Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças!
Terça-feira, 3 de Julho de 2007
Histórias curtas XXVIII - Uma história banal
Manuel da Silva e Rosa Ferreira são dois reformados que estão casados vai para 57 anos.
Uniram-se, portanto, em 1950.
Ele tinha vinte e dois anos, ela dezanove.
Eram operários e viviam na mesma “ilha” da cidade do Porto.
Desde muito cedo se habituaram a conviver um com o outro: a rapariguinha era bastante nova mas depressa achou que o Manel, baixo, entroncado e pouco atraente, era um homem bem feito e bonito. Nos tempos da adolescência, já ele trabalhava numa caldeiraria para onde entrara depois de ter feito a 4ª classe e a mocita não era mais que a simpática Rosinha que, depois de completada a escolaridade obrigatória, arranjou emprego numa fábrica têxtil.
Ela bem lhe fazia olhinhos mas, naquela fase, três anos de diferença na idade podem ser muito. E como ela era franzina e tímida, o moçoilo não se deixava enfeitiçar.
Até que, quando tinha os seus quinze ou dezasseis anos, a rapariga modificou-se como que de repente. Ganhou corpo, ganhou brilho nos olhos, ganhou um encanto que não passou despercebido aos outros rapazes e lá na fábrica onde era tecedeira começaram a aparecer-lhe muitos pretendentes.
Quando, num fim de tarde, o Manel regressava a casa e viu a Rosa chegar acompanhado por outro, só a custo a reconheceu.
Mas como ela estava mudada! Como estava uma rapariga bonita! Como não reparara ainda nas transformações que se haviam operado?
E sentiu ciúmes.
Não tardou muito que, apesar de os tempos não serem fáceis pois a segunda guerra tinha acabado há pouco e o regime de Salazar não era nada simpático para com o proletariado, começaram a namorar. E ao fim de três anos casaram modestamente, numa capela da zona, pois queriam juntar dinheiro para arranjar uma casa melhor para eles e para os filhos que gostariam de ter.
Ela era muito mais interessante do que o rapaz no que à aparência diz respeito, mas era nos olhos e cabelos muito negros e encaracolados do seu Manuel que a Rosa via a felicidade.
Tinha agora a estatura do marido, o rosto muito perfeito com dois olhos azuis lindíssimos, um cabelo bastante claro e ondulado, uma silhueta elegante e a voz macia.
Depois do casamento ainda estiveram dois anos a viver num canto da pequena casa dos pais dela e não quiseram ter filhos porque o espaço era demasiado exíguo.
Tempos complicados: dois colegas do Manuel da Silva, ao que diziam pertencentes ao partido comunista, foram presos pela PIDE. Nunca mais voltaram ao trabalho. Ouviu dizer que tinham estado presos e depois fugiram para o estrangeiro. Pela primeira vez ouviu falar em Mário Soares e, sobretudo, em Álvaro Cunhal. Mas a sua política era o trabalho. Não estava para arriscar o emprego para se meter num caminho que poderia ser demasiado árduo de trilhar. Todavia, sentia a opressão do patronato sobre os trabalhadores, mesmo os seus, que eram considerados uns bons patrões. Era a luta de classes, diziam-lhe. Por isso não gostava do regime. Por essa e por várias outras razões, sobretudo as que se prendiam com as liberdades.
Na fábrica da Rosa Ferreira as coisas eram mais pacatas. Duas ou três colegas estavam mais ligadas aos movimentos operários, mas nunca ocorreram casos graves como na caldeiraria.
Finalmente alugaram uma pequena casinha na zona de Francos para onde foram viver e tiveram um filho, o José.
Não ganhavam muito mas os proprietários das fábricas onde laboravam pagavam certinho e isso dava-lhes estabilidade.
Depois do Zézinho, em 1954, nasceram o João, em 1957 e a Olinda em 1960, dez anos após o casamento.
A casa era agora pequena mas o Manuel foi promovido e teve um razoável aumento salarial.
Graças ao crescimento económico dos anos 60 o seu nível de vida subiu e, não só mudaram para uma casa na zona do Carvalhido como resolveram pôr os filhos a estudar.
O mais velho, depois da escola primária foi para a industrial onde tirou o curso de torneiro-mecânico.
O João seguiu também para uma escola industrial mas tirou o curso de construção civil.
Finalmente, a rapariga fez o segundo ciclo dos liceus e foi para a Escola do Magistério Primário tornando-se professora.
E assim em 1978, todos os filhos tinham uma profissão e só a jovem ainda residia em casa dos pais.
O Manel tinha então cinquenta anos e a Rosa quarenta e sete.
Mas, a revolução do 25 de Abril, se inicialmente trouxera muitas esperanças e melhorias acentuadas ao nível salarial das classes trabalhadoras, também começou a trazer desemprego por encerramento de muitas fábricas.
Entretanto, a Olinda casara e os velhos viviam sós.
Em 1992 a fábrica onde laborava a Rosa fechou. Ela já fizera sessenta anos e reformou-se.
No ano seguinte, com sessenta e cinco anos, foi a vez dele deixar a vida activa.
Mas os netos haviam aparecido paulatinamente e eram agora a principal razão de viver do velho casal.
Entretanto, o Zé divorciou-se da mulher e foi viver com uma flausina qualquer para grande desgosto dos pais.
E os anos foram passando, as maleitas aparecendo, mas ambos sempre unidos como se tivessem casado há pouco tempo.
Quando fizeram as bodas de ouro os filhos ofereceram-lhes uma linda festa.
Não eram muito velhos, mas estavam desgastados por uma vida que nunca foi fácil.
Nesse dia comoveram-se.
Hoje, ainda estão vivos.
Ele, com setenta e nove anos, além de outros males viu os médicos diagnosticarem-lhe a doença de Alzheimer.
Ela, sempre doente de muitos padecimentos mas sempre resistente, tem setenta e seis e prepara-se para amparar o seu Manel na fase terminal da vida.
Parece ser a sina das mulheres...
Os descendentes vão aparecendo lá por casa: uns mais, outros menos, mas não lhes falta companhia.
Um, não verão mais: o Zé, depois de se meter com a sirigaita, começou a mirrar e faleceu no ano anterior com problemas respiratórios e cardíacos. O tabaco que tão bem lhe soubera ao longo dos anos dera o maior contributo para o seu fim aos cinquenta e quatro anos.
Grande desgosto para os velhotes.
Mais para ela, pois o Manel já começava a ficar muito alheado do mundo que o rodeava.
As conversas entre os dois foram cada vez mais perdendo o sentido.
A Rosa começou a sentir-se uma viúva com o marido vivo e ali ao seu lado.
O velho e exemplar casamento estava no princípio do fim. Ela sabia-o bem.
Mas as recordações boas são tantas e tão fortes que lhe darão ânimo para caminhar o percurso que lhe falta andar.
E o seu Manel merece tudo!


publicado por António às 15:15
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55 comentários:
De Joao B a 3 de Julho de 2007 às 15:24
Já nao vinha aqui a imenso tempo.. a história já vai longa hehehe

Continua com esse grande talento!.. gostava de ter essa capacidade de esrever!

abraço do Norte!


De António a 3 de Julho de 2007 às 15:38
Olá!
Obrigado pelo comentário.
Vai aparecendo (embora eu agora vá fazer uma pausa - merecida, creio -).

Abraço


De Marta a 3 de Julho de 2007 às 19:33
Eu tô comovida.. aii, que história tão tocante. E não bastava as provações de uma vida inteira ainda tinha de vir o raio do Alzeimer para acabar com uma velhice sossegada. Um retrato muito fiel de tantas realidades. 5 xtrelas, toni.

Ah vais fazer uma pausa? Então boa pausa! A minha só daqui a quarenta e sete dias, três horas e dezasete minutos.Os segundos sempre a contar! Nunca fiz isto mas disseram-me que as coisas parecem mais fáceis quando contamos os dias que faltam.. estou em experimentação ahahaha
Hasta toni
Beijitus


De António a 3 de Julho de 2007 às 19:50
Olá, Marta!
Obrigado pela tua visita e comentário.
O meu próximo post deverá, de facto, anunciar uma pausa na escrita e na postagem.
Fi-la no ano passado e o resultado foi um renascer das minhas capacidades ao fim de mês e meio.
Veremos se este ano resulta!

Beijinhos


De rosa silvestre a 3 de Julho de 2007 às 21:51
Olá António, mais uma história e pode ser considerada verdadeira! Devem ter existido muitos manueis e rosas por este Portugal fora nessa época!
Bjinhos!


De António a 3 de Julho de 2007 às 22:15
Olá, Rosa!
Esta é uma das histórias mais fraquinhas que escrevi.
Nem diálogos tem...
É por isso que estou a precisar de férias.

Beijinhos


De Peter15 a 3 de Julho de 2007 às 22:31
"É a vida", como diria o Guterres, de triste memória.
Essa expressão: "a sua política era o trabalho", voltou a estar no nosso quotidiano.


De António a 3 de Julho de 2007 às 23:15
Olá, Peter!
Obrigado pela visita e pelo comentário.
Parece que também ainda te lembras da expressão referida...eh eh.

Abraço


De wind a 3 de Julho de 2007 às 23:55
António vais desculpar, mas está mesmo banal, estava à espera de mais alguma coisa do casal enquanto novos no tempo da ditadura. Soube-me a pouco.
Acho que nesta história não te envolveste como é teu costume:)
Beijos


De António a 4 de Julho de 2007 às 09:17
Querida Isabel!
Tens toda a razão.
Ando com pouca inspiração e ainda menos vontade de escrever.
Por isso se impõe a pausa que vou anunciar para a semana num post que até já escrevi.

Beijinhos


De leonoreta a 4 de Julho de 2007 às 09:22
ola antonio
é uma historia bonita esta que escreveste. é uma historia que apesar do final ser mais triste nao deixa de ter o ingrediente de happy ending.
nao concordo quando colocas no pensamento da mulher que o casamento estava no fim por causa da doença do marido. coisas boas tinham acontecido e seguravam agora o amor dos dois.
á parte a historia da historia gostei que tivesses intrincado factos reais como a revoluçao e os tempos do estado novo.
nao é das historias mais fracas que escreveste nao. nao sejas assim.
abraço da leonoreta


De António a 4 de Julho de 2007 às 13:01
Querida Leonor!
Obrigado pelo teu comentário.
De facto, acho que se estivesse em forma a saga de uma família operária poderia dar muito pano para mangas.
Assim saiu uma coisa xôxa...digo eu.
Apesar de tudo, verifico que a maioria dos leitores parece que estão a gostar.
Ainda bem!

Beijinhos


De Paula Raposo a 4 de Julho de 2007 às 09:24
A tua história banal, comoveu-me. Escreveste-a do lado de fora e eu gostei imenso de te ler. Beijos.


De Paula Raposo a 4 de Julho de 2007 às 09:26
Só depois de ter colocado o meu comentário, li alguns dos anteriores. Não concordo que a história banal esteja fraca e que não estejas com inspiração. Mas tu é que sabes, não é?! Aliás tu és muito teimoso e pronto...não retiro nem uma palavra do meu comentário.


De António a 4 de Julho de 2007 às 13:04
Querida Paula!
Obrigado pelo teu comentário.
Afinal, parece que o autor não gosta mas a maioria dos leitores (melhor dizendo leitores-comentadores) gosta.
Ainda bem!

Beijinhos


De António a 4 de Julho de 2007 às 13:07
Ahhh...
Logo que tenha uma boa folga vou comentar os teus últimos poemas.
(sabes que sou uma pessoas muito ocupada...ah ah ah)

Beijinhos


De Paula Raposo a 4 de Julho de 2007 às 13:27
Pois claro!! Então não sei??! Não sei eu outra coisa...


De António a 4 de Julho de 2007 às 14:08
Porque é que não acreditas em mim?
Vou chorar!
ihihihihih


De Cusco a 4 de Julho de 2007 às 11:33
Olá! Esta história é uma das que eu mais gostei até agora.
Talvez por ser uma história com alguma similaridades com uma que eu conheço bem!
O meu pai se fosse vivo (faleceu em Setembro do anos passado) faria amanhã 80 anos.
Casou em Dezembro de 1950, nos 50 anos de casado também tivemos uma bela festa…
Nos últimos tempos a minha mãe também se tornou uma Rosa Ferreira!
Não sei se esta tua história é mesma é ficção ou se retrata uma situação real. Parece-me que sim, que deve ser baseada em algo real e bem conhecido.
Porém se não é poderia muito bem ser
o retrato de muitas vidas…E esse retrato é um retrato de pessoas que apesar de tudo quando chegam a essa altura, por tudo o que passaram de bom ou de mau, podem dizer: CONFESSO QUE VIVI, muita da geração actual não sei se o poderá dizer….
Um abraço!

Consta-me que vamos ter por aqui uma pausa…Se for férias, ou simplesmente uma paragem então tudo de bom e
Até breve!



De António a 4 de Julho de 2007 às 13:14
Olá!
Obrigado pela visita.
Surpreendentemente, uma história que eu considerava das mais fracas (talvez porque a saga de uma família operária é um enorme manancial) está a ser muito bem recebida pelos leitores-comentadores.
Devo dizer-te que esta história é completamente ficcionada.
Nem sequer me inspirei em ninguém para criar as personagens, o que acontece muitas vezes.
É, sem dúvida, a experiência de já bastantes anos de vida que me leva a inventar histórias quasi reais.
Vou fazer uma pausa, tirar uma férias blogueiras.
Na próxima semana sairá um post avisador.

Agora vou almoçar.
Logo que tenha oportunidade irei ler o teu novo post.

Abraço


De lena a 4 de Julho de 2007 às 16:30
António, meu querido amigo, vim com palavras, porque em presença tenho estado

leio-te e gosto de te ler

hoje mais simples, com a comunhão de um casamento que se arrasta na vida mais ou menos normal deste casal. casada mas viúva. quantos mais manuais e rosas ainda há?

vidas difíceis em meios difíceis, mas acontece o mesmo em outros vidas em outros meios

alguns anos menos teriam os meus pais de casados se o meu pai não tivesse falecido. sei que não se sentiriam assim, sei que ainda hoje a minha mãe sofre e eu sofro com ela, porque a fragilidade existe

estou a fugir ao tema, tenho que parar, ainda não me encontro em condições de deixar muitas palavras, principalmente quando elas me tocam e me fazem pensar

gosto de te ler, mas isso tu sabes querido António

não me ausento, porque estou sempre

abraço-te com ternura, com um grande carinho

beijo meu

lena


De António a 4 de Julho de 2007 às 23:12
Minha sempre querida Lena!
Obrigado pela palavras lindas que aqui deixaste.
Volta sempre pois é um prazer imenso sentir-te perto de mim.

Beijinhos


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