Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças!
Sábado, 19 de Maio de 2007
Histórias curtas XXIII - O primeiro amor
Manhã de um domingo primaveril.
António Santos, já preparado para sair, beijou a mulher e disse-lhe:
- Vou tomar o café e dar uma volta.
- Não venhas tarde – recomendou a Lídia.
- Estou cá antes da uma, não te preocupes.
Dirigiu-se para a porta, saiu, chamou o elevador e desceu até à garagem. Entrou no carro e pensou:
- Ainda são dez e meia! Vou tomar o café ao Shopping, para variar.
Pouco depois estava no Centro Comercial que mais frequentava.
Aos domingos de manhã costumava comprar um jornal desportivo no quiosque de um café que ficava a uns cinco minutos de casa, tomava a bebida negra e quente ao balcão, fumava um cigarro e sentava-se numa mesa a ler as notícias da bola.
Desta vez, por ser mais cedo que o habitual, resolveu andar mais uns quilómetros.
Estacionou a viatura na parque, subiu ao piso da restauração e cafetaria e foi ao balcão onde costumava tomar o cimbalino quando ía a esse palácio do consumismo.
Levou a chávena para uma mesa e instalou-se.
Adoçou a bica com duas pedrinhas de Canderel, sorveu a bebida em dois tragos, pegou num cigarro, acendeu-o, ajeitou os óculos de lentes progressivas, arrumou a xícara num canto e estendeu o diário sobre o tampo.
Iniciou um varrimento do espaço circundante com os olhos e parou fixando uma mulher de idade próxima da sua.
Ele tinha cinquenta anos, era baixo, usava barba já com muitas zonas salpicadas de branco, bem aparada.
- Mas aquela é a Julinha! Tenho a certeza. – falou consigo próprio – Está com óptimo aspecto para quem tem quarenta e nove ou cinquenta.
E começou a recordar os tempos de teenager em que a Júlia Costa fora a sua grande paixão. Tinham sido amigos de infância. Mais tarde chegaram a namoriscar, mas a intromissão de um tipo mais velho e experiente fizera com que ela o trocasse.
Todavia, nunca a esquecera!
Provavelmente nunca gostara tanto de uma mulher. Estas paixões da tenra juventude são muitas vezes assim: fugazes e perenes ao mesmo tempo.
E, continuando a olhar para ela, vieram-lhe à memória as imagens da ladina Julinha, filha do Dr. Costa e da D. Lucinda. Pele muito branca, cabelos cor de ouro, olhos de um azul celeste lindo, provocadora como se fosse uma mocinha mais velha e mais sabida, assediada por vários rapazes aos quais lançava um olhar que ele nunca esquecera.
Depois de acabado o namorico continuou a vê-la e a conversar com ela até que a rapariga desapareceu de cena. Fora viver para uma nova casa no outro lado da grande cidade.
Em certo momento notou que a ainda loira, agora provavelmente resultante de arranjos no cabeleireiro, olhou para ele mas logo desviou o olhar com a naturalidade de quem não reconheceu ninguém.
- Vou ter com ela! – decidiu o António.
Levantou-se, caminhou para a pequena mesa onde estava sentada a sua “inglesinha” predilecta e disse:
- Olá, Julinha! Lembras-te de mim?
Ela levantou os olhos, observou-o com ar interrogativo e, ao fim de uns largos segundos, respondeu:
- És o Toni! O António Santos.
- Tens boa memória!
- Mas como estás diferente! Se quiseres senta-te um bocado. Eu estou aqui à espera da minha neta que foi com a mãe comprar uma coisa qualquer – falou a senhora.
Ele sentou-se.
- Pois tu estás na mesma! Enfim, um pouco mais velha, mas parece teres só uns quarenta e poucos anos. E continuas a ser muito linda! – galanteou o homem.
- Obrigado! Mas isso são os teus olhos, Toni. De facto já tenho quasi cinquenta anos, quatro filhos e uma neta com três aninhos que é o meu ai Jesus, como calculas. Já és avô? – interrogou a Júlia Costa.
- Ainda não! Tenho só um filho, o João, que está a acabar o curso de Economia. Tem vinte e três anos – explicou o Santos.
- Eu tenho três rapazes, um com vinte e nove, outro com vinte e oito e o terceiro com vinte e cinco, e uma rapariga com vinte e três. A Soninha é filha dela, a mais nova, por ironia.
- Casaste com o Augusto? – perguntou ele, desejoso de saber coisas dela e referindo-se ao concorrente que o destronara no coração da amiga.
- Não! Casei com um médico, o Edgar, com quem vivo. As coisas nem sempre correm bem mas, globalmente, sou feliz – confessou ela ao amigo de infância.
E acrescentou maliciosa:
- Se estavas a pensar que eu estava livre, enganaste-te – e soltou uma risada.
Ele sorriu e respondeu:
- Também sou casado com a Lídia, uma professora. Temos um filho, como já te disse, e vamos vivendo um casamento já um pouco desgastado mas que me parece estar sólido.
- Pois é, Toni! Isto dos casamentos agora é um ai que lhes dá. O meu filho mais velho já casou e já se divorciou, vê lá! A nossa geração é a última para a qual a tradição ainda é o que era – disse ela, sorrindo.
- Eu diria que a nossa é já uma geração de transição. A dos nossos pais, sim! É à antiga portuguesa – opinou o António.
- E os teus pais? – quis ela saber.
- Estão vivos e de boa saúde. Vivem com a minha irmã que não casou nem tem filhos e os trata muito bem.
- Era muito bonita, a Fernanda! – comentou a Júlia.
- Pois era! E ainda é! Chegou a ter uma relação com um tipo de quem ela gostava muito mas, em certo momento, ele deixou-a e a Nanda nunca mais quis saber de nenhum homem. Pelo menos para casar.
- E tu tiraste algum curso? Eras um rapaz muito inteligente – elogiou ela.
- Muito não! Medianamente! Tirei engenharia e continuo a exercer. Faço sobretudo projectos de habitações e prédios. Vivemos com desafogo, felizmente. E tu? – perguntou o Toni.
- Eu fui sempre uma calaceira, como sabes. Fiz o quinto dos liceus, aliás com vários chumbos, mas casei com um cirurgião quando tinha dezanove. E vivi sempre à custa dele – e riu-se.
- Também com quatro filhos...
- Exactamente! Quando eles já eram crescidos ainda pensei em estudar, mas já não tinha paciência. Limitei-me a aperfeiçoar o meu inglês. E agora começam a aparecer os netos e o trabalho familiar vai aumentar de novo.
- Ahh...e os teus pais? – perguntou o engenheiro.
- O meu pai faleceu há cinco anos. Um médico fumador foi apanhado por um cancro do pulmão.
- Lamento, Julinha!
- Obrigado! Mas em contrapartida a minha mãe está rija.
E depois de olhar para um ponto ao longe, disse:
- Olha! Vem aí a minha filha e a minha neta. Deixa-me ficar o teu número do telemóvel para ver se nos encontramos mais vezes e conversamos sobre os velhos tempos.
Ele imediatamente lho ditou e pediu o dela, no que foi correspondido.
- Pois é, Toni! Tive imenso prazer em ver-te. E só te digo que estás com um ar de galã encantador.
- Não gozes! Não gozes! – sorriu ele, vaidoso.
Pouco depois estavam junto dos velhos amigos uma jovem loira, parecidíssima com a mãe, e uma pequerrucha que não negava a ascendência.
Fizeram as apresentações e logo se despediram.
O António e a Júlia beijaram-se na face.
Como lhe soube bem aquele beijo tão simples da sua inesquecível Julinha!
E ficou sentado a ver o seu primeiro amor afastar-se, talvez para sempre...


publicado por António às 14:10
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47 comentários:
De ana joana a 19 de Maio de 2007 às 17:51
Olá António!
Há relações assim, que se vão e para sempre ficam a alimentar um sentimento de nostalgia. Diz-se que foram relações mal resolvidas rsssss, seja lá isso o que fôr. Quando acontecem reencontros como este, por vezes, pode apetecer muito pegar numa borracha e apagar toda a existencia que ocorreu no entretanto para se poder concretizar o sonho do ideal (como se isso existisse rsssss)


Toninho, diz uma coisa à menina, será que este teu texto te deu muito trabalho a escrever?????? rssssss

Beijinhosssssss
Ana Joana


De António a 19 de Maio de 2007 às 18:23
Minha querida Ana Joana!
Este não foi difícil de escrever.
Mas foi difícil de criar a situação.
Tu lembravas-te de fazer uma coisa destas?

Beijinhos


De leonoreta a 19 de Maio de 2007 às 18:00
ola antonio
um texto dominado por um diálogo pormenorizado e bastante eloquente com a função de colocar em dia anos que passaram, arrastando consigo felicidades e desgostos do dia a dia.

mais diria á boa laia do senso comum... é a vida.
abraço da leonoreta


De António a 19 de Maio de 2007 às 18:26
Obrigado pelo teu comentário, Leonor!
É uma cena do quotidiano, sem dúvida!
Nostálgica!

Beijinhos


De Paula Raposo a 19 de Maio de 2007 às 18:34
Eh eh não resisti a rir um pouco...até António lhe chamaste! Mas eu não tenho espírito matemático, eu só sei as operações básicas! Gostei de te ler...e é bom quando sabemos que somos radicais. Beijinhos.


De Paula Raposo a 19 de Maio de 2007 às 18:35
Esqueci-me de dizer que adorei o pormenor da barba aparada, salpicada de branco...


De António a 19 de Maio de 2007 às 19:35
Querida Paulinha!
Obrigado pelo teu comentário.
A barba aparada salpicada de branco também é radical?
Não costumo usar muito o nome António. A minha irmã também se chama Fernanda. Os nomes tiveram inspiração familiar...eh eh.

Beijinhos


De Paula Raposo a 19 de Maio de 2007 às 20:57
Muito radical! Sabes aonde me levam os radicalismos...


De António a 19 de Maio de 2007 às 21:17
Sei, pois sei!
ah ah ah


De Paula Raposo a 20 de Maio de 2007 às 07:31
E costumam ser giros, não é?!! Beijinhos de bom domingo...sem radicalismos!


De António a 20 de Maio de 2007 às 09:12
Muito giros...eh eh
Beijos


De Paula Raposo a 20 de Maio de 2007 às 12:54
E surpreendentes...


De António a 20 de Maio de 2007 às 17:33
Sem dúvida!


De mourisca a 19 de Maio de 2007 às 18:39

Olá Antonio,

teve medo,não? Concordo, nada de arriscar.....
Gostei da trama, elegante e contida. Os diálogos fluentes.
Bom domingo
Um abraço.
Maria


De António a 19 de Maio de 2007 às 19:38
Obrigado pelo comentário, Maria!
Foi contido, claro!
Não podia ter tido outro comportamento.

Beijinhos


De susanagar a 19 de Maio de 2007 às 23:45
psttt escritor...sff de passar no xanax
jocas maradas


De António a 20 de Maio de 2007 às 09:21
Já passei!
Beijinhos


De wind a 20 de Maio de 2007 às 01:40
Uma boa história, leve de ler a relatar uma situação que pode acontecer ao mais comum dos mortais:)
Dizem que o 1º amor nunca se esquece e aqui focaste muito bem isso:)
Beijos


De António a 20 de Maio de 2007 às 09:22
Pois é!
Obrigado pela visita.
Beijinhos


De poesiamgd.blogspot.com a 20 de Maio de 2007 às 16:01
Deveria continuar esta história... sabe bem ler!
Um abraço


De António a 20 de Maio de 2007 às 17:36
Minha querida!
Esta acabou!
Imagina que eles nunca mais se encontraram como é levemente sugerido no fim.
Claro que podia continuar e arranjar-lhes um "affair", etc.,etc.
Mas não quero ir por aí.
Já escrevi muito sobre infidelidades...tenho de me moderar.

Beijinhos


De Maria Papoila a 20 de Maio de 2007 às 17:34
Olá António:
Uma história de Domingo neste Domingo cinzento. Os inesperados encontros e desencontros do nosso quotidiano.
A barba bem aparada salpicada de branco... do Toni e o cabelo da "inglesinha" retocado pelo cabeleireiro divertiram-me.
Beijo


De António a 20 de Maio de 2007 às 17:45
Querida Papoila!
Tu és uma leitora que nunca deixa de vir aqui assinar o ponto.
Um grande obrigado por isso.
(claro que há outros e outras leitores assíduos, mas hoje é a ti que faço o agradecimento especial)

Beijinhos


De bomdiaisabel a 20 de Maio de 2007 às 22:19
EHEHEHEH!
À medida que ia lendo a história do engenheiro António ia ficando com um sorriso de orelha a orelha. Eu sei que o autor e o narrador de uma história podem ter o mesmo nome sem que sejam a mesma pessoa mas este foi tirado de um tal António de cinquentas e tais com a barba com algumas brancas e óculos de lentes progressivas. Tinhas de te inspirar em alguém e, neste caso, nem precisaste sair de casa. Quanto ao conteúdo , gostei muito e também me vi um bocadinho aqui pelo meio. Passeio pelo Shopping, encontro com um antigo colega, engenheiro acontece às vezes.
Continuas a apurar esse jeitinho para contar histórias. Estás um exímio escritor.
Agora volta lá a contar-me o que se passa com o meu nick e sequência dos comentários. Pouco percebo disto , sou lerda, preciso de segunda explicação com calma.
Tá?
Beijinhos
Voltarei para ler o comentário ao comentário. Com calma para não errar mais.

Parabéns, Dragão! Ihihihihihihi


De António a 20 de Maio de 2007 às 23:32
Ó minha desgraçada!
Então não viste que já conseguiste colocar o nome do blog com link?
Clicando em "bomdiaisabel" vai-se directo ao teu blog.
Mas eu repito o método para comentares em sequência (agora fizeste um comentário de abertura, quero dizer, inicial)
Clicas em "responder a comentário" daquele a seguir ao qual queres colocar o teu.
Aparecem os campos de preenchimento.
Pões a pinta em NÃO TEM BLOG NOS NOVOS BLOGS DO SAPO e depois preenches a primeira caixa com o nick ou o nome do blog e a segunda com o endereço completo e correcto do teu blog.
É muito simples!

Obrigado pelo comentário e pelos parabéns relativos a mais uma vitória do glorioso FCP, o clube português com mais títulos internacionais (6, salvo erro; a seguir está o Benfica com 2)
A história é inventada, mas fui buscar o meu nome e a minha figura bem como o da minha irmã (Fernanda).
E confesso que a Julinha também é um nome verdadeiro...ah ah ah.

Beijinhos


De bomdiaisabel a 21 de Maio de 2007 às 08:16
Vamos lá ver se desta vez também comento no sítio certo. Rogo a Deus. Ó meu desgraçado, então para irritares esta águia vens com essa de que o FCP é o clube com mais títulos internacionais ganhos? E não sabes que o clube português mais conhecido no mundo e com mais participações em provas internacionais é o SLB? Ihihihihihi Leva lá esta e embrulha, Toni! E qual é o clube com maior número de sócios? Qual é?
Ó lindinho, depois de mais uma desilusão tenho de me agarrar a algo.
Leva beijinhos azuis


De António a 21 de Maio de 2007 às 10:33
Olá, Isabel!
Comentaste no sítio certo mas o link não foi bem feito pois clicando no teu nome não vou ter ao teu blog.
Tens de treinar mais...eh eh.
E quem disse que o Benfica é o clube português mais conhecido no mundo? Como provas isso?
E em quantas provas internacionais participou? E o Porto?
Lá que tem o maior número de sócios é verdade. Mas vamos ver por quanto tempo mais...olha que durante anos e anos foi a única com vitórias internacionais e hoje ainda tem as mesmas de 61 e 62, salvo erro...e o FCP...zummmmm!!!
E nem disseste que tem o maior números de vitórias em campeonatos. Mas cada vez o FCP se aproxima mais.
Se fosse a ti tinha medo...muito medo!
ah ah ah

Beijinhos


De Morgaine a 23 de Maio de 2007 às 23:09
Gritos e mais gritos à solta
Vazios, contidos, impossíveis
caminhos no azul percorridos
Sob as labaredas do dragão
Já te cantam as vozes da vitória
Tu que tens o Porto no coração
Levanta ao vento a poeira
Em versada alucinação


De António a 24 de Maio de 2007 às 10:32
Mas que bem!
Beijinhos


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