Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças!
Quinta-feira, 3 de Maio de 2007
Histórias curtas XX - Concurso público
- Oh Paiva! Já está a fazer a proposta para aquele concurso da remodelação da Praça do Município em S. Francisco? – perguntou o Eng. Marques Correia ao seu colega e subordinado no Departamento de Orçamentação.
- Acabei ontem de organizar o dossier – respondeu o Eng. Jorge Paiva – e hoje o Zé vai começar a trabalhar a parte dos preços.
- Que Zé? – interrogou o chefe.
- O Zé Manel Sousa, o medidor-orçamentista.
- Ahh...Então venha ao meu gabinete pois quero falar consigo sobre isso.
- Ok! Já estou a ir.
E o mais novo, um engenheiro-técnico civil com cerca de trinta e cinco anos, moreno e de estatura média, levantou-se e seguiu o seu chefe, um experiente técnico com quasi cinquenta anos que chefiava a área de elaboração de propostas para concursos, públicos ou não. Era alto e com uma acentuada calvície.
- Interessa-nos muito ganhar esta obra porque precisamos de mais currículo neste tipo de trabalho, além de que tem um valor base muito interessante – começou por dizer o Correia.
E continuou:
- Você conhece alguém na Câmara que possamos aliciar para nos darem a adjudicação?
- Conheço o Eng. Augusto Gouveia mas não tenho nenhuma confiança com ele. No entanto o Caderno de Encargos foi elaborado pela Projectum e está assinado pelo Artur Nobre com quem tenho uma boa relação há uns anos – respondeu o Jorge Paiva.
- Mas isso pode não ser suficiente.
- Deixe estar! Eu telefono ao Nobre e falo com ele sobre o assunto. Pode ser que, como projectista, seja ele a fazer a análise das propostas. É muito comum ficar com essa incumbência quando ganha projectos – propôs o técnico que conhecia bem muitas das empresas que se movimentavam no mercado.
- Acho bem! – concordou o chefe do Departamento da empresa de construção civil e obras públicas, Scoop – Então trate disso e mantenha-me ao corrente.
- Ok! Posso retirar-me?
- Sim! E boa sorte.
De regresso à sua secretária, pegou no auscultador, viu o número no monitor do seu computador e discou.
Atendeu uma voz feminina.
- Bom dia! Projectum.
- Bom dia! Fala Jorge Paiva da Scoop. Poderia falar com o Eng. Artur Nobre?
- Um momento que vou ver se ele está.
Menos de um minuto depois ouviu uma voz:
- Olá, Jorge Paiva! Então está bom?
- Olá, Artur Nobre! Comigo está tudo bem. E consigo?
- Tudo óptimo! Então o que é que tem para me dizer? – perguntou o homem da Projectum.
- Eu tenho aqui entre mãos o Processo do Concurso para a remodelação da Praça do Município de S. Francisco e vi que o meu amigo foi o responsável pelo projecto. Quem é que vai analisar as propostas? – avançou o Paiva.
- Somos nós! Muito provavelmente serei eu.
- Pois a Scoop está muito interessada em ganhar a obra mas não conhecemos bem as pessoas da Câmara. Está disponível para almoçar comigo hoje ou amanhã? – convidou o engenheiro responsável pela proposta a apresentar a concurso.
- Um momento! Deixe-me consultar a agenda.
E após uma curtíssima pausa:
- Hoje não pode ser, mas amanhã estou livre.
- Óptimo! Então pode aparecer no restaurante do costume? A que horas lhe dá jeito? – tentou organizar o Paiva.
- Por mim pode ser à uma, mais minuto menos minuto.
- Está combinado! Um abraço e até amanhã – despediu-se o homem da Scoop.
- Até amanhã, Paiva!
E desligaram ambos.
De imediato o engenheiro voltou ao gabinete do chefe para lhe dar conta dos resultados do contacto.
- Muito bem! Agora vamos pensar nas verbas a oferecer ao Nobre em caso de ganharmos o concurso – disse o Correia.
- Provavelmente teremos de dar alguma coisa a alguém da Câmara. Eu amanhã falo com ele sobre isso.
E discutiram uns números chegando a valores que lhes pareceram razoáveis.
 
No dia seguinte, Jorge Paiva e Artur Nobre sentaram-se numa recatada mesa do restaurante.
Este era um tipo baixo e anafado, quarentão e com uma farta cabeleira penteada com muito gel.
Falaram sobre vários assuntos, começaram a comer, e a certa altura disse o homem da Scoop:
- Oh Nobre! Mudando de assunto, queria dizer-lhe que nós estamos dispostos a compensá-lo se fizer uma análise das propostas que nos seja favorável. Pela nossa parte procuraremos ir a concurso com um preço bastante baixo mas com a expectativa de termos como contrapartida uma boa quantidade de trabalhos a mais – discursou o Eng. Paiva, com a calma de quem conhece bem o seu interlocutor.
- Tudo bem! Mas convém compensar também alguém da Câmara. Penso que a pessoa indicada é o Eng. Augusto Gouveia que está muito metido neste assunto. Outra coisa importante é que a parte da fonte, com os repuxos, as bombas, o sistema de controlo e enfim...tudo o que diz respeito à hidráulica, seja da Hidroarte, quer o fornecimento quer a montagem – esclareceu amplamente o convidado.
- Muito bem! Que acha de quinze mil euros para si?
- Está bom! – anuiu o projectista.
- E para o Gouveia? Realmente eu não o conheço minimamente. O Nobre é capaz de lhe falar no assunto? – arriscou o ofertante.
- Não há problema. Eu falo com ele e depois digo-lhe com que montante é que devem contar para o engenheiro da Câmara – disse o homem da Projectus aceitando a incumbência.
- Óptimo! A nossa intenção é fazer os pagamentos em fracções proporcionais às nossas facturações ao cliente, depois de feita a liquidação. E em cash, evidentemente.
E a conversa continuou, primeiro sobre este tema e depois sobre outros assuntos.
Eram já três horas quando se levantaram e despediram.
Chegado ao escritório, o Paiva pôs o chefe Correia a par de tudo.
- Óptimo! Óptimo! Esperemos que o tal Gouveia não abra muito a boca.
- Desde que nos dê uma boa quantidade de trabalhos a mais, até pode abrir um bocado – e riu-se, o responsável pela proposta.
Passados três dias o homem da Projectus apareceu pessoalmente a informar que estava tudo em ordem e que o engenheiro camarário pretendia vinte mil euros.
- Pode-lhe dizer que está combinado – disse o Paiva.
Mas, repentinamente, lembrou-se:
- É verdade! Falou-lhe nos trabalhos a mais?
- Nem foi preciso! Ele já sabe como estas coisas funcionam e prometeu que a Scoop não se iria arrepender.
 
Passado cerca de um mês foram abertas as propostas e verificou-se que a empresa onde eram colaboradores os engenheiros Paiva e Correia tinha aparecido a concurso com o segundo melhor preço mas muito próximo do concorrente com a proposta mais barata.
Passados mais dois meses, aproximadamente, foi deliberado pela Câmara Municipal de S. Francisco que a adjudicação da obra de remodelação da Praça do Município seria feita à firma Scoop.
 
Nota: Os acontecimentos aqui apresentados são totalmente produto da imaginação do autor e, portanto, qualquer semelhança com factos reais é pura coincidência.


publicado por António às 23:25
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37 comentários:
De Paula Raposo a 4 de Maio de 2007 às 07:47
Pura coincidência claro, mas verdade, infelizmente. Gostei de mais esta história de corrupção. Sem mortos nem feridos (fisicamente falando) está excelente. Eh eh beijinhos.


De António a 4 de Maio de 2007 às 08:28
Olá, Paulinha!
Obrigado pelo teu comentário.
Esta história é, obviamente, inventada.
Não sei se as coisas se passam assim na realidade, mas como estava muito criativo...saiu assim!

Beijinhos


De ana joana a 4 de Maio de 2007 às 09:26
Bom dia António,

Sempre me meteu um bocado de confusão a desfaçatez com que se fazem este tipo de negociatas. É preciso ter lata e muito pouca vergonha na cara. Mas lá que a ambição leva muita gente a puxar por esse seu lado mais marginal, isso há.

Mais uma vez um primor de descrição dos personagens.

Beijinhos e óptimo fim de semana

Ana Joana


De António a 4 de Maio de 2007 às 12:50
Olá, Ana Joana!
Obrigado pelo teu comentário.
Isto é ficção.
Mas não imaginas até que ponto vai a corrupção nas autarquias (e não só).
E a este nível...nem me refiro a Presidentes e Vereadores.
Porque julgas que há tantos carros da gama alta e tanta gente a fazer grandes viagens e a comprar belas moradias ou andares espectaculares?
(também há gente honesta, diga-se em abono da verdade)

Beijinhos


De Cusco a 4 de Maio de 2007 às 10:32
Olá! Uma bela tramóia mas pura ficção!!!. Na realidade isso jamais se passa assim…! Ainda estava à espera que isso derivasse também para umas casinhas de alterne e umas noitadazitas com tudo incluído mas não foi preciso. Afinal era mesmo ficção!
Um abraço e bom-fim de semana!


De Brito Ribeiro a 4 de Maio de 2007 às 10:56
Se não te conhecesse diria que trabalhavas no "meio" e apenas estavas a relatar algo a que tinhas assistido. Muito bom!


De JMC a 4 de Maio de 2007 às 11:47
António,

Está muito boa esta história, e se não aconteceu, com este enredo, podia muito bem ter acontecido, e se calhar é provavel que as coisas se passem mesmo assim, bem escolhidas as empresas, nomes e Camara Municipal, tema politico com grande destaque nestes ultimos dias em Lisboa e um pouco por todo o país.

Bom fim de semana.

JMC


De António a 4 de Maio de 2007 às 12:54
Olá!
Obrigado pela visita.
Eu sou um exagerado.
Isto é pura ficção.
Nunca se poderia passar no nosso país.

Um abraço


De Maria Papoila a 4 de Maio de 2007 às 15:40
Querido António:
ahahahahahah....
Olha vou repetir ahahahahahah....
A história está minuciosamente contada...
"Nota: Os acontecimentos aqui apresentados são totalmente produto da imaginação do autor e, portanto, qualquer semelhança com factos reais é pura coincidência."
ahahahahahah....
Cada vez mais coincidências!
Beijo




De KI a 4 de Maio de 2007 às 18:19
Gostei, particularmente, do início diferente da história, escapando à descrição das personagens. Corrupção, facilitismo, cunhas, enfim... bem sabemos que assim é, e cada vez mais estamos sitiados no meio destes 'engenheiros'.

Até breve :)


De António a 4 de Maio de 2007 às 19:55
Olá!
Como não tenho acesso ao teu blog (ou lá o que seja), deixo aqui o meu agradecimento pela visita e pelo comentário.

Beijo


De KI a 5 de Maio de 2007 às 17:09
António, é que esse perfil foi criado por erro quando vim para 'produto nacional' . O meu blog é o Trampolim. Um bom fim de semana, E cada vez gosto mais do que escreves.


:)


De poesiamgd.blogspot.com a 4 de Maio de 2007 às 20:43
Ficção ou não, o conto é francamente verosímil! Parabéns pelo teu talento!
Um abraço


De Anónimo a 4 de Maio de 2007 às 22:30
Olá António
Mais uma história fabulosa onde impera o "compadrio", tão vulgar hoje em dia, não é António?
Gostei da história e parece-me tão real ... mas isso acontece sempre... quando estás contando parece que estou visualizando todas as "cenas".
Parabéns!


De António a 4 de Maio de 2007 às 23:45
Por uma vez e porque topei quem és, vou responder ao comentário de um anónimo.
Meu caro amigo!
O "compadrio" não é de hoje...é de sempre.
Aliás, a minha história não é datada.
Poder-se-ía ter passado em qualquer tempo e em qualquer regime (e mesmo em qualquer país).
Gostei que tivesses gostado.

Um abraço


De António a 4 de Maio de 2007 às 23:50
Se calhar não és quem eu pensava...mas não faz mal

ah ah ah


De leonoreta a 4 de Maio de 2007 às 22:50
ola antonio
meandros dificeis estes a que dedicaste o teu talento de ficionista. abrangente é o conhecimento que mostras na abordagem de assuntos diversos. parabéns. gostava de te-lo para mim.
abraço da leonoreta


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