Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças!
Sexta-feira, 20 de Abril de 2007
Histórias curtas XIX - O tímido (parte I)
Reinaldo Aguiar era um tímido.
Mais do que isso, era um tímido quasi patológico.
Com 22 anos e o 12º ano, trabalhava numa empresa em posto de pouca importância, de curta responsabilidade e de baixo salário recebido a troco de um recibo verde.
O emprego foi-lhe arranjado pelo pai.
Filho único, apaparicado, continuava a viver com os progenitores numa casa modesta.
Não tinha carro nem namorada.
Nunca teve coragem para fazer um convite a uma rapariga e, quando eram elas a atiçarem-no, deixava-se ficar indiferente. Não por falta de vontade em corresponder, mas porque alguma força invisível o bloqueava.
Mas agora estava decidido a deixar a vida de eterno solitário e começar a ter relações com mulheres, a todos os níveis. Que diabo! Tinha de vencer a timidez que lhe tornava a vida fastidiosa e muito pouco satisfatória.
E assim resolveu ir às meninas para finalmente perder a virgindade sexual.
Numa noite com o céu estrelado foi até um local que já tinha visitado várias vezes mas sempre sem ter coragem para avançar.
Mas desta vez a determinação era enorme.
Foi caminhando devagar pelo passeio onde as rameiras faziam trottoir ou permaneciam encostadas às paredes das casas lançando olhares e frases de provocação e convite.
- Então filho? Vamos para a cama? – disse-lhe uma delas.
O Reinaldo estacou.
Olhou para ela e viu uma mulher claramente mais velha. Era difícil adivinhar-lhe a idade pois a vida irregular e cheia de complicações fá-las sempre parecer ter mais anos de vida do que aqueles que oficialmente possuem.
- Tem de ser! Vai esta mesmo! – pensou ele, fazendo esforço para vencer a timidez.
E falou:
- E quanto é?
- Quinze euros, fora o quarto – informou a meretriz.
- E quanto é o quarto? – continuou o diálogo, o repentinamente corajoso moço.
- Cinco euros. Mas é bom e limpo.
- Vamos lá! – disse o moço, descarregando algum do nervoso que o tolhia.
- Vamos por aqui, então! – indicou ela, entrando numa porta que estava mesmo ao seu lado.
Ele seguiu-a. Subiram umas escadas de madeira rangendo e ele pode apreciar que ela usava uma saia curtíssima que lhe deixava ver umas calcinhas brancas.
Chegados ao andar superior, a prostituta disse:
- Pagas aqui o quarto – e olhou para um pequeno balcão onde uma mulher já idosa afirmou maquinalmente:
- Cinco euros!
O Reinaldo pegou na carteira, abriu-a, e dela retirou uma nota que entregou à velhota.
- Quarto 7!
- Anda, meu querido! – disse para o jovem.
E a mulher contratada meteu por um corredor estreito parando em frente a uma porta que ela empurrou e logo se abriu. Entrou e o rapaz seguiu-a.
A rameira voltou-se para ele e pediu:
- Primeiro dá-me os quinze euros, filho.
O Reinaldo foi de novo à carteira e entregou-lhe duas notas.
A mulher começou logo a tirar a pouca roupa que tinha e disse:
- Tens camisa?
- Tenho! – respondeu ele.
- Então dá-ma e despe-te.
O Reinaldo entregou-lhe o preservativo, tirou a roupa e ficou nu. Entretanto também a mulher se tinha já despido completamente deixando à vista um corpo com seios descaídos, uma barriga razoavelmente saída e com bastantes estrias, uma boa dose de celulite e algumas varizes bem visíveis nas pernas.
- Deita-te que eu ponho-te isso em pé – ordenou.
O moço esticou-se na cama de barriga para o ar e ela, enquanto lhe pegava no pénis e começava a acariciá-lo disse:
- Tens um belo corpo!
Espremeu a glande para se certificar que o cliente não estava com nenhum esquentamento.
O órgão começou a dar sinais de excitação e ela meteu-o na sua boca para o deixar com a rigidez de um falo competente.
O rapaz permanecia deitado com os olhos fechados.
Pouco depois ela aplicou o condom, deitou-se ao lado dele e disse:
- Já podes meter!
A matrona estava já de pernas abertas e joelhos dobrados e o Reinaldo colocou-se sobre ela na posição do missionário.
Introduziu e começou o movimento de ancas habitual nestas circunstâncias.
A sua cara estava frente à da parceira de ocasião quando esta, gemendo fingidamente, começou a brincar com a placa dentária fazendo-a sair parcialmente da boca e recolhendo-a, várias vezes.
O pobre rapaz, perante tal visão, sentiu que alguma coisa não estaria bem com os seus genitais.
E pouco depois ela comentou.
- Estás sem tesão! Anda cá!
E recomeçou a tentar que o órgão voltasse a entumecer.
Nada!
Passados alguns minutos, a profissional apalpou a base do pénis do coitado e comentou:
- Humm...a molinha está partida. Já não vais conseguir levantar isso. Não vale a pena continuar.
Levantou-se e foi fazer uma rápida higiene, enquanto dizia:
- Podes levantar-te e vestir-te. Agora não vais conseguir. Não gostaste de mim, foi?
O rapaz, frustrado na sua tentativa de perder a virgindade, balbuciou:
- Não! A culpa não foi sua – e começou a vestir-se.
Ainda não estava calçado quando a mulher disse “boa noite” e saiu.
O Reinaldo também se lavou, acabou de se arranjar e, mais acabrunhado do que nunca, abandonou o quarto e o prostíbulo dirigindo-se cabisbaixo para casa dos pais, mas dando uma volta maior que o habitual para tentar limpar a cabeça.
Sem sucesso!
Já na sua cama esperou que o sono chegasse, mas só depois de muito se mexer e remexer é que adormeceu.
Na manhã seguinte, sábado, dormiu até às tantas e acordou bem disposto.
Mas a recordação do fracasso da noite anterior não tardou a deixá-lo de novo em baixo.
- Não posso desistir! Até porque a culpa foi daquela tipa horrorosa – tentava dar-se alento o jovem tímido mas também azarado.


publicado por António às 14:45
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31 comentários:
De Outsider a 20 de Abril de 2007 às 15:22
Excelente conto amigo António! Já estava com saudades de cá vir ler os seus magníficos contos. Este em partucular divertiu-me imenso, pobre rapaz. Era tão tímido que nem soube escolher uma coisa em condições... :)
Vou agora ler os outros contos anteriores, que ainda não li.
Um grande Abraço.


De rosa silvestre a 20 de Abril de 2007 às 22:02
Mais uam história hilariante do António, Não tenho comentadoporque em vi na obrigação de passar para o GOOGLE pois jé nem conseguia aceder ao template nem fazer comentários aqui e noutros blogues para minha mágoa!
Essa da "molinha estar partida!" é de arrebentar com rir!


De nena a 20 de Abril de 2007 às 22:21
ah.ahahaha..chamas áquilo de azarado?..imagina se a outra tivesse deixado cair, no vigor da coisa o olho de vidro e a prótese mamária se rompesse, a cabeleira postiça caísse,e se pra cumulo da coisa a pobrezinha ainda tivesse 1 ataque de apolepxia no auge da festa e morresse ali mesmo na hora hein?..isso é que era azar, homem;..agora assim..é só;:tente novamente..
he.he..malandreco, seu malvado..sua cabeça danadó pornopornográfica..(ó pois a Maria inda diz que sou eu..que desencaminho..he.hehe..)


De António a 21 de Abril de 2007 às 10:04
Olá, Nena desalmada!
Obrigado pelo teu comentário.
Estas aventuras do Reinaldo vão ter continuação.
Será que ele vai ficar sempre sem tesão?
ah ah ah
Porque não crias um blog com o nome:
"Eu sou louca!"
ihihihihihihihih

Beijinhos


De ana joana a 21 de Abril de 2007 às 01:51
Olá António!

Coitadito do Reinaldo! ehehehehe . É claro que uma desgraça raramente vem só, mas tinhas logo que te lembrar do raio da dentadura a fazer investidas ao exterior da boca, num momento daqueles????? ahahahahahahaha Será que existe algum super-homem capaz de manter o dito actuante perante tal cenário?

E a história da molinha partida???? ahahahahahahah Essa nunca tinha ouvido!!!! Está demais!

Beijinhos e bom fim de semana

Ana Joana



De António a 21 de Abril de 2007 às 10:08
Olá, Ana Joana!
Obrigado pelo teu comentário.
Nunca tinhas ouvido falar da molinha partida?
ah ah ah
Afinal ainda tens umas coisas para aprender...ihihihihih.
Mas as aventuras do Reinaldo ainda vão continuar.
Que mais irá lhe acontecer?

Beijinhos


De JMC a 21 de Abril de 2007 às 11:48
António,

Para primeira vez, correu mal, teve azar o rapaz
à que insistir, não desmoralizar, tem é que para a
proxima ser mais selectivo, escolher melhor, e depois
a seguir requer treino, muito treino.

Bom fim de semana

JMC


De António a 21 de Abril de 2007 às 14:52
Olá!
Bem aparecido!
Esta foi só a 1ª parte das aventuras e desventuras do tímido Reinaldo.
Brevemente haverá mais...
Obrigado pelo comentário.

Abraço


De Margusta a 21 de Abril de 2007 às 11:51
Bom dia amigo António,
...sabes que sempre te admirei imenso, pela forma como escreves, e, pelo modo como me consegues transportar o meu imaginário para as tuas histórias.

É verdade que nos ultimos tempos, nem sempre tenho estado presente, mas isso não significa que não tenha deixado de continuar a ter uma grande admiração pela forma como escreves!

Deixei algo para ti nos meus Momentos Sentidos!

Beijinhos para ti, e um bom fim de semana!


De Maria Papoila a 21 de Abril de 2007 às 12:16
António:
Está respondido em A Papoila o teu "agraciamento".
Esta tua história hilariante fez-me rir até às lágrimas... Já ouvi muita coisa mas essa da "molinha partida" nunca tinha ouvido...
Mas também o rapaz vai assim à primeira mesmo a pagar? Não só é timido como "toino"... ahahahah
Beijo


De Caiê a 21 de Abril de 2007 às 12:54
"Molinha partida"???!!! Que desmoralizadora, podia ter sido mais suave.
Eu comecei a pensar porque raio a senhora era tão baratinha mas depois, com a continuação da história, percebeu-se...
Muito bem a tua crueza a contar, mas aposto que isto vai ter continuação, certo? É que o rapaz não pode ficar neste impasse!




De leonoreta a 21 de Abril de 2007 às 13:03
vá lá, vá lá que o rapaz, teve ainda a sorte de acordar bem disposto de pois do sucedido.
nada como uma experiencia em cima de outra. ao fim de seis meses se ele nao deisitir já está "pró".

seja como for... escreves sobre tudo sempre de modo cativante.

abraço da leonoreta


De Jorge G - O Sino da Aldeia a 21 de Abril de 2007 às 14:54
Boa tarde!

Comecei a minha ronda por quem, como eu, concedeu à querida Papoila o Thinking Blogger Award.

E li o texto com todo o interesse e atenção. Escrita escorreita, para toda a gente ler e entender, simples e em correcto português, contando uma história de vida vivida por muitos jovens de várias épocas.
Este, felizmente, depressa se convenceu de que a culpa do "falhanço" lhe não pertencera.
Noutras histórias sememlhantes, quantos não ficaram altamente traumatizados!

Por isso, entendo que este conto tem um final pedagógico e importante que me apraz registar e aplaudir.

Pelo que também li, mas não em pormenor, o "Eu sou louco" vai ficar linkado no meu "O Sino da Aldeia", para que lhe não perca o rumo.
Com a Papoila como amiga comum, outra coisa eu não esperava.

Um abraço e bom fim-de-semana.
Jorge P G - o sineiro


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