Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças!
Terça-feira, 8 de Maio de 2007
Histórias curtas XXI - Herança
Jorge e Jacinto são dois irmãos filhos do falecido Manuel Leite e de sua mulher Conceição.
O mais velho, Jorge, é casado há muito pouco tempo com Sara e ainda não tem descendentes. Já completou os vinte e seis anos e, não tendo grandes habilitações académicas, arranjou há dois anos trabalho numa empresa de segurança. Alto e forte, com um corpo musculado, alguma experiência em artes marciais que praticou durante alguns anos, usa o cabelo muito curto deixando ver bem uma cara redonda e uns olhos castanhos e pequenos, quasi orientais.
O mais novo, Jacinto, é a ovelha negra da família. Tem vinte e quatro anos e nunca completou o nono de escolaridade. Vivendo sem pai desde os dez, rebelde e agressivo, nunca se deixou controlar pela mãe nem ligou nada aos conselhos do mano mais velho. Mais magro do que ele mas com a mesma altura, é elegante e com uma bonita figura.
A mãe Maria da Conceição ficou sem o seu homem há catorze anos. Juntara-se com ele quando nasceu o Jorge, tinha então vinte anos. Os doze que viveu com o Manel, dez anos mais velho do que ela, não foram de muita felicidade. Antes pelo contrário: o temperamento irascível do companheiro e a agressividade sempre presente no seu comportamento infernizaram-lhe a vida. A morte dele por cirrose não a perturbou muito, foi mesmo um alívio. Tem agora quarenta e seis mas parece ter mais. Vive só, embora mantenha há vários anos uma relação com um sujeito casado que a trata bem. Também o filho mais velho é amigo dela. Mas o Jacinto, vivendo uma vida irregular há muito tempo, raramente aparece em casa. Não sabe onde vive, nem com quem, nem o que faz. Já esteve preso por assalto mas apanhou pouco tempo porque fora a primeira vez e não estava armado. Mas é ele que, depois de falecido o Manuel Leite, a tem feito velha.
- O teu irmão sai ao pai e ao avô – costumava dizer ao Jorge – mas tu tiraste ao meu lado, felizmente.
De tempos a tempos o mais novo aparecia em casa da velha, como ele dizia.
Bons carros, bem vestido, ostentando uma riqueza cuja proveniência ela não conhecia mas suspeitava que não seria de comportamentos dentro da lei.
- Jacinto! – disse-lhe durante a última dessas visitas relâmpago – Onde é que tu arranjas o dinheiro para viveres assim? Tem cuidado com quem andas e com o que fazes. Ainda um dia fazes alguma ao estilo do teu avô e arruínas totalmente a tua vida.
- Não te preocupes, velha! Sei bem como tomar conta de mim.
- Mas não me dizes onde vives nem contas nada de ti. Isso mortifica-me, meu filho! – chorava a mulher.
- Não vale a pena chorar porque a minha vida é comigo! Tem o meu irmão para companhia e...
- Não tenho nada! O teu irmão casou e foi viver com os sogros que tem uma casa maior.
- Casou? Com quem?
- Com a Sara! Acho que não conheces.
- Pelo nome, não! – confirmou o Jacinto Leite.
Mas desta vez mostrou-se mais curioso:
- E tem filhos? Onde moram?
- Casou há três meses, ainda não tem filhos e mora aqui perto; por isso vem visitar-me muitas vezes.
- Tem a morada dele? – perguntou o jovem – Ou melhor: escreva aqui o número do telemóvel dele que eu ligo-lhe. Quero vê-lo e conhecer a mulher.
A Conceição assim fez.
- Olha, velha! Pega lá estas notas para te ajudar que eu vou-me embora.
E passados poucos minutos ela estava de novo só.
No dia seguinte recebeu a visita do Jorge.
A começaram logo a falar sobre a visita do Jacinto, na véspera.
- Oh mãe! Eu não lhe quero dar ainda mais preocupações sobre o meu irmão, mas estou convencido que ele leva uma vida de delinquência. Oxalá não acabe por morrer na prisão como o avô António.
- Eu sei, meu filho! Rezo todas as noites para que Nosso Senhor o leve para bons caminhos...mas porque haveria o Senhor de atender os meus pedidos?
- Nunca se sabe! – animou-a, desta vez, o primogénito.
- Oxalá, meu filho!
 
Não tinham passado ainda dois meses quando foram chamados pela Polícia Judiciária para depor.
As piores previsões tinham-se confirmado. O Jacinto não só estava preso como era acusado de vários crimes entre eles os de assalto à mão armada e homicídio.
Fora o mais novo dos irmãos Leite um dos autores do assalto a uma ourivesaria que tinha sido muito noticiado na TV, na rádio e nos jornais. O proprietário do estabelecimento, um sexagenário, fora alvejado com dois tiros na cabeça ao tentar accionar um alarme. Depois, os dois comparsas que estavam com ele no fatídico momento acusaram o Leite, também conhecido como “Mau-mau”, da autoria dos disparos à queima-roupa.
O processo decorreu com bastante rapidez e o filho da Conceição foi condenado a vinte cinco anos de cárcere.
De vez em quando lá íam todos fazer uma visita ao prisioneiro: a mãe, o irmão, a cunhada e o filho destes que entretanto nascera.
Pelo que o Jorge pôde ir sabendo, parece que o encarcerado tinha rapidamente adquirido um certo estatuto no meio dos seus parceiros de clausura.
Durante uma dessas visitas, a Maria da Conceição perguntou-lhe:
- É verdade que os outros reclusos te tem muito respeito?
- Pois é! E sabe porquê? Porque eu tenho personalidade!
Mas disse mais:
- E porque um velho que aqui está me disse que conheceu o avô António que morreu na prisão como todos sabemos, mas o que não sabíamos era que estava a cumprir pena também por homicídio. Também ele era um líder.
Afinal, quem sai aos seus não degenera!
Fez uma pausa e, olhando para a mãe, perguntou:
- Mas eu acho que tu sabias e nunca nos disseste nada, não é verdade, velha?
A mãe baixou os olhos.
- Vá lá! Responde! – alteou a voz o filho.
Ela levantou a cabeça e, abanando-a afirmativamente, começou a chorar e disse:
- É verdade, é!
- Era um homem com personalidade, o meu avô! É também por causa dele que me respeitam aqui dentro.


publicado por António às 14:40
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49 comentários:
De lena a 8 de Maio de 2007 às 17:49
António meu querido

acabei de te ler, acabei e nem sei o que dizer

bem escrito como sempre, mas o que nos deixas dá muito para pensar

tudo isto tem muita verdade, tem o conteúdo necessário para navegarmos em mais uma das tuas histórias curtas, bem narradas, mas também tão verdadeiras

a dor é essa, já não sei onde se para, já não sei o que existe, já não sei o que é racional

já nada sei…

e hoje desculpa-me, depois pode ser que vejas porque te peço desculpa, querido António

o mar encanta-me , mas deixei-o de sentir, não sei onde bate...

abraço-te com carinho e ternura

um doce beijo



lena


De Sutra a 8 de Maio de 2007 às 18:11
És único nestas histórias, meu caro...


E hoje é dia de 1.000.000 aparece por lá ;-)
Beijo doce


De Paula Raposo a 8 de Maio de 2007 às 19:22
Bem escrito como sempre (concordo com a Lena) e que dá que pensar. Triste a história. Real também. Ser líder assim, penso que não vale a pena. Beijos.


De António a 8 de Maio de 2007 às 21:45
Querida Paulinha!
Obrigado pela tua presença.
É uma presença constante que muito me apraz.

Beijos meus


De Maria Papoila a 8 de Maio de 2007 às 21:55
Querido António:
Mais uma das tuas magníficas histórias, bem contada mas que me deixou a reflectir. Até que ponto os genes são importantes na formação da personalidade. Esta uma velha discussão sobre o que mais influencia... Fico-me por aqui nas considerações e saio pensativa.
Beijo


De Viriato a 9 de Maio de 2007 às 13:34
No tempo de quem herdei o nomem , isto era um forró, só leio tipos a darem lume ao coração das moças. Estou irritado.


De Moura ao Luar a 9 de Maio de 2007 às 16:45
Vai ter continuação??


De António a 9 de Maio de 2007 às 17:47
Não, minha amiga!
Quando tem continuação em indico Parte I, Parte II...etc.
Esta é uma história fraquinha mas em que eu pretendo dar o lamiré para comentários que abordem a questão central: a hereditariedade é o factor relevante para um indivíduo ser agressivo e mesmo homicida ou a educação, o exemplo dos ídolos (familiares ou não), as boas ou más companhias, etc., tem um papel predominante?

Beijinhos


De mourisca a 9 de Maio de 2007 às 17:14

Olá António,

meu coração ficou apertado, pequenino...
Um abraço,
Maria


De António a 9 de Maio de 2007 às 17:58
Olá, Maria!
Eu fui buscar uma lupa e estou a vê-lo enorme.
Obrigado pelo comentário.

Beijinhos


De mourisca a 9 de Maio de 2007 às 19:11
Olá António,

por favor não seja irónico...
As emoções são uma benção e resposta à natureza primitiva que permanece em nós. Pessoalmente, descrevê-las é difícil. Daí ter recorrido a uma imagem. O meu coração é maior, mas mt maior do que apareceu na sua lupa. Fico atenta e expectante. Um abraço, Maria


De António a 9 de Maio de 2007 às 22:31
Olá!
Deixa-me ser irónico que eu gosto...eh eh

Beijinhos


De ana joana a 9 de Maio de 2007 às 23:52
Olá António,

Herança???? hummmm não me parece. Observa-se, de facto uma elevada frequencia na repetição de padrões de comportamento, sejam eles positivos ou negativos. É claro que temos alguma tentação para acentuar a hipotese da carga genética aos comportamentos marginais. Isso dar-nos-ía a falsa esperança de que poderiamos acabar com os "maus" esterilizando todos os que fossemos apanhando. Como se fosse possivel existir um mundo só de "bons" rssss.

Na minha opinião esses "maus" são tão importantes para a sociedade como os "bons" - Aliás, os bons só são bons porque há maus e vice-versa. E o mundo não seria nada melhor se acabassemos com uma das espécies. Aliás...... a prórpia natureza é disso um optimo exemplo: tando nos dá um tempo maravilhoso, com uma temperatura amenas e um céu encantadoramente azul, como nos envia as maiores das intempéries, causadoras de dramática destruição.


Beijinhos António

Ana Joana


De António a 10 de Maio de 2007 às 10:01
Olá, Ana Joana!
Um pouco acima, respondi assim ao comentário da Moura ao Luar:
"Esta é uma história fraquinha mas em que eu pretendo dar o lamiré para comentários que abordem a questão central: a hereditariedade é o factor relevante para um indivíduo ser agressivo e mesmo homicida ou a educação, o exemplo dos ídolos (familiares ou não), as boas ou más companhias, etc., tem um papel predominante?"
Eu não sei a resposta e também não sei se alguém a sabe.
Mas gostava de saber...

Beijinhos


De APC a 10 de Maio de 2007 às 01:17
Agora pegava em V. Exa., sentava-o à mesa de uma esplanada bonita e discutia o "assuntozinho"...!
Ah, que isso tem tanto que se lhe diga!!!...
Não tendo, pois, o que dizer de pouco, nada mais digo. Só que foi um prazer ler-te! ;-)


De António a 10 de Maio de 2007 às 10:06
Pois é!...

Olá, querida amiga!
Obrigado pelo comentário.
Um pouco acima, respondi assim ao da Ana Joana:
"Esta é uma história fraquinha mas em que eu pretendo dar o lamiré para comentários que abordem a questão central: a hereditariedade é o factor relevante para um indivíduo ser agressivo e mesmo homicida ou a educação, o exemplo dos ídolos (familiares ou não), as boas ou más companhias, etc., tem um papel predominante?
Eu não sei a resposta e também não sei se alguém a sabe.
Mas gostava de saber..."
Eis a questão para discutir na mesa do café.


Beijinhos


De APC a 10 de Maio de 2007 às 21:50
Eu lera o que escreveras antes. Leio sempre, com imenso gosto, os comentários que os amigos te deixam! :-)
Ah... E também venho sempre cá ler as tuas "respostinhas" (como lhes chamas)!
Um abraço... Virtual, mas por hoje! :-)))


De António a 10 de Maio de 2007 às 22:17
Obrigado!

Beijinhos


De nena a 10 de Maio de 2007 às 11:23
ai deus meu!..só espero vir a receber a tal herança monetária,..sim, pois diga-se de passagem que não faço ideia quem foi o meu bisavô, e dizem que a 3ª descendencia é a que tráz mais probabilidades de reminescências..sei lá eu o que me vai sair na rifa, de qualquer maneira se não for coisa boa, a culpa não é minha, é do bivôvô..hô.hô.hõ..
1 abraço apertadinho, apertadinho..


De António a 10 de Maio de 2007 às 12:59
Olá, Nena!
Minha filha: sempre me disseram que quem muito espera por heranças dá com os burros na água.
Isto em relação a bens materiais.
Em relação a herança genética, acho que seria giro saber de quem herdaste os genes da loucura.
Os meus, eu já sei!

Obrigado pelo comentário.

Também para ti um xi-coração muito apertadinho


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