Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças!
Quarta-feira, 12 de Agosto de 2009
Verões no Minho, junto ao mar (parte I)

Cerca de dezasseis quilómetros a norte da foz do Lima desagua no Atlântico um pequeno rio que nasce na serra d’Arga: o Âncora.

Na margem direita desenvolveram-se uma zona piscatória e outra balnear que fizeram com que surgisse Vila Praia de Âncora.  
É a terra onde nasceu, cresceu e viveu (e vive) uma parte da família de minha mãe e que está indissoluvelmente ligada à minha vida.
Em 1949, só com meio ano de idade, comecei a ir para lá passar o verão, ou uma fracção dele, e a fruir o sol, a água, o iodo e tudo o mais dessa estupenda praia cujo areal era muito ocupado por veraneantes na zona norte rio, do lado onde cresceu a vila, mas que tinha um grande extensão de areia para sul da foz, desocupada, que terminava nas rochas que antecediam as ruínas do forte do Cão. Mais pelo interior, e paralelamente ao mar, estendia-se nessa margem sul uma faixa dunar travada a nascente pelo pinhal da Gelfa. No final, num espaço em que já existia vegetação rasteira mas o terreno era ainda arenoso, fora construído um Sanatório, primeiro para doentes de tísica, mais tarde para quem padecia de males do foro psiquiátrico.
A areia era fina e branca.
O mar, na baixa-mar permitia que as pessoas nele avançassem mais de cem metros, sempre com pé, e deixava descoberta uma área de areia molhada que, naturalmente endurecida e alisada, era um chamariz para jogar futebol. Lá competiram amigavelmente, além dos normais veraneantes, jogadores de clubes importantes como Edmur, Caiçara e Ernesto do Vitória de Guimarães, António Simões do Benfica e Cesário do Sporting de Braga, entre outros, e que eram os ídolos daquele futebol estival.
Como todas as praias da costa ocidental, salvo aquelas viradas a sul como as da linha de Cascais ou as da zona de Setúbal (bem protegidas pelas serras de Sintra e da Arrábida, respectivamente), quando o vento norte começava a soprar tornava-as desagradáveis. Isso iniciava-se por volta da hora de almoço e terminava ao fim da tarde. Felizmente não acontecia todos os dias mas, quando se levantava a nortada, o melhor a fazer na praia era estar bem abrigado nas barracas.
Estas eram paralelepipédicas, quasi cúbicas, feitas de um pano de algodão amarelo suportado por uma estrutura ligeira em madeira. Eram alugadas às banheiras. Mas havia também outras mandadas construir particularmente. Essas destacavam-se por serem maiores e encimadas por uma pirâmide quadrangular, em tecidos também de algodão mas mais resistentes e com cores e padrões mais variados. Fosse qual fosse o modelo, a parte da frente dos toldos tinha uma pala que podia estar fechada, aberta ou em posições intermédias. As barracas dispunham-se paralelamente à avenida marginal (que descreverei mais adiante), voltadas para a água. No outro lado do rio havia também algumas, nos meus tempos de menino em quantidade diminuta mas, com o decorrer dos anos, o seu número foi aumentando. Durante muitos estios os meus pais alugaram as barracas até que, num qualquer verão, resolveram mandar fabricar uma grande.
Um outro senão: as temperaturas, habitualmente baixas, da água do mar.
Mas os banhistas, caras quasi sempre repetidas ao longo dos tempos, já estavam habituados e não era isso que os inibia de mergulhar e nadar na água salgada.
Havia o rio, pois então, com muito pouca profundidade e água bem mais quentinha mas, como ao tempo não havia saneamento básico digno desse nome e muito menos tratamento de esgotos, era o meio receptor dos ditos. Apesar dos apelos dos papás para que não fossem para o rio, a criançada não queria outra coisa. Valia que, quando a maré crescia, a água do Âncora junto à praia ficava salgada e limpa de imundícies. Também numa zona a montante da de descarga dos efluentes, num local do lado interior das dunas e para cima de uma grande curva do rio, se juntava muita gente para tomar banho em água limpa e com uma profundidade mais adequada para nadar. Chamávamos a essa zona, as Dunas ou os Caldeirões.
 
A marginar o areal estendia-se a Avenida (assim chamávamos à avenida Dr. Ramos Pereira) que nascia junto do “portinho”, pequeno porto piscatório, a norte, não muito longe do forte da Lagarteira em frente ao qual, por vezes, assentavam circos ambulantes (alguns tão pobres que causava dó ver a quasi miséria em que os seus artistas viviam). Uma ou duas centenas de metros para norte do forte entrava-se numa zona rochosa onde havia viveiros de marisco pertencentes a uma tal Flávia. O seu filho Fernando, da geração dos meus primos mais velhos, jogava bem futebol. Já faleceu. Uma filha chegou a ser segunda classificada num concurso de Miss Portugal nos anos 50.
Retomando a descrição: para sul, a Avenida ia até uma zona arborizada, mas mal arranjada. Perto desse extremo era instalada, só durante o estio, uma débil ponte de madeira para permitir a travessia do rio sem ser a vau. Vários anos mais tarde construíram uma de pedra e betão, também pedonal, que numa noite tempestuosa de inverno foi derrubada pela força do mar. Fizeram uma outra que ainda perdura.
A Avenida tinha uma razoável largura, bem como os passeios. Do lado da praia era limitada por um extenso e contínuo banco de pedra que permitia que as pessoas se sentassem com algum conforto, apesar de não haver qualquer apoio para lá do granito bem polido e ligeiramente convexo. De tantos em tantos metros havia, alternadamente, um candeeiro com três lâmpadas e uma floreira com cactos instalados numa espécie de podium granítico. Do outro lado estava casario. Casas térreas ou, no máximo, com dois andares, como em toda a vila, aliás, e ao longo dos anos foram aparecendo alguns cafés, esplanadas e até restaurantes. Refiro o Verdes Lírios e o Oceano.
O passeio ladeado pelo tal banco prolongava-se para além da Avenida e marginava a zona arborizada a que já me referi. Esta viria a chamar-se, depois de aprimorada, Parque Dr. Ramos Pereira.
A meio do passeio com o referido banco de pedra, e em frente à principal via de ligação da praça central da vila à marginal – a rua Cândido dos Reis – aquele transformava-se num semi-círculo a que chamávamos a “meia-laranja”. Registe-se que, durante muitos anos, a principal rua era a Estrada Nacional 13 que passava pelo centro da terra.
Quer de dia, quer de noite, era esse passeio marginal o favorito das pessoas para andarem de um lado para o outro e também para as criancinhas pedalarem nos seus triciclos ou pequenas bicicletas. As maiores circulavam, ou deviam circular, no empedrado da faixa para viaturas. Quando as pernas começavam a ficar cansadas lá estava o longo assento para repousar.
Entre a Estrada Nacional e a Avenida, e paralela a estas, estendia-se a linha férrea do Minho, via única e larga, havendo junto da rua Cândido dos Reis um apeadeiro e uma passagem de nível com guarda (o Sr. Santos, durante muitos anos). A estação do comboio era um pouco mais a norte, junto de uma serração. Mais para o interior da vila, já na zona da encosta da Serra d’Arga, havia uma fábrica de manteiga, queijo e, mais tarde, iogurtes. Eram as duas principais indústrias de Âncora.
Nesse espaço mais afastado da praia havia o monte do Calvário com a sua enorme escadaria, a capela com um púlpito exterior em pedra onde, por brincadeira, eu disse alguns sermões, a “gruta” fechada por um portão, mesas e bancos em granito, um cafezito, um frondoso arvoredo e um miradouro. Também acessível de carro, dele se podia ter uma estupenda vista do vale do Âncora e da vila. No alto deste monte havia uma enorme cruz branca, iluminada de noite e bem visível da zona baixa.
Havia também certos locais do rio Âncora mais afastados da foz que, nas tardes ventosas, por vezes constituíam pontos de peregrinação a pé de grupos de rapazes e raparigas para fazerem pic-nics ou tomarem banho em águas límpidas e com uma agradável temperatura. Recordo o Paço, o Pincho e a Torre.
Assim, numa relativamente pequena área, havia mar, rio, praia, dunas, rochedos, pinhal, monte e campos de cultivo. A vila era o centro vital de tudo isso.
Não admira que tanta gente passasse lá as férias.
Eram sobretudo pessoas de terras minhotas: Braga, Guimarães, Valença, Monção, Ponte de Lima, Arcos de Valdevez e outras localidades. Mas também do Porto, de Trás-os-Montes e até do sul, sobretudo de Lisboa. A partir de meados dos anos sessenta começaram a aparecer os emigrantes portugueses na Europa e a praia tornou-se menos mundana e mais popular.
 
E que fazia eu por lá?
Dos primeiros anos não guardo muitas memórias.
Lembro-me que ficávamos alojados na então Pensão Meira, propriedade da minha tia mais velha, a Bela e do seu marido Simão (o tio Mão).
Algumas fotos, que ainda conservo, avivaram-me a memória e posso aqui escrever que no início dos anos 50 nem os homens podiam andar na praia de tronco nu. Era obrigatório usar um corpete. E eu, apesar de muito pequeno, também o vestia pois o cabo-do-mar era implacável na sua missão de impedir tão grave atentado ao pudor.
Cerca de dez anos mais tarde, ainda o cabo-do-mar avisava as incautas e espantadas turistas estrangeiras de que era proibido usar biquini. E assim elas abalavam para outras paragens em que os guardiões dos bons costumes fossem menos zelosos. Para o Algarve, ainda a dar os primeiros passos como região de veraneio internacional, por exemplo.
Entretanto, brincava como todas as crianças daquela idade. Jogar a bola, o ringue, correr, saltar, andar no baloiço e simular natação (todos os esforços para que eu aprendesse a nadar foram infrutíferos: nem mesmo as lições ministradas pelos banheiros, uma espécie de nadadores-salvadores da época, deram qualquer resultado) eram algumas das minhas actividades. Além da minha irmã, os meus parceiros eram os três filhos do Antoninho Oliveira e da Mariinha: o Carlos, a Nelinha e o Tatuna. Amigos da família, viviam no Porto e também estavam alojados na Pensão. Havia um tal Manel Ângelo de que tenho uma vaga lembrança e nunca mais vi e o Renato Nuno que andou comigo na primária. Também a loira Julinha, a paixão de todos os rapazinhos da época. E outros, quer ancorenses, quer forasteiros, mas que não recordo, de todo.
Partilhávamos a barraca com a família Oliveira, com familiares e, por vezes, com o Fernando Caiado, antigo jogador do Benfica, sua mulher Lucrécia e o filho.           


publicado por António às 21:44
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10 comentários:
De wind a 13 de Agosto de 2009 às 11:36
Como sempre uma excelente e minuciosa descrição:)
Beijos


De António a 13 de Agosto de 2009 às 13:04
Olá, querida Isabel!
Nunca falhas.
Estes textos são difíceis de escrever (pois não há uma história nem uma sequência cronológica) e chatos de ler.
Mas umas memórias minhas não os dispensam...

Beijinhos


De Gisela a 13 de Agosto de 2009 às 12:53
A Mimi contava que os guardiões dos bons costumes

eram zelosos, mesmo no Algarve!

Nada de biquinis! :)

Beijinhos


De António a 13 de Agosto de 2009 às 14:29
Olá, querida Gisela!

Acredito que sim...mas antes de meados dos anos 60.
Nessa altura já havia muito maior permissividade no Algarve, mas não em Vila Praia de Âncora.
Depois a coisa atenuou-se...tinha de ser, não?

Beijinhos


De Brito Ribeiro a 13 de Agosto de 2009 às 19:26
Uma viagem por locais que tão bem conhecemos. Aguardo a continuação.
Abraço
BR


De António a 13 de Agosto de 2009 às 19:44
Olá!
Faltam duas partes.
Já estão escritas mas faltam as afinadelas finais.
Uma será postada a meio da próxima semana e a última daqui a duas semanas, mais dia menos noite.

Abraço


De Elisabete Fragoso a 20 de Agosto de 2009 às 16:51
Ó meu amigo, pois do ínicio dos anos 50,nada sei...
Efectivamente nasci bem para o final dessa decada!
Mas os iogurtes , o queijo e a manteiga,ainda conservo o sabor na boca.
Vinham lá para casa às embalagens de supermercado,que não existia na altura!
Era mesmo o "Azeiteiro, um fornecedor porta a porta que nos traziam a casa! LOL
Já não me lembro o nome do homem, mas era muito melhor que os Hiper-mega-supermercados de agora,tudo fresquinho,embora sem frigorifico, directamente do produtor!
Das lembranças da praia,era ao banheiro que se alugavam as barracas,nunca vi uma banheira lá! rsrs
Li atentamente os dois e adorei as tuas recordações!
Beijos


De António a 20 de Agosto de 2009 às 17:52
Obrigado pela visita e pelo comentário.

Beijinhos


De maria isabel canelas a 1 de Novembro de 2009 às 19:53
Engraçado- o texto tem passagens que já são históricas, pela mudança de costumes....
Interessante também o pormenor expresso em cada coisa, seja objecto, pessoa, natureza......
Parece que há uma memória fotográfica que permaneceu na retina, seria?


De António a 1 de Novembro de 2009 às 19:56
Olá, Isabel!
Confesso, sem falsa modéstia, que tenho uma boa memória.
Obrigado pelo comentário.

Beijinhos


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