Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças!
Quarta-feira, 30 de Maio de 2007
Histórias curtas XXV - História de uma Virgem
Eu era uma figura de pau modelada por um carpinteiro e artesão com jeito para a escultura em madeira.
Era uma Virgem de Fátima com cerca de trinta centímetros de altura, vestes brancas parcialmente tapadas por um manto azul celeste, cara rosada, mãos unidas na oração de um rosário e uma auréola de fio metálico.
O senhor Amadeu, meu criador, vendeu-me pouco depois de me ter colocado em exposição numa tosca vitrina do seu local de trabalho juntamente com outras peças saídas das suas mãos de artista.
Era conhecido o seu talento de escultor e as pessoas por lá passavam frequentemente para saber o que havia de novo e que não tivesse sido encomendado ou não estivesse reservado.
Não estive muitos dias ali guardada.
Numa manhã de Janeiro de 1950, a D. Arminda, uma das pessoas mais ricas da vila e das melhores clientes do meu pai, por lá passou e escolheu-me para levar para casa.
- O Sr. Amadeu é um verdadeiro escultor. Estes seus trabalhos são únicos.
O homem sorria e recebia as poucas dezenas de escudos que pedia para pagar as horas de trabalho.
E assim fui para casa da família Fonseca.
Ele, o Manuel, era comerciante de fazendas e tecidos mais finos, quer para homem quer para senhora. Tinham uma filha adolescente que estudava num liceu da cidade mais próxima, viajando num comboio da manhã, para a ida e da tarde, no regresso.
A D. Arminda ajudava o marido no atendimento dos clientes ficando a maior parte dos trabalhos domésticos a cargo da Carmelinda, uma jovem viçosa que era empregada da família desde que houvera uma zanga com a velha Gertrudes e que motivara o despedimento desta.
Colocaram-me num móvel do corredor junto com outras peças ornamentais donde podia ver o quarto da serviçal quando a porta estava aberta.
E, muitas vezes, a meio da manhã ou a meio da tarde, o Manuel vinha até casa, punha uma nota na mão da rapariga e lá íam os dois para o quarto dela, deixando a porta aberta para escutarem qualquer entrada inoportuna da patroa, e gozavam uma relação rápida mas animada que só não me fazia corar porque eu não o podia fazer. 
Entretanto a filha do casal foi para uma Universidade qualquer que ficava longe de casa, mas os encontros amorosos do Manuel e da Carmelinda continuaram durante alguns anos.
Até que a rapariga, agora mulher, engravidou.
Segundo ouvi a própria Linda dizer ao falar consigo mesma em voz alta, nem ela sabia se o pai da criança era o patrão ou o namorado mas, espertalhona, disse a cada um que era dele. Casou com o rapaz e foi viver para outra localidade, mas o comerciante continuou a pagar um dinheirinho à que pensava ser a mãe do seu filho homem.
E assim entrou em casa uma quarentona que ocupou o lugar da jovem mamã e eu deixei de ver as poucas-vergonhas que os outros dois faziam.
Que sossego!
Mas, entretanto, estaríamos em 1960, a jovem Delfina Fonseca casou e foi viver para uma casa alugada na cidade.
O casamento foi religioso, segundo o ritual católico, e a mãe Arminda resolveu oferecer-me ao padre da vila que celebrara o matrimónio e este agradeceu, entusiasmado:
- É muita gentileza a sua, D. Arminda! Uma Virgem esculpida em madeira pelo nosso grande artista Amadeu. E como é bonita esta peça. Deus lhe pague pela sua bondade.
Fui colocada numa cómoda do quarto de dormir do reverendo Romeu na pequena casa adjacente à Igreja onde vivia solitário o clérigo que já não andava muito longe dos cinquenta.
Mas depressa descobri que a Cármen, moça baixa e roliça com cabelos longos arrepanhados num puxo, que trabalhava durante o dia na limpeza e arrumo da casa e das roupas do padre, era por este frequentemente “abençoada” depois de se despir toda para que o celibatário patrão a pudesse apreciar antes de a usufruir. Usava o homem uma coisa a que chamava camisa e que servia para não engravidar a rapariga.
E assim passei mais uns anos a presenciar aquelas cenas indecorosas.
Numa altura em que o padre foi chamado ao bispado, pela calada da noite, entrou lá no quarto um vulto com uma lanterna que pegou em mim e me meteu num saco onde encontrei uns candelabros e outros objectos que o larápio estava a roubar ao padre Romeu.
Quando me retirou do saco, pude verificar que se tratava do Zé Diogo, um rapaz ainda novo que eu conhecia por ser amigo do pastor de almas e que, pelo que ouvia, algumas vezes ajudava à missa.
Penso que escondeu o saco, onde voltou a guardar-me, numa dispensa escura mas não fiquei lá muito tempo. Ao fim de alguns dias levou-me, mais as outras coisas que subtraíra ao “casto” Romeu, para a cidade onde, disfarçado com umas barbas postiças me procurou vender mais os meus parceiros.
E assim, nos finais dos anos 60, fui colocada numa loja de antiguidades.
Lá estive algum tempo até que fui adquirida pelo triplo do preço por uma velhota que usava bengala e que pareceu ter gostado de mim.
Levou-me para casa onde me pôs num móvel da sala de jantar tendo junto de mim umas lamparinas de azeite que mantinha sempre acesas e uma jarra com flores que eram cuidadosamente tratadas.
Vivia só com uma criada tão velha e tão tosca como ela e passei alguns anos muito sossegadamente: as anciãs até se ajoelhavam diante de mim e faziam uns pedidos muito próprios de pessoas que já pouco esperam da vida.
Mas o que é bom não dura sempre e certo dia ouvi um reboliço no quarto.
A velha Ambrósia, minha dona, tinha morrido nessa noite.
Passados alguns dias pegou em mim a Amélia, filha da falecida que por lá passava de vez em quando e levou-me para a sua casa que ficava noutra vila.
Por lá estive, pacatamente, até finais dos anos 80.
Até que um dia a D. Amélia, ela mesma agora uma idosa, foi colocada num lar pela sua filha. E fiquei assim mais uns anos, sem ver ninguém excepto quando era feita uma das raras limpezas à casa.
Mas a Manuela, assim se chamava a filha, parece ter mudado de residência e levou-me para uma rica vivenda onde fui instalada num móvel depois de me ter dado um banho. Parece que ela vivia numa casa simples mas, desde que o homem fora para vereador da Câmara, tinha enriquecido rapidamente.
Decorria então o ano de 1998.
A vida não me corria mal até que apareceu por lá um cachorro jovem e traquina que resolver escolher-me para ser um dos seus brinquedos favoritos. Ao princípio ainda o tentaram impedir de me espetar as dentuças afiadas mas, com o passar do tempo, o maldito animal foi-me destruindo. Eu já não era mais a bonita escultura do Sr. Amadeu mas um pedaço de madeira só com uns vestígios de tinta, deformada e perfurada até que fui atirada para um canto de um escuro e sórdido compartimento da cave.
Mas, numa noite fria, o marido apareceu no meu local de exílio e levou-me para cima. Estando a lareira acesa, assim falou o político:
- Ó Manela! Estava lá em baixo esta coisa. Acho que é o que resta daquela estatueta da Virgem Maria que estava em casa da tua mãe mas que o Leão estragou. Vou deitá-la aqui no fogão de sala pois já não vale nada.
- Ora deixa ver! – disse a mulher – Realmente, é pena porque era uma peça com algum valor; mas agora está toda estragada. Põe no fogo, põe!
E assim em cinzas me tornei, como se fosse um mortal.


publicado por António às 14:41
link do post | comentar | favorito
|

58 comentários:
De casualidade a 30 de Maio de 2007 às 16:41
Olá António,
boa tarde.
Esta estória surpreendeu-me agradavelmente. O tema é invulgar, as atribulações da estatueta ,dramáticas, as manifestações de sexualidade dos intervenientes, um espectáculo, e no final a fogueira.
Tem uma imaginação espantosa!...
Até à próxima.
Um abraço,
Maria



De António a 30 de Maio de 2007 às 19:06
Olá Maria, que já foi mourisca!
Obrigado pela visita e pelo comentário.
Os dois próximos posts não serão "histórias curtas".
Depois voltarei a elas se a tanto me ajudar o engenho e a arte (e eu a comparar-me ao Camões...ah ah ah)

Beijinhos


De poesiamgd.blogspot.com a 30 de Maio de 2007 às 16:56
Tens uma capacidade criativa espantosa! Os teus contos têm sempre o seu quê de mordacidade especatcular... esta imagem de santa transformada em voyeur...
Nuito bom!
Um beijo


De António a 30 de Maio de 2007 às 19:08
Olá, Goreti!
Fico contente por cá vires, por comentares e por gostares do que escrevo.
Volta sempre!

Beijinhos


De ¨leonoreta a 30 de Maio de 2007 às 16:57
ola antonio. hoje comento de tarde a um dia de semana por causa de uma greve que me vi forçada a fazer por nao ter transportes e porque no meio da unanimidade dos meus colegas eu nao queria levar o epiteto de furagreves. mas que te interessa isto'
o que queres saber é de certeza o que penso do teu conto.
muito bom. a narração na alma de uma estatueta está formidável. e de casa em casa, ela acompanhou várias vidas e durante tantos anos. é um conto que foge ao teu habitual muito descritivo de perfis psicologicos e fisicos que sabe bem ler.
abraço da leonoreta


De António a 30 de Maio de 2007 às 19:17
Querida Leonor grevista!
(ihihihihih)
Obrigado pela tua visita.
Esta história é, de facto, diferente da maioria das vinte e cinco que já escrevi e publiquei nesta série.
Ainda bem que gostaste.

Beijinhos


De Paula Raposo a 30 de Maio de 2007 às 17:34
Eu achei excelente o que acabei de ler! Adorei! Que histórias não nos teriam para contar os objectos se falassem! Beijos.


De António a 30 de Maio de 2007 às 19:46
Querida Paula!
Aqui estiveste mais uma vez para deixar o teu comentário.
Obrigado por isso.
Fico contente que gostes do que escrevo.

Beijinhos


De tb a 30 de Maio de 2007 às 18:40
Realmente se os objectos falassem...
Sabes António, fizeste-me lembrar uma história que o meu pai costumava quando eu era ainda muito criança em que eraexactamente o percurso de um santos feito de madeira. Viajei e vi-me criança. :)
Obrigada por mo teres proporcionado.
Beijinhos


De António a 30 de Maio de 2007 às 22:06
Querida Teresa!
Obrigado pelo teu comentário.
Curioso isso que me contas.
Nunca tinha ouvido ou lido nada de semelhante.
Pensava que estava a ser totalmente original e afinal...

Beijinhos


De ana joana a 30 de Maio de 2007 às 20:21
Olá António,

Gostei muito desta bela história que é muito rica em vários aspectos. Lembrei-me de um episódio relativamente recente em que fui com um grupo de amigos à Povoa e ficamos em casa da mãe de um deles. A Sra. que é mto religiosa tem em cada um dos confortaveis quartos figuras da sagrada familia. Distribuidos os quartos pelos diversos casais, arrumamos as bagagens e foi cada um ver o quarto dos outros. Entre muita risada, todos resolvemos virar os santinhos de costas para não terem que passar pelo desassossego pelo qual a tua virgem teve que passar por tantas e diversas vezes! rsss

Beijinhos e parabéns António
Ana Joana


De António a 30 de Maio de 2007 às 22:25
Querida Ana Joana!
Obrigado pela tua visita e comentário.
Mas, em boa verdade acho que nessa casa da Póvoa foram todos muito mauzinhos ao privar as santas figuras de presenciar coisas que, se calhar, nunca tinham visto.
E o saber não ocupa lugar!

Beijinhos


De KI a 30 de Maio de 2007 às 21:48
Excelente conto, o que mais gostei até hoje, cheio de ricos pormenores e endiabrados episódios.

Beijinhos António, uma boa semana ( já está quase...)


De António a 30 de Maio de 2007 às 22:30
Olá, Ki!
Obrigado por mais uma visita e respectivo comentário.
Das 25 Histórias curtas foi aquela de que gostaste mais?
Ok.
Mas leste-as todas?
Se calhar não!
Experimenta a 1ª (está no http://eusoulouco.blogspot.com)

Beijinhos


De KI a 31 de Maio de 2007 às 20:22
Não...realmente não li todas mas as que li gostei bastante.
Excelente ideia ler todas as outras...

Obrigada!

Beijinhos


De António a 31 de Maio de 2007 às 21:13
Olá, Ki!
Julgo que não te arrependerás.
Mas se tal acontecer tens autorização para vir aqui e enfiar-me a cabeça no monitor.
ihihihihihih

Beijinhos


De Rainha13 a 31 de Maio de 2007 às 01:56
Olá.. António !!
Uma das coisas que gostam de ler-te é o jeito que todo chega a seu clímax... Sempre terminam oposto de como tinha imaginado... é digno de admiração!!!
Obrigada por prendar-nos seu dom.


De António a 31 de Maio de 2007 às 09:28
Olá!
É uma honra ter leitores na República Dominicana.
Continua a estudar português porque é uma maior valia importante na vida.
No Brasil, que é um dos maiores países do mundo, como sabes (penso que com cerca de 190 milhões de habitantes), fala-se o português.
Obrigado pelo comentário.

Beijinhos


De Cusco a 31 de Maio de 2007 às 12:11
Olá! Bem o título antevia uma boa história e não foram defraudadas as expectativas apesar de o mesmo sugerir outro tipo de virgem.
Também esta conseguiu durante mais de cinquenta anos viver muitas aventuras, passar por muitas mãos, mas coitada acabou da mesma forma como na idade Média a igreja condenava algumas das pecadoras de outrora! Na fogueira…
Um abraço!



De António a 31 de Maio de 2007 às 13:02
Olá!
Obrigado pelo comentário.
Mandei a Virgem para a fogueira...será que vou ser excomungado?
ihihihihi

Abraço


De Peter15 a 31 de Maio de 2007 às 12:31
Imagem sofre...
Vejam lá! A Virgem acaba por cair no fogo, como qualquer mortal nas chamas do Inferno.


De António a 31 de Maio de 2007 às 13:05
Olá, Peter!
Tens razão!
Mandei a Virgem para o Inferno.
Sou muito herético, não sou?
Ainda haverá lugar para mim no Reino dos Céus?

Abraço


Comentar post

Mais sobre mim
Maio 2013
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10
11

12
13
14
15
16
17
18

19
20
21
22
23
24
25

26
27
28
29
30
31


Posts recentes

Este parte, aquele parte....

As fotos de 21 de Maio de...

O 21 de Maio de 2011

O meu terceiro livro (IV)

O meu terceiro livro (III...

O meu terceiro livro (II)

O meu terceiro livro (I)

É dos carecas que elas go...

Três meses depois...

As fotos de 15 de Maio de...

Arquivos

Maio 2013

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Outubro 2010

Agosto 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Outros blogs
Pesquisar neste blog
 
Visitantes
Hit Counter
Free Counter