Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças!
Domingo, 13 de Maio de 2007
Histórias curtas XXII - Pânico
Estacionou o carro perto do areal.
Retirou dele uma saca grande, um guarda-sol e um colchão de boiar na água ainda com algum ar.
De tez muito morena, longos cabelos negros, um vestido muito ligeiro próprio para ir à praia e sandálias, depressa venceu a pequena distância até à areia.  
Desceu umas escaditas de quatro degraus feitas de madeira e continuou caminhando com a carga que tirara da sua viatura até um ponto onde havia pouca gente.
Gostava daquela local à beira mar exactamente porque era pouco frequentado e ali podia estar mais à vontade.
Eram dez e meia de uma manhã de Julho.
Manhã soalheira e quente, sem uma brisa que corresse e mitigasse o calor que prometia vir a ser tórrido.
Armou o guarda-sol, encheu o colchão com uma bomba de pedal que tirou da saca, besuntou-se com bronzeador, retirou da face os óculos de sol grandes e negros de armação e de lentes, estendeu uma toalha sobre o confortável suporte agora cheio de ar, tirou a parte de cima do bikini e, indiferente a alguns olhares gulosos e outros reprovadores, deitou-se a tostar.
Adorava estar deitada no colchão, quer na terra, quer no mar.
- Não falta muito tempo que vá para a água – pensou.
 
A ninfa morena, a deusa de corpo escultural, estava agora nas águas salgadas do oceano, calmas como se fossem de um pequeno lago, deitada com o peito desnudo para baixo e, usando as mãos como remos, afastava-se para mais longe da praia.
Ninguém por perto.
Voltou-se para cima e deixou-se vogar ao sabor da quase imperceptível ondulação de olhos fechados para melhor gozar aqueles momentos de paz.
Eis que começou a ouvir o barulho de um motor. Virou-se e viu aproximar-se um pequeno bote com um motor fora-de-borda que, conduzido por um homem, se movia velozmente na sua direcção.
E o barco a crescer, a crescer...
Ficou paralisada pelo medo e sem reacção mas, no último momento, o bote alterou o rumo e passou a escassos metros dela. A ondulação provocada quasi a fez cair na água. Mas aguentou-se.
Passados a surpresa e o susto, começou a bater com as mãos no mar para regressar ao areal, mas o medo remanescente fazia-a ter movimentos descoordenados que lhe tiravam toda a eficácia na tentativa de sair do sítio.
Lembrou-se de chamar por socorro.
Olhou para terra e não viu ninguém na praia.
Mas que teria acontecido?
Mas quem seria aquele sujeito cujo rosto não conseguira ver?
Que pretendia ele?
Assustá-la? Matá-la? Mas porquê?
E que tinha acontecido na praia para estar deserta?
Sentia-se só, vulnerável.
Poucos minutos depois, novamente o barulho do Mercury fez-se ouvir cada vez mais perto.
Viu o bote aproximar-se abicado ao seu colchão.
O pavor que dela se apossou fê-la ver um barco muito maior do que era na realidade e cujo tamanho ía aumentando, aumentando...
E de novo o bote motorizado passou uma tangente à beldade bronzeada.
Paralisada pelo pânico, agarrada ao colchão salvador, mais uma vez se aguentou à tona.
Novamente refeita do susto, mas hirta, com o coração a bater acelerado e a respiração arfante, olhou e continuou a ver o areal deserto.
Também no mar só o malfadado bote continuava a sua trajectória triunfal; mas agora mais longe.
Recomeçou a tentar movimentar o seu colchão. Estava mais tensa e nervosa, quasi fora de si, e como não havia qualquer aproximação de terra ainda pior se ía sentindo.
Quem seria o homem sem rosto que parecia apostado em fazê-la morrer, ou abalroada, ou afogada, ou de pavor?
Não tinha resposta.
Sacudia agora os braços com mais força, com muita força, com toda a força, mas sentia que cada vez estava mais longe de terra.
- Porque vim eu para aqui, para tão longe? – perguntou-se.
E, novamente, o insuportável som do motor se foi aproximando.
Mais e mais.
A bela movia os braços mas sem qualquer sucesso.
Sentiu então que o motor tinha parado, de repente.
Olhou!
De facto, já muito perto, reparou que a embarcação estava sem ninguém a bordo e se dirigia para ela, lentamente.
A respiração era ainda mais ofegante.
Esbracejou, esbracejou, esbracejou...parou exausta.
Mas o bote bateu-lhe no colchão e fê-la cair na água.
Começou a gritar. A pedir socorro.
O contacto com a água fria tinha-a libertado da rigidez do medo e conseguiu manter-se à tona.
Tentou agarrar o colchão, mas sem resultado.
Tentou subir para o bote mas um pontapé gorou-lhe as intenções.
Gritou ainda mais.
Engoliu água. Muita.
Não conseguia respirar.
Não gritou mais...
 
Quando acordou estava sentada na areia ao lado do colchão e várias pessoas junto dela olhavam-na de forma interrogativa.
- Precisa de alguma coisa, menina! – disse uma voz.
- Sente-se bem? – disse outra.
Ainda a respirar com dificuldade e aturdida, respondeu:
- Não, obrigado! Acho que adormeci e tive um pesadelo.


publicado por António às 14:30
link do post | comentar | favorito
|

55 comentários:
De Morgaine a 13 de Maio de 2007 às 15:51
ora.. foram os genes da vaidade que a fizeram apanhar uma insolação. Não levou uma garrafa de água e pos-se ali a torrar ao sol. Para a próxima já sabe. E deve ter feito as delícias a muitos curiosos enquanto esbracejava na areia julgando que a queriam matar. Ai deve deve..

Livra-te de me ires agradecer ao blog outra vez ahahaha


De António a 13 de Maio de 2007 às 16:04
Olá!
Não vou ao teu blog outra vez porque não tens lá nada novo.
ah ah ah
Obrigado pelo comentário.
Mas eu não disse que ela estava a esbracejar na areia...eh eh.
Ou disse?
Estarei a sonhar?
ah ah ah

Beijinhos


De Morgaine a 13 de Maio de 2007 às 17:04
Quando acordou estava sentada na areia ao lado do colchão e várias pessoas junto dela olhavam-na de forma interrogativa.

Logo parto do principio, segundo a minha imaginação que ela a dormir, esbracejava na areia pedindo socorro, julgando-se no mar e com as mamas para o ar a fazer as delícias dos veraneantes do sexo masculino. Agora se estavas a sonhar, não sei mas agora que falas nisso, se calhar eras tu o homem do barco a meter-se com a pobre mulher. Malandro!

Quanto a novidades no meu blog.. espera sentado. Para todos os efeitos, estou em Oz... para sempre! ;)
Beijuuus meuss


De António a 13 de Maio de 2007 às 17:32
Pois...segundo a tua imaginação!
Mas quando uma pessoa tem um pesadelo limita-se a ficar com o sono agitado, movendo-se bastante e, em muitos casos, emitindo sons ou gritando mesmo, normalmente antes de acordar.
Foi esta a situação que eu imaginei e que é suficiente para fazer com que pessoas se aproximem para verificar se a "sonhadora" está bem.
Mas se a quiseres pôr a esbracejar com as mamas à mostra, acho que quando a história der em filme vai ser uma cena de muito êxito.
ah ah ah

Beijinhos


De Morgaine a 13 de Maio de 2007 às 18:14
bem.. ela não tinha a parte de cima do bikini não? foste tu que o tiraste loll.. oh homem eu só vejo aquilo que escreveste.. ai que rica conversa..


De António a 13 de Maio de 2007 às 18:47
Claro que estava em topless!
Está bem escarrapachado no texto!
Mas juro-te que não fui eu quem lhe tirou o top.
Foi ela mesmo.
Está lá escrito...


De mourisca a 13 de Maio de 2007 às 18:31

Olá António,

gostei do seu conto. Leve, simpático e com suspense, como já nos habituou. Sabe, estava a precisar de qualquer coisa assim.
É extraordinário.
Um abraço,
Maria


De António a 13 de Maio de 2007 às 18:51
Olá, Maria!
Obrigado pelo comentário.
Estavas a precisar de flutuar no mar sobre um colchão?
ah ah ah
Vem aí o verão e, ao que parece, bem quente.
Aproveita!

Beijinhos


De Paula Raposo a 13 de Maio de 2007 às 19:13
Um pesadelo...deve ter sido. Beijos.


De tb a 13 de Maio de 2007 às 20:25
ora aí está mais uma curta história tão ao teu jeito. Bem me apreceu lá para o meio da prosa que a menina estava a sonhar...:)
jinhos


De António a 13 de Maio de 2007 às 21:38
Querida Teresa!
Eu tentei camuflar o mais possível que era um sonho...mas não sou um escritor a sério...ah ah ah.
Obrigado pela visita.

Beijinhos


De nena a 13 de Maio de 2007 às 22:06
ora, estava eu para ali a ouvir a conversa toda, e não é que me fez lembrar um dos pesadelos da morganita(que ela tem muitos, sério.) e não é que ela também tem esse hábito de nadar nua..(não contes a ninguém hein?,,senão inda um dia dou com mirones pendurados lá na rede de protecção da piscina dela) e agora chegas tu e contas tudo (e mto bem contado diga-se de passagem)..és um mimo a escrever, e aproveito já a deixa pra te abraçar e deixar de vir aqui com tanta frequência, pois vou até á gronelãndia e não levo o pc( proibida plos médicos,ganhei um vicio que me rouba o bem estar fisico), mas sempre que me possa escapar, venho pôr a leitura em dia, mesmo que não deixe comentários, ok? já te disse que gosto de ti á brava? POIS GOSTO E MUITO!
beijos, beijos e mais beijos..


De António a 13 de Maio de 2007 às 22:27
Querida Nena!
Obrigado pelo teu comentário.
Tenho pena que vás deixar de ser uma presença assídua nesta casinha pois a tua alegria é muito saborosa.
Desejo-te boa sorte para o que quer que seja novo na tua vida.
E para as coisas velhas também, pois claro!

Beijos meus


De wind a 14 de Maio de 2007 às 01:29
Excelente história, muito bem descrita, que no final, quando está escrito que foi sonho, me surpreendeu, porque estava com todos os pormenores explicitos.
Ainda acredito que não foi só um sonho.lololol
Beijos


De António a 14 de Maio de 2007 às 15:14
Olá, Isabel!
Obrigado pelo comentário.

Beijinhos


De Anónimo a 14 de Maio de 2007 às 08:18
Olá, Querido António!

Mais uma das tuas histórias muito ao meu gosto. Quem ia ficando em pânico era mesmo eu. E não é que arquitectas tão bem as histórias que só julguei tratar-se de um sonho quando referiste que o barco estava vazio. No entanto, penso que um leitor mais atento, poderia ter colocado logo a hipótese certa. Fico deliciada a ler-te e deixo-me ir andando ao sabor das tuas palavras.Permite-me que te diga, mais uma vez, que estás um excelente narrador de histórias . Desta vez, até fiquei com a respiração suspensa . E não estou a brincar.Pensei que a "miúda" iria morrer.
E tu a descrevê-la como uma ninfa irresistível, gulosa, apelativa. Não podias "matá-la".Bem, enquanto escreves, vais revivendo "filmes", e eu a ver-te deliciado com as palavras a fazer-te crescer água na boca. Ahahahahah
Olha, leva beijinhos e um abraço apertadinho.


De bomdiaisabel a 14 de Maio de 2007 às 08:22
Quem fez o comentário anterior, fui eu, a marota da Isabel Maria. Por lapso, não me identifiquei mas creio que me identificarias.
Beijinhos, do sul para o norte. Aqui , o sol brilha e , como pano de fundo, tenho o mar sem barco à vista.


De António a 14 de Maio de 2007 às 15:19
Olá, Isabel!
Obrigado pelo teu comentário.
Agora quando fores para a praia não te deixes adormecer ao sol.

Beijinhos


De leonoreta a 14 de Maio de 2007 às 12:43
caramba antonio. ja me poes a falar mal. tu tens esta mani dos pesadelos mas até eu saber que é pesadelo a minha emoçao fica suspensa no andamento da acção. e se eu cair para o lado devido ao poder persuasivo das tuas palavras? pagas-me o funeral?
bom. ja passou. ja disse o que queria. desculpa lá.
excelente. muito bem descriminado.
abraço da leonoreta


De António a 14 de Maio de 2007 às 15:32
Querida Leonor!
Obrigado pelo teu comentário.
E peço desculpa se fiz palpitar o teu coração.
ihihihihihih

Beijinhos


De ana joana a 14 de Maio de 2007 às 12:51
Olá António!

Dormir ao sol, nos tempos (ou atmosfera) que correm não é uma grande ideia embora seja uma muito agradável tentação. rsssss O calor perturba as mentes rsss e também os sonhos. E as aventuras parece estarem todas muito mais à mão. Adoro o calor, o mar e fazer topless. Dormir ao sol é que não arrisco rssssss . Pesadelos, só gosto deles em ficção, como esta.
[Error: Irreparable invalid markup ('<br [...] <a>') in entry. Owner must fix manually. Raw contents below.]

Olá António! <BR><BR>Dormir ao sol, nos tempos (ou atmosfera) que correm não é uma grande ideia embora seja uma muito agradável tentação. rsssss O calor perturba as mentes rsss e também os sonhos. E as aventuras parece estarem todas muito mais à mão. Adoro o calor, o mar e fazer topless. Dormir ao sol é que não arrisco rssssss . Pesadelos, só gosto deles em ficção, como esta. <BR><BR class=incorrect name="incorrect" <a>Beijinhosssssssssss</A> <BR><BR>Ana Joana


De António a 14 de Maio de 2007 às 15:26
Olá, Ana Joana!
Obrigado pelo teu comentário que, desta vez, apareceu com umas distorções.
Terá sido por causa do calor?
Ou do medo?
ihihihihih

Beijinhos


Comentar post

Mais sobre mim
Maio 2013
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10
11

12
13
14
15
16
17
18

19
20
21
22
23
24
25

26
27
28
29
30
31


Posts recentes

Este parte, aquele parte....

As fotos de 21 de Maio de...

O 21 de Maio de 2011

O meu terceiro livro (IV)

O meu terceiro livro (III...

O meu terceiro livro (II)

O meu terceiro livro (I)

É dos carecas que elas go...

Três meses depois...

As fotos de 15 de Maio de...

Arquivos

Maio 2013

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Outubro 2010

Agosto 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Outros blogs
Pesquisar neste blog
 
Visitantes
Hit Counter
Free Counter