mim. Gostei!
 
Por essa época vim passar duas semanas de férias a Portugal tendo prescindido do mês a que tinha direito por razões que não recordo, mas seguramente que o facto de em poucos meses estar definitivamente de regresso pesou na minha decisão. Estive na casa dos meus progenitores, naturalmente, e achei que o meu pai estava com o cabelo muito mais embranquecido e mais envelhecido. O 25 de Abril não tinha sido nada bom para ele. Também fui ver um tio paterno, o Gilberto, que estava em casa, a morrer. Globalmente, e apesar da satisfação de rever a minha família e alguns amigos, não foram duas semanas muito agradáveis, não sei bem porquê.
 
Regressado a Luanda, constatei que o meu Fiat 500, cujas chaves entregara ao Vilela Bouça, estava a fazer barulhos estranhos no motor. E um dia pifou. Soube depois que toda a gente andou a fazer peões com o meu carro durante a minha ausência. Como tinha sido muito barato, preferi não arranjar zangas numa fase complicada como aquela. Comprei um Fiat 850 que saiu um fiasco e por lá o deixei. Também havia sido ao preço da chuva…
A minha companheira, entretanto, vendeu o BMW e comprou um pequeno Mitsubichi.
Com medo de ficar só no seu apartamento afastado da baixa citadina e sobretudo pelas zonas perigosas que tinha de atravessar ao ir para o trabalho ou para o centro, também largou o T1 e alugou um outro apartamento na baixa.
Entretanto, a cidade que eu conhecera tornava-se cada vez mais descaracterizada.
Como estava mais triste e feia…
Restava a vista sempre linda da baía.
Nas montras só se via um tipo de artigo para vender: ventoínhas. E nas ruas cada vez menos pessoas e menos tráfego automóvel. Era uma cidade moribunda, quasi fantasma.
A Zinha continuava a pensar em continuar por lá. Eu, prevendo que haveria muito desemprego em Portugal, fui à Refinaria da Petrangol, no Cacuaco, oferecer os meus préstimos. A minha candidatura foi muito bem vista, mas só se poderia concretizar depois de me desvincular da Marinha.
Estávamos no fim de Setembro e a minha viagem de regresso foi marcada para o dia 1 de Outubro de 1975.
Pouco antes a Zinha disse-me que estava grávida. Decidimos que não era nada oportuno ter um filho naquela altura e assim se cumpriu.
 
Regressei ao continente com a ideia de voltar como civil.
Gozei um mês de férias, deixei a Armada e contactei a Petrangol. Ao fim de pouco tempo disseram-me para fazer uns exames médicos e não sei mais o quê para poder ser admitido a ir trabalhar na refinaria.
Acontece que, por esses dias, li no jornal que Luanda era o objectivo a conquistar por forças armadas: a sul por uma que viera da Namíbia (ou da África do Sul, não sei ao certo) e cuja composição era mal definida e a norte pelas tropas da FNLA que estacaram a poucos quilómetros do Cacuaco antes de desferirem o assalto final.
Cautelosamente, resolvi adiar sine die os exames médicos e acabei por esquecer o trabalho em Luanda.
Entretanto, o MPLA, ajudado por tropas cubanas enviadas por Fidel Castro, rechaçou os ataques que estavam eminentes e ficou definitivamente de posse da capital.
A Zinha também voltou a Portugal e foi viver com a avó e os filhos numa localidade perto de Oliveira de Azeméis. A relação manteve-se durante mais cerca de dois anos. Acabou e nunca mais a vi.
 
Antes disto, no dia 10 de Novembro de 1975, o Almirante Leonel Cardoso, que em Agosto passara de Comandante Naval a Alto-Comissário, deixou Angola sem entregar o poder a ninguém – a independência foi “depositada” nas mãos do Povo angolano, contando a partir do dia 11.
 
Nunca mais voltei a Luanda.


publicado por António às 22:05
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23 comentários:
De Gisela a 6 de Agosto de 2009 às 01:03
Muito trabalho, decerto!

és incansável ...

Continuação de boa inspiração!

Beijinhos


De António a 6 de Agosto de 2009 às 08:54
Olá, querida Gisela!
Muito trabalho deu o conjunto de textos sobre Luanda, podes crer, mas quem corre por gosto não cansa.

Beijinhos


De MARINA a 6 de Agosto de 2009 às 12:03
Parabéns proseiro....
Linda narrativa de factos veídicos,vividos por ti....
Gosto até porque são fatos novos pra mim..
Proseiro é cultura tbem.beijos bons amigo..


De António a 6 de Agosto de 2009 às 12:55
Obrigado pela tua visita e pelo teu comentário, querida Marina!

Beijinhos


De wind a 7 de Agosto de 2009 às 13:22
Gostei de ler esta 3ª parte.
Foste bastante fiel aos acontecimentos.
Já provei cá moamba e adorei:)
Beijos


De António a 7 de Agosto de 2009 às 13:46
Olá, querida Isabel!

Obrigado por mais uma visita e mais um comentário.
Eu escrevi "muamba" e tu "moamba"...agora tenho de ir ao Google ver como é.
Se calhar tem as tuas grafias...eh eh

Beijinhos


De leonoreta a 7 de Agosto de 2009 às 19:38
ola antonio
creio que é moamba.
nao custa a nada a fazer. se eu sei é porque é muito facil.
tempos que viveste e gostaste.
fantastica a tua memoria que poderei chamar pela representação nitida dos acontecimentos de eidética.
beijinhos


De António a 7 de Agosto de 2009 às 21:11
Olá, Leonor querida!
Obrigado pela visita e comentário.
Há as duas grafias mas, segundo pessoas que viveram lá muitos anos, "muamba" é a mais comum.

Beijinhos


De Maria a 7 de Agosto de 2009 às 23:18
Olá António passo por aqui muitas vezes, normalmente não comento mas hoje não resisti, eu vivi em Luanda em 1973e 1974 era miuda mas como eu me lembro dos tiros das luzes apagadas do recolher obrigatório do medo, mas tambem me lembro de paisagens lindas, do conviver na rua da fartura de mariscos, das comidas picantes, do gelados á noite comprados no 'polo norte ' e que se derretiam antes de conseguir comer tudo, o reclame da cuca na baía...
Tambem nunca mais voltei .


De Maria a 7 de Agosto de 2009 às 23:25
esqueci-me de dizer que o meu pai estava no NRP Pégaso. Passei muitas tardes de fim de semana a bordo, a ler sentada ao pé da roda do leme imaginando que tambem poderia ir para a marinha e ser eu a segurar na roda, naquele tempo para mim a frase'Á Patria honrai que a Pátria vos contempla' era qualquer coisa que mexia comigo


De António a 8 de Agosto de 2009 às 08:29
Obrigado pela visita e pelos comentários.
Deves ter menos uns 20 anos do que eu.
Dos oficiais que referi, lembro-me que o Barreiros Antunes esteve na Pégaso.
De que oficiais desse NRP te lembras?
Volta sempre!

Beijinhos


De Maria a 8 de Agosto de 2009 às 18:37
O comandante era qalquer coisa Brito Subtil e lembro-me bem do enfermeiro, chamava-se Vieira equanto á idade são 47


De António a 8 de Agosto de 2009 às 19:02
Exactamente!
Lembro-me perfeitamente do nome - Brito Subtil.
Mas não me lembro bem da sua fisionomia (acho que tinha barbas). Era oficial do quadro.
Não me lembro de quem era o imediato, esse era da Reserva, com certeza.
47 anos?
Então na altura eu tinha 26 e tu 13 anos...o tempo passa, hein?

Beijinhos


De Brito Ribeiro a 8 de Agosto de 2009 às 22:57
Uma fantástica lição se história... e de vida.
Abraço
BR


De António a 9 de Agosto de 2009 às 00:42
Obrigado pela visita e comentário.

Abraço


De José Zulmiro Barbosa a 27 de Outubro de 2009 às 02:14
Com que então a malta a fazer peões com o Fiat 500 que te vendi por 6 contos ...Malandros...E do Kissunguila? Não dizes nada?

Um grande abraço...


De António a 27 de Outubro de 2009 às 08:02
Mas que grande surpresa!
Estás baril?
Eu, parece que estou.
Pois...6 contos. Não escrevi mas lembro-me muito bem.
Kissunguila?
Não me recordo.
Ou será que era uma "boite" que ficava na Ilha, lá para diante, onde os apanhados do Rivungo costumavam ir?
ah ah ah

Vai aparecendo!

Abraço


De José Zulmiro Barbosa a 27 de Outubro de 2009 às 15:21
Estou a adorar o teu blog...Alexandre Herculano, Faculadade de Ciências, tropa, Angola , PÉROLA NEGRA !,tudo em revisitação e o mais que ainda não li,por falta de tempo...`Dà -me o teu TLM ,para combinarmos qq coisa...


UM grande abraço



De António a 27 de Outubro de 2009 às 17:23
Oi!
Se clicares em "ver Perfil", sob a foto, tens o número do telemóvel. Mas, por ser para ti, eu repito...eh eh

96.400.33.58

E, em relação aos meus textos, ainda não viste da missa a metade.
Também escrevi muita ficção. Já publiquei um livro e no início de 2010 vou publicar outro.
Em suma: aproveito bem a reforma.

Grande abraço


De maria isabel canelas a 1 de Novembro de 2009 às 20:55
Um remate de história bem denso e repleto de História também!


De António a 1 de Novembro de 2009 às 21:42
Pois...histórias e História

Beijinhos


De Marinheiro a 1 de Dezembro de 2009 às 17:33
Obrigado António
Foi por acaso que passei por aqui...
Com o seu texto pude recordar bons (e menos bons) dias vividos em Luanda e à volta.
Eu estive embarcado no NRP Sacadura Cabral; navio que chegou quando já muitos estavam para partir...
Cheguei por Junho/Julho de 74 mas ainda tive tempo, oh, se tive!, para poder sentir todos aqueles diferentes odores, e conhecer muito boa gente.
Um abraço, obrigado uma vez mais.


De António a 1 de Dezembro de 2009 às 18:18
Obrigado pela visita.
Tenho sempre muito prazer em que leiam os meus textos e os apreciem.

Saudações


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