Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças!
Quarta-feira, 9 de Setembro de 2009
Um aluno exemplar

Fiz todo o curso geral dos liceus no Alexandre Herculano, do Porto.

Já uma vez referi que o professor que mais admirei foi o Eurico Telmo Campos, de Matemática. Mas houve outros de quem gostei muito, como o Carvalho Homem de Físico-químicas, o arquitecto Ávila de Desenho ou o Rui Esteves e o Alfredo dos Santos Balacó de Ciências Naturais.
É sobre este último e uma peripécia que se passou nas suas aulas que vou escrever.
Concretamente, nos anos lectivos de 1962/63 e 1963/64, frequentei o 4º e o 5º anos, respectivamente, de cujos curricula fazia parte a disciplina de Ciências Naturais (acho que este era o nome correcto) que integrava Mineralogia e Geologia, Zoologia e Botânica.
O professor era um sujeito de forte envergadura física, na meia-idade, cabelo grisalho penteado com risca ao lado, vozeirão potente, mãos tentaculares, óculos de grandes lentes e armação grossa assente na ponta do enorme e largo nariz e que dizia repetidamente:
- Co’a breca!
A sua autoridade era imanente da sua personalidade. O silêncio nas suas aulas era total, ou quasi.
(quando andava no último ano, entrou para o Alexandre Herculano uma jovem professora que era filha dele)
Eu era um bom aluno, sobretudo desde o 3º ano, que no final de cada período tinha média de 14 ou superior e comportamento qualificado como Bom. Consequentemente ficava no chamado Quadro de Honra e, a continuar assim, dispensaria do exame final do 5º ano, de âmbito nacional. Significava isso menos stress e a eliminação de um qualquer azar numa ou mais das provas terminais, além de mais um mês e tal de férias grandes.
 
Numa aula do Balacó, ainda no 4º ano, ele resolveu chamar-me para uma avaliação oral. Já tinha dado provas de que gostava de mim e não foi sem surpresa que me viu espalhar-me ao comprido.
Pegou no Caderno Diário e nele escreveu junto do sumário da lição desse dia qualquer coisa como:
“O aluno não estudou a matéria ensinada nas últimas aulas”
E assinou.
Devolveu-me o caderno e avisou sobre aquilo que eu já sabia pois era o normal:
- Na próxima aula traga-me isto assinado pelo encarregado de educação.
Cabisbaixo, voltei para o lugar, não tanto por não saber a matéria, pois tinha a certeza que depois de a estudar ficaria apto, nem tão pouco por ter desiludido o professor, mas sobretudo porque tinha de mostrar aquela nódoa negra ao meu pai.
Era pouco provável que este me punisse com severidade, mas poderia perder a total confiança que sempre tivera em mim e isso eu não queria.
Portanto, comecei a magicar na melhor forma de nada dizer em casa. E que ideia mais macambúzia se instalou na minha cabeça?
- O professor não se vai lembrar mais disto e portanto vou rasgar a folha onde estão as palavras que ele escreveu a vermelho – cogitei – e depois tudo segue normalmente.
E assim fiz, disfarçando a marosca da forma mais perfeita que pude.
Mas o Balacó tinha boa memória e na aula seguinte pediu-me para lhe mostrar o Caderno Diário.
Fiquei branco como a cal.
Fiz de conta que não tinha ouvido mas ele insistiu até que, com a boca seca e quasi a tremer caminhei até junto da secretária e lhe dei o caderno para as mãos. Ele desfolhou-o e disse:
- Mas aqui não está o que eu escrevi na última aula. Que aconteceu, co’a breca?
Encabulado, confessei a minha acção, alegando que se o meu pai visse aquilo me batia e ainda que achava ficar mal no meu Caderno Diário uma apreciação daquelas.
O Balacó ficou surpreso, marcou-me uma falta (penso que de material) e escreveu de novo a vermelho algo semelhante ao que eu fizera desaparecer, com o aviso solene de que se não cumprisse o que ele mandava me puniria de forma muito mais severa.
E na vez seguinte eu lá mostrei ao professor o caderno assinado pelo meu pai que, aliás, somente me deu uma suave reprimenda.
Mas o pior foi que no final do período o meu comportamento foi classificado de Regular e não de Bom, pelo que não fui considerado no Quadro de Honra.
- O que eu fui fazer! – lamuriei-me – Agora já não dispenso de exame.
E disso me mentalizei.
Cerca de um ano depois, e após a entrega de uma prova (exercício escrito de apuramento), o Balacó, que também era o director do 2º ciclo (os três anos intermédios do total de sete), disse-me:
- Com a média que tem certamente será dispensado do exame final.
- Acho que não, senhor doutor. – repliquei – Como no ano passado tive comportamento Regular num período, acho que não posso dispensar.
- Mas quem lhe disse tal coisa, co’a breca? Não é isso que o vai impedir de passar de ano sem fazer a prova final.
- A sério? – perguntei com o coração aos pulos de alegria.
- Então acha que eu não sei estas coisas, co’a breca?
E, de facto, ele tinha razão.
 
Em jeito de conclusão poderia dizer com alguma gabarolice que “no bom pano cai a nódoa” ou então, mais modestamente, que o ano que passei imaginando que não iria dispensar já foi um bom castigo para o meu crime.


publicado por António às 22:13
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18 comentários:
De Paula Raposo a 9 de Setembro de 2009 às 22:56
Ora bem! O que nós sofríamos a estudar para passarmos e sermos bons alunos!!
Sempre estive no quadro de honra do colégio e nunca reprovei ano nenhum. Mas fiz os exames. Da admissão ao liceu com um vestido amarelo para a ocasião. ( tinha 10 anos!)
No 2º ano fui ao Liceu de Oeiras para exame. No 5º ano idem. Dispensei das orais a Letras e fui a Ciências.
Passei, claro.

No 7º ano passei e entrei na Faculdade. Lindo, não foi?
Pois foi...em 1971 eu entrei para Germânicas. Nem um chumbo...eh eh

Beijos

P.S.-E hoje tenho imenso a ver com o que estudei, não tenho?!!!


De António a 10 de Setembro de 2009 às 08:52
Bom dia, Paulinha!
Mais do que abordar os meus sucessos, quis falar de um erro grave que cometi.
É passado, mas sempre me perseguiu: acho que marca uma faceta da minnha personalidade.
Não sou tão fiável como se pode pensar...eh eh

Beijinhos


De Brito Ribeiro a 10 de Setembro de 2009 às 19:46
Exactamente como eu! Nem quadro de honra, nem dispensa e castigos todos as semanas.
Abraço
BR


De António a 10 de Setembro de 2009 às 21:13
Ó Tó-Zé!
Não foi nada exactamente como tu...

Abraço


De leonoreta a 10 de Setembro de 2009 às 21:00
ola antonio
vou destoar dos comentarios anteriores. nunca fu boa aluna no ciclo e no liceu.descambei na vida academica assim que sai da escola primaria
andava mais preocupada em ouvir os doors e os genesis e a sentar-me ao sol a falar de marx com os meus amigos da associaçao de estudantes, rsss

depois na universidade foi diferente porque as propoinas saiam do meu bolso. ja nao era o papá que pagava.

enfim... com boas ou más notas gostei de andar na escola. tanto assim que ainda lá continuo.
beijinhos



De António a 10 de Setembro de 2009 às 21:17
Querida Leonor!

Também comentas o teu percurso escolar e não o aspecto fundamentar da minha história: o meu carácter.

Beijinhos


De leonoreta a 11 de Setembro de 2009 às 13:04
nao comento o teu carácter de proposito.
e todavia é o que se torna mais evidente no teu texto.
mas repara... esse teu agir é comum á maioria dos miudos. eu tambem fiz algumas parecidas.

lembrei-me de crime e castogo de dostoievsky, rsss
beijinhos


De António a 11 de Setembro de 2009 às 13:09
Leonor querida!

Agora comentaste...ah ah ah

Beijinhos


De wind a 11 de Setembro de 2009 às 14:45
Quiseste-te armar em espertinho e sofreste.lololol
Beijos


De António a 11 de Setembro de 2009 às 14:48
Olá, Isabel!

Às vezes somos muito cretinos, não somos?
ah ah ah

Beijinhos


De as cores da vida a 1 de Outubro de 2009 às 23:12
hehe, tão querido! estou a imaginar, 9 aninhos, no 4º ano a fazer tal coisa.. tadinho :P

beijinho e juízo :PP *


De António a 2 de Outubro de 2009 às 00:26
Olá!
Não era a 4ª classe.
Era o 4º ano antigo - o actual 8º ano.

Obrigado pela visita!

Beijinhos


De as cores da vida a 2 de Outubro de 2009 às 15:08
lol, sim, chamo-me Sara... Madalena é como assino, quando ainda ninguém sabia que por de trás do heterónimo Madalena, existiria uma Sara :)

beijinho*


De António a 2 de Outubro de 2009 às 17:43
Eu descobri quem era a Madalena...ah ah ah

Beijinhos


De maria isabel canelas a 1 de Novembro de 2009 às 19:41
Interessante ler o conto sentido com a intensidade e inocência próprios da idade,e ao mesmo tempo observar a preocupação de estudante que se quer conservar" perfilado"-por ele próprio e pelas figuras (neste caso) com ascendente sobre ele-o professor,e sobretudo o pai a quem pretende não deixar que nenhuma mancha estrague o que pensava sobre si até então.Manifesta desde cedo o rigor de perfil e carácter em evolução-e,não será por acaso,que , ao fim destas décadas seja uma situação assinalada na memória....Obrigada pela partilha


De António a 1 de Novembro de 2009 às 19:54
Olá, Isabel!
Quem porfia sempre alcança.
Obrigado pela visita e peo comentário.

Beijinhos


De elmanofilo a 15 de Novembro de 2009 às 09:54
Também andei no Alex Herculano (de 1960 a 1967) tendo dispensado da aptidão à universidade por ter média acima de catorze.

Lembro-me bem do Balacó. Bom homem. Do Carvalho Homem, do Agostinho Gomes, da Carolina, do Guimarães, do Ribau, enfim de toda uma legião de pessoas com personalidade procurando incutir-nos uma formação integral e humanística tão boa quanto possível.

E o «Via Rápida», aquele professor de português que andava sempre com uma mão a tremelicar atrás das costas? Um ponto.

Enfim, no nosso imaginário colectivo são estrelas que perdurarão no firmamento da nossa memória...

www.rouxinoldebernardim.blogspot.com
www.amarjunqueira.blogspot.com


De António a 15 de Novembro de 2009 às 14:21
Olá!
Parece que andavas um ano atrás de mim.
Curioso como descobriste este texto.
Tenho um escrito mais antigo dedicado ao Eurico Telmo Campos que foi o melhor professor que tive.
Alguns dos que referes não foram meus, como o Via Rápida, o Guimarães ou a Carolina.

Obrigado pelo comentário.
Manda sempre.

Abraço


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